quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Razão do poema

 

Com todas as letras,

confesso

que me surpreenderia

se não fosse o grito altaneiro

vindo da carne das palavras 

incisivos, penetrantes,

e dos tantos viços possíveis

que me deixam abismado 

ao sugar a água do meu poço,

ao tirar do fruto o caroço,

ao fincar a unha no meu rosto,

ao afogar o meu espanto

alumbrando o momento

ardente na razão do poema

a haurir o chão da vida

até o pescoço. 


(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Pressentido




a lua se alaga
ávida de estrelas
em espasmo de amor

enquanto a rosa fascinada
do teu corpo
na polpa da minha língua

derrama em lampejo voraz
o teu sumo como um rio
de pétalas em êxtase

a arder de ti a mim 
como se candelabros fossem

sorvendo as colinas frescas
do rio em fogo no púrpuro cais.


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Bilhete



Tudo era tão perfeito
quando você se aninhava
em meu corpo viajado
para dizer-me quanto era amor
os sonhos e as canções
que nos enleavam em balões de alegria
até que os dias se apagaram
tão de repente pelos caminhos
dos escritos delirantes
e dos labirintos interiores
sem deixar que as labaredas,
as chamas se extinguissem
no mundo de estampas
em que estivemos cativos
sem sombra a separar-nos.

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 25 de julho de 2020

Peregrina



Antes
que julho recuse roteiros
cansados ou se finde na parede
ondula no ar um vozerio
enfatuado a distrair o tédio
e o esquecimento

e os dias em agravo pungente
a mendigar um silêncio luminoso
das cinzas do tempo
esquecem os frutos deteriorados
nas miragens do amanhã

e com o tempo se esgotando
a crueza das tuas sombras
nos caminhos crestada
ao sol implacável de obscuros gestos
sem trair ou subtrair-se

pergunta-nos a cada giro do espelho:
que idade tem a toxina
ao saber que, 
incansável,
ela chegou donzela e neurótica
querendo acariciar a todos
nós!

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ao amanhecer



Ela foi dormir com uma lágrima furtiva. Pelo que se foi era salgada, porém pequenina, embora a tivesse deixado com o coração magoado. E, sob os lençóis, enquanto dormia, em seus sonhos, apareceram e desapareceram mil corcéis pelas extensas planícies dos seus desejos, onde tudo principia, em fogo único, compondo uma água clara, já esquecida do rancor, no apelo de braços abertos. Ao amanhecer, depois dos sonhados caminhos na noite de delírios amorosos, ela se surpreendeu ao ver-se de unhas aparadas, cutículas feitas, enquanto uma traça se escondia entre as dobras do colchão. 
(José Carlos Sant Anna)