terça-feira, 17 de julho de 2018

O último verão




No rio do abraço,
sem querer, nem pensar,
espetei noites tristes
depois de singrar a maré umbilical
de antigos itinerários.

De fecundar serenos ao ouvir
a música da alquimia das mãos,
lavrando
o chão árido na rigidez da espera.

E bem longe da pradaria
ou de outros tempos das páginas em branco
o rumo do poema sempre foi outro.

Como o aroma do café da manhã.
E do pão. 
Repetido diariamente.
E tantas outras pequenas coisas...

Agora cada um segue o seu rumo.

E mastigo
do resto do que não se desfez
a sonoridade de algumas palavras,
e as peles submersas,
e as antigas melodias,
e as lembranças dos concílios amorosos
de nossas mãos.

E até mesmo a extrema-unção
do gozo roubado da felicidade.

E ainda a roupa leve e branca
do último suspiro dos corpos fustigados
entre as paredes descascadas
se cala em nosso leito

Nada mais sobrou das onomatopeias
das águas represadas do último verão. 

(José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Beatriz - Parte quatro



"Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe e perto, aqui, na praça, de nome poético, caminho das árvores, onde provisoriamente eu construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito".
Digo-lhe eu: se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência, não mais o da falta de outros tempos, e sim o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos de rua que não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal na mão, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia e cravá-la em letra de forma.
E da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício que mais ele gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os sentidos, para uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. Na leve espessura do galho, intocável. E invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre as teclas, catando milho, durante várias décadas, e agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de se autodenominar descontraidamente para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora pelo que se ouvia da altercação com a outra moça ela batia um bolão. Era uma Pelé de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, aqueles que os cortejava na roda de bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. Parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. Parecia dizer-me é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.

(José Carlos SantAnna)




terça-feira, 26 de junho de 2018

Chet Baker




Bárbara nunca soube delimitar a fronteira para saber o grau de instabilidade emocional de Tão Preto, mas o importante é que ela o aceitava com os surtos e as febres, olhando-o sempre de modo indiferente nas pequenas ou grandes loucuras que ele fazia, quando a crise se instalava. Os medicamentos atenuavam as oscilações de humor, mas nem sempre o uso era contínuo como recomendado. E assim, com altos e baixos, ele ia levando a vida de caniço e samburá, como dizia a música, sem querer saber se a maré estava cheia.
Ela sempre se surpreendia pensando nessas coisas enquanto tomava uma xícara de café na ampla cozinha de sua casa, achando que não era assim tão preocupante o que ele aprontava, depois relaxava porque ela também tinha suas idiossincrasias, e não eram poucas. E, então, deixava que a natureza a seu bel-prazer cumprisse o delicado papel que lhe cabia na seara de cada dia.
Tão Preto desceu do ônibus na tarde quente do verão soteropolitano, lembrando-se de que ainda não visitou as notas musicais esta semana e não sabe se ainda vai fazê-lo porque chovia canivetes na sua horta.
Mas o que Tão gostaria mesmo era que chovesse sonhos de valsa, afogando-o, assim ele se lembraria do quanto eles fazem falta — os chocolates musicais —, nos seus bolsos, mesmo sabendo que esses impolutos doces derretem rapidamente com o calor do seu corpo, mas sabe também o quanto aquecem uma vez digeridos.
Bem que poderia ser um chocolate mais refinado, mas sonhava sempre porque ele era um otimista, e como gostava de ser um otimista, por isso se viu logo dizendo para si mesmo que o sonho de valsa bastava. Não importa o tipo de chocolate que estivesse mastigando, mas não poderia esquecer de forma nenhuma que essa iguaria remonta às civilizações pré-colombianas, e todos trazem o gosto das amêndoas fermentadas e das torradas de cacau, de sabor inigualável, variedades de formas, alto valor nutritivo e energético, sem falar das propriedades antioxidantes que guardam em cada barrinha. Pra que querer mais do que isto!?
Tão Preto sabe que é cedo para mudar de ideia porque da última vez que procurou seu psiquiatra — embora ele soubesse, fazia muito tempo, que ele não passava de um vigarista —, dessa vez Josias, o psiquiatra, lhe pareceu muito sensato na conversa. Didático na prescrição que fizera, recomendou que Tão visitasse as notas musicais regularmente.
— Faça-o uma vez por semana! Depois vá aumentando a dose.
— Hum! Uma vez por semana, doutor?
— O melhor seria fazê-lo pelo menos três vezes por semana, como se fosse uma terapia e, como tal, o ideal seria repeti-la duas ou três vezes por semana — ressalvou Josias.
— Doutor, o senhor acha mesmo que isso vai me ajudar? E se vai ajudar até quando isso acontece?
— Sim, sim, vai melhorar, Tão! Você vai ver! Faça como se fossem exercícios físicos, seguindo a minha prescrição.
Tão Preto ficou o observando, enquanto fazia piruetas com o lápis sobre a mesa como se fosse uma lança, que o atingiria mortalmente, se usada como tal.
Percebendo o jogo de Tão Preto, Josias afastou a cadeira da mesa para distanciar-se dele e bateu a mão sobre o tampo da mesa, olhando-o fixamente e disse:
— Mens sano in corpore sano — duas ou três vezes por semana.
Tão Preto mantém a receita, sem rasuras, guardada em uma pasta de elástico, na cor verde — faz questão de dizer-me — porque se for imprescindível aviá-la outras vezes, o balconista da drogaria, por certo, não criará nenhum obstáculo, vendo-a conservada.
— Protegida desta maneira, a receita não ficará com cara de papel amarelado, nem amarrotado — sentencia para mim.
Pronto. Aviada, o que ele faz agora é seguir a recomendação médica, sem falhas, ainda que Tão soubesse que vigarice é o que não faltava ao seu psiquiatra.
Ocorre, porém, que esta semana a porca torceu o rabo lá na casa de Tão Preto. É por isso que ainda não visitou as notas musicais esta semana. De surpresa, aterrissou assim do nada Chet Baker na sua porta.
Entrou sem tocar a campainha. Com intimidade, mas sem o trompete. Trazia um pack com doze latas de cerveja.  Olhou-o com a tranquilidade de um músico e disse-lhe:
— É só pra começar.
E ainda basbaque perguntou Tão Preto a Chet Baker:
— O que o traz você aqui, Chet, à minha choupana assim de surpresa? Chegou quando?
Fingindo não ouvir a pergunta que Tão fazia, Chet Baker como se estivesse na mesa de sinuca disparou:
— Esse negócio de visitar as notas musicais a qualquer hora é uma roubada, cara! Saia dessa! Vim salvar sua pele, não quero vê-lo escalpelado como um homem branco por um índio pele-vermelha!
Falava como se tivesse ouvido a conversa entre o psiquiatra e o paciente no consultório.
A qualquer hora, dizia Chet Baker, com sangue nos olhos, o que se deve visitar é uma bela mulher como aquela loira que está passando ali agora, do outro lado da rua, puxando-o, sem largar o copo, para a janela.
Ela, com um minivestido azul, purpúreo, faixas amarelas e pretas na cabeça, gingando como se tivesse um bambolê na cintura, "arregaçava" pela calçada oposta à da sua casa. 
Arregaçar é uma expressão típica que Tuca usava e abusava, nas reuniões que fazia na beira da piscina de sua mansão, com uma música imprestável, que incomodava ouvidos sensíveis, e muitas periguetes, em duplo sentido.
Mas não quero perder o foco, deixem-me falar tão somente de Chet Baker que adora um improviso. Foi assim que ele chegou, como ele gosta de fazê-lo no seu trompete. Depois falo do Tuca, gente boa quando fica calado.
Quando a mulher de Tão Preto deu de cara com Chet Baker na sala, perna cruzada, com jeito de que não sairia tão cedo dali, ele já tinha emborcado três cervejas e mostrava muita animação.
Ela fechou a cara porque sabia que aquele lero-lero não tinha hora para acabar e os dois acabariam esticando o dia e logo o trocariam pela noite. Ela entrou no quarto e não saiu mais. E quando ele disse que ia ali — fazendo o sinal com o beiço, para mostrar que iria perto — com Chet Baker, ela reapareceu na sala com a mala pronta para despachá-lo para onde ele quisesse ir, mas se era para sair que o fosse em definitivo.
E para não ter dúvidas disse-lhe com o jeitão de bárbara porque sempre fora Bárbara, a deusa dos raios, ventos e tempestades, a Iansã — também a protetora contra raios, tempestades e trovões:
— Não precisa voltar   disse-lhe sem meias palavras.
E empurrou a mala de rodinhas em sua direção, dando-lhe em seguida as costas.
Nunca saberemos se Bárbara sentiu falta de Tão, mas ele voltou uma semana depois todo estropiado, com cara de santo. E muito cabreiro. Ela o recebeu sem uma palavra. Trazia nas mãos uma faca e um cesto com centenas de quiabos. Devota de Santa Bárbara, cumpria obrigação todos os anos. E era véspera do dia dela. Seria também o da redenção de Tão Preto, depois que ela lhe entregou aquela encomenda: a faca e o cesto. Mãos à obra, era o que tinha a fazer. O caruru tinha que estar pronto para ser servido antes das quatro da tarde do dia seguinte, consagrado a Santa Bárbara. 

(José Carlos Sant Anna)






segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um bom bocado




morri um bom bocado hoje à tarde
comido pelos teus olhos
antes mesmo de voar para as câmeras
agarrado
ao teu livro como se fosse um literato
um bom bocado
a tua boca também me comeu
e morri mais um bom bocado
hoje à tarde
ainda bem que não foi completamente
que a morte pediu passagem
vagarosamente em minha direção
mais vivo ainda o enxame de palavras
como se me abrisses a boca
tão perto da tua, mas não o suficiente
para tocarmos nossos lábios,
antes que o sorvete derretesse.
Você entende o que eu digo? 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 17 de maio de 2018

À luz do sol



Pelo lado de dentro acolhi em balões amarelos o silêncio da beleza na janela do meu quarto. Depois a forrei em papel celofane. Era por essa janela, apesar do papel celofane, que, incauto, o sol entrava em minha casa. Corria pelo corredor e se alojava na sala. Sem cerimônia. Era também pela janela do quarto que eu ouvia histórias alheias, cheias de aromas antigos. Depois as calava em versos em cima do meu travesseiro que tinha a medida dos meus braços. Outra era a poesia que recendia dos solitários azulejos da cozinha. Cúmplices, eles guardavam metáforas de cordilheiras antigas da minha vida. E só os meus olhos cabiam nessas histórias.


(José Carlos Sant Anna)