segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Desatino


Outro dia, um coração confundido, com ligeireza nas sandálias para arrastar os pés, puxou o gatilho do revólver com rara habilidade, tudo por causa de uma imaginada traição, a corroer-lhe as entranhas, atitude que lhe rendeu, mais tarde, como se não houvesse um corpo estendido no chão, gargalhadas sonoras e divertidas, sobre a lisa florescência da calçada. Não tinha mulher no meio, como se possa imaginar. Tinha grana. Muita grana. A ser repartida ao meio. Coisa que não saía do miolo da sua cabeça, acabando num choro compulsivo e gritado pelas ruas sem saber o caminho a seguir. A cabeça girava, enquanto o revólver na loucura da espessura do dedo no gatilho mantinha a língua acesa.

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poemeto




Em peleja,
lá dentro dele,
em dura e difícil luta,
vai o homem em travessia,
esquecido das fadigas,
levando um ramo de sol
e a mais valia,
de esperança e rebeldia.

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Porto


Por um dos corredores do shopping, uma criança de dois para três anos de idade, puxada pelas mãos de sua mãe, em passos rápidos e coração acelerado, gritava "uma livraria, uma livraria, oba", feliz da vida por tê-la tão perto de suas mãos, dos seus pés, dos seus olhos, faiscantes. Por um momento, aquela voz apagou o tom sombrio do meu olhar sofrido dos dias que ficaram mais longos e que vergam meu corpo ao peso dos dissabores das arrogâncias do capitão do mato do meu país natal; por um momento, aquela voz me fez acreditar que os ventos que me fazem tão diverso hoje são os mesmos que não apagam as esperanças de que dias melhores virão. 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Camisa amarela



Nesses tempos de cinza em que o inimigo está solto e se disfarça, além do milagre do teu canto e dos teus olhos vulcânicos, me acordei mordendo os sonhos, perdidos, nos escuros das palavras de menos, e nas cantigas mais doces, para recuperar o orvalho de brinquedos do amor e não me tornar um oco capaz de endoidecer na eternidade amarga do instante. 

(José Carlos Sant Anna)