terça-feira, 12 de novembro de 2019

Infância



A pelota não rola. E não quica.
E empareda o grupo na terra seca
bucho de galinha enrolado
circularmente
em barbante de padaria

Redonda, provoca nos meninos
palpitação de encantamento
na fadiga depois de pelejar
em festa e dor
no tiro recurvo,
desferido de peito de pé,
de trivela, 
de calcanhar
de tudo quanto é jeito de chutar
para as malhas da rede 
ou pro mato, 
mesmo não sendo campeonato. 

E assim,
me lembro deslumbrado, 
despudoradamente,
que se há de fazer,
do peladeiro no chão de terra batida
da infância idolatrando folhas secas. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

João se casou outra vez


Ainda ontem, no velho andar de sempre do antigo casarão, onde rolam as nossas conversas mais triviais, quase sempre regado a um bom vinho e queijos finos, eu soube que João, filho de Madalena e Pedro, dos tempos idos da Ribeira, lá na cidade baixa, contraiu núpcias, quer dizer, no popular, se casou outra vez. Pois é, pasme, meu caro leitor, João encontrou outra moça ajuizada que aceitou o pedido de casamento dele! Ou seja, para João o mundo não mudou; e também não mudamos nós? É o que me pergunto antes que a flauta se cale no casarão. Bem, pelo menos, sem escárnio, João continua o mesmo, não importa quantas primaveras ele carregue nos ombros. E não são poucas, admitamos! Cá pra nós, o cara já está bem maduro, quase quebrando o cabo da Boa Esperança! "E, apesar disso, quantas loucuras, meu Deus – pensei , o cara, por hábito, as comete, num dia sim e no outro também!" Exagero na minha exclamação, eu sei, mas é como se fosse assim mesmo como eu digo, acredite! Eu já perdi as contas neste barco de nuvens construído para que o tempo de vida de João se dissolva em viagens cumpridas por si mesmas. De qualquer modo, é o que lhe digo, quer seja na igreja, quer seja no civil, em suas andanças casamenteiras, João já tirou e botou o anel de compromisso no seu dedo anelar esquerdo doze vezes. Sem contar os casos omissos. Explico-me. Não estão sendo contadas as uniões em que os remos e os rumos foram destroçados antes da consumação, na igreja ou no civil, como os aqui referidos. Parece que João acredita que se casar é um jogo de baralho em que cada um exibe as cartas e ambos se desnudam. E tudo está resolvido no ter-se e dar-se inteiramente. O cara gosta de ser dono e escravo ao mesmo tempo. Ninguém sabe o que ocorre depois da unção do padre, pastor ou juiz de paz. O que se sabe mesmo é que, quando um amor acaba, logo começa outro. Tem uma comichão dentro dele. E não consegue deixar de fazê-lo o quanto antes, se possível. Posso dizê-lo com todas letras. Fui testemunha ocular dessa história nas doze vezes anteriores; conheci as doze noivas, boas moças, por sinal. Todas me chamavam pelo nome quando já vogavam sem porto e com uma esperança fugaz nos mastros. Perdi o mais recente casamento de João, o barqueiro seguiu o curso livre das águas sem lembrar-se de mim na outra margem. Fiquei ruminando o porquê da minha exclusão no rol dos convidados. As fotos das núpcias vieram pelo zap, cumplicidade comigo de um parente muito próximo. João não sabe que eu recebi as fotos. Espero da sua parte a lealdade, meu caro leitor. 
(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Inventário



até a última gota
cortejo a tua vergonha
com chamas inapagáveis
no branco da palavra
que não vem
como o olho de alguém
que não fala
como o sangue do ar respirado
no desvio perseguido
e na poeira dos nossos gritos
e na boca dos condenados
e no sol pagão do teu corpo sobre o meu 
gritado pelos caminhos sequiosos
que nos trouxeram até aqui. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Desatino


Outro dia, um coração confundido, com ligeireza nas sandálias para arrastar os pés, puxou o gatilho do revólver com rara habilidade, tudo por causa de uma imaginada traição, a corroer-lhe as entranhas, atitude que lhe rendeu, mais tarde, como se não houvesse um corpo estendido no chão, gargalhadas sonoras e divertidas, sobre a lisa florescência da calçada. Não tinha mulher no meio, como se possa imaginar. Tinha grana. Muita grana. A ser repartida ao meio. Coisa que não saía do miolo da sua cabeça, acabando num choro compulsivo e gritado pelas ruas sem saber o caminho a seguir. A cabeça girava, enquanto o revólver na loucura da espessura do dedo no gatilho mantinha a língua acesa.

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Poemeto




Em peleja,
lá dentro dele,
em dura e difícil luta,
vai o homem em travessia,
esquecido das fadigas,
levando um ramo de sol
e a mais valia,
de esperança e rebeldia.

(José Carlos Sant Anna)