segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Recesso



Já se aquieta a primavera
Nas últimas pegadas da sua luz

Vertiginoso, cheiro fresco,
o verão se apressa...

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Ainda não sei como lavrar os dias futuros,
mas estou içando as velas para aproveitar 
o verão que está chegando....

Aproveito para dizer aos meus queridos amigos
que estarei de volta depois do Carnaval.

Fraternal abraço para todos, 

José Carlos Sant Anna 




quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Nas mãos de Chico Bobina transborda a taça



            Viver é plantar alegria. Planta-se pela manhã, colhe-se à noite, talvez ao redor de uma fogueira, com a garrafa de vinho girando entre amigos, sorvida pelo gargalo. E ainda que doa, nada se pode contra a luz quando ela não cessa de crescer dentro da gente, como se não houvesse sombras no chão, e a dádiva de se ter a casa no mesmo lugar sempre e, além disso, limpa, tranquila, inocente, tornando o indivíduo mais leve e, nem por isso, menos preocupado com o que acontece à sua volta.
        Pensando nos caminhos de agora, Teresa, mulher de Chico Bobina, encara os novos inquilinos que acabam de se instalar, na praça, bem abaixo da linha de pobreza e da sua janela de gerânios. Já se via, era um casal de ignotos lugares. Não havia pertences, pois, encobertos pelas árvores da praça e do alto do seu bem-estar e conforto não se vislumbrava àquela distância qualquer objeto no chão da praça, mas a postura do casal sobre a grama era de posse a estender seus braços silenciosos pelo vazio como se ali houvesse um monte de brinquedos.
         Na cadência do verbo, acaba é um modo de dizer porque os novos vizinhos se comportam como se fossem, há muito tempo, o dono, sem finos gestos, de um lote na praça e de uma telúrica solidão. 
            Teresa, resiliente aos tentáculos da inércia, tira o casaco — está sempre sentindo frio a mulher de Chico — e nas suas divagações, desde que descobriu o novo inquilino, diz a si mesmo, já sem fingimento, que não sabia que a praça tinha sido loteada. E se pergunta: "será que o novo inquilino está se sentindo à vontade no seu novo endereço, mesmo sabendo que, por detrás de cortinas, persianas, bandós, ele será, noite e dia, vigiado pelos moradores dos prédios que circulam a praça? 
            "E por que ele finca moradia no chão da praça e deixa tantos rastros?" Pondo um céu em meu sorriso isento, pergunto-me reflexivo. "E como serão os humores desse homem incógnito quando, à revelia, ele passa a fazer parte da vida da comunidade deste sítio, que traz o nome de Edvaldo Oliveira, que ninguém sabe quem foi. Como ninguém sabe também quem é o novo morador da praça!", pondero em seguida.
            Por outro lado, Teresa procura, de qualquer modo, agir como se não tivesse acontecido nada, sentindo o gosto de centeio da fatia de pão que levara para comer na varanda, enquanto acompanhava o novo inquilino, de papo pro ar pitando um cigarro em meio ao seu mundo precário como a fumaça que desaparecia embarcando no vento. 

(José Carlos Sant Anna) 

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Infância



A pelota não rola. E não quica.
E empareda o grupo na terra seca
bucho de galinha enrolado
circularmente
em barbante de padaria

Redonda, provoca nos meninos
palpitação de encantamento
na fadiga depois de pelejar
em festa e dor
no tiro recurvo,
desferido de peito de pé,
de trivela, 
de calcanhar
de tudo quanto é jeito de chutar
para as malhas da rede 
ou pro mato, 
mesmo não sendo campeonato. 

E assim,
me lembro deslumbrado, 
despudoradamente,
que se há de fazer,
do peladeiro no chão de terra batida
da infância idolatrando folhas secas. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

João se casou outra vez


Ainda ontem, no velho andar de sempre do antigo casarão, onde rolam as nossas conversas mais triviais, quase sempre regado a um bom vinho e queijos finos, eu soube que João, filho de Madalena e Pedro, dos tempos idos da Ribeira, lá na cidade baixa, contraiu núpcias, quer dizer, no popular, se casou outra vez. Pois é, pasme, meu caro leitor, João encontrou outra moça ajuizada que aceitou o pedido de casamento dele! Ou seja, para João o mundo não mudou; e também não mudamos nós? É o que me pergunto antes que a flauta se cale no casarão. Bem, pelo menos, sem escárnio, João continua o mesmo, não importa quantas primaveras ele carregue nos ombros. E não são poucas, admitamos! Cá pra nós, o cara já está bem maduro, quase quebrando o cabo da Boa Esperança! "E, apesar disso, quantas loucuras, meu Deus – pensei , o cara, por hábito, as comete, num dia sim e no outro também!" Exagero na minha exclamação, eu sei, mas é como se fosse assim mesmo como eu digo, acredite! Eu já perdi as contas neste barco de nuvens construído para que o tempo de vida de João se dissolva em viagens cumpridas por si mesmas. De qualquer modo, é o que lhe digo, quer seja na igreja, quer seja no civil, em suas andanças casamenteiras, João já tirou e botou o anel de compromisso no seu dedo anelar esquerdo doze vezes. Sem contar os casos omissos. Explico-me. Não estão sendo contadas as uniões em que os remos e os rumos foram destroçados antes da consumação, na igreja ou no civil, como os aqui referidos. Parece que João acredita que se casar é um jogo de baralho em que cada um exibe as cartas e ambos se desnudam. E tudo está resolvido no ter-se e dar-se inteiramente. O cara gosta de ser dono e escravo ao mesmo tempo. Ninguém sabe o que ocorre depois da unção do padre, pastor ou juiz de paz. O que se sabe mesmo é que, quando um amor acaba, logo começa outro. Tem uma comichão dentro dele. E não consegue deixar de fazê-lo o quanto antes, se possível. Posso dizê-lo com todas letras. Fui testemunha ocular dessa história nas doze vezes anteriores; conheci as doze noivas, boas moças, por sinal. Todas me chamavam pelo nome quando já vogavam sem porto e com uma esperança fugaz nos mastros. Perdi o mais recente casamento de João, o barqueiro seguiu o curso livre das águas sem lembrar-se de mim na outra margem. Fiquei ruminando o porquê da minha exclusão no rol dos convidados. As fotos das núpcias vieram pelo zap, cumplicidade comigo de um parente muito próximo. João não sabe que eu recebi as fotos. Espero da sua parte a lealdade, meu caro leitor. 
(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Inventário



até a última gota
cortejo a tua vergonha
com chamas inapagáveis
no branco da palavra
que não vem
como o olho de alguém
que não fala
como o sangue do ar respirado
no desvio perseguido
e na poeira dos nossos gritos
e na boca dos condenados
e no sol pagão do teu corpo sobre o meu 
gritado pelos caminhos sequiosos
que nos trouxeram até aqui. 

(José Carlos Sant Anna)