terça-feira, 16 de agosto de 2016

Retrato





Sorvo
tudo que do amor
se diga e rendo-me à chama 
que rega 
as palavras luminosas
onde o tempo se acolhe.
Palavras que,
ao mesmo tempo, me saciam
e me deixam mais sedento,
assanhadas vespas,
novelo de um corpo viajado
haurindo em sol outonal
o chão da vida. 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Baculejo

Pé de Meia  - Imagem capturada no Google

            A VIDA FERVILHA. PARECE que vai chover, pois as nuvens já se formaram no céu. Mas não me desespero com a ventania. Se calhar, eu aproveito a chuva para fazer uma declaração de amor para uma moça distante, pois, quando ela foi embora, levou uma semente da minha vida. Agora, volta e meia, vejo a sua sombra à minha volta, dando voltas. Me tranquiliza vê-la, em silêncio, diáfana, rasgando o ventre da noite e atravessando as portas trancadas a procurar por mim. Penetra de mansinho no meu sonho e diz-me que veio para tocar as flores do jardim que ela semeou:

          São as portas da nossa história.

         Ela repete esse mantra uma, duas, vezes, para ativar a minha memória. A minha cama de solteiro fica coalhada com as sementes de todos os frutos do nosso pomar, enquanto antevejo uma chuva fina inaugurando uma vida nova. Novíssima, eu diria. Depois uma seiva alada leva outras elipses que a vida me trouxe e também as carregou. Sossego por um instante. Depois uma trilha de atabaques excitados pelo toque das mãos sem perder o ritmo das músicas entoadas por seus devotos chega também de mansinho e invade à sorrelfa a minha vida por caminhos cruzados. Então, vejo um vulto passar por mim como um azougue e o baque do corpo na lama do mangue-mar. Fugia de Pedro Asneira e, correndo como um pato selvagem, o corpo despenca da balaustrada sobre a lama. Um tijolo arremessado a curta distância restara partido ao meio e um corpo todo ensanguentado, nu da cintura para cima, com um corte profundo no couro cabeludo, enquanto Pedro, como um João do Pulo redivivo, saltava o portão do campo de futebol, evitando desse modo o flagrante. Pensara que naquele instante tivesse acontecido o pior, assim, fugia destrambelhadamente. Pobre Pedro!
        
         Já o chamávamos de Pedro Asneira antes desse gesto tresloucado. Fazia parte, nas rodas de conversa, das nossas brincadeiras, algumas adolescentes, outras já adultas porque o grupo era bastante heterogêneo na idade; éramos bons moços, malgré tout, de bons princípios. Depois, nem sempre Pedro fazia asneiras, aliás, na maioria das vezes mais dizia do que as fazia.

         Era o seu figurino. Fazer o quê? Aceitá-lo como ele era. Afinal, cada um do grupo carregava um pequeno estigma consigo, como uma cicatriz, que se leva a vida inteira no corpo e, às vezes, na alma. De qualquer modo, agora era mais uma que cometia. E ninguém teve a coragem ou mesmo tempo de dizer-lhe com todas as letras: "olha, o que você fez, malandro? Outra asneira na vida, assim não é possível? E agora, Pedro?" Como sempre fazíamos, reunidos em volta da "redonda", da "escrachada", quando ela ia sendo caprichosamente enrolada, em cordão de padaria, pelo mestre Ari. Bom de bola, o cara. Era o primeiro a ser escolhido no par ou ímpar do primeiro baba da tarde de sábado. E também um artista na arte de preparar a câmara de ar. Sabia transformá-la numa bola que, depois de molhada, só a chutava pra valer os que tinham farinha no saco, forças nas pernas e os convencidos de que Deus existia. O que não nos faltava, pois sempre nos alimentávamos, e muito bem, com os frutos do mar pescados nos manguezais das palafitas, ora vejam, mas é claro, e nas hóstias consagradas das nossas santas missas dominicais em volta da pelota e nos preâmbulos do sábado à tarde.

            Também não houve tempo, Pedro já tinha, na sua loucura, atravessado o portão de madeira maciça do nosso campo de futebol, um verdadeiro luxo e que luxo nós tínhamos, só muito tempo depois é que veio o "Lasca" escafedendo-se depressa. A bola, como não tinha escolha, é que se desesperou no meio de campo como uma mulher se desespera à espera do primeiro beijo. Esqueceram-na, vestida a rigor, batom e ruge, no útero do campinho de várzea.

         Lembrei-me nessa hora, imediatamente, de Nina, no cinema Itapagipe, na urdida matinée, quando armei um bote. Um bote. Esperta, ela percebeu os galhos crescendo. A árvore se agigantando. Que esquiva a menina teve. O melhor pugilista do mundo não seria capaz de virar o rosto com tanta rapidez. E quase me nocauteou em seguida. O depois fica mesmo para contar-lhe depois... Muita calma nessa hora! Prá que pressa?

         Um tiro assustou os que ficaram em volta do corpo deitado na lama. Uma mancha de sangue em volta do corpo sobre o negro do mangue. "Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol, em vez de reza uma praga de alguém..." O corpo. Imóvel. Respirava ainda. Até que alguém do meio de uma ponte de madeira gritou:

          Pega o homem para dar um socorro, cambada de desocupados, ele está vivo.

         Outro aproveitou o embalo e disse cuspindo no chão:

          Vaso ruim não quebra, mas nunca se sabe, gente, leva o cara para o Pronto-Socorro, depressa, senão morre aí mesmo e logo será coberto pela água do mar, antes mesmo de o rabecão vir apanhá-lo. A maré já está subindo.

         O cara que levou a traulitada, vejam, que ironia, se chamava Zé da Lama, e morreu de morte natural, muitos, muitos anos depois.

         Arturzinho, alheio ao nosso mundo, derrubava urubus aos sábados à tarde, por detrás dos muros da sua casa, com uma espingarda de caça, que usava no sítio, enquanto jogávamos o nosso baba, no terreno adjacente. Caçava, mas não comia, é claro. Era pura vaidade. Era só para mostrar que era bom de tiro ao alvo. Dizia que pertencera à equipe olímpica do Brasil. Quando isso ocorreu ninguém nunca ficou sabendo. Aliás, ninguém acreditava mesmo nessa história. Agora que o cara tinha uma pontaria perfeita, isso ele tinha. Mirava, e o urubu despencava lá do céu.

         Ele não sabia do ziriguidum que estava acontecendo embaixo do seu nariz porque ainda não tinha virado manchete, e como ia sabê-lo, se estava alheio ao que acontecia ao seu redor, ainda que fosse praticamente ao lado dos sapotizeiros e mangueiras que escondiam a casa-grande em que ele se refestelava com as contas pagas com os nossos impostos?

         Diziam que ainda havia escravas atrás daqueles muros onde Arturzinho morava. Nunca se teve certeza disso, apenas se desconfiava. Era uma casa colonial em pleno século vinte. Por sua vez, Pedro ainda corre até hoje do infortúnio. O amigo de todos desapareceu sem deixar rastros. Nunca mais se teve notícias dele. Enquanto Zé da Lama nunca guardou mágoas do fatídico sábado. Éramos amigos, todos, um do outro, uma linda confraria formávamos no bairro. Como disse a menina que já acumula muitos títulos acadêmicos, sem esconder o seu berço:

         Na periferia, somos todos solidários, na pelada, na porrada e na dor.

         Falou e disse. Era a mais pura verdade. Ali, desde cedo, sem escola, aprendíamos que a união faz a força. Aquilo fora uma fatalidade, um gesto impensado de Pedro. E quem foi que lhe disse que a polícia não apareceu, se é o que você quer saber agora? 

         Ela foi chegando e já botando pra quebrar em cima da galera. Enfileirou todos, empurrando-os contra a amurada da casa de Arturzinho. Só então que ele se deu conta de que havia um ziriguidum nas suas barbas. Mas ele não se escondeu, foi solidário. Foi quem salvou, num primeiro momento, o “bloco dos encurralados da pelada”, de pernas abertas e mãos para cima, como se fôssemos meliantes e, se não bastasse, perigosos, ao trazer para perto dele três policiais para uma conversa de pé de ouvido num saco sem fundo. Ele sabia que os policiais não deixariam de ouvir um branco. Antes, precavido  ele não era otário , Arturzinho recolheu a espingarda, para evitar  insinuações sobre Maricota, que era como ele chamava a bendita arma.

         Ficaram apenas dois policiais tomando conta dos quinze ou vinte rapazes que não arredaram o pé do campo de jogo. Um convite para um movimento insurreto, o que só não aconteceu porque a religião por parte dessa rapaziada era outra, não havia droga no pedaço.

         O policial estava com a bola nas mãos como se fosse um troféu, só faltava erguê-la acima da cabeça e esperar pelo flash de algum fotógrafo, jornalista desavisado, porque os policiais, de bobos não tinham nada, se acharam no direito de apreendê-la, o que não deixava de ser uma atitude estranha e covarde enquadrar a pelota, uma inocente útil no pedaço, que só dava alegria à patota.

           "O que Freud acharia disso", também enfileirado, matutei como um intelectual precoce. Mas eu jamais saberia o que o corninho seria capaz de pensar de tal situação. E como perguntar-lhe tal coisa? Mas Faro Fino, que estava chegando atrasado para o baba, e a religião dele era outra, percebeu o fuzuê, então, como não quer nada, foi se aproximando, sorrateiro, um gato, do policial e, socando rapidamente a bola, apanhou-a ainda no ar, antes que ela quicasse no terreno, e pernas para que te quero em direção ao cine Itapagipe, dizendo para si mesmo "não me calo ao insulto de ninguém, porra! Por que eu deixaria que levassem a bola se ela não fez nada, se ela é uma inocente nessa patuscada?"

            O policial sacou o revólver e disparou três vezes. As balas caíram do tambor sem um estampido. Ainda bem que aquele revólver falhou ou aqueles dedos, graças a Deus, não sabiam trançar um gatilho. O policial faltara às aulas de tiro, não se consumando uma tragédia que parecia anunciada.

         Os policiais esqueceram o “bloco dos encurralados da pelada” e se desembestaram atrás de Faro Fino, e a rapaziada atrás deles em alvoroço. Eles agora estavam mais preocupados com que o pudesse acontecer com Faro Fino do que com uma reação contra os policiais. Tínhamos juízo, conhecíamos nossos limites e a ditadura branca dos policiais, embora eles fossem mestiços.

         O largo da Madragoa não se transformou no centro de uma batalha porque só tinha um policial armado e, porque esperto, conhecendo os atalhos do bairro, Faro Fino já tinha entrado pela sorveteria do cinema e saído pelos fundos, que era contíguo ao nosso campo de futebol. A confusão se instalara na lanchonete com os policiais nervosos querendo, a qualquer preço, invadi-la, revistá-la, e os rapazes, dispersos pelo largo, inquietos, não arredavam os pés, acompanhando, com a multidão que se formara e que tomava o partido dos rapazes da "invasão" dos manguezais, o desenlace da quase tragédia, que, pouco a pouco, estava se tornando uma comédia.

         Os policiais estavam aturdidos diante da multidão que estrepitosamente os vaiava. Um coral digno de um Maracanã lotado elogiando a mãe do juiz. E também pelo reconhecimento tácito do logro em que caíram. Eles já desconfiavam que o perseguido, incompreensivelmente, tivesse tomado um homérico chá de sumiço, por isso  estavam putos dentro da farda. 

         De fato, Faro Fino já tinha preservado a bola em lugar seguro, trocado a roupa e, irreconhecível, com uma bagana na boca, se encontrava no meio da algazarra que se formara no largo da Madragoa. Ninguém imaginaria que ele tivesse acabado de cometer uma insensatez tal a elegância que estava vestido no largo. Impecável, impassível, enquanto os policiais comiam moscas na porta da sorveteria. 


José Carlos Sant Anna


João Bosco, Roberta Sá e Trio Madeira Brasil - De Frente Pro Crime




terça-feira, 26 de julho de 2016

Não sei onde as cinzas azuis




Em vão, tento
e sou levado por uma fome antiga,
movediça, que me devora,
a abrir o alçapão da febre
gritando sem boca à gente sem pão
e como se eu vivesse só comigo
escrevo à moda de Tão Preto 
pensando, olhos ao chão, 
na poesia de Adília Lopes.
Depois de uma voraz mordida
num croissant de queijo
como se fossem as tuas carnes tenras, 
Margarida,
olho para a tua minissaia,
   – que o vento me trouxe –,
econômica em matéria de pano,
   – já que eu sei do resto –,
e, sem rasurar a paisagem,
devolvo o croissant disfarçadamente 
à cesta de pães 
e pisco os olhos para Maria que,
ao sol a cantar, 
me escreve um epigrama. 


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ternura breve






Mal disfarçava, na sua altivez,
o remorso nas asas fechadas.

E, como se fossem dedos iguais,
a solidão se tornara visível
nos olhos úmidos.

Agora, com as trevas iluminadas,
ao apalpar o vento nos ciprestes,
ao lutar sozinho nas ruas desertas,

faminto de estrelas e de sonhos,
o morcego desiludido esquece 
o telefone da lua.

E os seus olhos desvelam
névoas, como estrelas apagadas,

Como também se recusam 
olhar de novo os céus depois 
de uma noite sem sangue.

Pesaroso, chafurda nas lágrimas 
do mundo que deixam 
no seu coração vagabundo 

o avesso da sombra e dos sobrados
na crispação de uma doce melancolia.
  
(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 12 de julho de 2016

Um clara chama sobre as águas



Julgava perdida a morte
que dançava sobre seus cabelos,
cinza última,
um sopro de perfume da adolescência,
e sem que soubesse da maçã
o gosto

Adormeceu sem ouvir o respirar,
o rumor das bocas nas palavras,
avesso da passagem do ar,
nudez matricial,
águas que não se cansavam do cântaro
iluminado

Esperava,  a voz perdida,
a iminência do vento que respirava,
corpo vaporoso, última morada,
um inseto, o vaivém da folha
e um amor que se dissesse leve,
sem rastro

Finou-se com as águas afogando,
soltas, fosforescentes,
sob a luz da pele nos ossos,
que as hastes do efêmero trouxeram
sugando o seio desnudo do estio
perdido.


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 5 de julho de 2016

Cena 46



Um tiro no escuro. 

Nas mãos 
um taco de linhas 
curvas 
para sinuosas tacadas 

e o ofício penoso 
de enfileirar, uma a uma, 
as bolas na boca da caçapa, 

endireitando-as 
para que, 
em ondas de volúpia, 
deslizem sobre o pano verde 
em êxtase 

dardejando ávidas 
entre a luz e a sombra 

como um beijo roubado 
em areias tórridas 

ou 
como corpos 
em vertiginosos fios de luz 

ou
acolhendo 
a imprecisão das palavras, 
fluidas, 
náufragas, 

crepitando em ondas 
como se um oceano fossem 
e que 

alforriassem a identidade 
dos dias 
desencontrados 

antes de engolfar 
em madrugada cúmplice
o teu Mimo de Vênus. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Linhas Cruzadas



– Vai, me abraça, me aperta, me prende em suas pernas...
Enquanto ela sussurra nos seus ouvidos estes versos da MPB, ele pensa "que safadinha, não sei mesmo o que ela quer... mas tenho certeza do que estou prestes a perder, se eu não agir rápido entre as apoteoses das faíscas deste sonho, que ainda curto em sinuosa reta, eu danço...”
Depois, com a voz trêmula, ela lhe diz, sem esconder as lágrimas nos olhos, que não voltaria mais àquele quarto. Aquela seria a última vez que se encontravam nas tardes mornas do verão, assim, às escondidas, pois, como nasce uma planta, estava selado esse destino, dissolvendo-se pelos dedos, misturado ao suor e cabelos dos dois amantes. 
Afinal, eles sempre souberam que aquela relação não tinha passado nem futuro, era só um presente que se acabava a cada vez que repunham a roupa, fechavam a porta do quarto do hotel e saíam como bons moços para cair no abismo da rotina como acontecia aos musgos.
Se acontecia alguma coisa depois, era um ou outro telefonema na maioria das vezes para marcar um novo encontro em que, fervorosa, ela diria na procura constante da lógica de um sonho, atropelando as palavras, que precisavam se encontrar... que ela tinha uma surpresa... ele ia adorar... que ela não sabia o porquê, mas estava feito uma lagartixa, subindo pelas paredes... que esta semana, pensando nele, já tinha se masturbado duas vezes... que a escola lhe roubava todo o tempo que dispunha para ficar com ele... que ela não sabia porque fazia a pós, uma vez que o que precisava mesmo era ganhar algum dinheiro... que ele não ligava pra ela... E perguntava-lhe, seguidas vezes, e você? E você? Pensou em mim?
Ele ficava na linha ouvindo a sua respiração, em muito parecida com a dela, ofegante, do outro lado, como se estivesse à borda de um poço medindo a luz do seu interior.
Ela vestia a roupa cabisbaixa, cobrindo primeiro os seios, acariciando-os antes de cobri-los com o sutiã, como se ainda fossem as mãos dele, bolinando-o; depois põe a blusa e começa a fechar os botões sem pressa. Pega a saia sacudindo-lhe a poeira, pois ela ficara no chão; estira-a sobre a cama desamassando-a com as mãos, empina a bunda para mostrar-lhe o que ele estava perdendo ao deixá-la ir embora, em seguida, veste-a, sem pôr a calcinha, que ficara enrolada numa cadeira como se fosse um canudo; apanha a bolsa, os livros e os cadernos que trouxera nas mãos, e sai sem dizer uma palavra. Era definitiva a separação, é o que ela parece querer dizer. Apenas a dor, desenhada no gesto que cobria a pele do frio que sentia, ficara ali entalada.
Com impulso, ele avança sobre calcinha e, desenrola-a lentamente; depois esfrega no seu nariz e aspira aquele odor excitante que ficara ali grudado, para sempre, guardando-a como a um troféu de caça. E, em seguida, debruçado na janela, fica a olhá-la, debulhando a casca entre os dedos, a atravessar a rua em direção ao ponto de ônibus. Com o olhar perdido, aguarda até vê-la fazer um sinal para um taxi, enquanto ele aquece as mãos como se ainda tivesse aquele fruto no meio delas.
Ele balançava a cabeça do outro lado da linha, sem que ela percebesse o movimento que fazia. Abria a gaveta da sua mesa de trabalho, olhava o retrato dela escondida entre os seus papéis, rascunhava a palavra “muito” várias vezes numa folha de papel, sabia que o dia em que ele levasse essa questão para o seu analista fundiria a cabeça dele. Que seriam dezenas de sessões para decodificar a palavra ‘muito’ rasurada n vezes em pedaços de papel, quando não vinha acompanhada da palavra Maria. E ficava mudo em seguida.
E ela perguntando se tinha acontecido alguma coisa, porque ele estava tão calado, se não queria mais vê-la, o que ela tinha feito de errado... Se ele sabia que ela já estava  depilada porque não queria que a visse peluda... Se isso não o deixava excitado... que não aguentava mais aquela casa, lavando pratos o dia inteiro... E ameaçava chorar, em seguida dizia “não, ele não vai ter o prazer de me ver chorar”..., baixinho, mas ele a ouvia do outro lado e, quando ela perguntava se ele tinha ouvido alguma coisa, ele lhe dizia que não... 
Na cabeça, ele ruminava um monte de perguntas desfocadas, nuas, enquanto o canal Brasil exibia Luz e Trevas, o bandido da luz vermelha. Seus olhos não piscavam olhando a telinha em que Ney Matogrosso, de calça clara, sem camisa, barba por fazer, atrás das grades, questionava tanto a sua vida, comparando-a a um pêndulo, dizendo que não sabia o que queria, e oscilava de um lado para o outro, como ele o fazia agora por motivos diferentes.
A vida é assim, um turbilhão de desafios que um domingo à noite deságua quando a perspectiva da segunda-feira vem à tona e ele, naquele instante, fingindo que acompanhava aquela história já apagada da memória de quase todos que conheceram o seu lado trágico, olha para trás e percebe que fora mais um domingo a escorrer chocho por entre os dedos, e que ele nada fizera para engrandecê-lo, nada de útil fizera, tocando a sua carne real, além de ter tão somente zapeado pelos hortifrutigranjeiros do mercado, tal como o fizera ainda há pouco com a TV – até se deparar com Ney Matogrosso na pele de ator –, escolhendo frutas e legumes para a semana vindoura. Era o que fazia de melhor atualmente, deixando as sombras vestidas de sol ao largo.
Ficava horas olhando as frutas. Para ele, entrar no mercado e sair pelos seus corredores, olhar atento em cada rótulo, examinar cada produto como se fosse um fiscal da vigilância sanitária, mas sem mover uma palha para denunciar qualquer anormalidade encontrada, era uma descoberta nova. Quase uma nova paixão queimando as suas entranhas. 
Seguia arrastando o chinelinho, esmaecido de tanto sol que recebia na varanda do seu apartamento. Chinelo que ele não não se dispunha a trocá-lo, embora já tivesse um novinho em folha. Recebera dela no penúltimo encontro, e seguia, cheio do amor puro, que não se ignora, apalpando tudo que lhe despertasse uma contemplação vaga nas prateleiras e gôndolas do mercado.
Daquela tarde distante o silêncio é o que resta no vale-tudo das chamas do escritor barroco, redundante, prolixo, como ela o rotulava, para provocá-lo. Os dias se movem. Que culpa se tem pela peregrinação dos dias anunciando auroras? Pela sua corrida sem freios? Pela sua dança milenar? Não há luz que não torne a morte inquieta. 

(José Carlos Sant Anna)