sábado, 14 de janeiro de 2017

Pétala



No fundo dos teus olhos
procuro a melodia das estrelas
abrindo a noite. Parecem sinceros,
teus olhos, um ao lado do outro,
sem saltos, conversa discreta.
Um concerto em lá menor para
flores de rendas a denunciar
os rastros de uma dama furtiva
em que ninguém repara no fruto
ou na delicadeza da viola de bolso 
do seu canto, cansada do dia a dia,
depois que uma chuva, fria, alagou
o desenho das bocas amadas
no último beijo em uníssono.

             (José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sob o peso das horas



No meio do cigarro o mundo desanda:
névoas de um querer desorganizado
impõem-se ao meu furtivo coração

E metáforas pesadas acenam
mórbidas – um mar dentro do corpo –
marés sem porto que borbulham

(Nelas creio porque nada me impede
de acreditar em alguma coisa)

E fragmentam-se. 
São ínfimos os escombros.

Por inútil não mordo a maçã.
E recolho resíduos do improvável
às margens da minha escrita,

Inapelável, indiferente ao risco. 


                                (José Carlos Sant Anna)