quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Emergência





                             Para Gisele Vieira, sobrinha e afilhada

Em estado de emergência, escrevo
sem os biscoitos de polvilho
para dizer-lhe em sal de nuvem
uns tantos versos
depois do desabamento súbito,
em que as plumas
choravam lágrimas invisíveis.

Em estado de emergência, desperto 
num canteiro que flutua, rodeado de iguais,
superando a morte
nas ruas do abandono,
nos estilhaços de quem tudo amou,
na impregnação da sua pele.

E agora longe da linha de tiro
a fiação do meu corpo
dormirá de olhos abertos
nos próximos verões, tão certa quanto o mar,
sem precisar lamber as pedras limosas,
que provoca combustão em meu rosto.

E ainda que em favos de mel 
a morte  nunca foi doce
e sempre deixou o timoneiro
com medo ao ouvir as meditações
de uma mulher apaixonada
no convívio das flores
onde cabe o mundo rolando de bicicleta. 

                                          (José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Se pudéssemos ficar




Querida L.

você sabe o que acontece com as gotas do arco-íris quando ele se desfaz? Não? Então, pergunte aos beirais. Eles podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão a tua frente; sim, ainda vou à igreja da Penha, mas esquece o que se esvai, além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos; guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os seus olhos não vão saber recobrá-la. Saiba, sequioso, as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. Também não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E sem alarde, não se oponha. É só uma lufada o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro. Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os mortos. E, por favor, não desplugue a tomada, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha. Será depois do caldo verde antes mesmo que a luz da lua transpasse seus versos. Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema. São versos que enlevam, alucinam; nos tornam sua escrava, tamanho o seu domínio da língua. Quase lhe digo a propósito, por favor, eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também. No meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, na toilette do avião, sob o calor dos seus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez o meu ofício, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando o meu dedo arrancado aponta estrelas no céu. 


Salvador, 1 de Janeiro de 2019.
(José Carlos Sant Anna)



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Se queimando



O dia amanheceu ensolarado como há muito não se via na velha cidade, caótica, de clima instável, como um dia disse D. Léa, de forma bem natural na porta da loja de charutos finos, importados da Bahia, que ela fazia questão de realçar como uma verdadeira conhecedora dos produtos.
Fumava seu charuto com a marra de quem, na sua idade, merecia aquele filão de prazer. Sem perder a fidalguia, a elegância. E sempre gabando-se de fazê-lo bem. A modéstia não era o seu prato favorito. E, para não fugir à regra, enquanto puxava a fumaça sem pressa, aproveitava para desandar sem trégua os políticos, indistintamente. Aquela senhora não tinha papas na língua, conhecia a cidade e os políticos como poucos conseguiriam fazê-lo, por isso ela falava com rara desenvoltura de ambos, pouco se importando com os interlocutores à sua volta.
Por outro lado, se via pelo brilho do sol àquela hora da manhã que seria um dia propício para alcançar a rua e rolar de bicicleta até as pernas não se aguentarem sobre as duas rodas. E como as duas coisas em qualquer lugar do mundo combinam, ainda que tudo se passe numa calçada estreita, sempre coberta pela sombra de espigões ou mesmo pelo corpo de um morador de rua, como este que se sobrepõe à minha frente e, ainda de quebra, é guardião de duas cadelas, Duquesa e Princesa. Coisas de cidade grande!
São animais que não se afastam do seu protetor um só instante e, ao mesmo tempo, demarcam, orelhas roxas, fitinha rosa enrolada no pescoço, despojadas em um lençol encardido, o território deles na buliçosa avenida da cidade grande. E, assim, na quietude da soberania que exercitam na via movimentada da cidade, os três pulsam na calçada, quente e ainda nua, àquela hora.
— Sou seu agora, diz Mathilde com um riso maroto ao olhar a cabeça do dragão na entrada da casa, pendurado na parede e exibindo certa perplexidade com a sacristia improvisada.
O dragão parecia ter levantado a sobrancelha para entender o que estava se passando na sala de estar da casa, do que se aproveitou Mathilde para dizer-lhe com um ar sedutor:
— Vamos sair, meu dragão!
— Sair pra onde? — Ele perguntou.
Aquele dia radioso era um bom pretexto para Mathilde exercer o seu direito de ir e vir, de fazer ou deixar de fazer o que quisesse no domingo que, vestido de azul claro e sem pedir licença, já se banqueteava na cozinha.
—  Bolas — ela disse para o dragão — estou cansada de ficar nesta casa, de esperar não sei o quê... Você não vai fazer nada por mim? Desça daí porra! Vamos sair!
Mentia. Era só uma retórica despudorada. Pensou em um drinque, mas era muito cedo para bebericar alguma coisa. Depois, o que ela queria mesmo era sair do isolamento em que vivia por livre e espontânea vontade, o marido há muito lhe dera a desejada carta de alforria. Bem que poderia escolher uma rua inteira nas adjacências da sua casa para caminhar na certeza de que não seria importunada por ninguém. Ou, quem sabe?...
Ou, quem sabe, repetiu para os seus botões, apanhar um ônibus e fugir da solidão. Andar pelas ruas da cidade na companhia do motorista e de uns poucos passageiros, solitários como ela, deixando que a mobilidade a levasse para longe dos seus caprichos e anseios.
O ônibus, o motorista, os passageiros poderiam ser a gambiarra que lhe estava faltando no fundo do poço. Isto já seria um grande consolo para o seu martírio, amém!
Mathilde sempre acordava cedo. Portanto, as ruas, abandonadas, desertas àquela hora, com os motoristas, imaginava, mais cuidadosos, eram um convite à aventura, à deambulação terápica, enquanto Joaquim, seu marido, dormia arrotando por baixo e por cima, ainda com a cara cheia da bebedeira do dia anterior. Não se levantaria tão cedo, sabia disso. Ela mandaria às favas a missa como sempre tivera vontade de fazê-lo. Mas tudo isto era apenas uma fuga silenciosa porque sua intuição dizia que o casal, que animara sua vida nas últimas semanas, não perderia o domingo ensolarado. Havia duas semanas que os dois não davam o ar de sua graça no paraíso ao lado.
Nos últimos tempos, Mathilde passara os dias a rastejar-se pelo chão da casa como um tatu a procurar o buraco perdido até que um dia ouviu um zumzumzum no apartamento vizinho e gozou literalmente e, depois, como há muito tempo não o fazia, com a sensação de liberdade, ao se deixar levar pela azáfama do casal entre as quatro paredes vizinhas.
Uma vez por semana o casal enfiava a chave na porta do apartamento contíguo. E sempre que isto acontecia, era o anúncio de que a libido correria à solta no quarto vizinho e quem quisesse veria as marcas pelos corpos, antes que o casal voltasse ao cotidiano de suas vidas.
Quando acontecia no domingo pela manhã, a missa ficava adiada. E fazia quase duas semanas que o casal tinha estado no paraíso. Imaginava que seria a hora do casal voltar. Assim, abandonando a retórica, arrastou-se pela casa sem vontade de sair a esperar pelo rebuliço nas paredes vizinhas. Logo se viu a estender os braços e os olhos para as extravagâncias que começavam a rolar atrás da porta vizinha com a promessa de que levariam o dia inteiro.
Afluentes de um mesmo rio chegavam sob a luz do sol numa contrarrevolução dos costumes. Estava na cara, nas mãos, no corpo inteiro que eles já vinham se esfregando dentro do ônibus, imaginava Mathilde, bisbilhotando pelo buraco que ela abrira na sua parede para não perder nada dentro do quarto vizinho. Fechava-o depois de cada visita do casal com uma cortiça preparada para não deixar vestígios dos dois lados.
Sua pasmaceira tinha acabado. Ela estava posta à prova a cada gemido, sem poder pegar carona no trem doce da alegria, que abria o céu ao meio. Mais tarde veria se encontraria um farol para orientá-la na obscuridade da sua vida, que ficara dispersa feito a brisa, mas ela não queria ser feliz de outro jeito agora. Aquele era o buraco da sua alegria, da sua felicidade, por enquanto.
Depressa, Mathilde passou pela cozinha apagou todas as bocas do fogão e, antes de voltar ao quarto, abriu a torneira da pia sobre a louça amontoada na cuba para evitar as moscas. Ali era um dos palcos do seu infortúnio, mas ainda não perdera o tesão, embora a incomodasse ver o Joaquim deitado em sua cama vendo a vida passar. A missa não passava de um pretexto para afastar-se. O que ela não queria mesmo era ver a vida diluir-se, abrindo as caixas em que guardara o passado a repetir os versos da canção "É doce morrer no mar". 
Chegou ao quarto a tempo de vê-los ainda nas preliminares. Ela já tinha tirado a roupa toda. Sem tirar os olhos dela, ele tirou os sapatos, as meias, a camisa, as calças. Depois se meteu na cama ao lado dela...
— Escuta — ela disse — vai transar de cueca?
— Claro que não! 
Ele puxou a cueca e beijou-a. Ao sentir a boca da mulher na sua, correu a mão pela perna dela acima e depois começou a desenhar com a língua letreiros indolores nas partes íntimas da sua companheira, enquanto Mathilde se queimava, sem querer gritar, do outro lado da parede, enfiando a mão por dentro da calcinha...
O marido acordou ainda bêbado e deu de cara com a mulher nua, olhar perdido em estrelas que brilhavam tão somente em suas pupilas, toda lambuzada de geleia de morango no chão do quarto e, antes que, estranhando a cena, ele perguntasse alguma coisa, ela se levantou de um salto, sorriu e se afastou em direção ao banheiro. 
(José Carlos Sant Anna)

sábado, 10 de novembro de 2018

Desamparados





Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma incidental canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras. 

(José Carlos Sant Anna)