quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bricolagem



tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.
epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens

o caralho
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã
e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário
ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, com um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

conspurcando o retrato da sociedade da época
se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?
o que seria da maquete
de frutas agônicas,  

adornando um salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia
Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra. 


(José Carlos Sant Anna)