sábado, 25 de julho de 2020

Peregrina



Antes
que julho recuse roteiros
cansados ou se finde na parede
ondula no ar um vozerio
enfatuado a distrair o tédio
e o esquecimento

e os dias em agravo pungente
a mendigar um silêncio luminoso
das cinzas do tempo
esquecem os frutos deteriorados
nas miragens do amanhã

e com o tempo se esgotando
a crueza das tuas sombras
nos caminhos crestada
ao sol implacável de obscuros gestos
sem trair ou subtrair-se

pergunta-nos a cada giro do espelho:
que idade tem a toxina
ao saber que, 
incansável,
ela chegou donzela e neurótica
querendo acariciar a todos
nós!

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ao amanhecer



Ela foi dormir com uma lágrima furtiva. Pelo que se foi era salgada, porém pequenina, embora a tivesse deixado com o coração magoado. E, sob os lençóis, enquanto dormia, em seus sonhos, apareceram e desapareceram mil corcéis pelas extensas planícies dos seus desejos, onde tudo principia, em fogo único, compondo uma água clara, já esquecida do rancor, no apelo de braços abertos. Ao amanhecer, depois dos sonhados caminhos na noite de delírios amorosos, ela se surpreendeu ao ver-se de unhas aparadas, cutículas feitas, enquanto uma traça se escondia entre as dobras do colchão. 
(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A seco



“Chove chuva chove sem parar”
Jorge Benjor


A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas da cidade, quando a empregada entrou molhada das cabeça aos pés. A água que escorria pelo corpo era tanta que fez, sob os seus pés, uma poça na cozinha. 
A patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe as razões de estar atrasada.
E, sem titubeios, a empregada respondeu:
– Enquanto a senhora se remexia sob os lençóis, eu segurava a onda desse dilúvio pelo caminho...

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Chistoso


Na luz vertical,
doutor Sigmund Freud
com o velho ar blasé 
sem enxergar o próprio ego 
tateia pelo consultório 
procurando 
"na luz difusa do abajur lilás" 
ainda reticente
o corpo da paciente.

Enquanto
no bazar da história, 
os momentos íntimos das coisas 
[só os das coisas]
se confundem
com o café coado 
afogado de pura ciência 
imersos em puro ócio

Vai rolando, rolando
um clima 
na pulsão da tarde fria
em devaneios estranhos 
e no denso perfume das rubiáceas, 

de pince-nez Descartes,
mera figura de retórica,
tomando sol
na varanda do consultório 
de bermuda à Agostinho Carrara 
não está nem aí para a música 
que ecoa no gramofone

São ávidos enredos
na teia que rola 
sobre o divã cor púrpura, 
em que o curvilíneo corpo   
é o objeto à frente do sujeito
inadimplente.

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pra quê?


 Por favor, na paz do meu trote e na sede de ar puro, deixe-me passar, pois, só pra contrariar, vou quebrar regras e rotinas da pandemia pelo gosto do sol, e de ver-te e de pintar um grafite barroco no muro da esquina.
 E eu com isso?
 Sei lá... Deixe-me passar, é o que me basta!
 E depois?... O que farás?
 Como eu sei que é o tempo que voa, eu não tenho pressa até porque o sol já terá inundado meu dia, então, vou devagar com a água feliz do meu corpo ao covil da minha felina. Ansiosa, eu sei, ela estará me espiando da janela com o seu vestido vermelho, pequeno detalhe que me deixa em parafuso e, inteira na intimidade, o infinito principia em sua toca, depois que eu chego. 

(José Carlos Sant Anna)