quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fantasia para um violão distante



TALVEZ A NOITE NÃO SE APAGUE, mas os olhos das estrelas hão de se apagar para a intimidade que se anuncia na boca cúmplice de maçã que ela traz e na luz lancinante que emerge do seu corpo. É assim que começa o outono, à beira deste amor nascente. E ela chega com um cheiro indescritível do seu reino sem fronteiras ou de um ameno verão. Inesperadamente. Cálida flor. 

Uno mas extasiado porque sabe que está perto do juízo final nas teias da fantasia da carne no cume dos seus dentes, Tão Preto, cuja espera se contrai na intensidade dos afetos e de murmúrios afáveis, e também com o coração inundado e saindo pela boca, imagina ejaculações líricas no suor que escorre do seu corpo e na sua vontade de amá-la, juntando suas águas às dela. E antes que o mundo às margens percebesse aquele perfume, que se espraiava como uma eterna fulguração, entre o dia e a noite, dança e vida dos seus corpos, Tão Preto sente, sorrateira, a música dos músculos. Ascensão perfeita, pensa. Mas tudo parecia indizível. Mas se toda história tem um fim, o melhor é começar do começo antes de fazer a cama parecer pequena para membros, ventre, ancas e peitos da rapariga, despertando a curiosidade do leitor. Embora não queira baixar as armas, ele procura acalmar-se para recebê-la porque sabe que é somente no amor que não se faz cavaleiro sem espada. É a musa da sua escrita que diz que vem. Mas não será um encontro poético como se não houvesse fumaça do fogo que se alastrava navegando palmo a palmo entre buganvílias. Tão Preto ouve seus passos no seu quarto. Vira-se na sua direção e diz-lhe "chegou mais cedo que eu esperava". Fecha os olhos e a vê com os cabelos molhados como na foto antiga, na imóvel espessura do seu biquíni. O seu hálito invade o ambiente. Percebe os seus olhos famintos. Que música é esta que se desprende do seu corpo? Também gosta do jeito que ela fecha as cortinas de cetim. Sem nenhuma palavra. E da fúria contida de desejo no seu rosto. O seu cheiro contrasta com o ar morno do dia. Gosta do verso do seu andar no salto do sapato meneando as ancas, da caligrafia apressada dos seus gestos, do animal que tem fome e que se revela pouco a pouco. O quarto está inundado com a sua presença. E do equilíbrio musical da respiração no seu pescoço. Dos suores mais densos. Gosta da estampa do seu vestido, da sua transparência, dos joelhos à mostra, dos pulsos avermelhados. O seu olhar queima a sua pele. Ela sabe, por isso não tem pressa. As molas da cama estalam ruidosamente quando ele se vira. O vento parece brincar por uma fresta da janela aberta, trazendo uma mistura de frio e êxtase. Sente o corpo frágil, e um arrepio. Ela se aproxima abrindo os botões da blusa... Espera um puxão para que os corpos se toquem... A ponto de explodir, coração acelerado, garganta seca, o calor de um corpo ao outro, a língua atrevida avança, deixa que a febre o consuma e se bebem mutuamente... no esplendor da luz da entrega, ela diz: "Promessa cumprida, sou tua". 

(José Carlos Sant Anna)