quinta-feira, 6 de junho de 2019

O sol nosso de cada dia



Sol a pino
inundando a terra
entre formigas e minhocas,
prismática bênção do dia,
estrugido de abandono
banhando a vida enraizada
nas matas de musgos
em que o olho matreiro
dilata-se.

E dilata-se 

pela terra prometida
como se pudéssemos
erguer um alento
pelo que não somos
crescendo para esta luz
que se move 
como todo o ar
pelas coisas inenarráveis.

Dilata-se descaindo sobre a terra
sobre a mão que se alarga
no poema que principia
no limite de cada dia. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O menino viu tudo


Outono. Eu sei que todos o viram com alguma estranheza. No outono é assim mesmo, os dias são mais curtos. E no final da tarde sempre esfria um pouco. O menino não foi o único a ouvir os seus passos. O pássaro de verão passeava nos olhos da moça que passava pelas avenidas centrais da cidade. Tão bonitos aqueles olhos! Ela não se resguardava dos ventos do outono que teciam um cântico de aconchego em seu corpo, levando-a pela mão, com um largo sorriso. Mulher bonita, uma diva, com um vestido branco, sapatos combinando, que deixava os homens, grandes e fortes, uma vida inteira, carentes de aurora. E como se não bastasse, ela ainda carregava, como uma prenda, o cheiro do mar em seu corpo, que exalava um aroma de maresia na roda do mundo. Aquela festa duraria a tarde inteira? E lá vai o menino atrás da moça, que também não era o único, que lavava os corações dos homens, que entortavam a cabeça para vê-la passar com o pássaro de verão nos olhos. Tão bonitos aqueles olhos. Transparente, o céu se derramava sobre os prédios das avenidas por onde ela passava dentro de um envelope azul, envolta em rosas, anjos, anéis, cirandas, com a certeza de que o mundo, de norte ao sul, de leste a oeste, de morro a mar, nunca se acabaria na última ceia. A todos que não a viram, contarei. "Cada um na sua vez, cada qual em seu lugar, que nenhuma ponte se estende em vão", disse-me o menino chamando outros meninos que também testemunharam aquela epifania. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 7 de maio de 2019

Anafilático



O táxi andava rápido pela avenida, e eu fingia ignorar o olhar selvagem do motorista pelo retrovisor. Um gosto ácido me subia à boca; absorto, sazonado de desejo, eu ia beijando-a assim mesmo na claridade do sonho que me visita todas as noites. Despertei-me angustiado, cego e por inteiro com as cartas que me meteu em nuvens, como se corresse um rio entre pedras. Estou falando sério. Eu parei de te escrever? E você? Volumosos teus cabelos, tingidos? Também não me escreveu porque suspeitasse de Einstein entre nozes? Acreditei em tudo. Manchas avermelhadas em diversos pontos do meu corpo me deixaram em pânico, aliás, eu não esperava outra coisa depois das cartas. Posso abrir o paletó do meu pijama e você confere se sonho com o etéreo aroma da flor do campo em cada gota que jorra dos seios e dedos desta caliente hora, porque é tudo como se eu pusesse na boca uma rosa em chamas.


(José Carlos Sant Anna).

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Travessias I



I

Ofélia estende a mão para colher uma estrela no meio da tarde e esquecer o cansaço, antes de seguir o seu quotidiano no cais do porto, mesmo sabendo que há tardes em que os navios não atracam e as estrelas não ficam visíveis a olho nu. Hoje é uma dessas tardes. E o coração de Ofélia, incansável, no centro da vida, dá imensas voltas. Sandálias franciscanas nos pés, um leve sorriso, ao que vale a pena, pendurado no pescoço, Ofélia, esquiva, perambula, enquanto a noite não pousa sobre a cidade. Varada de solidão, perambula. Faz tempo que descerrou os punhos e descobriu o quanto o açúcar é reconfortante, mesmo fazendo mal à saúde. É o que a faz esquecer o pranto, o grito calado. Quando o céu começa a cobrir-se de um tom avermelhado anunciando o crepúsculo, é a hora em que a pele da noite começa a abrir pacientemente os olhos ejaculando promessas ao entardecer. E isso é tudo para Ofélia.

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Pequena luz


eu não sei, foucault, tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, choro frágil, sem alarde, como um não quer nada e vem sóbrio e simples. acontece por acaso e eu ali, sob a luz amassada da lua minguante, com o último cigarro custando a acender, encostado na mureta da casa vizinha, pasmo, paranoico, com o fósforo à mão, ao vivo, em sua vida, de costas para o vento. vento tão forte, um zéfiro caipira. e os jornais velhos o protegendo. seu corpo magro estremece quando as luzes piscam sobre o palco montado à sua revelia. epidérmica é a minha ajuda no pequeno latifúndio, mas se lê em minha testa, miséria muito próxima. digo por conhecê-la de cor e salteado. e a minha vocação para santo, que não passa de um redemoinho, logo se desfaz. tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, e a primeira coisa que ele aprende é mentir sobre si mesmo. 

(José Carlos Sant Anna)