quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Rito de passagem


Últimos sinais na janela indiscreta
milhares testemunham à beira-mar
                              o rito de passagem
simbolicamente do velho para o novo

Despe-se inteiramente o velho?
Despojam-se dos galhos e ramos
as folhas secas abortando 
o derradeiro espinho das suas vestes?

Já não sangra a sua pele
já não sangra, e o caule verga,
entre tantas outras coisas,
sob o peso da lava-jato et caterva
faltando-lhe o oxigênio para as insolvências
que transbordam na secura do Cantareira

Ochampagne passado de mão em mão
evapora-se antes de beijar os meus lábios,
Finco as primeiras raízes do renascimento

Como saber o que cabe na esperança
dessa pátria pálida, envergonhada,
no fundo do seu nervo ótico?

Quanto deste sal estará evaporado
quando tiver passado a ressaca do réveillon?


                        José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

D. Maria


 OI, MULHER, POR ONDE você andava? Estava sentindo a sua falta, sabia? Você está tão bonita!...
    Lua recuou ligeiramente quando aquela senhora lhe dirigiu a palavra com um sorriso que ia de um canto ao outro da boca, dizendo-lhe palavras amáveis, carinhosas. Em seguida, ela recobrou a fidalguia e o domínio da situação e lhe respondeu também com um largo sorriso, que se espalhou por todo seu rosto.
    A verdade é que se não ela reagisse dessa maneira não seria a Lua, que todos nós conhecemos. Assim, ela retribuiu a candura das palavras, sim senhor, a candura das palavras da sua interlocutora:
    – Estou por aí, mulher, você é que anda sumida. Volta e meia, eu passo pela tua praça. Sempre vejo você por lá, distraída, tricotando a vida e as suas roupas...
    Ainda enigmáticas, entreolharam-se por alguns instantes e cada uma seguiu para onde a vida as levava naquele instante.
    Lua iria comprar umas frutas no mercadinho mais próximo. E, pelo jeito, D. Maria estava indo para o seu território, munida das suas inseparáveis sacolas, pois ali também estava o seu manual de sobrevivência. Nelas carregava uns paninhos de crochê que ela saía vendendo aos transeuntes pelas redondezas antes que a esquizofrenia, de súbito, pela falta dos remédios, a atacasse, deixando-a aparentemente como se não tivesse o juízo perfeito.
    Portanto, eu dizia que Lua estava indo às compras, para a sobrevivência da semana, pois morava sozinha. Desde que perdeu os pais, mora sozinha num amplo apartamento, sob as bênçãos da praça de D. Maria.
    Pois é isso mesmo que acabaram de me ouvir dizer. As duas são vizinhas, separadas apenas por uma rua, entre o prédio em que Lua mora e a praça, arborizada, fresquinha, que amanhece com as secretárias do lar e, por vezes, as próprias madames, com os seus cães, cumprindo o ritual das matinais necessidades deles.
    Nesta hora, é bom que todos saibam, D. Maria ainda não ocupou o seu território. Ela mora na Praça, mas não dorme na Praça. Ela tem uma família também, é o que todos supõem ou imaginam.
    E, além disso, porque são vizinhas é natural que se conheçam, que nos cumprimentos que trocam entre si não faltem calor humano, intimidade e bonomia, inata aos vizinhos que se acolhem e se respeitam. E se amam, por que não?
    Por certo, Lua estranhou num primeiro momento o modo tão amigável, tão íntimo, tão familiar do cumprimento de D. Maria. E tanto estranhou que se apressou a contar para o grupo família do WhatsApp, como algo incomum.
    – Ei, gente, vocês não sabem o que me aconteceu agora?
    Escreveu esta mensagem e aguardou a curiosidade de sua turma, pois, como os conhecia, e bem, sabia que viria uma pá de perguntas querendo saber o que houve. E imaginava o que cada um diria da situação inopinada para ela. Claro que não era assim que D. Maria encarava a situação. Inopinada, ora vejam só, é cada coisa que se ouve. Para ela, não havia nada de extraordinário. Anormais são os outros que não passam o dia inteiro recolhida numa praça, olhando o vazio ou contando estrelas à luz do sol. Anormais são os que se banham todos os dias. 
    Não seria isto o que pensa D. Maria?
    – Oi, tia, conte logo... (uma das sobrinhas).
    – Lua, não me diga que você encontrou o Brad Pitt boiando e ele te chamou para jantar, foi, sortuda? Conte logo... (outra sobrinha, de língua mais afiada, mais descontraída).
    – Diga, minha irmã, não temos poderes divinatórios, conte logo, a mulher das “histórias” para a família é você... (uma das irmãs, cheia de verve, de ironia).
    – Vai, minha irmã, conte logo, a gente não pode ficar a tarde inteira esperando por essa notícia... (a outra irmã, fingindo formalidade).
    E ela contou o modo amistoso com que D. Maria a cumprimentou revelando o tom de intimidade que ela imprimiu às suas palavras, como se ambas, lídimas vizinhas de um bairro chique da zona sul da cidade, tivessem os mesmos anseios, as mesmas preocupações e até mesmo a perspectiva de amores semelhantes. 
    Retomaram o diálogo no WhatsApp com um naipe de gracinhas, pipocando os risos de um lado e do outro, enquanto D. Maria já ocupava o seu lugar na praça, discursando como em geral ela ficava na praça.
    Quando tal acontecia, dizia-se que ela estava "atacada".
    Ela nunca saberia que, longe da ali, era objeto de tantas especulações e gracejos. Todos bem humorados, é verdade, pois não se pode esconder a boa formação da galera, ainda assim zombeteiros e discriminatórios, por que não dizer? 
    Ainda que soubesse que a espontaneidade de minutos antes  estava sendo motivo de tanta graça entre eles, ela não compreenderia as razões. Por certo, manifestaria a mesma estranheza de quando é surpreendida por um carro à sua frente, assustando-a. Quando tal acontece, ela reage fulminando com o olhar o motorista que a tirou das suas elucubrações.
    Quantas vezes eu ouvi seus impropérios ao entrar na garagem do prédio onde moro, quando ela queria passar pelo passeio em frente ao portão?

(José Carlos Sant Anna)





quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A dançarina



Por onde anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
nos lábios acesos e no ar compungido 
o melífluo jeitinho de corça 
me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes revelavam
o desejo ainda entranhado na sua pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar este rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Postigo para o mar


INCÓLUME, A ÁGUA do mar ia subindo, subindo, densa como o sangue correndo pelas veias, a fazer naturalmente o seu caminho entre as palafitas. Depois de lavado o assoalho da casa, a maré refluía do mesmo jeito que chegara, fazendo o caminho de volta, quando deixava a dona da casa atônita. Era sempre assim que ela ficava, depois da enchente, atordoada, sentindo o peso da sua impotência, diante da força da natureza. Já não sabia o que fazer... E a maré, pouco a pouco, fazia o seu caminho de volta, recolhendo-se ao fundo do oceano em gesto largo, generoso, com as palafitas do manguezal da cidade baixa.  
Lentamente a água refluía. Aos poucos. Devagar. Era o ritual da lua cheia com o qual aquela mulher já se habituara. Durante três dias, era quanto durava a presença da maré na sua casa, ela cuidava de não deixar resíduos da sua passagem, recolhendo os detritos ou dejetos, trazidos pela água do mar e deixados nos aposentos da casa, embora fosse raro que tal não acontecesse alguma vez. Sempre restava algo para ser expurgado.
Quando a lua era crescente, ela se cercava de todos os cuidados, mantendo a casa fechada para evitar qualquer dissabor, pois a maré trazia toda sorte de lixo. De fezes humanas, que os palafiteiros evacuavam sobre o mar, das suas latrinas improvisadas, aos animais mortos, como pombos, cachorros, galinhas e outros, arrastados pela força da água. Com as portas fechadas a água entrava por debaixo da porta, da frente e da cozinha, mas o fazia, sobretudo, pelas frinchas entre as tábuas do assoalho, rompendo aquelas ranhuras com a sua força descomunal, silenciosa.
Expurgadas as promessas, os remorsos e as culpas, a vassoura cumpria o resto do que tinha de ser feito após a passagem da maré. A de março era, para aquela senhora, sempre a mais dolorosa durante o ano, pois subia com mais intensidade e mais força do que a dos outros meses do ano.
Baixado o nível da água, ficava atrás de si um cheiro nauseabundo de maresia, impregnado em tudo dentro da casa. Quando a lua começava a minguar, acabava o sofrimento dela. Essa dor mensal, como uma menstruação, que lembrava os tempos de menina-moça, em geral, durava três dias, no calendário em que ela dava baixa, mês a mês, ano a ano, das suas purgações.
 O assoalho não via mais a cor da água cinzenta que o beijava incessantemente para o desespero da dona da casa. "Um ritual", ela repetia para si mesma, resignadamente. Sabia que seriam sete anos. Nunca disse aos filhos como soubera que a purgação levaria sete anos, longos sete anos. Nas redondezas era a única palafita que recebia aquele batismo a cada mês do ano.
Aquele lote de água, ela o recebera de outro invasor, sim porque era um lote de água o que ela dispunha agora, mas sairia daquele beco imundo onde morava com os cinco filhos e porque eram todos invasores, nas redondezas. Ninguém era dono de nada ali, naquele pedaço de mar, entre os manguezais. A mulher ficava esperando a água refluir completamente para que alguém, entre os seus, avistasse os piquetes que demarcavam o seu terreno, a sua área, a sua água, onde surgiria a sua futura casa. 
Se a maré estava cheia, chegava àquela marcação com um bote que ficava à margem, à beira do mangue, disponibilizado pelos antigos moradores das palafitas, se estava vazia, seguia cuidadosamente por uma vereda ou outra, pelos restos de mar deixados pelos caminhos, pelas poças, para não enterrar as pernas até os joelhos nas partes mais moles do terreno. Havia sempre pequenos pântanos pelos caminhos. Enquanto não nascia a sua "edificação" de madeira, ela precisava peregrinar pelas águas como um Moisés, quase todos os dias, para tomar conta do seu "lote", não deixando que nenhum outro aventureiro dele se apossasse. 
Era um lote de água, com os piquetes submersos, que recebera num dia de Ação de Graças daquele indivíduo. Estavam submersos porque a altura deles era inferior à altura que água subia regularmente. Dera-lhe o lote, ninguém sabe em que circunstâncias com as marcações dos piquetes, um invasor, ilustre desconhecido da sua família. Poderia construir três casas na área demarcada, se tivesse recursos. Não os tinha para tanto, cedeu, para um vizinho do beco imundo onde morava, uma parte das suas águas, e a outra parte fora invadida por um morador antigo das redondezas, que há muito estava de olho naquele "terreno", embora já tivesse uma casa em outra rua das palafitas.
Ali, ela fizera a casa com os restos de madeira e lona, e os mourões que comprara para a sustentação da base. Ninguém sabe como juntara, da noite para o dia, aqueles trapos para armar sua casa sobre as águas. Quem a construíra, nada sabia da maré naquele pedaço do mangue da cidade baixa. Logo, a casa foi construída sem se levar em conta a altura que a maré chegava àquela parte do mar.
Assim, amargaria por sete anos a lavagem da casa pelas águas de Iemanjá, talvez já não se lembrasse de alguma promessa que tivesse feito para a Rainha do Mar. Como a deixou de cumprir, pagava, por certo, pela promessa não cumprida. Cumpria a sua pena, carregava a sua cruz, dizia para si mesma a todo instante quando as coisas desandavam. E ia tocando a vida sem deixar de acenar uma única vez para a esperança.

(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Parábola do Gelo



Me acordei, pulei da cama e abri a janela descerrando as cortinas. O sol entrou fulgurante. Recebi aquela baforada de ar quente pelo meu peito, respirei o ar puro da manhã e entrei no banheiro para a minha higiene matinal. Em seguida, pus a roupa de ginástica, passei pela cozinha, bebi um suco de amoras, natural, coloquei um gorro para proteger a cabeça do sol, passei filtro solar no rosto, braços e pernas, e desci para a caminhada habitual.
Ao chegar ao portão do prédio onde moro, levei um susto. Apesar do sol inclemente, o passeio e a rua, como se tivesse nevado a noite inteira, estavam tomados de gelo. Fiquei intrigado. Como aquele gelo todo teria se formado, se a temperatura beirou a casa dos 35 graus durante toda a noite? Como, se habitualmente, neste período, a temperatura nunca é inferior a 30 graus, tal fenômeno seria possível? Alguma coisa estava fora da ordem, foi o que pensei. O zelador me trouxe a mangueira do jardim do condomínio e uma pá e cuidei de desobstruir a passagem dos meus passos e das minhas palavras. 
Uma vez desobstruídos, passeio e rua, com o gelo escoando pela rede pluvial, olhei para o infinito como se ele pudesse explicar-me alguma coisa e, como não obtive resposta, deixei-me perder, achando-me do outro lado, no sul do país, pelas bandas de outra cidade, desconhecida, com as vistas, saudosas, alcançando uma rua, que, curiosamente, estava também pejada de gelo, embora não houvesse explicação, aqui, como lá, para o incomum fenômeno.
Eu não poderia fazer nada, absolutamente nada, àquela distância, senão esperar que a moça do outro lado desobstruísse a passagem dos seus passos e das suas palavras, removendo o gelo tal como eu já o fizera na minha calçada. 

Resta-me agora esperar que ela o tenha feito. 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de novembro de 2015

Cena 15



Agora estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda que não o negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim. O que faço, então? Visto-as sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido porque não quero gastá-los e, quase sempre, o faço em dia de festa quando os meus pés ruidosamente os acolhem com meias de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho. 

Ah! E a areia! As andanças! A corda de enforcado! Como eu não queria este devaneio agora, esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, sim, escancarada mas ensolarada, como o diabo gosta. A promessa de espuma alvíssima, o mar batendo na amurada do cais, a leve impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros do navio na baía onde se lê Mar del Plata, e a bandeira azul e branca, de los hermanos, tremulando no mastro, os fictícios tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela, a noite passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos  passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce. 

                          (José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cena 14


As amoras
ciosas     incomuns
mostram um raro bom senso
quando me trazem nos seus lábios
o gosto maduro do seu fruto.

Mas eu    inquieto amador
não tive o mesmo bom senso
ao revelar
o segredo das amoras
e dos seus lábios em insólito poema.

Agora as amoras
tensas 
sombrias
                       pairam
acima das nuvens
com essa revelação
que se espalhou por toda parte. 

José Carlos Sant Anna

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cena 13

Para Joelma Bittencourt

As amoras,
para a minha surpresa,
amadureceram
de ontem para hoje.

Entre um silêncio e outro,
elas atravessaram os umbrais
da adolescência
e sufragaram o teu corpo,
lambuzando-o
com uma tal doçura,

que uma loucura me acode,
apesar da lonjura,
bem perto da cintura
sobre a linha do mar.

Sinto
a maciez da polpa das amoras
nos meus dedos
ou é a maciez do teu corpo
recostada na tarde de prazer? 

Alarga esta tarde,
vai,
te suplico, te imploro!
me ligo ao teu corpo
por essa ardência, essa sede;

me envolvo nas amoras
da tua lira,
me afogo na tua chama,
que me chama e me inspira.

São tuas
as minhas amoras
queimando
neste fogo de ervas
na claridade da tua lira?

Ou são tuas
a permanência clara
deste amador
banhando-se nas águas
das palavras 
do corpo luminoso do teu poema? 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Cena 12


Uma linha no fundo da agulha
cerzindo uma chuva miúda
em obstinado silêncio

vasculha 
as ausências traspassadas
no sonâmbulo dedo
que vagueia pelo alçapão da memória

Ocultando consigo
as teias dos naufrágios da linha
pouco a pouco engolfa 
no equilíbrio do fundo o tecido
de cetim negro

ziguezagueante agulha
na imersão da linha desenha
formas de diagramas da vida.

Enternecida a linha tolda a vista.


                  (José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Cena 11

foto capturada na internet
Essa migração
é uma dor que dilacera
névoa tangente, pedra dura
até chegar ao nada

nos corpos desavivados, nos lábios ressequidos
línguas que violam a  dor

fome afogada

ao sabor da água como se fosse alimento
os corpos nela espalhados

no licor do esquecimento 
são uma lição escatológica da vida 
em si mesma mitigada. 

         (José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Cena 10



Ao longe, as distantes avenidas percorridas ainda açulam a memória do último verão nas tardes do seu corpo de ninfa, com sabor de encantamento, até a chegada do crepúsculo e, como se fossem a sagração da primavera as tuas pétalas fascinadas com o rio que brotava do meu corpo ao teu, beijando-o ponto a ponto como um sol, do visível ao mais recôndito, pássaros na intimidade, caudal das nossas sedes, e palavras rasgando as dobras de um tempo derruído, antes que um beijo mais fundo pusesse em desalinho a loucura de mãos e bocas fulgurantes contornando a voragem do teu púbis ofegante. 


(José Carlos Sant Anna)



sábado, 12 de setembro de 2015

Cena 9


I

 “Vai nessa, meu broder, também vou aproveitar o seu sonho para fazer uma fezinha”.

    Puxou o lençol e, antes de dobrá-lo em quatro, utilizou-o para sacudir a poeira de cima da cama. Enquanto fazia isso, pensava nos ofícios do corpo, nos rituais do deitar-se para dormir para que o sono fosse o mais tranquilo e reparador possível. Depois se aproximou da janela fixando o olhar nas sombras das nuvens, sentindo o sangue correr pelas veias e, finalmente, foi deitar-se, convencido de que dormiria como uma pedra, em repouso absoluto.
      
       Não foi o que aconteceu. Ou foi?

    E nada de o sono chegar. Parecia que, sem qualquer aviso, ele se hospedara em outros aposentos. Então, Carlos rolou diversas vezes pela cama contando carneirinhos nas nuvens. Estes iam e vinham rapidamente, se atropelando e a tudo que iam encontrando pela frente, enquanto, outras vezes, cobriam o corpo dele com as suas lãs como se fossem tapetes.

    Não demorou muito e se acomodou em um deles e voou em direção à terra. Era um voo poderoso, só quebrado por mergulhos cortantes e lúcidas e famintas quedas por abismos.
      
       Vinha assim descendo a ladeira num trem sem roda, desgovernado, deixando-o atordoado sem saber se chegaria, com vida, a qualquer lugar que ele fosse.

   Parecia que estava sem freios aquele trem da noite, já beirando a madrugada. Na sua corrida louca, encontrou na primeira estação Seo Teteu, agora bem mais velho, mas ainda atrás de Maria. Aquela mesma Maria que o enchia de esperança quando entrava pelo meio da tarde na sua casa, aproveitando-se da ausência de sua mulher, dona Velha, que cuidava da outra casa em Maria Guarda, aquela ilhota quase desconhecida da Baía de Todos os Santos, deixando-o quase sempre sozinho por achá-lo já imprestável para tantas outras coisas.

    Todo mundo sabia o que Maria fazia quase todas as tardes na casa do velho porque ela mesma contava com riqueza de detalhes o quanto o deixava feliz, ao fazê-lo sentir um antigo calor entre as pernas. Fazia-o com desenvoltura e experiência de uma profissional. Parecia que tinha um manual de prazer nas mãos. Ia-lhe mostrando parcimoniosamente o corpo e ia apalpando o dele com maestria e leveza para que ele sentisse o calor das suas mãos em suas partes íntimas. Era o que bastava fazer-lhe para sair, dali, tendo nas mãos o rico dinheirinho da feira da semana, deixando o velho com a alma lavada e o corpo satisfeito. Todos na rua guardavam o segredo da felicidade do velho Teteu sem que a sua mulher – dona Velha –, desconfiasse do que acontecia enquanto ela estava cuidando da outra casa.

    Apesar do tácito acordo, quando alguém saía dos seus cuidados e dizia “que sem-vergonhice, Maria, bem esperta, está se aproveitando do velho direitinho, quando dona Velha voltar, vou contar-lhe tudo”, vinha logo outro e dizia “deixa a menina em paz, o que você tem com isso, são duas almas caridosas, estão numa troca de favores e, com esse dinheirinho, ela está garantindo o pão e a escola dos seus filhos”. E a conversa morria ali. Não se falava mais nisso por algum tempo.



    II
      
       Agora os profetas estão na igreja orando enquanto o trem segue o seu caminho sem fim, sobre os trilhos, mas sem as rodas, embasbacando Carlos, com aquele voo vertiginoso, sem saber se sonha enquanto dorme ou se delira com a insônia, mas sentia uma estação próxima, se fosse possível desceria porque estava assustado com a correria desenfreada.

    Um murmúrio aéreo já planava naquele mar íntimo quando a festa na casa de Dorminhoco terminou e a madrugada corria solta pela Rua da Jussara. Carlos ainda estava grudado em Cotoco, uma das netas de dona Velha e Seo Teteu, do outro lado da rua, quase em frente à sua casa, amassando-a como podia. Quanto mais ela fingia que tentava desvencilhar-se, dizendo-lhe que era tarde, afastando a sua mão boba, daqui e dali, mas ele a prendia entre as suas pernas e braços. Estavam nesse jogo, quando a luz da sala da sua casa, de repente, se acendeu. A porta se abriu e um vulto esgueirou-se porta fora.

    Cotoco prendeu a respiração e tentou disfarçar como se não tivesse acontecido nada. Mas Carlos não. Achou que seria a hora de se aproveitar para tirar um sarro da situação. Então, sussurrou no seu ouvido “você viu quem saiu da casa de sua tia? e a festa lá estava bem melhor do que essa aqui”. Provocante, Carlos acrescentou: “Acho que Antônio é amante de sua tia. Acho não, tenho certeza disso. Aposto que não é primeira vez que vocês saem para passear ou vão a uma festa, como a de hoje, e eles aproveitam para ficarem no bem-bom”. E quis levantar a sua saia.

    Carlos errou na dose porque ela amuou e não deixou mais que a sua mão se espraiasse pelo seu corpo, quis entrar logo em casa para que a sua tia soubesse que ela viu tudo. Também Carlos ficou sem saber se Cotoco encontrou sua tia na cama fingindo que dormia ou se a encontrou na cozinha, fagueira, tomando um café com o corpo ainda em brasa porque Cotoco pôs fim ao namoro, evitando encontrá-lo novamente.

    Pela manhã, quando levantou da cama, sua mãe perguntou-lhe porque não tinha chegado com a calça engomada. Ele respondeu que Antonio se interpôs no seu caminho e riu. E sua mãe fingiu que não entendeu nada, pois ela já sabia de tudo. Todos na rua sabiam. Quando a fome dos dois apertava, Antonio entrava pela janela do quarto da tia sem fazer barulho e, sem ruídos, se entregavam ao prazer da carne com as sobrinhas dormindo ao lado.

    Na rua, já corria a boca pequena que ele não fora o primeiro, que aquela janela sempre se abrira de madrugada. O irmão de Carlos fora um dos que pulara, embora ele jure de pés juntos que nunca atravessou os umbrais daquela janela.
   
    Quando a gravidez já não podia mais ser ocultada, Antônio já tinha mudado de endereço, fora para bem longe, já não se sabia o seu paradeiro havia muito tempo. O malandro a deixara com uma filha. Por outro lado, ela nunca mais abriria a janela de madrugada. O calor que a solteirona, como ela era conhecida, sentia em outros tempos parecia ter amainado com o nascimento da filha.

   III

       Mas todos sabem que a sombra é inevitável e começava um suor noturno como soturno era o trem resfolegando em plena madrugada. A próxima estação era logo ali, Carlos já pegava a sua sacola. O coração do trem estava histérico. No vagão restava apenas ele, que já se preparava para levantar quando entrou uma dama, formosa, sedutoramente vestida, bem parecia uma atriz do cinema americano. Ela vinha atravessando os vagões e se instala no de Carlos; depois de um desfile meneando o seu corpo e os cabelos, Carlos delira achando que aquele minuto já era uma eternidade.
   
    Como se não bastasse a música que vinha do corpo da dama, outra explode dentro do vagão. E ela começa uma dança, provocante, e dele se aproxima com requebros da cintura e meneios do corpo, deixando-o muito excitado; passa-lhe a mão no rosto, depois se enrosca no pole dance improvisado dentro do trem, roçando nele o seu clitóris. Sobe, desce e se contorce seguidas vezes. E geme. Aparecia na pele, no rosto, no corpo os laivos do gozo.

    Então, Carlos se lembra das confissões de adolescente de Lúcia G. que quase morreu atropelada roçando o dela no selim da bicicleta. Ela fazia isso todos os dias, contou-lhe depois, já adulta, mas, naquela manhã, parece que descobrira a posição exata para orgasmos sucessivos e só os interrompeu quando se estatelou no chão com a buzina de um carro nos seus ouvidos, os pneus cantando no chão de terra batida e os gritos do motorista, um senhor, perguntando-lhe se queria morrer.

    Refez-se do susto, apanhou a bicicleta, olhando fixamente para as escoriações da perna e correu para casa. Mas voltou ao prazer do selim no dia seguinte, agora numa rua mais recolhida, como lhe contou nas muitas sessões de intimidade, já adultos, que tiveram em tardes mornas na casa de praia da sua viuvez.

     Carlos deixa a memória divagar, mas não perde os movimentos da artista, que está cada vez mais próxima dele, puxando-o para si e arrastando-o para o piso do vagão. Agora eles resfolegam como o trem e se embaraçam nas próprias pernas e os sacolejos do trem ajudam no vaivém dos corpos. E ele lhe diz no ouvido “Demi” e ela diz “não, toda, nada de metade, toda, toda, meu gostoso”. E ele, Demi, non plus, e ela, “não, nada de metade, toda, meu  menino, não para, não para.”

    Acorda com movimentos de vaivém na cama, vira para o outro lado e dorme. Pela manhã, não pode deixar de lembrar-se de sua mãe quando descobre o tamanho da mancha na cueca.

    Saiu sem tomar café e foi direto para a sala de Jorge, mestre no jogo do bicho, contando-lhe em pormenores os sonhos. Ele ouve em silêncio e, depois de um tempo, faz a interpretação, atribuindo-lhe os animais e passando-lhe primeiro as três dezenas e, em seguida, os milhares. 


José Carlos Sant Anna