quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cena 1



Ainda me chegam postais de uma história que ensaia os primeiros passos, mas dizem tanto das madrugadas que já não sei o que tem se passado pelo gargalo das noites mal dormidas. Lá, como aqui, maresia e poesia andam de mãos dadas, mas deixam um punhado de interrogações. Por isso, deixo a janela filtrar os raios de sol, abro as cortinas do presente para que esses fios à espera, pressentidos, não me tragam uma nostalgia que lembre Pessoa, Camilo, Nobre, numa harmonia de versos dor mentes ou de inaudita dor. Na memória das palavras o silêncio míngua na ânsia de vê-la, e vela a minha pena ao sonhar em doce balanço o desfolhar dos dias por meridianos que se põem do outro lado de tudo ao saber que a mutualidade das palavras foi a argamassa que aprisionou os sentidos, tornando-os cativos desta afeição.

(José Carlos Sant Anna)


3 comentários:

  1. Amigo escritor,
    que texto maravilhoso!
    As interrogações ficam nas madrugadas,
    mas sempre fui apaixonada pelas noites!
    Aprendi a amar as manhãs, as tardes,
    a vida nos ensina e nos mostra outros caminhos!
    Bjos e lindo final de semana!
    http://www.elianedelacerda.com

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  2. Uma afeição registada nas palavras de postais que desconhecem fronteiras ou geografias.

    Fico-me na umbreira, sob a luz coada da cortina branca, a ouvir-te e sentir-te nesta 1ª cena.

    Beijinhos

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  3. Sua forma de escrever é sempre um presente para os sentidos, uma tentativa de entender através de telas pintadas em letras, seus sentimentos.
    Uma extraordinária semana para vc.

    Abraços

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