sábado, 1 de agosto de 2015

Cena 3



Para todo o sempre, é o que Marina diz para si mesma com o rosto encostado na vidraça da janela, enquanto a chuva se desembesta pela encosta do outro lado da rua. 
Há três dias que a chuva não dá trégua na cidade. Ilhada, como se encontra ali, agora, por conta da chuva, aproveita para se perguntar se ele a procurasse o que diria depois de tanto tempo esperando. Olhos nos olhos, a música de Chico não sai da sua cabeça quando pensa nessas bobagens dessa estrada poeirenta, ainda que literalmente a chuva não cesse de cair, entediando-a e convulsionando a cidade. Parece que o velho Pedro, muito ocupado com as coisas lá do céu, só agora ficou sabendo das suas tristezas e chora ininterruptamente há três dias, como se estivesse arrependido pela falta de solidariedade. E a Marina não falta vontade para dizer-lhe, do jeito que lhe for possível, que não há nada de novo para contar-lhe, que é tão pouca a sua alegria, mas vai vivendo sem perder um pôr-do-sol no porto da Barra, o velho porto da Barra, novinho em folha, depois da repaginada feita pelo pintor de rodapé, e diz ainda para si mesmo e, como se também o dissesse ao santo, que se a memória dói, é porque há lembranças, as cicatrizes ainda estão à flor da pele, mas só se fica sozinha nessa vida quando se quer. Pedro não esconde um sorriso. Ainda que não devesse, ela não esconde de ninguém que ainda tem a boca amarga, apesar dos anos que estão separados, porque, volta e meia, ele emerge nos seus sonhos com a sua boina e uma mala atulhada de roupas numa mão e, na outra, um cigarro que ele sai pitando pela porta entreaberta, do mesmo jeito que entrou. Ela não se conforma que tenha que conviver com esse fantasma, ouvindo os seus passos pelo corredor assoalhado da casa. Esconjura a chuva, mas, em passos lentos, se põe na rua trajando apenas um sobretudo sobre a roupa que veste, levando na mão uma Vuitton, único luxo que se permite, e vai andando pela tarde dispersando os hálitos da alma e, ao chegar ao primeiro cruzamento, aguarda do semáforo a luz verde para os pedestres; é a senha que precisava para tocar uma nova vida. Então, abre a bolsa e retira a sombrinha que estivera fechada durante a sua caminhada até o semáforo, e canta, e dança, e canta, e dança, sob os olhares atônitos dos passantes e motoristas, o clássico que foi imortalizado por Gene Kelly. 

(José Carlos Sant Anna)


15 comentários:

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  4. Eu não li, eu vi a cena e que bela criação, querido.Uma delicia de ler e a chuva lava mesmo a alma, levando consigo tudo que há de ruim em nós.

    Beijinho.

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  6. As cicatrizes da vida nem sempre saradas, feridas em chaga que não permitem o abandono que o esquecimento traz consigo.

    Felizes os que vivem, sentem...mesmo que essas existências doam como doença crónica.

    Gosto dos pormenores no feminino, revela como conheces a mente do género.

    Não sei porquê, mas viajei até às crónicas de Tão Preto, exímio contador de histórias, conheces?

    Beijinhos

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  7. Olá José Carlos!
    Novo blog? já adicionei aos meus links :)
    Se há coisa que eu adoro é chuva (desde que não tenha de sair). Aqueles dias frios, com a chuva caindo e eu quentinha debaixo dos cobertores é a melhor coisa do mundo ahaha
    Às vezes os fantasmas teimam em perturbar os nossos sonhos e a paz que outrora existia, dá lugar à tristeza. Que venha a chuva para lavar o sofrimento!
    Beijos

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  10. Boa noite :) passeando pelas páginas da amiga Céu! passei por aqui, li um texto bonito, tento colecionar textos bonitos de vários países para somar efeitos positivos que enchem a vida de amizade.
    a chuvinha tem o seu efeito delicioso nestes dias de grande calor que se fazem sentir neste Verão!
    deixo um abraço
    Angela

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  13. Venho desejar uma semana muito feliz e cheia de encantos :)
    abraços
    Angela

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  14. É sempre bom revisitar 'cenas' repletas de emoção e pormenores.

    Beijinhos

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  15. Você aguça nosso olhar de águia e assim, vemos além do que você diz... Todas as suas Cenas, são muito belas.
    Ah! José Carlos, li e reli o seu último comentário em forma de parábola e confesso, o seu significado fugiu do meu humilde entendimento... Pôxa! E agora...?
    Beijão!!!

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