sábado, 5 de setembro de 2015

Cena 8


I

eu não sei bem em que, 
eu já disse

por aquilo 
que já me outorgara 
esse material 
afetivo, 

eu não sei bem em que 
e ponto final. 


II

mas, talvez, talvez 
– quem sabe?

é o meu modo de falar 
aqui deste púlpito, 

esta breve homilia, 

[o papa Francisco ficaria com inveja]

para dissecar
uma vida simples, 
cheia de equívocos, 

Por certo, deixá-lo-ia de queixo caído, 

sem pausa ou vírgula, 
entre as proposições 
de um catecismo
voluptuoso 

e depois
eu só posso aceitar com resignação 
que o engov esquecido na lapela
do meu casaco

seja um armistício 
entre o meu corpo e a tua sede, 


porque sem o malte gelado
as nossas opacas línguas 
são um passatempo 

no arraial

que margeia as ondas 
de volúpias 
nas curvas do teu corpo 

ao ver-te passar 
na orgia dos meus olhos, 
onde outras virgens 
em lânguido murmúrio, 
abraçadas ao travesseiro, 

clamam, 

[como já clamaram
outras tantas vezes],

em incógnita dúvida, 
o húmus fatal. 


III

eu não sei bem em que, 
eu já disse, 

mas aquele rapto 
cinematográfico 
feito na sombra da madrugada 
fora 
o mais bem planejado 
que eu já vira. 

e, sem nenhuma urdidura, 
a trama 
se fez aos pés das palmas da plateia 
e sob as palavras

[as minhas, sem dúvida]

que se desatavam 
como se os meus membros 
ainda fossem livres, 

mas não voavam, 
embora cantassem sem cessar
a melodia do gozo. 

pois é assim, 
há dias sem sol

é quando inventamos 
novos paradigmas 
no ofício secular 
para a nudez dos corpos, 

para as margens dos dias, 
e as madrugadas de prosa gasta, 
que nem mesmo as pétalas digitais 
pousam no paraíso, 

adiando a minha voracidade canina. 


IV
eu não sei bem 
o porquê, 

mas  ainda é bem vívido
o beijo da mulher 
feita ao amanhecer do dia. 

a vida é assim 
passo a passo 
num vaivém

de rezas vestidas de sombras 
e de sol 

para que a conheçam 
por dentro 
em silencioso desassossego.

(José Carlos Sant Anna)



17 comentários:

  1. E eu me delicio com a sua poesia...

    "pois é assim,
    há dias sem sol

    é quando inventamos
    novos paradigmas
    no ofício secular
    para a nudez dos corpos,

    para as margens dos dias,
    e as madrugadas de prosa gasta,
    que nem mesmo as pétalas digitais
    pousam no paraíso,

    adiando a minha voracidade canina. "

    É maravilhoso te ler, José Carlos.

    Beijos.

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  2. Tu dizes não saber e colocas um ponto final deixando um punhado de interrogações no passeio de mãos dadas da poesia e da maresia, e tentas até atravessar um oceano através das ondas que lavram um céu coalhado de hibiscos enquanto sentes o oxigênio infiltrar-se nas tuas veias fatigadas, justo no momento em que pensas na Marina ouvindo os passos de um fantasma a percorrer o corredor assoalhado da casa. E tu a vês em passos lentos andando pela tarde e de repente tu nos fazes participar de um belo momento vivido pela tua Marina, quando nos torna expectadores como os passantes e os motoristas a olhar extasiados a sua dança e seu canto que nos reporta ao clássico imortal onde o Gene Kely rouba a cena... Seria a Cena 4?
    Seria ela que nos diria mais sobre a Marina? E a música se dilui e nos deixa também a escutar lençóis e fronhas se ondularem em águas que não se cansam e te fazem inquieto ao perceber nas auroras a inexistência de um amanhecer promissor. E diante desse horizonte fechado em cinza onde as palavras proíbem as sutis farpas tu ficas a arrastar para debaixo do tapete as fissuras de um caso ao mesmo tempo em que bolera uma canção de tédio num idioleto que parece marcar no muro o que restou da utopia após os enganos dos banquetes. A vida é mesmo assim passo a passo num vai e vem, pois só assim a conheceremos por dentro e mesmo que em silencioso desassossego inventamos novos paradigmas para as margens dos dias,
    e as madrugadas de prosa gasta.
    Mas ainda que seja bem vívido o beijo da mulher feita ao amanhecer do dia, mesmo com as rezas vestidas de sombras e de sol e mesmo que a tua breve homilia seja o teu modo de falar aqui neste púlpito para dissecar uma vida simples e cheia de equívocos, fico em dúvida se o papa Francisco ficaria mesmo com inveja... Acredito mais numa censura (para não dizer excomungamento) quando tomasse conhecimento dos outros versos de cunho sensual/voluptuoso/libidinoso/lascivo que nós outros tanto admiramos nos teus poemas de belas imagens de sensualidade e lirismo. A ele chegariam como um insulto aos bons costumes e à moral.
    Meu querido, estou aqui rindo do final do meu comentário que, mesmo a título de gracejo, demonstra bem a severidade da igreja em determinados assuntos.
    Quero também me desculpar por ter parafraseado as tuas “Cenas” que me trouxeram momentos de deleite e ampliaram a admiração que tenho por ti. Estou aqui frente à tela há um bom tempo, inebriada com as postagens que ainda não tinha visto, e de repente senti vontade de comentar todas fazendo uma interpretação pessoal.
    Se fui invasiva, peço desculpas, mas não tive a intenção de “macular” os teus escritos. Prezo por demais a produção literária dos amigos de quem gosto e admiro, assim como tu.
    Aqui da minha janela diviso uma noite onde a lua desfila pelo espaço indiferente às dores e aos amores que margeiam a alma de quem, ainda acordado, passeia por lembranças que estão sempre se renovando...
    Grata, meu querido, pelos momentos que aqui passei e ao me despedir deixo um beijo do meu para o teu coração, desejando que os sonhos que agora povoam a sua mente sejam colocados para muito além das estrelas, pois assim ninguém ousará roubar os tesouros da tua alma.
    Com carinho,
    Helena

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  3. Não diria que não sabes.

    As tuas palavras vão revelando aos sentidos tudo o que há para se saber, das homolias aos porquês.

    Esta 'cena' vou guardar pois é deliciosa de se reler.

    Beijinhos

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  4. Eu não sei bem,amigo,
    mas sinto a paixão rondar sua pele e seu coração meio acelerado como um adolescente.
    Eu não sei bem se vale a pena saber o porquê, ou por quem?
    bjos,amigo poeta!
    Lindo!!!!
    http://www.elianedelacerda.com

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Meu querido amigo, passei por aqui buscando por uma nova postagem. Não encontrando, reli algumas das tuas "cenas", e estou deixando um afetuoso abraço no desejo de uma serena noite de lindos sonhos.
    Helena

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  12. Boa fita para cinéfilo entender
    que com palavras se fazem imagens.

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  13. Ah! Se eu pudesse também, subir em um púlpito e depois de arrebentar o bom senso, gritar coisas até hoje indizíveis, corajosas, sem medo... Ufa! Que bom seria :)...
    José Carlos, beijos...claro, com gostinho de amoras!

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  14. Há quem comente aqui em poesia :)
    Há quem interprete seus versos de forma tão sutil e elegante como vc escreve.
    Eu só digo o que posso, o que sinto no mais fundo da emoção: incrivelmente belo, instigante, inspirador!
    Deixo beijos e votos para um domingo perfeitamente feliz

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  15. Não que não tenha palavras onde ainda não me embrenhei nesses teus labirintos. É só pq adoro me perder neste aqui, um verdadeiro primor onde não dá vontade de achar a saída.
    Abraços, amigo... tenha um lindíssimo dia

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  16. ...e ainda há quem julgue a poesia, como a parente pobre da literatura!
    Aqui podemos ler textos, de grande nível literário e poético.

    E isso eu sei que sabe!

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