I
eu não sei bem em que,
eu já disse
por aquilo
que já me outorgara
esse material
afetivo,
eu não sei bem em que
e ponto final.
II
mas, talvez, talvez
– quem sabe?
é o meu modo de falar
aqui deste púlpito,
esta breve homilia,
[o papa Francisco ficaria com inveja]
para dissecar
uma vida simples,
cheia de equívocos,
Por certo, deixá-lo-ia de queixo caído,
sem pausa ou vírgula,
entre as proposições
de um catecismo
voluptuoso
e depois
eu só posso aceitar com resignação
que o engov esquecido na lapela
do meu casaco
seja um armistício
entre o meu corpo e a tua sede,
porque sem o malte gelado
as nossas opacas línguas
são um passatempo
no arraial
que margeia as ondas
de volúpias
nas curvas do teu corpo
ao ver-te passar
na orgia dos meus olhos,
onde outras virgens
em lânguido murmúrio,
abraçadas ao travesseiro,
clamam,
[como já clamaram
outras tantas vezes],
em incógnita dúvida,
o húmus fatal.
III
eu não sei bem em que,
eu já disse,
mas aquele rapto
cinematográfico
feito na sombra da madrugada
fora
o mais bem planejado
que eu já vira.
e, sem nenhuma urdidura,
a trama
se fez aos pés das palmas da plateia
e sob as palavras
[as minhas, sem dúvida]
que se desatavam
como se os meus membros
ainda fossem livres,
mas não voavam,
embora cantassem sem cessar
a melodia do gozo.
pois é assim,
há dias sem sol
é quando inventamos
novos paradigmas
no ofício secular
para a nudez dos corpos,
para as margens dos dias,
e as madrugadas de prosa gasta,
que nem mesmo as pétalas digitais
pousam no paraíso,
adiando a minha voracidade canina.
IV
eu não sei bem
o porquê,
mas ainda é bem vívido
o beijo da mulher
feita ao amanhecer do dia.
a vida é assim
passo a passo
num vaivém
de rezas vestidas de sombras
e de sol
para que a conheçam
por dentro
em silencioso desassossego.
(José Carlos Sant Anna)
E eu me delicio com a sua poesia...
ResponderExcluir"pois é assim,
há dias sem sol
é quando inventamos
novos paradigmas
no ofício secular
para a nudez dos corpos,
para as margens dos dias,
e as madrugadas de prosa gasta,
que nem mesmo as pétalas digitais
pousam no paraíso,
adiando a minha voracidade canina. "
É maravilhoso te ler, José Carlos.
Beijos.
Tu dizes não saber e colocas um ponto final deixando um punhado de interrogações no passeio de mãos dadas da poesia e da maresia, e tentas até atravessar um oceano através das ondas que lavram um céu coalhado de hibiscos enquanto sentes o oxigênio infiltrar-se nas tuas veias fatigadas, justo no momento em que pensas na Marina ouvindo os passos de um fantasma a percorrer o corredor assoalhado da casa. E tu a vês em passos lentos andando pela tarde e de repente tu nos fazes participar de um belo momento vivido pela tua Marina, quando nos torna expectadores como os passantes e os motoristas a olhar extasiados a sua dança e seu canto que nos reporta ao clássico imortal onde o Gene Kely rouba a cena... Seria a Cena 4?
ResponderExcluirSeria ela que nos diria mais sobre a Marina? E a música se dilui e nos deixa também a escutar lençóis e fronhas se ondularem em águas que não se cansam e te fazem inquieto ao perceber nas auroras a inexistência de um amanhecer promissor. E diante desse horizonte fechado em cinza onde as palavras proíbem as sutis farpas tu ficas a arrastar para debaixo do tapete as fissuras de um caso ao mesmo tempo em que bolera uma canção de tédio num idioleto que parece marcar no muro o que restou da utopia após os enganos dos banquetes. A vida é mesmo assim passo a passo num vai e vem, pois só assim a conheceremos por dentro e mesmo que em silencioso desassossego inventamos novos paradigmas para as margens dos dias,
e as madrugadas de prosa gasta.
Mas ainda que seja bem vívido o beijo da mulher feita ao amanhecer do dia, mesmo com as rezas vestidas de sombras e de sol e mesmo que a tua breve homilia seja o teu modo de falar aqui neste púlpito para dissecar uma vida simples e cheia de equívocos, fico em dúvida se o papa Francisco ficaria mesmo com inveja... Acredito mais numa censura (para não dizer excomungamento) quando tomasse conhecimento dos outros versos de cunho sensual/voluptuoso/libidinoso/lascivo que nós outros tanto admiramos nos teus poemas de belas imagens de sensualidade e lirismo. A ele chegariam como um insulto aos bons costumes e à moral.
Meu querido, estou aqui rindo do final do meu comentário que, mesmo a título de gracejo, demonstra bem a severidade da igreja em determinados assuntos.
Quero também me desculpar por ter parafraseado as tuas “Cenas” que me trouxeram momentos de deleite e ampliaram a admiração que tenho por ti. Estou aqui frente à tela há um bom tempo, inebriada com as postagens que ainda não tinha visto, e de repente senti vontade de comentar todas fazendo uma interpretação pessoal.
Se fui invasiva, peço desculpas, mas não tive a intenção de “macular” os teus escritos. Prezo por demais a produção literária dos amigos de quem gosto e admiro, assim como tu.
Aqui da minha janela diviso uma noite onde a lua desfila pelo espaço indiferente às dores e aos amores que margeiam a alma de quem, ainda acordado, passeia por lembranças que estão sempre se renovando...
Grata, meu querido, pelos momentos que aqui passei e ao me despedir deixo um beijo do meu para o teu coração, desejando que os sonhos que agora povoam a sua mente sejam colocados para muito além das estrelas, pois assim ninguém ousará roubar os tesouros da tua alma.
Com carinho,
Helena
Não diria que não sabes.
ResponderExcluirAs tuas palavras vão revelando aos sentidos tudo o que há para se saber, das homolias aos porquês.
Esta 'cena' vou guardar pois é deliciosa de se reler.
Beijinhos
Eu não sei bem,amigo,
ResponderExcluirmas sinto a paixão rondar sua pele e seu coração meio acelerado como um adolescente.
Eu não sei bem se vale a pena saber o porquê, ou por quem?
bjos,amigo poeta!
Lindo!!!!
http://www.elianedelacerda.com
Maneiro. Lirismo eloquente.
ResponderExcluir=)
Meu querido amigo, passei por aqui buscando por uma nova postagem. Não encontrando, reli algumas das tuas "cenas", e estou deixando um afetuoso abraço no desejo de uma serena noite de lindos sonhos.
ResponderExcluirHelena
Boa fita para cinéfilo entender
ResponderExcluirque com palavras se fazem imagens.
Ah! Se eu pudesse também, subir em um púlpito e depois de arrebentar o bom senso, gritar coisas até hoje indizíveis, corajosas, sem medo... Ufa! Que bom seria :)...
ResponderExcluirJosé Carlos, beijos...claro, com gostinho de amoras!
Há quem comente aqui em poesia :)
ResponderExcluirHá quem interprete seus versos de forma tão sutil e elegante como vc escreve.
Eu só digo o que posso, o que sinto no mais fundo da emoção: incrivelmente belo, instigante, inspirador!
Deixo beijos e votos para um domingo perfeitamente feliz
Não que não tenha palavras onde ainda não me embrenhei nesses teus labirintos. É só pq adoro me perder neste aqui, um verdadeiro primor onde não dá vontade de achar a saída.
ResponderExcluirAbraços, amigo... tenha um lindíssimo dia
...e ainda há quem julgue a poesia, como a parente pobre da literatura!
ResponderExcluirAqui podemos ler textos, de grande nível literário e poético.
E isso eu sei que sabe!