sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Cena 12


Uma linha no fundo da agulha
cerzindo uma chuva miúda
em obstinado silêncio

vasculha 
as ausências traspassadas
no sonâmbulo dedo
que vagueia pelo alçapão da memória

Ocultando consigo
as teias dos naufrágios da linha
pouco a pouco engolfa 
no equilíbrio do fundo o tecido
de cetim negro

ziguezagueante agulha
na imersão da linha desenha
formas de diagramas da vida.

Enternecida a linha tolda a vista.


                  (José Carlos Sant Anna)

12 comentários:

  1. Nossa, José Carlos!
    Um poema grandioso, comentá-lo é se perder nas
    palavras desnecessárias...
    Adorei o sentir poético (uma beleza encantadora), a
    forma estrutural e a filosofia presente nele.
    Internamente me apropriei como se fosse meu, de
    tanto que gostei...
    Lembraste um amigo meu, o Poeta Audálio Alves (já falecido)
    que fez parte da Academia de Letras de Pernambuco.
    Grata por esta leitura preciosa!!
    Abraço de paz.

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  2. Do novelo k não se encontra a ponta, passámos à linha no fundo de uma agulha. Bem mais fácil, que encontrar uma em palheiro, como se diz por cá, mas a chuva molha, salpica as lentes, as da alma, k parece estar descontraída, desatenta, esquecida, aliando-se ao propositado silêncio, para ver se os olhos, o peito da alma, reflete, mais uma vez, desperta e se verga.

    São as pequenas coisas, as singularidades, aquilo k à primeira vista, parece nem "tugir nem mugir" com nossos sentidos, com nossos sentires, que mais perturbam nossos dias e noites, que agora são ainda mais insones, e em k os dedos, mesmo de "olhos" cerrados, sabem, exatamente, o caminho k tanto desejam seguir, tateando cantos, recantos, curvas, becos, encantos, buracos, sinais e tudo mais, k nosso relicário acaricia e guarda, tão ordenadamente.

    A caravela vai continuando, assim, meio à toa, e os "panos" dela, seja qual for sua cor, estão loucos e querem se soltar. Que fazer? Onde está a tua mão? No leme, no comando, "meu" amor!
    É. Deusa é ser mulher muitas vezes, e sempre sabe enfrentar e "beijar" os alísios e contra-alísios, as tempestades, as correntes contrárias, os Adamastores, enfim, seja lá o k for.

    E é nessa linha, que parece serpente, que a gente sacode as escamas do pesar, alinhava os passos bem definidos a dar, pra gente depois se coser e se amar nesse esquema, k só a gente sabe engendrar. E a linha envergonhada, mas enlevada amolece e se deixa levar.

    Bom fim de semana, José Carlos!

    Abraços.

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  3. Escrito com bastante ternura, lembrou-me Penélope de Ulisses, na Odisseia.

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  4. Poema enorme, José Carlos. Maravilhoso esse sentir. Cerzindo vamos passando a vida a limpo e encobrindo o que não podemos mudar. Adorei!

    Beijinho, querido.

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  5. Português do Brasil ou Português de Portugal? Você compreende os dois, mas "em Roma, sê romano"!

    Tenho andado por aqui, às voltas, procurando a ternura, mas aquela "safada" parece que sumiu. Sabe se ela se escapuliu pra essas bandas, daí? Se foi, então, me mande, por favor, um pouquinho dela. Pode enviar ela por mar, por terra ou pelo/por ar, k eu estou já esperando ela. Ah, depois, vou ter uma conversinha de pé de orelha com essa "minina", vou, vou!

    Estava agora aqui pensando que, se calhar, ela se meteu no buraco da agulha, estabelecendo diálogo com a linha, que não está por um fio, e daí, ela se esqueceu de seu devido lugar.
    Bem, se ela, ternura, estiver cerzindo sua face, seu corpo, então, aí, eu me calo e fico serena. Descobri! Vocês estão os dois naquele alçapão, muito silenciosos e ela para acariciar você se faz de sonâmbula. Já entendi tudo, José Carlos!
    Que naufrágios? Vocês estão no "bem bom" e eu, aqui, feita boba, preocupada e ansiosa!

    Até fazem ziguezagues! Vixe Maria! Quem diria! Claro que já estão imersos, submersos, fundidos um no outro, com as vistas toldadas, enternecidas de tanto gozo, meio louco e todo em alvoroço. Cadé os seus óculos, "minino"? Nem sabe, né?

    Uma noite feliz.

    Abraço afetuoso ("sem" ternura, mas paciência).

    PS: já não lembra de minha cara, olhos, quero dizer? É normal e natural, pke a gente já não se fala há quatro dias. Sou a Céu. Agora já se fez "luz" em sua mente?
    Ainda bem!

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  6. Levou-me a refletir e me encantou!!! Parabéns por seu enorme talento e sensibilidade! abraço, ania..

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  7. Espero que você já se encontre melhor, José Carlos!

    Tenha atenção à exposição ao sol. Agora, é tempo de gripes.

    Abraço afetuoso.

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  8. Lembrei-me de uma cena que era constante na nossa casa quando a minha avó começava a bordar suas lindas toalhinhas de bandeja, um barrado numa toalha ou uma gola para colocar num vestido, sentada confortavelmente numa cadeira de balanço. Eu, com os meus 10 anos, a olhá-la com a ternura de uma neta que vê na avó uma figura mágica, capaz de sarar uma dor com um simples beijo e de fazer magias na cozinha ou com uma agulha a trabalhar no bastidor. Eu ficava observando-a tentar várias vezes enfiar a linha numa agulha pequenina e me oferecia para ajudá-la, mas ela sempre agradecia e recusava, até que um dia descobri na sua caixa de costura um aparelho pequenino feito de alumínio e ela me esclareceu que era um passador de linha e me explicou como funcionava. Eu fiquei sem entender porque ela enfiava a linha com dificuldade se podia usar o tal aparelhinho. Ela me olhou com suavidade e respondeu que para os pequenos obstáculos a gente devia usar sempre os próprios recursos. E quando indaguei como se deveria fazer com os grandes obstáculos e ela respondeu mansamente que para os grandes obstáculos deveríamos também usar os próprios recursos, e só buscar ajuda de uma outra forma quando todos os nossos recursos tivessem se esgotados. Essa e muitas outras lições foram sendo atualizadas por meus pais através dos anos.
    A linha do teu poema “cerzindo uma chuva miúda em obstinado silêncio” vasculhou em mim as “ausências traspassadas que vagueavam no meu “alçapão da memória” e a linha enternecida toldou-me a vista de lágrimas de saudade de uma pessoa que tanto representou para mim
    Belíssimo poema, meu querido. Grata por trazer-me uma doce lembrança.
    Beijos

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  9. Belíssimo!
    Nada mais direi, para não ofuscar o brilho do poema.
    Beijo!

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  10. Decididamente, hoje faço qualquer coisa pra te ver... Lambuzo-me na doçura das amoras e assim lubrificada, passo pelo buraco dessa agulha, se preciso for...
    É sério!
    Hahaha, abraços, José Carlos!!!

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  11. A chamada da agulha e da linha em movimento oscilante é genial,a traduzir o "diagrama da vida" na perfeição.
    Abraço

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  12. Ziguziguezagueando por aqui para encantar meu dia.
    Trouxe um pedaço de linha para que sua inspiração seja sempre iluminada.
    Tenha um lindo fim de semana, amigo.
    Abraços

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