Agora
estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de
adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda
que não o negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim. O que faço, então? Visto-as sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um
adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido porque não quero gastá-los e, quase
sempre, o faço em dia de festa quando os meus pés ruidosamente os acolhem com meias
de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos
sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem
que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho.
Ah! E a areia! As andanças! A corda de enforcado! Como eu não queria este devaneio agora,
esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, sim, escancarada mas ensolarada, como o
diabo gosta. A promessa de espuma alvíssima, o mar batendo na amurada do cais, a leve
impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em
plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga
no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros
do navio na baía onde se lê Mar del Plata, e a bandeira azul e branca, de los hermanos, tremulando no mastro, os fictícios
tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com
taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no
entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela, a noite
passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala
encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se
despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos passeiam pela grama do
meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a
policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce.
(José Carlos Sant Anna)
Me identifiquei com essa cena, José Carlos. As vezes não sei como não enlouquecemos com tantos pensamentos... Leitura fantástica.
ResponderExcluirBeijinho.
Tem sido um grande prazer te ler.
ResponderExcluirCada visita é uma surpresa. Fico grata por ter descoberto seu blog, sr.
Meus respeitos
Um despojamento luminoso, guardando a preciosa alegria
ResponderExcluire a vivência de gestos únicos de uma sabedoria de autodefesa
neste mundo, muitas vezes hostil.
Alma de poeta é assim, libertária em sua originalidade:
"Ainda que não o negue, cresci o bastante, e as roupas
já não cabem em mim. O que faço então? Visto-as
sem nenhum pudor."
A mente povoada pelas entradas intrusas de
tentativas preocupações, mas o sentir do poeta
dançando ao som da harpa nas vibrações de
reencontro à sua musa desenhada na cena:
"Uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre
uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos
restos da nossa última ceia."
Com a "caixa de lápis de cor", o poeta ficará sempre
pronto a colorir e a inscrever as suas belíssimas
cenas a desarrumar a monocromia do mundo...
Adorei!!
Abraço, José Carlos.
Millôr Fernandes disse uma frase que é verdade: "O chato de envelhecer é que a gente não envelhece.".
ResponderExcluirOI JOSÉ CARLOS!
ResponderExcluirUMA DIVAGAÇÃO, NUM DAQUELES DIAS EM QUE, TEMOS DE IR, SEM SABERMOS AO CERTO PARA ONDE.
ENVELHECER É UMA ARTE, NA QUAL NUNCA QUEREMOS SER OS PROTAGONISTAS, MAS, TODOS O SEREMOS, NUM MOMENTO QUALQUER E NEM NOS DAREMOS CONTA.
MUITO BOM TEU TEXTO.
ESTOU TE SEGUINDO E PRETENDO AQUI VOLTAR.
ABRÇS
-http://zilanicelia.blogspot.com.br/
As cores precisam ser retocadas de vez em quando. Com o passar do tempo, perdem o brilho e como uma tatuagem gasta, precisam de um novo retoque.
ResponderExcluirAbraços e beijos!
OI JOSÉ CARLOS!
ResponderExcluirRELENDO E TE DEIXANDO MEUS VOTOS DE UM BELO DOMINGO.
ABRÇS
-
http://zilanicelia.blogspot.com.br/
Pois, eu digo que você bordou muitíssimo bem, com dedos hábeis e com linhas de seda de diversos matizes, os pensamentos que foram brotando de suas lembranças. Não, não procure a caixa de lápis de cor, suas idéias formaram um belo e já colorido arco-íris....
ResponderExcluirBeijos, José Carlos!!!
Por vezes, o que nos rodeia é tão asfixiante que vai desbotando, passo a passo, as cores com que nos fomos construindo... Mas o seu mundo tem muita cor, José Carlos!
ResponderExcluirUm abraço
¡Hola, José Calos!!!
ResponderExcluirNos dejas un bello texto poético, hilvanando con suma constancia cada linea de tu poema, dejando salir del alma tus sentimientos dibujados y guardados, tal como ese zapato y otras cosas que se quedaron por el camino o guardadas en el albergue de tu corazón de poeta.
No sé porque, mas siempre llevamos dentro del alma, episodios del pasado, alguno digno de un recuerdo, pero otros quizás quisiéramos olvidarlos.
Y como broche final de veintiocho quilates, estos versos que te he copiado.
Os lobos passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce.
Te dejo un aplauso prolongado, y se abre el telón de nuevo para volver a leerte.
Fantástico poemazo, Poeta grande. Felicidades.
Un abrazo junto a mi gratitud y mi estima.
Que ese arco iris brille en tu vida como el sol de un medio día. Te dejo mi gratitud de nuevo, Poeta.
ResponderExcluirSe feliz.
O que eu gostei desta, a do sapato de estimação, cozido à mão. Coisa rara este cirandar no calçadão, mesmo que uma areia(zinha) venha fazer erosão na paciência do entardecer.
ResponderExcluirNão tem problema, pois, o José Carlos senta-se um pouco, vê se amoras há nas redondezas da esplanada. Vai um suco? pergunta alguém e, enquanto isso, descalça, tira a meia branca, de algodão, e, quem sabe, uma massagem não vá facilitar a mecânica: descalça-calça-descalça-calça....
Não interessa como fica calçado ou descalço o sapato. O que interessa é o suco.
Li tudo o que estava por ler. Poesia com amoras, frémitos e ardores de amores.
Magistral!
Texto maravilhoso,amigo escritor!!!!!
ResponderExcluirreflexão pura!!!!!
Muitas vezes nos perdemos nos pensamentos!
Bjos,amigo
http://www.elianedelacerda.com
Bom dia José.
ResponderExcluirUm texto que descreveu pensamentos brotando de suas lembranças, assim eu creio que tenha sido. Escreve muito bem, logico que sabe disso rsrs. Um feliz fds. Beijos.
¡Hola José!
ResponderExcluirDe nuevo releo tu texto que voy entendiendo un poco mejor: y si no me equivoco es una acertada y silenciosa critica... Denuncia, literaria, sobre la que estoy totalmente de acuerdo y te felicito.
Te copio esta bonitas letras que nos hablan de una realidad que el poeta expresa con dignidad y talento.
O ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando.
Es una bella prosa, todo el texto entero.
Mi enhorabuena.
Un abrazo y buen fin de semana.
Uma formidável torrente de pensamentos e sentimentos... em que só quem está dentro do convento... é que saberá, o que lá vai por dentro...
ResponderExcluirUm manancial de cores, odores, texturas, sensações e sensibilidades... para colorir uma manhã de sábado... mais uma... cá por dentro...
Extraordinário o texto, José Carlos!
Abraço
Ana