quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A dançarina



Por onde anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
nos lábios acesos e no ar compungido 
o melífluo jeitinho de corça 
me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes revelavam
o desejo ainda entranhado na sua pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar este rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha. 

(José Carlos Sant Anna)

13 comentários:

  1. ai a saudade!
    A dança hipnotiza, inebria e vicia. Haja vontade e desejo!
    Beijos e abraços Carlos

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  2. Émily, então, nunca se foi.
    Abraços, João!

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  3. Gostei muito dos "ombros arfantes", em sintonia com a tarde de Janeiro "arfando a chuva de Verão", exigindo o esculpir de Émily. Mas uma dançarina com jeito de corça e ar "compungido" poderá ter tendência a assustar-se e fugir, apesar dos "lábios acesos". Contudo, quando o ar irrompe fortemente e o corpo se engrandece, melhor esquecer as interrogações. E se a ilha ficou distante, quem sabe não existe uma ilha mais próxima, e com maior acessibilidade?...
    Lavar pratos sozinho pode ser realmente um acto de grande solidão.
    Foi assim que li o poema.
    Bom fim de semana!
    xx

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  4. A saudade... é sempre o preço a pagar pelos momentos memoráveis, em nossa vida... mas mesmo quando se vão... vale a pena, senti-la!
    Triste... é não ter o que recordar...
    Adorei o poema, Carlos!
    Abraço! Um óptimo final de semana!
    Ana

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  5. Por onde andas?

    Por entre arfares e ensejos esculpidos em enstantes que se eternizam na lembrança cicatrizada por entre livros e pratos.

    Perco-me nesta demanda.

    Beijos

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  6. Momentos que marcam, que deixam rasto, que enaltecem as brisas...
    A descrição, muito física, vem do fundo da alma, numa amálgama conciliável.
    Muito bem, José Carlos!

    Abraço

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  7. Me encantaron estos versos:

    ...la bocanada de aire que entraba por la ventana
    fresca brisa que viene del mar
    cortar el silencio...

    Ese silencio que puede escucharse tantas veces sin palabras.

    Un placer leerte amigo, me encantan tus visitas a mi blog.

    Un beso enorme.

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  8. Ah, quando esta Emily entrou por aquela porta trazendo um aroma e um rumor nos lábios acesos e um jeitinho de corça com os ombros arfantes e o desejo ainda entranhado na pele, nunca poderia pensar que um dia estaria sendo lembrada num poema...
    E entre estes dois momentos, por onde terá andado a Emily?
    Lembrará também daquele janeiro ardente onde suas formas delicadas foram esculpidas numa tarde de chuva de verão derramada em cântaros de cerâmica portuguesa... O que terá ela pressentido que a fez dizer ser aquela a última vez que os dois se viam? Faltaram palavras e talvez também tenham faltado gestos. E a palavra emudecida e o gesto não esboçado fazem hoje com que estejas sozinho a lavar os pratos sentindo o “desejo e uma saudade que se esboçam na nascente dessa ilha”...
    Ah, meu amigo, muitas vezes por falta de uma palavra ou de um gesto ficamos a amargar uma saudade que fica como um espinho cicatrizado na carne e que de vez em quando ainda fere...
    Meu querido, junto dos agradecimentos por todo o carinho e atenção dispensados mesmo na minha ausência, quero deixar sorrisos, quero deixar estrelas, e quero deixar meu carinho,
    Lena

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  9. Ah, poeta amigo como gosto de te ler...
    Tu tens aquele dom do poeta e do excelente escritor,
    que sabe contar uma boa história, descrever uma cena
    no ritmo do encantamento...
    Pois, bem. A Émily é aquela dançarina que sabe
    o que quer, dona da sua dança sedutora que harmoniza
    com o teu ritmo poético. Deixa-se uma pista:"cerâmica
    portuguesa"...rss
    Quanto a porta fechada, as vezes volta a se abrir
    para um segundo momento da dança...
    Na questão de lavar prato, fez eu me lembrar de uma
    amiga (tínhamos o humor e curiosidade sobre as palavras
    em comum) e ela comentado sobre gostar de lavar pratos,
    que significava uma terapia e na mesma hora nos olhamos
    numa explosão de risada com o fato da palavra, tera-pia,
    ou seja, a terapia da pia e sempre mencionávamos quando
    estávamos lavando pratos, fazendo "terapia"...rss
    Tu estavas fazendo "terapia" e nas ondas do pensamento:
    A Émily dançando para ti...rss
    Desculpa a partilha das minhas bobeiras (percebo que
    tu tens senso de humor também).
    Afetuoso Abraço, José Carlos!

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  10. Por onde andará, Émily,
    de paradeiro incerto?
    A ensaiar coreografias
    em saltos de corsinha.
    Quem sabe se já por perto...

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  11. Vim deixar meu bom dia enquanto me (re)encanto com Émily.
    Para vc, beijos

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  12. Vindo visitar e agradecer por toda a gentileza de suas visitas e pelo tempo a mim dispensado, além desta porta aberta em sua nobre casa; isso não tem preço e, repito, é honra para mim.
    Beijos e que seu fim de semana seja repleto de alegrias

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