quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

D. Maria


 OI, MULHER, POR ONDE você andava? Estava sentindo a sua falta, sabia? Você está tão bonita!...
    Lua recuou ligeiramente quando aquela senhora lhe dirigiu a palavra com um sorriso que ia de um canto ao outro da boca, dizendo-lhe palavras amáveis, carinhosas. Em seguida, ela recobrou a fidalguia e o domínio da situação e lhe respondeu também com um largo sorriso, que se espalhou por todo seu rosto.
    A verdade é que se não ela reagisse dessa maneira não seria a Lua, que todos nós conhecemos. Assim, ela retribuiu a candura das palavras, sim senhor, a candura das palavras da sua interlocutora:
    – Estou por aí, mulher, você é que anda sumida. Volta e meia, eu passo pela tua praça. Sempre vejo você por lá, distraída, tricotando a vida e as suas roupas...
    Ainda enigmáticas, entreolharam-se por alguns instantes e cada uma seguiu para onde a vida as levava naquele instante.
    Lua iria comprar umas frutas no mercadinho mais próximo. E, pelo jeito, D. Maria estava indo para o seu território, munida das suas inseparáveis sacolas, pois ali também estava o seu manual de sobrevivência. Nelas carregava uns paninhos de crochê que ela saía vendendo aos transeuntes pelas redondezas antes que a esquizofrenia, de súbito, pela falta dos remédios, a atacasse, deixando-a aparentemente como se não tivesse o juízo perfeito.
    Portanto, eu dizia que Lua estava indo às compras, para a sobrevivência da semana, pois morava sozinha. Desde que perdeu os pais, mora sozinha num amplo apartamento, sob as bênçãos da praça de D. Maria.
    Pois é isso mesmo que acabaram de me ouvir dizer. As duas são vizinhas, separadas apenas por uma rua, entre o prédio em que Lua mora e a praça, arborizada, fresquinha, que amanhece com as secretárias do lar e, por vezes, as próprias madames, com os seus cães, cumprindo o ritual das matinais necessidades deles.
    Nesta hora, é bom que todos saibam, D. Maria ainda não ocupou o seu território. Ela mora na Praça, mas não dorme na Praça. Ela tem uma família também, é o que todos supõem ou imaginam.
    E, além disso, porque são vizinhas é natural que se conheçam, que nos cumprimentos que trocam entre si não faltem calor humano, intimidade e bonomia, inata aos vizinhos que se acolhem e se respeitam. E se amam, por que não?
    Por certo, Lua estranhou num primeiro momento o modo tão amigável, tão íntimo, tão familiar do cumprimento de D. Maria. E tanto estranhou que se apressou a contar para o grupo família do WhatsApp, como algo incomum.
    – Ei, gente, vocês não sabem o que me aconteceu agora?
    Escreveu esta mensagem e aguardou a curiosidade de sua turma, pois, como os conhecia, e bem, sabia que viria uma pá de perguntas querendo saber o que houve. E imaginava o que cada um diria da situação inopinada para ela. Claro que não era assim que D. Maria encarava a situação. Inopinada, ora vejam só, é cada coisa que se ouve. Para ela, não havia nada de extraordinário. Anormais são os outros que não passam o dia inteiro recolhida numa praça, olhando o vazio ou contando estrelas à luz do sol. Anormais são os que se banham todos os dias. 
    Não seria isto o que pensa D. Maria?
    – Oi, tia, conte logo... (uma das sobrinhas).
    – Lua, não me diga que você encontrou o Brad Pitt boiando e ele te chamou para jantar, foi, sortuda? Conte logo... (outra sobrinha, de língua mais afiada, mais descontraída).
    – Diga, minha irmã, não temos poderes divinatórios, conte logo, a mulher das “histórias” para a família é você... (uma das irmãs, cheia de verve, de ironia).
    – Vai, minha irmã, conte logo, a gente não pode ficar a tarde inteira esperando por essa notícia... (a outra irmã, fingindo formalidade).
    E ela contou o modo amistoso com que D. Maria a cumprimentou revelando o tom de intimidade que ela imprimiu às suas palavras, como se ambas, lídimas vizinhas de um bairro chique da zona sul da cidade, tivessem os mesmos anseios, as mesmas preocupações e até mesmo a perspectiva de amores semelhantes. 
    Retomaram o diálogo no WhatsApp com um naipe de gracinhas, pipocando os risos de um lado e do outro, enquanto D. Maria já ocupava o seu lugar na praça, discursando como em geral ela ficava na praça.
    Quando tal acontecia, dizia-se que ela estava "atacada".
    Ela nunca saberia que, longe da ali, era objeto de tantas especulações e gracejos. Todos bem humorados, é verdade, pois não se pode esconder a boa formação da galera, ainda assim zombeteiros e discriminatórios, por que não dizer? 
    Ainda que soubesse que a espontaneidade de minutos antes  estava sendo motivo de tanta graça entre eles, ela não compreenderia as razões. Por certo, manifestaria a mesma estranheza de quando é surpreendida por um carro à sua frente, assustando-a. Quando tal acontece, ela reage fulminando com o olhar o motorista que a tirou das suas elucubrações.
    Quantas vezes eu ouvi seus impropérios ao entrar na garagem do prédio onde moro, quando ela queria passar pelo passeio em frente ao portão?

(José Carlos Sant Anna)





13 comentários:

  1. Lua é lua, Maria é o Sol :)
    Um lindo Natal para vc tb e que em 2016 possamos seguir adiante nessa amizade tão frutífera (pq estou na lista dos amigos, né?).
    Beijos

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  2. Amigo escritor,
    como sempre nos presenteia com mais um belo texto!
    Eu tbm espero estar na sua lista de amigos!!!hhahahaha
    Bjos e muita paz e harmonia!
    http://www.elianedelacerda.com

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  3. Maria plena de acção, Lua embrenhada em cogitação...
    Grato pela prosa/presente e... que o espírito natalício paire por aí, José Carlos!

    Abração :)

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  4. Passando para te ler novamente e desejar um belíssimo dia, já no espírito natalino.
    Beijos

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  5. O mundo feminino onde Maria tem papel essencial na praça do mundo.

    A Lua sempre me intimidou, apesar de a considerar amiga.
    Coisas de mulheres.

    Paz para ti!

    (tenho a certezinha que aquela dos inimigos não tem destinatário)

    Beijinhos, José !

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  6. O interessante no teu texto, para além da excelente caracterização das personagens, é que enquanto antigamente as praças eram verdadeiramente o centro do mundo, embora hoje ainda o sejam em certos locais, o "falatório" faz-se agora nas redes sociais, neste caso, no WhatsApp. Em vez de porta a porta, janela com janela, ou à mesa do Café.
    Parece-me que D. Maria, apesar dos problemas causados por essa falta de medicação, continua a ser uma vizinha naturalmente amável, enquanto D. Lua se coloca em relação a ela num suposto pedestal.
    Um conto que demonstra que o isolamento não faz bem a ninguém, e que a distância entre os que são normais e se banham todos os dias, e os ditos anormais, pode ser uma linha muito ténue; aquela distância que vai de um lado ao outro da rua.
    Nem sei se consegui interpretar bem...
    Feliz Natal para ti e toda a família, e para os inimigos, também. :-) E um óptimo 2016!
    xx

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  7. Em cada praça mora uma Maria a dar e vender Sol, sem juros nem spred. Nem corretores! Só amores.
    Por cá, há-as de cobertor; calor em Dezembro não abunda.

    Bela prosa, Sant Anna. Votos de bom Natal com os risos e sorrisos, em abundância, para uso consoante o cabelo que te vem.

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  8. Oi José Carlos!

    Uma leitura inesquecível sempre faço aqui!...

    Passando para lhe desejar um feliz natal em família,
    com amigos (família adoravelmente escolhida...)
    com harmonia, amor, alegria, poesia e paz!...

    Afetuoso abraço.

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  9. José Carlos, amigo querido, sem tempo para mais nada, não poderia deixar de passar por aqui para deixar um abraço do tamanho do infinito, nele cabendo todos os votos de que o teu Natal seja do jeitinho que planejaste e que 2016 te receba com milhares de sorrisos e estrelas espalhados por onde caminhares. Que nunca te falte a alegria de estar neste mundo e de receber sempre o Natal com muita paz no coração.
    Conhecer-te foi um dos maiores prazeres que me aconteceram e ser considerada por ti como amiga uma honra que jamais esquecerei. Que nossos laços se estreitem pelos anos a fora, meu querido amigo.
    Com todo o carinho do mundo,
    Leninha
    (Da Aninha também está ficando um abração, deixado a pedido dela)

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  10. Porque será, que é sempre mais fácil para as pessoas, se estranhando constantemente, do que se aceitando?...
    Lua estranhando a espontaneidade de Maria... e Maria, certamente estranharia ser alvo de especulações e gracejos... se o tivesse sabido...
    Que mundo este... verdadeiro, e bem real... onde um simples elogio, poderá causar tamanho alvoroço e estranheza... mas o mundo, a vida, as pessoas são mesmo assim!...
    Adorei o texto, José Carlos!
    Aproveitando a oportunidade, para lhe desejar um Feliz Natal, plenos de afectos, saúde e paz, nas companhia dos seus...
    Abraço! Festas Felizes!
    Ana

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  11. Uns dias sem vir por causa das festas e já estava com saudades...
    Espero que tenha sido um Natal Feliz, amigo.
    Deixo beijos ainda com sabor de festa

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  12. Oi José Carlos!

    Voando aqui para desejar um 2016 repletos de instantes
    luminosos (felizes) e o voo da Poesia na leveza sobre
    as paredes das "realidades" que pesam, mas os Poetas
    resistem e sonham, sempre sonham...
    A continuação das nossas partilhas de voos poéticos!...
    Afetuoso abraço!

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  13. Desejando que tenha tido um Natal maravilhoso, na companhia dos seus, José Carlos, deixo por aqui hoje, os meus votos de um Feliz 2016, com saúde, repleto de alegrias, realizações, momentos inesquecíveis, muitos sorrisos para acontecer... e muita inspiração, para nos continuar encantando por aqui, com as suas palavras...
    Um grande abraço! Feliz Ano Novo!
    Ana

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