terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Postigo para o mar


INCÓLUME, A ÁGUA do mar ia subindo, subindo, densa como o sangue correndo pelas veias, a fazer naturalmente o seu caminho entre as palafitas. Depois de lavado o assoalho da casa, a maré refluía do mesmo jeito que chegara, fazendo o caminho de volta, quando deixava a dona da casa atônita. Era sempre assim que ela ficava, depois da enchente, atordoada, sentindo o peso da sua impotência, diante da força da natureza. Já não sabia o que fazer... E a maré, pouco a pouco, fazia o seu caminho de volta, recolhendo-se ao fundo do oceano em gesto largo, generoso, com as palafitas do manguezal da cidade baixa.  
Lentamente a água refluía. Aos poucos. Devagar. Era o ritual da lua cheia com o qual aquela mulher já se habituara. Durante três dias, era quanto durava a presença da maré na sua casa, ela cuidava de não deixar resíduos da sua passagem, recolhendo os detritos ou dejetos, trazidos pela água do mar e deixados nos aposentos da casa, embora fosse raro que tal não acontecesse alguma vez. Sempre restava algo para ser expurgado.
Quando a lua era crescente, ela se cercava de todos os cuidados, mantendo a casa fechada para evitar qualquer dissabor, pois a maré trazia toda sorte de lixo. De fezes humanas, que os palafiteiros evacuavam sobre o mar, das suas latrinas improvisadas, aos animais mortos, como pombos, cachorros, galinhas e outros, arrastados pela força da água. Com as portas fechadas a água entrava por debaixo da porta, da frente e da cozinha, mas o fazia, sobretudo, pelas frinchas entre as tábuas do assoalho, rompendo aquelas ranhuras com a sua força descomunal, silenciosa.
Expurgadas as promessas, os remorsos e as culpas, a vassoura cumpria o resto do que tinha de ser feito após a passagem da maré. A de março era, para aquela senhora, sempre a mais dolorosa durante o ano, pois subia com mais intensidade e mais força do que a dos outros meses do ano.
Baixado o nível da água, ficava atrás de si um cheiro nauseabundo de maresia, impregnado em tudo dentro da casa. Quando a lua começava a minguar, acabava o sofrimento dela. Essa dor mensal, como uma menstruação, que lembrava os tempos de menina-moça, em geral, durava três dias, no calendário em que ela dava baixa, mês a mês, ano a ano, das suas purgações.
 O assoalho não via mais a cor da água cinzenta que o beijava incessantemente para o desespero da dona da casa. "Um ritual", ela repetia para si mesma, resignadamente. Sabia que seriam sete anos. Nunca disse aos filhos como soubera que a purgação levaria sete anos, longos sete anos. Nas redondezas era a única palafita que recebia aquele batismo a cada mês do ano.
Aquele lote de água, ela o recebera de outro invasor, sim porque era um lote de água o que ela dispunha agora, mas sairia daquele beco imundo onde morava com os cinco filhos e porque eram todos invasores, nas redondezas. Ninguém era dono de nada ali, naquele pedaço de mar, entre os manguezais. A mulher ficava esperando a água refluir completamente para que alguém, entre os seus, avistasse os piquetes que demarcavam o seu terreno, a sua área, a sua água, onde surgiria a sua futura casa. 
Se a maré estava cheia, chegava àquela marcação com um bote que ficava à margem, à beira do mangue, disponibilizado pelos antigos moradores das palafitas, se estava vazia, seguia cuidadosamente por uma vereda ou outra, pelos restos de mar deixados pelos caminhos, pelas poças, para não enterrar as pernas até os joelhos nas partes mais moles do terreno. Havia sempre pequenos pântanos pelos caminhos. Enquanto não nascia a sua "edificação" de madeira, ela precisava peregrinar pelas águas como um Moisés, quase todos os dias, para tomar conta do seu "lote", não deixando que nenhum outro aventureiro dele se apossasse. 
Era um lote de água, com os piquetes submersos, que recebera num dia de Ação de Graças daquele indivíduo. Estavam submersos porque a altura deles era inferior à altura que água subia regularmente. Dera-lhe o lote, ninguém sabe em que circunstâncias com as marcações dos piquetes, um invasor, ilustre desconhecido da sua família. Poderia construir três casas na área demarcada, se tivesse recursos. Não os tinha para tanto, cedeu, para um vizinho do beco imundo onde morava, uma parte das suas águas, e a outra parte fora invadida por um morador antigo das redondezas, que há muito estava de olho naquele "terreno", embora já tivesse uma casa em outra rua das palafitas.
Ali, ela fizera a casa com os restos de madeira e lona, e os mourões que comprara para a sustentação da base. Ninguém sabe como juntara, da noite para o dia, aqueles trapos para armar sua casa sobre as águas. Quem a construíra, nada sabia da maré naquele pedaço do mangue da cidade baixa. Logo, a casa foi construída sem se levar em conta a altura que a maré chegava àquela parte do mar.
Assim, amargaria por sete anos a lavagem da casa pelas águas de Iemanjá, talvez já não se lembrasse de alguma promessa que tivesse feito para a Rainha do Mar. Como a deixou de cumprir, pagava, por certo, pela promessa não cumprida. Cumpria a sua pena, carregava a sua cruz, dizia para si mesma a todo instante quando as coisas desandavam. E ia tocando a vida sem deixar de acenar uma única vez para a esperança.

(José Carlos Sant Anna)




13 comentários:

  1. José,

    Dramática situação, mas escrito com gosto.

    abraço
    Marcos

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  2. Oi Zé Carlos, tô aqui mas faz de conta que não estou, pois li do princípio ao fim e não entendi nada do que vc escreveu, que escrita mais complicada sô! Sou péssima em fazer abstrações, em entender as metáforas, simbologia, estes trecos, em compreender que a água que sobe não é água é outra coisa, que os bichos mortos não são bichos de verdade - como que estes animais que vc citou iam passar pelas frestas das portas - os bichos são alguma outra coisa que nem consigo imaginar o q seja. Ai Zé, que leitura complicada, seu moço! Como estou num faz de conta que não estou aqui, vou sair de mansinho e esperar que alguém venha comentar primeiro, aí eu pego carona e falo alguma coisa inteligente, depois de "copiar" e "entender" o q vc quis dizer, ok? Saio de fininho, mas deixo uma beijoca... Depois eu volto, prometo!
    Aninha (mais maluquete do q nunca... rsrsrs)

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  3. Flutuei, junto com as águas, entre a realidade e a fantasia aqui.
    Difícil sim identificar, entre seus intrincados e sutis processos de pensamento, esse refluir das águas. Mas sorrio ao imaginar que é provavelmente algo muito mais simples do que aparenta ser e faço minhas próprias interpretações :)

    Grande abraço, lindo dia

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  4. Caro José Carlos,

    A minha leitura foi acompanhada pelas minhas lágrimas,
    tão dolorosa esta realidade injusta e perversa, no contraponto
    a beleza genuína de alguém que apara o sofrimento, guardando
    sempre o espaço para a esperança de dias melhores?!...
    E você, meu caro, com a sua excelência (literária) expressiva,
    constrói um espaço de palavras nuas que cortam na carne viva,
    o registro da vida, da injusta vida daqueles esquecidos pela
    máquina dos poderes podres de sempre deste País!...
    Grata pela leitura que em mim, provocou uma
    inquietação dolorosa...
    Afetuoso abraço!

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  5. Faço do teu texto uma leitura bi-dimensional, assente numa relação entre uma situação concreta linear e específica na narrativa; a invasão das águas do mar na casa dessa mulher, em determinadas alturas do ano, de acordo com os ciclos lunares que influenciam as marés, e uma outra narrativa subreptícia que tem a ver com as fases cíclicas do organismo feminino, que determinam os seus períodos férteis, os seus desejos inerentes, e o arrependimento que podem provocar.
    Em ambos os casos, há um sentido de "invasão" e de resíduos, e uma "purga" que será necessário fazer até ao novo ciclo. Entretanto, talvez a mais dura expurgação; a das "promessas, os remorsos e as culpas", devido às "invasões" de um morador do beco, e de um morador antigo "que há muito estava de olho naquele "terreno"".
    Dizem que de 7 em 7 anos os ciclos de vida se alteram, mas imagino quantas fases de 7 anos essa mulher cumpriu, sem que o seu ciclo real se alterasse?... Há pessoas que levam uma vida inteira alimentadas por uma esperança que se concretiza.
    Foi assim que li. Desculpa, Zé, se estou a ver mais do que a minha vista alcança.
    Gostei muito do texto.
    xx

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    1. Queria dizer: "alimentadas por uma esperança que não se concretiza."

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  6. El agua cuando desborda todo lo arrasa.

    Un placer estar en tu rincón.

    Un beso dulce de seda.

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  7. Achei seu post,amigo querido!
    Trágico, mas muito bem escrito como sempre!
    Esperança de "dias melhores pra todos"!
    Bjos
    http://www.elianedelacerda.com

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  8. Excelente relato, José Carlos, com a devida envolvência. Cheguei a sentir as águas a "morder-me" os pés.

    Um abraço

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  9. Deste-me uma visão nova sobre estas construções palafitas.

    Sempre as vi como parte de um sonho meu...viver sobre o mar em comunhão quase total.

    Depois de te ler, fiquei com outras sensações.

    Beijo

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  10. Custa-me imaginar como é viver em 'palafitas' esperando o momento que a maré invada o meu barraco_ sabe aquele arrepio? é esse _ rs começa com uma inquietação,o peito apertado o medo o pavor e por fim a calmaria pois como diz no seu texto há o 'refluir'e a esperança de um novo recomeço . Me faz pensar como pode haver esperança numa alma que vive a mercê de um vai vem da maré? imaginação fértil e romântica a sua J.Carlos_muito romântico esse 'acenar' ...
    que possamos 'acenar' para que as marés continuem vindo e indo.
    abraços querido abraços

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  11. Oi Zé Carlos, estou aqui para me despedir. Fiz uma última postagem lá no blog da Leninha, mas fiz questão de vir tb me despedir de vc, pois a sua atenção e afeto nos comentários me cativaram.
    Ñ acredito q vá criar um blog, achei muito trabalhoso, rss. Mas tb as ocupações ñ me dariam o tempo q gostaria de ter para visitar os amigos e responder os comentários. Se mudar de ideia vc será um dos primeiros a saber. Prometo.
    Por ora deixo uma beijoca bem gde pra você, do meu para o seu coração, com saudades,
    Aninha

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  12. Fabuloso texto, Carlos!!!
    Adorei por demais!... Fez-me recordar, um romance que li, faz muito tempo... "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes, no qual se falava das crianças e vidas bem duras, pelas gentes que faziam do rio Tejo, o seu modo de vida, na época. Era um livro, sobre os filhos dos homens... que nunca foram meninos...
    Adorei cada palavra!
    Abraço!
    Ana

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