quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Realidade

Imagem da Internet

Inimaginável,
um milagre entre o céu e a terra,
a oliva, fora do seu pomar,
onde não há outra tão assemelhada,
sem subtrair-se ao tamanho alcançado
e mesmo na penumbra sob a pele,
ao levantar a cabeça para espiar a vida
em torno dos seus ramos compridos,
me espreita guardada por um cão
invisível. 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Borboletas azuis

                                           

No rastro...
Por mais que se diga o que se vê
é sempre festa
o nascimento de estrelas

Porque ninguém pensou
em mística ainda que houvesse 
roupa estendida no varal do orvalho 
e nas rosas empertigadas

E nos olhos verticais desabitados,
e no brilho do chão

E na imagem dos homens
olhando o ímpeto das borboletas
em cada voo lúdico
como se lhes apetecessem as nuvens

E no perfume das flores por dentro
dos meus passos etéreos

E nas feições do sol
para fabricar sonhos 
sem tropeçar na sombra das pedras. 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Três canções para uma manhã chuvosa

A chuva de Osvaldo Goeldi

I

Para aquele amor
que parecia tão leve
não faltaram palavras
delicadas

Agora, 
ao abrir a caixa
do correio eletrônico,
ele vê as contas chegando
e a dor sem anestesia
que ela deixou


II

Quando você passa
ouço sobre saltos 
os seus passos
em leves 
                    sobressaltos
balançando  
os quadris 
a dizer-me: 

 sou mi nei ra,
mi nei ra, mi nei ra, mi nei ra!  

III

Inventas passos no cascalho
lavrando horas

e o pássaro
que tens na alma
deixa escapar 

o canto 
que se esvai
na delicadeza do rio

derramando o dobre 
de uma ânsia pressentida.

(José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Outubro, outubro



Leves arabescos
tatuados
na correnteza
do instante
avançam 
nas brumas
da urgência 
do tempo.

Leves arabescos
nas veredas
da existência
raízes ávidas
velando 
a face da noite
nos vestígios
da ausência.

Leves arabescos
na aspereza 
das falésias
resvalam 
para os mares
em ritmo sincopado
à sombra
de um  gesto

nos lapsos 
da quietude e da alegria. 

(José Carlos Sant Anna)



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A minha tristeza dá sentido ao mundo?

Foto arquivo pessoal


A primavera já tinha passado. Chico Bobina procura em vão uma explicação para a loucura que é a vida. Essa doideira que às vezes não cabe em um metro e meio de chão, enquanto, em plena manhã, pelas vidraças do quarto do hotel em que está hospedado, ainda escorre a luz das palavras e dos sonhos da menina Anzóis, cortada por uma bala traiçoeira. Perdida.

Chico Bobina, sufocado pelo silêncio, estava com as malas prontas, sentado à beira da cama. Ao ouvir a campainha, afastou o olhar das vidraças da janela, levantou-se e abriu a porta do quarto para o mensageiro que as levaria até a recepção do hotel.

Abreviava, depois da morte sem sentido, inútil, sua viagem pela terra das pedras preciosas com uma única recusa: a de olhar para o céu. Já não queria ver aquela nuvem alongando o braço para ele na terra. Bastava-lhe um único malogro e a sombra que arrasta a palavra vida.

Depois de uma noite de suor, agora na cafeteria como se estivesse nas exéquias da menina Anzóis, ao ouvir a história que o deixou emudecido, Chico Bobina pensou que poderia ter-lhe dado pelo menos uma lua pequenina para enfeitar ainda mais o seu colo onde estavam guardadas duas uvas na transparência da blusa, depois de tomá-la pelas mãos e arrastá-la como a uma palavra, um nome, uma bandeira, dizendo-lhe:

– Vem, vem comigo, minha espiga de milho, vamos irrigar o milharal que nos espera na outra margem do rio.

Ora, o natural para quem está viajando, seria buscar outro refúgio para não ficar na mesmice para degustar um cafezinho àquela hora da noite, ainda que fosse bom deambular para ouvir a respiração das flores, se as houvesse, pelas desfocadas ruas da cidade àquela hora.

Era o que pensava Chico enquanto caminhava e decidia o que fazer olhando as vitrines das poucas lojas que ainda mantinham, pelas redondezas, suas portas abertas. Ele gostava de ficar ensimesmado diante da xícara se perguntando: para que serve um poeta?

Àquela altura, conclui o "turista acidental" que estava cansado para caminhar pelos arredores do hotel em que estava hospedado em busca de outra cafeteria, ainda que o café gourmet de toda a região fosse reconhecido como um dos melhores do país, independentemente de cafeterias.

Chico acertadamente decidiu que não faria muita diferença ao paladar entrar na cafeteria da noite anterior ou, então, estava, sem se dar conta, sendo arrastado por forças estranhas para o mesmo Café, o que, decerto, não o desagradaria. Era o que pensava no meio da noite roída pela bandeira dos humilhados estendendo as mãos para a esmola. E entrou.

Claro que não é bem assim. Viciado em café, Chico sabia muito bem que, para se obter um bom café, conta também a habilidade, a experiência de quem maneja a máquina e faz o café.

A menina Anzóis, de muitas garras para o trabalho, levava muito jeito, apesar do pouco tempo que trabalhava como barista. Qualquer dia daria um salto. E, viajante experiente como ele era, Chico sabia o que buscava.

Pois, viajando, o que mais Chico queria era novidade, qualquer que fosse, e não importava onde ela estivesse, senão não faria sentido arrumar as malas. Todavia, o bom senso não recomendava que ele ficasse deambulando pelas ruas desertas de uma cidade que mal conhecia, por isso voltara à mesma cafeteria da noite anterior. Ali se sentira bem e tinha conhecido a conterrânea, cujo nome não chegara a gravar, mas tudo o mais da moça ele guardara dentro de si entre sonhos e fantasias.

Se não chegara a gravar o nome da menina é porque, compreensivelmente, estranhara o inusitado do seu sobrenome. Nunca ouvira alguém se chamar Anzóis, ainda que fosse um sobrenome. Guardara-o, então, o sobrenome como a um tesouro, repetindo-o com os passos nas nuvens, sem saber por onde andavam os seus olhos. Como se fosse um poema que nunca se acabaria.

Chico não sabe dizer que água ela usou para fazer o seu café, pois, acometido de um arroubo, um entusiasmo tal pela conterrânea chegou a compor, ali mesmo no balcão, um versinho para o seu sobrenome. E quando, por um momento, ficaram a sós no balcão, ele o recitou, para o que seria um bom começo uma vez que o depois não se concretizaria, quase sussurrando:

– O teu sobrenome Anzóis rima com a doçura da tua voz.

Depois que a deixou naquela noite, pareceu-lhe brega aqueles versos ingênuos, mas já se via que Chico Bobina nutrira um afeto repentino pela moça ao ouvi-la entrecortadamente contar uma história corajosa, e o desafio que fora chegar ali há três meses para construir uma nova vida. 

Chegaram mesmo a combinar um chá para dois dias depois quando seria a sua folga semanal, por isso a relutância de Chico em não voltar ao mesmo café. Não queria dar bandeira. Ou deixá-la pouco à vontade, constrangida, no trabalho.

Mas que havia um tácito compromisso entre ambos, havia. Ele tinha a certeza de que ela não se arrependeria de ter aceitado o convite. E se não guardara o prenome, como já o disse, é porque calou mais alto o sobrenome dela e vai-se entender o porquê disso na cabeça de Chico Bobina. E quem entende o desenho mágico das andorinhas cortando o céu? E quem entende a cabeça do ser humano?

Paciente, a balconista naquela noite também tomada de um estranho sentimento atendia a um chamado da outra mesa e voltava depressa para perto de Chico Bobina retomando o fio da meada. Media as palavras, mirando bem dentro dos seus olhos. Acho que foi esse jeito manso, delicado, sedutor, que mexeu com os sentimentos dele.

Não se sabe se estava comovido com o que ouvia ou era o brilho dos olhos da conterrânea. O fato é que perdeu a conta dos cafezinhos sorvidos àquela hora que, fatalmente, o deixaria acordado por horas rolando na cama do hotel desacompanhado, perguntando para si mesmo se ela lhe daria a pele, os lábios, os seios.

Agora, de mãos espalmadas no balcão do café, Chico Bobina sentia o calor das lágrimas e o impulso do grito abafado na garganta, sem sequer ouvir o bater do seu coração.

Não sabia de onde vinha a dor, mas sentia a sua carne estertorada e a boca sem saliva. Do lado de fora vinha o frêmito do vento nas folhas anunciando chuva, embora o verão já tivesse mostrado os primeiros sinais de vida naquele corpo. Aquela não era uma terra de vinhas ou de pomares, mas uma terra de minérios que contavam enredos que venceram a batalha dos olhos de Chico em outras ocasiões passeando por cidades históricas. 

Resoluto, Chico entrou na cafeteria. No exato momento em que sua amiga e colega de trabalho tinha recomeçado a contar o que tinha ocorrido na noite anterior depois que cerraram as portas da cafeteria e se dirigiam à parada dos ônibus para o retorno às suas casas em lados opostos e distantes. Havia sempre um mistério no meio da noite.

Ao entrar na cafeteria, Chico tinha estranhado o fato de o café estar abarrotado, com todas as mesas ocupadas e certa curiosidade pairando no ar. Ele já tinha aprendido a ler nos olhos da noite o que ela escondia dos homens. Havia uma transparência no ar da cafeteria. Ele saberia o que estava ocorrendo, se tivesse lido o musgo involuntário colado à porta de vidro: Silêncio, o Café está de luto.

Acomodou-se, ouvindo-a em silêncio. A menina Anzóis nascera para inventar um corpo de pétalas, ele percebera quando trocaram os primeiros sinais e palavras. E Chico recordava-se. A moça, que só tinha para ele o sobrenome, sem o saber, trazia nos olhos uma flauta que o encantava, que o comovia, enquanto desfiava palavras desencravadas nas ladeiras de pedras, rememorando a sua vida numa cidade pequena no interior da Bahia, iluminando os seus olhos.

Lembrava-se da sua escolha definitiva por aquela cafeteria; de que antes da escolha definitiva, entrara e saíra de duas outras no mesmo passo, sem entender a razão, uma vez que elas tinham o requinte que ele estava acostumado.

Aquela cafeteria fora achada ao final da avenida que contornava toda a cidade, próxima a um Shopping Center, mas antes de desembocar naquela rua já tinha percorrido outras. E aprendera em pouco tempo o que aprendera aquele povo durante toda a vida: andar por aquelas ruas significava aprender que o nome da cidade era também liberdade, como ensinara um ilustre político local.

Aquela, por sua vez, fora a rua onde Chico Bobina metera a sua chave, sobretudo quando já derreado pelas ladeiras, que embelezam a cidade, e se perdera pelos amplos salões que aquela moça parecia oferecer-lhe aquela noite.

Também se lembrava de Nelson Rodrigues, embora as razões dele fossem outras, ao afirmar que nem todo homem tem a sorte de poder fazer a escolha certa da mulher ou da cidade. Chico Bobina não sabe se teria feito a escolha certa. Tudo fora uma incógnita no sutil encontro.

E porque Chico não sabia dos jasmins que voavam dos seus cabelos se misturando ao aroma das rubiáceas, no tablado do café, começou ali mesmo, entre um cafezinho e outro,  um diálogo que o levou à depressão por algum tempo:

– Os teus cabelos, por que cheiram tão bem?

– Da alegria de viver e do xampu de sementes de alcachofra – respondeu Anzóis com um sorriso que revelava a brancura dos seus dentes.

– Anzóis, você sabia que é da tua doçura o aroma que exala da xícara fumegante deste cafezinho? 


Ela não respondeu, mas deixou um longo suspiro no ar.

Lembrava-se deste colóquio sem saber agora se fora real quando se viu sozinho na cama do hotel, depois que a colega de trabalho, com lágrimas nos olhos, completou que não vira de onde saíram os motoqueiros, tão pouco os policiais que os perseguiam pela avenida.

Depois que eles passaram como um azougue pela parada dos ônibus, a amiga vira do outro lado da rua um corpo caído. Era o corpo de Anzóis estirado no chão, ensanguentado. Num desespero vão, correu para socorrê-la. Era tarde.  

 (José Carlos Sant Anna)



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Das férias em Belô



Hoje, 
depois do almoço,
à sobremesa, eu não degustei
como uma lua
vermelha 
                          lacerada
a tradicional iguaria de mineiros:
Romeu e Julieta

goiabada cascão
com cobertura de queijo
              ou doce de leite,

Também
sob o sol das veredas
entre mercados e restaurantes de Belô
com palitos ou colheres
não comi Romeu
                                               ou Julieta,

mas caí de boca,
espiral de voos
                                   e bicadas,

nuns bolinhos de estudante
jocosamente
conhecidos na minha terra
                          como punheta.

Encontrei-os, por acaso,
poeira morta dos caminhos,
no tabuleiro de uma baiana
do balaio grande
               e guelras inquietas. 

(José Carlos Sant Anna)



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Olívia

                                                                                           Asilo na ótica de Van Goh (1853-1890)

A minha voz já não te chama neste acaso de pedras e flores. Um dia voltarás?
Uma bruma se derramou pelos dedos de Olívia, levando-a a perder o fio da meada depois que depositou o telefone no gancho e arregalou os olhos para as pálpebras da terra. Depois de um longo silêncio, para o espanto de todos, se pergunta: “Não serás tu dentro de mim?” Depois, abatida, se fecha por horas seguidas. Parece que nada mais ilumina o seu coração. Ninguém consegue trazê-la de volta à realidade, ainda que houvesse um sol radioso alegrando tudo à sua volta. Também nada se sabe do que disse o interlocutor do outro lado da linha ao ouvir a sua voz. Sabe-se apenas que, com mãos de tenaz, um frio a domina. Olívia fica cismando com o olhar pasmo nos descaminhos dos sonhos despidos.
        E, embora tenha muita fome, Olívia está sem apetite, com o coração mudo, desarranjado, nu, diante de um espelho, e, como um trem descarrilado, sem ninguém a vê-lo, caído pelas margens do caminho, apunhalada por mãos de vidro. Ninguém é capaz de reconduzi-lo aos trilhos para que ela volte a si mesma, saindo do mutismo em que mergulhou, a prendê-la no quarto, ou em falas descontínuas pelos corredores, ilhando-a, depois do diálogo guardado nos escaninhos desarrumados de sua memória.
         “Se eu pudesse, ah! Se eu pudesse!” – diz para si mesmo aquele bom ouvinte ali sentado, ao lado dela, no banco do jardim florido da casa em que hoje passa os seus dias... Pensando na salvação do mundo sob um sombreiro, debaixo daquele sol, pensando no pássaro sonâmbulo a partilhar o banco do jardim da casa.
Sei que ele faria qualquer coisa para ajudá-la, percebia pelo seu olhar emudecido diante da solidão impaciente ao seu lado.
Ela, sem mistérios, o tomou para si, como já o fizera com outros, sem que ele esperasse por aquele gesto melancólico, sem esconder o espanto que tomava o corpo dentro dele. Agora, é ele que faz das tripas coração e lhe diz quase numa prece “vamos viver”, diz, nos limites da sua força, procurando ajudar a quebrar as amarras dos seus tornozelos. São elas que a impedem de voar, aduzindo-lhe que a cadeira de mágoas foi para a oficina de quebrados e, quem sabe, se ela não arejasse a cabeça inventando uma flor para os seus cabelos, ou uma primavera para a sua vida, talvez não voltasse nunca mais. Ainda que esteja quebrada, ela ainda faz sentido, tem a sua história, ainda cabe no universo. Debaixo de uma cadeira quebrada há sempre outra. O que importa é que há sempre duas realidades à nossa frente. Importante é que saibamos cortejá-las... Como se uma não fosse ruína da outra.
         Ela não o ouve e diz-lhe que voltou a desenhar meninos jogando bola como os via na praça velha da sua infância. Diz-lhe também que depois de desenhá-los caminhava pela enseada a tomar sorvete de mãos dadas com as dores e as alegrias como se lhes fossem íntimas.  E vai-lhe dizendo coisas sem parar como se as tirasse de dentro das pedras.
         Enquanto caminhava, diz-lhe, cheia de mesuras, desenhando flores no ar ou tricotando uma joia para uma festa, coisa que ela ainda não sabe se, um dia, acontecerá, tudo o que o coração manda, sem remorsos. Diz-lhe roçando as pontas dos seus dedos que não sentia o mundo a girar como agora. 
        Nas palavras entrecortadas não faltavam labirintos para que ambos não sentissem a passagem do tempo... 
         Inundava-o com histórias, repassando os delírios da infância, recompondo um passado que não se esvaía, ainda que ela desenhasse e apagasse imediatamente enquanto os reinventava como uma Sherazade para fazer perdurar o tempo. 
         Diz-lhe como uma bebida em chama que estavam no jardim da infância e fala da merendeira como se falasse do amor ao morder a maçã que levava para a escola, da fita que amarrava ao cabelo, tudo um aprendizado naquela fase da adolescência, sempre se soube uma princesa, ainda que a sua mãe não o dissesse.
         Diz-lhe que adora subir a escada, que tudo é uma fluidez se multiplicando, que parece ouvir os seus pensamentos, que não se afaste tanto porque o mundo fica desigual sem a sua presença, diz-lhe que não corra mesmo que as suas miudezas não o agradem e que ele invente também algumas para aquele momento. 
         Chove encantamento no jeito de explicar as coisas da mãe, no jeito de dizer que queria uma casa só dela, ainda que não tivesse jabuticabeiras, ainda que a chuva inundasse a rua e os seus sonhos... E acrescentava que a chuva limpava a sujeira que a vida trouxesse para dentro de cada um.
         Diz-lhe que não se incomoda pensar absurdos, incita-lhe o braço todo arrepiado, impele-o a roçar a sua pele, aqueles pelos eriçados como se ela estivesse  sentindo frio...  Mas o sentia. Era um frio interior, lá dentro de si, que não sabia explicar.
         Depois ela lhe diz que é cedo ao perceber o impulso dele... Diz-lhe novamente que gosta da fluidez dos seus pensamentos... Que sabia o quanto havia de ternura e luas escondidas dentro dele. Pergunta-lhe se ainda penteia as águas da baía com flores do campo...
Ainda tinha tanta coisa para dizer-lhe sem dar-se conta do tempo escoando por entre os seus dedos e suas histórias, quando o médico plantonista entra com o telefone nas mãos, atendendo-o, no jardim da Casa onde Olívia repousa sob cuidados médicos, ainda sem calendário... Criando mundos, ordenando pedras e, no seu canto de seda inquieta, não havia limites.
         É aquele um gesto instintivo do médico, por isso ele não percebe que Olívia emudece de repente, levanta-se e caminha em direção ao quarto. É nele que prolonga o silêncio e ouve o murmúrio das constelações com os cabelos desfeitos nas manhãs de sol pouco duradouro e na leveza das andorinhas náufragas de céu.
    
(José Carlos Sant Anna)


sábado, 3 de setembro de 2016

Chico na janela espiando a vida

Brincadeiras infantis - foto Marcos Santos - Imagens USP - SP

Alumbramento. No amarelo e preto em exposição no pedaço de madeira ovalado da goiabeira, as listras horizontais do time de futebol de seu pai  "Meu amarelo e preto, meu time do peito, meu velho Ypiranga" , Chico zune o pião no ar e o sustém na palma da mão. Sentindo-se vivo novamente, ri como se imitasse a alegria das árvores e do vento, enquanto o pião gira sobre si mesmo e dorme entre as suas falanges, acrobaticamente. Com os olhos bem abertos, Chico, parado a pensar, ouve em seguida os murmúrios do brinquedo rodopiando pelo braço e antebraço, recusando-se, enquanto o bicho perde a força, a se fixar na realidade secundária da criação daquele objeto que circunavega as pupilas dos seus olhos. Afinal, quem criou o pião? Aquele, pelas cores, um presente do seu pai. O que eu sei é que Chico Bobina, como um experiente caixeiro-viajante, "um beduíno, com ouvido de mercador", desembarca do porão do seu navio, enfeita de mistério aquele pião e sai rompendo a solidão das bandeiras dos navios-piratas. Parece disposto a cumprir o seu destino acendendo uma lua no seu peito ao descobrir os meninos, "com olhar de lança", brincando no chão da praça, que não é o frevo de Armandinho e Moraes Moreira, diante da sua janela. Debruça-se sobre um espelho, afastando os cansaços e as estrelas que o espionam lá do alto e pede coragem para adormecer, pondo de lado as melopeias da fonte das memórias, que dançam em fila indiana por bosques de espuma. A areia e uma nuvem pequenina fecham os seus olhos, fazendo-o sentir a vertigem do inviolável com o pião ainda girando na dicção imaginada de Jorge Luis Borges, com as asas pesadas, que o leva pelos labirintos onde a música, saída das tocas e becos, camufla, com a natural displicência juvenil, os impulsos vitais. E segue indômito através de uma máquina sonâmbula sem que uma trovoada apague dos seus lábios a tristeza de não poder cantar, o que era também um enternecimento, há muito apagado das suas lembranças. Um dia a sua voz, longa, como um bambu, se acrescentou à já existente inenarrável toada do pião pelas avenidas esburacadas da memória dos mocambos da Ribeira. Agora já não arranca os cabelos porque, ao abandonar o seu casulo, todos o escutam...

(José Carlos Sant Anna)

domingo, 28 de agosto de 2016

Inversos...



Um privilégio...

Recebo a notícia de que o meu poema "À moda dos portugueses", publicado recentemente neste blog, foi acolhido pelo Inversos. Um privilégio..., que me surpreendeu. 

Muito honrado faço este registro e confesso o quanto estou agradecido. O meu poema já não é o mesmo depois da inserção de música e  leitura. O conjunto da obra de RUI DINIZ  deu ao poema um novo brilho.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

Retrato





Sorvo
tudo que do amor
se diga e rendo-me à chama 
que rega 
as palavras luminosas
onde o tempo se acolhe.
Palavras que,
ao mesmo tempo, me saciam
e me deixam mais sedento,
assanhadas vespas,
novelo de um corpo viajado
haurindo em sol outonal
o chão da vida. 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Baculejo

Pé de Meia  - Imagem capturada no Google

            A VIDA FERVILHA. PARECE que vai chover, pois as nuvens já se formaram no céu. Mas não me desespero com a ventania. Se calhar, eu aproveito a chuva para fazer uma declaração de amor para uma moça distante, pois, quando ela foi embora, levou uma semente da minha vida. Agora, volta e meia, vejo a sua sombra à minha volta, dando voltas. Me tranquiliza vê-la, em silêncio, diáfana, rasgando o ventre da noite e atravessando as portas trancadas a procurar por mim. Penetra de mansinho no meu sonho e diz-me que veio para tocar as flores do jardim que ela semeou:

          São as portas da nossa história.

         Ela repete esse mantra uma, duas, vezes, para ativar a minha memória. A minha cama de solteiro fica coalhada com as sementes de todos os frutos do nosso pomar, enquanto antevejo uma chuva fina inaugurando uma vida nova. Novíssima, eu diria. Depois uma seiva alada leva outras elipses que a vida me trouxe e também as carregou. Sossego por um instante. Depois uma trilha de atabaques excitados pelo toque das mãos sem perder o ritmo das músicas entoadas por seus devotos chega também de mansinho e invade à sorrelfa a minha vida por caminhos cruzados. Então, vejo um vulto passar por mim como um azougue e o baque do corpo na lama do mangue-mar. Fugia de Pedro Asneira e, correndo como um pato selvagem, o corpo despenca da balaustrada sobre a lama. Um tijolo arremessado a curta distância restara partido ao meio e um corpo todo ensanguentado, nu da cintura para cima, com um corte profundo no couro cabeludo, enquanto Pedro, como um João do Pulo redivivo, saltava o portão do campo de futebol, evitando desse modo o flagrante. Pensara que naquele instante tivesse acontecido o pior, assim, fugia destrambelhadamente. Pobre Pedro!
        
         Já o chamávamos de Pedro Asneira antes desse gesto tresloucado. Fazia parte, nas rodas de conversa, das nossas brincadeiras, algumas adolescentes, outras já adultas porque o grupo era bastante heterogêneo na idade; éramos bons moços, malgré tout, de bons princípios. Depois, nem sempre Pedro fazia asneiras, aliás, na maioria das vezes mais dizia do que as fazia.

         Era o seu figurino. Fazer o quê? Aceitá-lo como ele era. Afinal, cada um do grupo carregava um pequeno estigma consigo, como uma cicatriz, que se leva a vida inteira no corpo e, às vezes, na alma. De qualquer modo, agora era mais uma que cometia. E ninguém teve a coragem ou mesmo tempo de dizer-lhe com todas as letras: "olha, o que você fez, malandro? Outra asneira na vida, assim não é possível? E agora, Pedro?" Como sempre fazíamos, reunidos em volta da "redonda", da "escrachada", quando ela ia sendo caprichosamente enrolada, em cordão de padaria, pelo mestre Ari. Bom de bola, o cara. Era o primeiro a ser escolhido no par ou ímpar do primeiro baba da tarde de sábado. E também um artista na arte de preparar a câmara de ar. Sabia transformá-la numa bola que, depois de molhada, só a chutava pra valer os que tinham farinha no saco, forças nas pernas e os convencidos de que Deus existia. O que não nos faltava, pois sempre nos alimentávamos, e muito bem, com os frutos do mar pescados nos manguezais das palafitas, ora vejam, mas é claro, e nas hóstias consagradas das nossas santas missas dominicais em volta da pelota e nos preâmbulos do sábado à tarde.

            Também não houve tempo, Pedro já tinha, na sua loucura, atravessado o portão de madeira maciça do nosso campo de futebol, um verdadeiro luxo e que luxo nós tínhamos, só muito tempo depois é que veio o "Lasca" escafedendo-se depressa. A bola, como não tinha escolha, é que se desesperou no meio de campo como uma mulher se desespera à espera do primeiro beijo. Esqueceram-na, vestida a rigor, batom e ruge, no útero do campinho de várzea.

         Lembrei-me nessa hora, imediatamente, de Nina, no cinema Itapagipe, na urdida matinée, quando armei um bote. Um bote. Esperta, ela percebeu os galhos crescendo. A árvore se agigantando. Que esquiva a menina teve. O melhor pugilista do mundo não seria capaz de virar o rosto com tanta rapidez. E quase me nocauteou em seguida. O depois fica mesmo para contar-lhe depois... Muita calma nessa hora! Prá que pressa?

         Um tiro assustou os que ficaram em volta do corpo deitado na lama. Uma mancha de sangue em volta do corpo sobre o negro do mangue. "Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol, em vez de reza uma praga de alguém..." O corpo. Imóvel. Respirava ainda. Até que alguém do meio de uma ponte de madeira gritou:

          Pega o homem para dar um socorro, cambada de desocupados, ele está vivo.

         Outro aproveitou o embalo e disse cuspindo no chão:

          Vaso ruim não quebra, mas nunca se sabe, gente, leva o cara para o Pronto-Socorro, depressa, senão morre aí mesmo e logo será coberto pela água do mar, antes mesmo de o rabecão vir apanhá-lo. A maré já está subindo.

         O cara que levou a traulitada, vejam, que ironia, se chamava Zé da Lama, e morreu de morte natural, muitos, muitos anos depois.

         Arturzinho, alheio ao nosso mundo, derrubava urubus aos sábados à tarde, por detrás dos muros da sua casa, com uma espingarda de caça, que usava no sítio, enquanto jogávamos o nosso baba, no terreno adjacente. Caçava, mas não comia, é claro. Era pura vaidade. Era só para mostrar que era bom de tiro ao alvo. Dizia que pertencera à equipe olímpica do Brasil. Quando isso ocorreu ninguém nunca ficou sabendo. Aliás, ninguém acreditava mesmo nessa história. Agora que o cara tinha uma pontaria perfeita, isso ele tinha. Mirava, e o urubu despencava lá do céu.

         Ele não sabia do ziriguidum que estava acontecendo embaixo do seu nariz porque ainda não tinha virado manchete, e como ia sabê-lo, se estava alheio ao que acontecia ao seu redor, ainda que fosse praticamente ao lado dos sapotizeiros e mangueiras que escondiam a casa-grande em que ele se refestelava com as contas pagas com os nossos impostos?

         Dizem que ainda havia escravas atrás daqueles muros onde Arturzinho morava. Nunca se teve certeza disso, apenas se desconfiava. Era uma casa colonial em pleno século vinte. Por sua vez, Pedro ainda corre até hoje do infortúnio. O amigo de todos desapareceu sem deixar rastros. Nunca mais se teve notícias dele. Enquanto Zé da Lama nunca guardou mágoas do fatídico sábado. Éramos amigos, todos, um do outro, uma linda confraria formávamos no bairro. Como disse a menina que já acumula muitos títulos acadêmicos, sem esconder o seu berço:

         Na periferia, somos todos solidários, na pelada, na porrada e na dor.

         Falou e disse. Era a mais pura verdade. Ali, desde cedo, sem escola, aprendíamos que a união faz a força. Aquilo fora uma fatalidade, um gesto impensado de Pedro. E quem foi que lhe disse que a polícia não apareceu, se é o que você quer saber agora? 

         Ela foi chegando e já botando pra quebrar em cima da galera. Enfileirou todos, empurrando-os contra a amurada da casa de Arturzinho. Só então que ele se deu conta de que havia um ziriguidum nas suas barbas. Mas ele não se escondeu, foi solidário. Foi quem salvou, num primeiro momento, o “bloco dos encurralados da pelada”, de pernas abertas e mãos para cima, como se fôssemos meliantes e, se não bastasse, perigosos, ao trazer para perto dele três policiais para uma conversa de pé de ouvido num saco sem fundo. Ele sabia que os policiais não deixariam de ouvir um branco. Antes, precavido  ele não era otário , Arturzinho recolheu a espingarda, para evitar  insinuações sobre Maricota, que era como ele chamava a bendita arma.

         Ficaram apenas dois policiais tomando conta dos quinze ou vinte rapazes que não arredaram o pé do campo de jogo. Um convite para um movimento insurreto, o que só não aconteceu porque a religião por parte dessa rapaziada era outra, não havia droga no pedaço.

         O policial estava com a bola nas mãos como se fosse um troféu, só faltava erguê-la acima da cabeça e esperar pelo flash de algum fotógrafo, jornalista desavisado, porque os policiais, de bobos não tinham nada, se acharam no direito de apreendê-la, o que não deixava de ser uma atitude estranha e covarde enquadrar a pelota, uma inocente útil no pedaço, que só dava alegria à patota.

           "O que Freud acharia disso", também enfileirado, matutei como um intelectual precoce. Mas eu jamais saberia o que o corninho seria capaz de pensar de tal situação. E como perguntar-lhe tal coisa? Mas Faro Fino, que estava chegando atrasado para o baba, e a religião dele era outra, percebeu o fuzuê, então, como não quer nada, foi se aproximando, sorrateiro, um gato, do policial e, socando rapidamente a bola, apanhou-a ainda no ar, antes que ela quicasse no terreno, e pernas para que te quero em direção ao cine Itapagipe, dizendo para si mesmo "não me calo ao insulto de ninguém, porra! Por que eu deixaria que levassem a bola se ela não fez nada, se ela é uma inocente nessa patuscada?"

            O policial sacou o revólver e disparou três vezes. As balas caíram do tambor sem um estampido. Ainda bem que aquele revólver falhou ou aqueles dedos, graças a Deus, não sabiam trançar um gatilho. O policial faltara às aulas de tiro, não se consumando uma tragédia que parecia anunciada.

         Os policiais esqueceram o “bloco dos encurralados da pelada” e se desembestaram atrás de Faro Fino, e a rapaziada atrás deles em alvoroço. Eles agora estavam mais preocupados com que o pudesse acontecer com Faro Fino do que com uma reação contra os policiais. Tínhamos juízo, conhecíamos nossos limites e a ditadura branca dos policiais, embora eles fossem mestiços.

         O largo da Madragoa não se transformou no centro de uma batalha porque só tinha um policial armado e, porque esperto, conhecendo os atalhos do bairro, Faro Fino já tinha entrado pela sorveteria do cinema e saído pelos fundos, que era contíguo ao nosso campo de futebol. A confusão se instalara na lanchonete com os policiais nervosos querendo, a qualquer preço, invadi-la, revistá-la, e os rapazes, dispersos pelo largo, inquietos, não arredavam os pés, acompanhando, com a multidão que se formara e que tomava o partido dos rapazes da "invasão" dos manguezais, o desenlace da quase tragédia, que, pouco a pouco, estava se tornando uma comédia.

         Os policiais estavam aturdidos diante da multidão que estrepitosamente os vaiava. Um coral digno de um Maracanã lotado elogiando a mãe do juiz. E também pelo reconhecimento tácito do logro em que caíram. Eles já desconfiavam que o perseguido, incompreensivelmente, tivesse tomado um homérico chá de sumiço, por isso  estavam putos dentro da farda. 

         De fato, Faro Fino já tinha preservado a bola em lugar seguro, trocado a roupa e, irreconhecível, com uma bagana na boca, se encontrava no meio da algazarra que se formara no largo da Madragoa. Ninguém imaginaria que ele tivesse acabado de cometer uma insensatez tal a elegância que estava vestido no largo. Impecável, impassível, enquanto os policiais comiam moscas na porta da sorveteria. 


José Carlos Sant Anna


João Bosco, Roberta Sá e Trio Madeira Brasil - De Frente Pro Crime