quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Página 21



FAZ DEZ DIAS QUE NÃO passo na barbearia. Com o jeitinho característico do brasileiro sinalizei ao barbeiro, ao passar pela porta do estabelecimento, que ando muito ocupado, dando-lhe a entender que as festas do final de ano me desviariam do caminho da cadeira giratória do salão de beleza. Aliás, devo confessar que ir à barbearia é um lazer do qual não abro mão, se enraizou na minha vida de adulto. Eu adoro. Nessa época do ano, no entanto, o que não faltam são os almoços ou jantares de confraternização para todos os gostos. Haja festa. Logo, me afastei, para a alegria de alguns e tristeza de outros, porém contra a minha vontade, do santuário do cabelo.
Assim, ao meu sinal, o barbeiro procurou dissimular certa contrariedade com a minha ausência e fez um gesto vago anuindo com um sorriso amarelo. Afinal, o fim de ano é um momento de generosidade por parte de clientes e de amigos, portanto, ele esperava que não fosse diferente comigo. O que é certo é que achava o tempo inteiro que ele engordaria a sua caixinha de natal com os mais assíduos frequentadores, logo com a minha contribuição. Eram favas contadas para ele. Talvez esperasse uma garrafa de vinho ou outro mimo, quem sabe?
A verdade é que eu nunca levo tanto tempo sem bater o ponto, ainda que eu não precise aparar as pontas dos parcos cabelos que ainda mantenho, por algum milagre, na cabeça, ou seja, a minha ida àquele salão de beleza se faz com uma regularidade que bem poderia ser chamada de britânica. Como há sempre um porém na vida de toda gente, e como os há, todos nós o sabemos, eu não consigo evitar...
Assim, essa regularidade não agrada ao meu eleitorado em casa. São três mulheres e uma sentença. Ainda que a "dona da minha cabeça" (por onde você anda Geraldo Azevedo?) diga-me a toda hora que não sabe por que eu gosto tanto, mas tanto, de cortar o cabelo, "de boa", desconheço suas aporrinhações, e sigo em frente. Quando ela menos espera, digo-lhe à queima roupa:
Vou ali à barbearia aparar o cabelo.
E ouço dela na lata:
Já vai jogar dinheiro fora, não é, seu abestalhado?
Finjo que não ouço e saio indiferente aos outros impropérios proferidos com a máxima ironia, mas que se erguem sem destruir as "coisas belas" (Caetano a culpa é sua e de Sampa) que nos mantém unidos.
Por que reagir? Tudo vale a pena, com ou sem Pessoa, a repetir já sem voz este pedaço de verso gasto pelo uso indiscriminado. Às vezes, diante de tais constrangimentos, vergo sob a ação do vento de Santa Bárbara, mas não demora, e a haste volta a si, recompondo-se e, em seguida, recupera sua elasticidade, sua envergadura.
Jamais ela compreenderia as minhas razões para continuar seguindo em frente. O que ela não sabe, "nem nunca procurou saber" (alô, alô, Roberto Carlos, ainda censurando as biografias não autorizadas?) é que o que menos a mim interessa na barbearia são os cabelos. Sou indiferente ao tamanho dele ou às suas pontas. E lá vou eu radiante.
Chego de mansinho, com bonomia e o corpo ereto, cumprimentando a todos, e vasculho uma revista na mesa de centro e sento-me escolhendo uma posição que não somente eu veja a todos, clientes e barbeiros, mas, sobretudo, possa escutá-los, sem perder-lhes uma palavra. O que me apraz na barbearia são as histórias. As muitas histórias que ali são ouvidas. E não há cerimônia para contá-las. É um espaço masculino, sem censura.
Já ouvi mais de uma vez o meu barbeiro perguntar-me com sorriso maroto:
 Você não tem uma história para contar, não, doutor?
Respondo-lhe com um sorriso enigmático, deixando-o na expectativa de que, em algum momento, vou revelar algum segredo, vou contar-lhe alguma história. E depois de uma pausa, serena, digo-lhe que prefiro ouvi-las, como o velho Guimarães, com a reserva dos gerais, o fazia. Arregala-me os olhos perguntando-me através deles quem é esse tal de Guimarães, e acrescenta de viva voz:
- Não me lembro dele. Vinha sempre com o senhor cortar o cabelo também, não é, doutor?
Desvio o olhar para que ele não se distraia com essa conversa abstrata e não comece a alimentar a sua imaginação. Então, volto a fingir que leio uma das revistas à disposição da clientela e  fico torcendo para que o barbeiro se demore ou apareça uma pessoa mais velha para que eu possa ceder-lhe o meu lugar, respeitando a prioridade.
Ah! Quase me esquecia de dizer que o Hatoun também gosta de ouvir histórias na barbearia, no centro velho de São Paulo, ou por aí afora, está sempre de ouvidos bem abertos para não perder os detalhes.
Como não sei mentir, confesso que vou seguindo o belo exemplo dele e do velho Guimarães, entre outros. 

(José Carlos Sant Anna)





14 comentários:

  1. Olá José Carlos!
    As pessoas vivem de rituais mais ou menos frequentes. Coisas como ir ao barbeiro são um prazer que algumas pessoas não abrem mão. E tem que ser atendido naquele lugar e por aquela pessoa. Com muito ou pouco cabelo (afinal são dos carecas que elas gostam mais), o que conta é o atendimento e a simpatia no atendimento.
    Beijos

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  2. Este é o seu segredo, o ouvido do escritor
    com hora marcada no barbeiro, muito bem!...rss
    Você me ajudou a entender a razão de não gostar
    de ir aos salões de beleza, a conversa por lá
    voa nas histórias sem graça e medíocres de
    "famosos" da TV e eu particularmente
    faço ouvidos moucos...rss
    Agora aqui, adoro ficar viajando na sua
    narrativa brilhante, recheada de grandes
    citações e humor na veia (adoro)!!
    Afetuoso abraço, José Carlos.

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  3. ...
    Sobre a beleza dos começos


    (alguns rituais me agradam)


    beijo

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  4. Que primor! Adoro seu jeito de colocar em coisas cotidianas tantas nuances, tantas sensações, sentimentos em eventos triviais. É esse o dom dos grandes escritores, o que não tenho capacidade para explicar mas para sentir!
    Mais uma vez valeu a pena a viagem! Obrigada pelos sorrisos :)
    Beijos, amigo

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  5. Voltei à sua página 21 para me dar o presente desta leitura. Gostei muito, de verdade, vc é ótimo.
    Hoje é meu aniversário, vem comemorar comigo :)
    Beijos

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  6. Querido José Carlos,

    O que dizer depois de receber o teu (ímpar)
    comentário?
    Que o meu poema foi devolvido após a tua leitura,
    o teu olhar como farol, iluminando todos os
    pontos para uma amplitude poética maior!...
    Muito obrigada (sempre)!!
    Reforçando (depois do segredo revelado) que
    tu és um Escritor dos Grandes, (sério!), sou fã!!
    Um final de semana radiante (em Salvador é fácil... rss)!
    Afetuoso abraço.

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  7. Bela pauta, José Carlos, entrecortada de citações para saxofonista respirar. Sem empecilhos imbecis.
    Gostei dessa do "eleitorado em casa". "São três mulheres e uma sentença"; também me calhou na conta, amigo, por isso, também finjo e "vergo sob a ação do vento de Santa Bárbara, mas não demora, e a haste volta a si". Maravilha.
    Barbeiro é melhor do que ir à missa para aprender a dita!
    Abraço.

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  8. Meu amigo, respondi lá e venho à sua casa responder tb, onde vc não precisa publicar caso não queira...
    Eu não diria que o aniversário foi o melhor da minha vida, alguns problemas me assaltam no momento mas fiz o possível pra ser um dia feliz pq não gosto de permitir que me roubem a alegria.
    Foi um bom dia no fim das contas :)
    Beijos muito agradecidos por tudo
    Estou passeando por aqui

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  9. Há confortos que só nós sabemos porquê.

    A barbearia é espaço deveras masculino, talvez o encanto.

    Por aqui não piso cabeleireiro faz anos, tenho trauma.

    Gosto desse jeito todo seu, de doutor confiante.

    Beijinhos

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  10. Uma bela crónica, José Carlos, bem a seu jeito, desta vez tendo como epicentro os rituais comunicativos da clássica barbearia.
    Também frequento. :)

    Um abraço

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  11. Eu também adoro ouvir histórias e sei que as barbearias são boas nisso. Meu marido sempre chega contando algumas que ouviu por lá.

    Um prazer enorme te ler, José Carlos.

    Beijo.

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  12. J. C. Sant Anna,

    A missão do cronista é trazer do quotidiano quaisquer assuntos, mesmo os que possam parecer sem importância. Sabem, os cronistas, que, para eles, todos os assuntos podem ter grande relevância, embora as pessoas comuns não enxerguem esses valores, por eles vistos.

    Exemplo disso, é a sua ótima crônica (“Página 21”), que fala das atividades na barbearia em que frequenta, discorrendo da sua satisfação de frequentá-la.

    Você diz que o Milton Hatoun, esse nosso escritor talentoso (autor de Órfãos do Eldorado, Dois irmãos, entre outros) também gosta de ouvir histórias na barbearia, o que me fez lembrar de “O quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrell, que tem personagens que passam grande parte de seu tempo numa barbearia, onde se ficam sabendo das novidades e da vida das pessoas da cidade.

    Um abraço.

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  13. Fico sabendo que visitar a barbearia é para ti um ritual quase obrigatório, e acredito que os salões de cabeleireiro masculinos sejam muito mais interessantes do que os cabeleireiros femininos que não visito há muitos anos. E nem vamos aqui falar da modernice dos cabeleireiros "unisexo", que tiram toda a piada à coisa!
    Gostei da referência que fazes à música, e a outros escritores que também apreciam o ambiente das antigas barbearias, tal como achei deliciosa a alusão, com teu fino sentido de humor, que fazes às três mulheres aí de casa.
    Já tive na minha varanda uma muito antiga cadeira de barbeiro, no meio das flores, e com muita pena me desfiz dela por ocupar muito espaço.
    Adorei a tua narrativa. Mas vê se contas essa história que o teu barbeiro anda há muito tempo desejoso de ouvir! :-)
    Tive de ausentar-me, mas qualquer dia estarei de volta!
    Boa semana, Zé!
    xx

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  14. Passando para desejar uma semana repleta de alegrias, menos trabalho e muita inspiração.
    Deixo beijos

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