sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Transfiguração

Tomas Nicolleta - imagem capturada na internet

Ela. Depois de um longo e delicado inverno, em vão, se interroga retirando um livro de uma das prateleiras da estante, quase vazia. Ele. Viaja pelo vão de uma rua estreita, nevoenta e sem estrelas. Ela. Estranhamente pela primeira e única vez usava um salto alto, bem alto, deixando-a mais sedutora, trajando um macaquinho preto. Ele. Crispa o olhar diante da garoa, do vento morno e da ausência de estrelas, devorando-a de longe. Ela. Mostra as mãos desatadas e as pernas, roliças, como nunca fizera antes. Ele. Pousa as mãos suavemente no seu decote. Ela. Parece que nada comove o seu coração, mas nos seus lábios se adivinham tábuas de música. Ele. Ainda que a nau pareça indiferente, avança sem bússola, descendo as mãos, sorrateiras, sentindo a arca em brasa. Ela. Os olhos cantam violinos do amanhã de desejos reprimidos. Ele. Move-se no universo dos enganos e das ruínas trêmulas que se desfazem. Ela. Simula uma conversa com o personagem do romance que sustinha nas mãos, entregando-se ao deleite. Ele. Feriu-se, sangrou, e cada gota de sangue ocultou fundos mistérios nos lenços de si mesmo. Ela. Tudo ainda estava por vir no vento que soprava os seus cabelos. Ele. Não se lembra, mas se abriu um céu límpido no seu umbigo quando as suas mãos desceram para o ventre pelo zíper entreaberto. Ela. Importa que estou aqui, à beira deste sonho. Ele. É tempo de voar pelas colinas frescas do teu corpo libertado. Ela. Deito-me na tua relva entre as tuas vagens. Ele. Talvez não merecesse este sonho e este lume da subida. Ela. Não me diz nada, nada, liga tão só a tua ignição. Ele. É tempo de exaltar. Ela. É tempo de sorver.  Ele. Ela. Corpos desnudos e avivados pelos fulgor das águas que escorrem pelas zonas mais vivas dos seus corpos dissolvidos.


(José Carlos Sant Anna)

19 comentários:

  1. José Carlos,

    Senti um balanço sugestivo no emprego dos pronomes ele e ela.

    abraço
    Marcos

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  2. Será sonho ou realidade? uma miragem no deserto?
    Quando dois corpos se encontram, a entrega tem de ser total.
    Beijos Carlos

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  3. Um sonho nas mãos de um Grande Escritor Poeta, se
    transfigura em um texto que pulsa as palavras vivas
    de desejos, com a vestimenta da poesia, que lhe dar
    uma beleza que transcende o lugar próprio das
    palavras, para um espaço da criação com o criador
    Poeta, que rege a música das palavras no cenário da
    sedução e magia entre Ele e Ela que se tornam um
    na transcendência da entrega:
    "Corpos desnudos e
    avivados pelos fulgor
    das águas que
    escorrem pelas zonas
    mais vivas dos seus corpos dissolvidos."
    Um privilégio (meu) ser assídua nesta tua
    oficina da arte da escrita, José Carlos!!
    Adorei!!
    Afetuoso abraço.

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  4. Ainda não consegui me acertar com 2016 a ponto de vir todos os dias como gosto e já preciso... mas que surpresa, que esplendor me encontrar com essa tua Transfiguração!
    Vc tem o jeito de fazer o comum se tornar sublime que só os grandes escritores têm.
    Beijos, meu amigo... tenha uma feliz semana.

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  5. Oi José Carlos!
    Gostei tanto da tua presença com a tua resposta em
    poesia,viu?!...
    Deixo a minha brisa de frevo lírico aqui na tua
    segunda-feira e levo a Bossa Nova (sublime) do querido João
    Gilberto e o som dos tambores Olodum
    eletrizante da tua terrinha!...rss
    Saio ganhando com esta visita, pois ainda aproveito
    para te ler novamente, esta tua magistral escrita!!
    Afetuoso abraço.

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  6. Uma dança, uma ópera, uma sinfonia...uma obra de arte este encontro de Ele e Ela.

    Sedutoramente provocador.

    És seara fértil, José Carlos.

    Beijinhos

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  7. José Carlos Sant’Anna já é nome de poeta, depois, que dizer sua “Transfiguração”? Uma excelente prosa-poética. Parabéns.
    Um abraço.

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  8. Vim desejar um lindo dia; lindo como sua transfiguração que não resisti a ler outra vez.
    Deixo beijos

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  9. Uma bela transfiguração... quando dois seres... se descobrem no corpo e alma do outro... passando a ser um só...
    Uma leitura apaixonante, sedutora e arrebatadora!... Da primeira à ultima palavra... Adorei o texto!
    Abraço, José Carlos! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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  10. ¡Hola Carlos!!!

    ¡Felicidades!!! Has descrito en una bonita prosa y a la perfección esos instantes apasionados -ardientes en que el amor llega a su pináculo.
    Y formidable El dialogo entre Él- Ella, muy bien conseguido y De buen gusto. Una maravilla leerte.

    Ha sido un inmenso placer pasar por tu casa.
    Te dejo mi gratitud y mi estima.

    Un beso y se muy muy feliz.

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  11. Cada qual com seu jeito, sentimento e pensamento, mas unidos e quando duas partem inteiras se unem, a coisa pega fogo.

    Maravilhoso, José Carlos.
    Beijo.

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  12. Cada qual com seu jeito, sentimento e pensamento, mas unidos e quando duas partem inteiras se unem, a coisa pega fogo.

    Maravilhoso, José Carlos.
    Beijo.

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  13. As diferenças existem...
    precisamos nos respeitar com todas as diferenças,
    o que importa é amar loucamente!
    Texto maravilhoso,amigo escritor!
    bjos
    http://www.elianedelacerda.com

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  14. Uau, José Carlos, enquanto lia sentia o respirar, em crescendo, da pele de cada personagem...!
    Parabéns, amigo!

    Abraço

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  15. O embalo Ela/Ele deu um ritmo de extrema sensualidade a este texto, onde o despertar das emoções se faz sem embaraços nem timidez, na intenção de apenas querer descobrir outros sentires nos olhos que "cantam violinos do amanhã de desejos reprimidos" e a eles se entregarem apenas se importando de estarem, os dois, à beira deste sonho.
    Amigo querido, aqui de volta! Saudade de todos os amigos que me dão a alegria de seguir um caminho pautado de poesia, de sonhos, mas que tornam reais os sentimentos e as emoções sentidos neste caminhar que os blogs nos permitem. Saudade de ti!
    Grata por tua presença no meu espaço, e digo com prazer que é sempre muito bom ler-te e te ter como amigo.
    Que o ano de 2016 chegue a ti do jeitinho que mereces e da forma que pretendes por ele caminhar.
    No carinho, sorrisos, estrelas, e uma pétala de rosa vermelha,
    Leninha

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  16. Vim afoita visitar sua anunciada abolição e não a encontrei... mas deixo um beijo apressado pela correria desses últimos dias.
    Saudades...

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  17. Escrito com mestria e no tempo e modo certo. A dança só poderá dar certo. Um jogo intensissimamente trocado entre dois pronomes: ele e ela.
    Abraço.

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  18. A utilização dos pronomes Ele e Ela, numa cadência formal que remete para o conteúdo da acção e seu desenvolvimento, pautam o texto de um ritmo muito consistente e condizente com a inevitável dissolução dos corpos.
    Muito bem escolhida a imagem, num texto de excelência. Um caminho de palavras poéticas numa sensualidade crescente.
    Parabéns, Zé!
    xx

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  19. Toda as vezes que leio esta beleza encontro nela novos encantos.
    Vim desejar um sábado repleto de alegrias e prazeres.

    Beijos, amigo

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