segunda-feira, 18 de abril de 2016

Do diário de Tão Preto




Depois de ter recolhido todas as âncoras do fundo do mar, naveguei em silenciosa eloquência, distraído, mas sem traçar limites para o que fosse rotulado de ilimitado nas hostes desse veleiro intransitivo. E, uma vez que sou um transeunte insistente dessa vida provisória, esforço-me para esquecer as lacunas invisíveis que se acumulam numa escala de cores ao longo da existência. Um voo solitário na fímbria da noite. Talvez esperasse encontrar um pouso, um novo porto, para ancorar meus apetrechos de viagem, depois de uma longa caminhada sopesando as tormentas, as mágoas que sangram, as partilhas dos fardos, mas sem descurar as vistas dos pontos cardeais da vida ardente em espiral. Com os olhos baços, perscruto a correnteza de outros náufragos em carne viva e ouço uma turba avaliando a ausência de berço, as folhas mortas que não caem inutilmente. As lágrimas que inundam o rosto das minhas angústias diante das incertezas, vindas pelos carreiros em seus comboios. Eis que distante me acena uma nesga, um fiapo, uma labareda. Com um quê sorrateiro, uma moça me espia de longe, ardente de si, e sem fazer segredo do seu código genético, transmite uma mensagem cúmplice através do riso que se espraia e me alcança. Renascem antigas palavras. Alteando a cabeça, exala num suspiro uma canção, sem cifras na sua linguagem. O mundo que vejo agora já não é o antes imaginado. Desembarco levado pelo impulso de ir mais além dessas bandeiras. Em meio ao caminho há um sonho e uma canção que iluminam uma floração de ipês instigando o viajante a vigiar os grilos na nascente noite.



(José Carlos Sant Anna)


16 comentários:

  1. escrita de folgo! matizada, sedutora (tanto quanto a escrita o deve ser )...

    você, meu caro José Carlos, é um excelente escritor e não lhe faço favor - vc sabe que sim!

    tenho o maior gosto em lhe enviar o meu livrinho "Do Esplendor das Coisas Possiveis" que tanto parece entusiasmá-lo.

    se assim desejar, permita acesso ao seu endereço.

    forte abraço

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  2. Que espetáculo! Me perdi na sua viagem e ouvi a canção e os grilos, vi os ipês e senti o cheiro da água.
    Sem condições para analisar seu belo texto, apenas sentindo-o, mas achando-o lindo como tudo que vc escreve.
    Tenha uma terça-feira repleta de alegrias.

    Beijos

    http://odiariodaescrava.blogspot.com.br/



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  3. Marinheiro que se preze tem sempre alguém à sua espera no cais. Depois de muita labuta, é necessário parar para recuperar as forças e quem sabe, voltar a seguir viagem?
    Beijos, Carlos

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  4. Há viagens que às vezes nos mostram coisas que, por vezes, não queríamos ver. Gostei do texto.

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  5. Passando de barquinho de papel nas suas águas para desejar que seu feriadão seja mais que perfeito, cheio de boas surpresas.
    Agora assopre para que eu possa seguir viagem :)
    Deixo beijos para vc

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  6. E como é bom encontrar uma sereia quando se navega pela vida...
    Um excelente texto, mais poesia que prosa.
    Continuação de boa semana, caro amigo José Carlos.
    Abraço.

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  7. Um sentir poético impregnado nas palavras que traduzem
    a consciência do instantâneo da vida, a beleza do
    momento, do pouso do olhar que registra, guarda e
    vive, os sentidos perceptivos à beleza da vida
    no ritmo do coração, a bússola da viagem!...

    Belíssimo!!

    Abraço, José Carlos.

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  8. Oi José Carlos!

    Vindo agora para agradecer no teu belo comentário a
    referência a Grande Poética do Thiago de Mello, eu
    tenho o livro dele (presenteado por amigo), "Faz
    Escuro Mas Eu Canto", é uma preciosidade para mim,
    Já é evidente a minha paixão, mas ainda, amor a Grande
    Poesia e tenho livros raros do Audálio Alves e outros
    que guardo como as minhas joias preciosas e sempre
    que posso viajo na arte de cada um, com o hábito da
    leitura.

    Um final de semana luminoso para ti!
    Abraço de paz.

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  9. Para tanto basta um sorriso e o guerreiro acorda de sua letargia. Um céu aberto se oferece de estrelas cadentes, prontas, a iluminar a paixão da noite. Até os grilos capricham seu brilhos.

    Soberba prosa, escrita com paixão, caro amigo José Carlos.

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  10. Depois de recolhidas todas as âncoras, parece-me que o navegante estará apenas aparentemente "distraído". Pressinto, não sei se correctamente, uma apreensão quanto ao encontro de um porto de abrigo depois de tão longa e tormentosa jornada, tão intensamente vivida.
    Há um tumulto, uma desordem exterior que gera incerteza e preocupação, e essa ideia de "carreiros em seus comboios" faz-me pressupor a intenção de diferentes origens e destinos, cuja busca não será a mesma. Mas entre a desordem parece surgir, quase no limite, um resquício de luz, " uma labareda",o elemento feminino simbolizando talvez a Esperança?... Ir para além das bandeiras (facções) e " vigiar os grilos", um indício de não transparência por parte dos elementos que tudo podem forjar na escuridão da noite.
    Ver-se-á que manhã a noite desvendará.
    Não sei se entendi o teu texto maravilhosamente metafórico...Terá a ver com o momento de encruzilhada que o país atravessa? Foi assim que li, e gostei muito. Prosa de excelência, como sempre.
    xx

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  11. Por vezes, há lugares, acontecimentos ou pessoas... que nos acordam por dentro... e nos fazem querer seguir viagem... rumando a novos destinos... a outras paragens...
    Um texto impregnado de sentires profundos... uma escrita intensa e apaixonante, de que gostei imenso!
    Abraço! Bom domingo, José Carlos!
    Ana

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  12. Um texto excelente! Viajei consigo depois de recolher minhas âncoras e pegar todos os apetrechos da viagem. Também fiquei com o olhar turbado à vista de tantos náufragos...
    Um beijo.

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  13. Bom viajar nas suas palavras... há muitos encantamentos nelas.
    Beijinho.

    Ps: Obrigada pelas palavras em minha última postagem.Sua presença sempre carinhosa é o que me basta.

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  14. ¡Hola, José Carlos!!!

    Nos dejas una linda prosa poética amorosa deseosa de encontrar un nuevo puerto donde arribar tu barco... Metáforas preciosas que presume y asume el sentimiento humano. Buen viaje marinero! Y sabes, vale más un mal puerto conocido, que uno bueno por conocer.

    Ha sido un inmenso placer pasearme por tus letras.
    Te dejo mi gratitud, mi estima y un beso.

    Se muy muy feliz.

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  15. Uma bela viagem..nessa prosa poética.
    Adorei o seu modo de escrever.
    abraços meus.

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