quinta-feira, 26 de maio de 2016

No café

                                             Madeleine Peyroux - J'ai deux amours

Finjo não ver o vento balançar
rochas nuas encasteladas,
sobrepostas à delicadeza
da tua taça de rubiácea.

Se ao menos o café parisiense rasgasse
este coração à deriva e colhesse
o malmequer cansado dos dias
convicto, eu desvelaria outras sombras.

Lá a indiferença dos teus afagos
colados à sombra do teu chão,
e perto dos meus lábios, existiria,
na tentação absoluta que tu não vês.

Além das blandícias das peles
e das mulheres, na angústia
de brumas tangíveis,
eu desbarataria a solidão barricada.

Por entre os dedos, resignado,
nada em mim te repele.
Confesso, sobrevivo aos mistérios
do meu café parisiense.

Lá noites estreladas prolongam
a melodia dos teus olhos castanhos,
hálito de anjos, que as palavras criam. 

(José Carlos Sant Anna)

17 comentários:

  1. Jose Carlos siempre que vengo a tu blog me deleitas con tu hermosa poesía.

    Un placer leerte.

    Un beso

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  2. Meu Amigo,

    Um poema belíssimo, o toque da sensualidade no
    arrebatamento das palavras crescentes na beleza
    imagética original em que o poema confessa, revela,
    a excelência do Poeta que tem alma, desejo e uma
    elegante ousadia, aquela em que a Poesia se
    espalha na onda expressiva da transgressão!...

    O vídeo, a música, a cantora (adoro) são tão
    belos e encantadores, viajei pelas paisagens
    que conheci já faz um tempão...rss

    Parabéns, José Carlos!!
    Abraço.

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  3. José Carlos,
    o café parisiense está cheio de mistérios e de olhos castanhos sedentos de serem desvendados. Nas sombras, tudo o que está escondido pode ser mostrado quando o desejo assim o pede.
    Beijos

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  4. de la combustion non contrôlée...


    [contém 1 beijo]

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  5. Recordações parisienses, quem não as guarda? Seu belo poema me trouxe saudades de vários lugares, há um mistério em Paris que não conseguimos explicar. Cidade cheia de encantos.
    Elegante poema. Parabéns.
    Grande abraço.

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  6. Nunca fui a Paris (ainda) mas vc trouxe a lembrança, a imagem, o som, o sentimento e o sonho.
    Que riqueza, amigo!
    Saio cantando e desejando a vc uma deliciosa sexta-feira.

    Beijos

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  7. quem insensível ao sortilégio de Paris? e de seus cafés...

    poema "blasé", assim me apetece adjectivar.

    ... e cativo de "sombras passadas".

    você, José Carlos, é um Poeta - grandioso! (como alguém que conheço diria rss)

    há por aí muita "tarimba"...

    abraço

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  8. Um café tentador para quem não o toma.

    Sempre inspirado, José Carlos.

    beijos

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  9. "Lá noites estreladas prolongam
    a melodia dos teus olhos castanhos,
    hálito de anjos, que as palavras criam."
    Este final é maravilhoso. Todo o poema nos remete para ele, com a evocação do café parisiense com seus mistérios.
    Beijos.

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  10. Um café... que nos devolve/resgata a alma... e nos devolve o gosto... por descobrir o que a cidade terá para nos oferecer...
    Que belo momento poético, José Carlos!
    Inspiração e talento sempre no seu melhor, por aqui...
    Um grande abraço! Boa semana!
    Ana

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  11. Acredito, meu amigo, que qualquer Café Parisiense possui a faculdade de encurtar as distâncias, prolongar os prazeres e dilatar aquela sensação única, indescritível, prazerosa, de se estar num dos incontáveis cafés pela cidade espalhados, confortavelmente acomodado, vendo a tarde passar mansa, ou a noite transcorrer tranqüila no sabor da vida que em meio a tantas luzes também se faz reluzente. O fato de se estar num dos seus famosos cafés (e todos eles são, na minha opinião, porque cada um tem a sua marca de beleza, tradição, cultura, etc..) pode nos trazer várias emoções, lembranças boas ou ruins, saudades, mas o fato é que ninguém tem sua passagem por um dos cafés sem que fique uma marca, um sentimento, uma lembrança dos momentos ali passados.
    Acredito, meu querido, que por estar imerso em toda a magia que a cidade-luz proporciona tu fingiste “não ver o vento balançar rochas nuas encasteladas, sobrepostas à delicadeza da tua taça de rubiácea”, para que pudesses desvelar outras sombras e desbaratar a solidão barricada, desde que o “café parisiense rasgasse este coração à deriva e colhesse o malmequer cansado dos dias convicto”. Bem sabes que consegues sobreviver aos mistérios do teu café parisiense, porque bem sabes que lá as “noites estreladas prolongam
    a melodia dos teus olhos castanhos, hálito de anjos, que as palavras criam”...
    José Carlos, aqui estou eu, meu querido, a parafrasear um dos teus belos poemas, pois bem sabes que à mingua de outras palavras é esta a minha forma de falar da admiração, apreço e carinho que tenho por ti.
    O vídeo, um primor de música... Aliás, qualquer música em francês é uma carícia na alma, tal a doçura do idioma. A intérprete, Madeleine Peyroux, dispensa adjetivos.
    A Aninha e o Gui agradecem e retribuem o abraço. Ela, sempre assanhada (risos) acrescenta beijos ao abraço. Qualquer dia destes ela volta com o seu humor tão delicioso nas postagens...
    Meu carinho,
    Lena

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  12. A magia do café parisiense...
    Excelente poema, gostei imenso.
    José Carlos, continuação de boa semana.
    Abraço.

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  13. Passando para desejar um fim de semana de muitas alegrias.
    Deixo beijos na sua varanda para que os venha apanhar...

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  14. E eu, admiro a delicadeza dos seus poemas e suas escolhas musicais. Uma harmonia encantadora!
    Agradeço muito sua gentil presença no meu espaço.
    Desejos de um ótimo fim de semana.
    Grande abraço.

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  15. Poema de beleza indescritível, José Carlos.
    E eu que achava que ter conhecido a Itália me bastava, terei que rever esse meu conceito.

    Beijinho.

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  16. O poema "encheu-me as medidas", é maravilhoso. Fiquei até pensando se tem na sua base em alguma vivência, ou se é apenas invenção poética. O que, de uma forma ou de outra, não é importante.
    A música combina perfeitamente com o poema.
    Paris é a cidade do amor, dizem.
    É um prazer ler-te, Zé.
    xx

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