quarta-feira, 11 de maio de 2016

Retrato em branco e preto



Ouvindo, naquela manhã fria do outono, o rumor das folhas secas carregadas pelo vento, Lino Filho regressava, para além do seu orgulho de homem com H maiúsculo, lentamente à vida depois que tivera as mãos e uma parte do seu corpo desfeitos por ácidos judiciosamente preparados, como estava escrito nas estrelas, por um coração incendiário. 

Um raio de sol preguiçoso alonga-se aos pés da sua cama e, incessantemente, ouve-se um rumorejo de insetos no jardim, enquanto, pensativo, Lino Filho, para se sentir mais real, se espreguiça, recolhendo os restos do naufrágio. 

No seu conluio com o sol, Lino Filho quer esquecer-se tão somente das nuvens do seu voo distante, aspirar o cheiro das sempre-vivas que se espalha pela casa, o que torna o mundo mais efêmero... E como agora ele tem certeza disso, sobretudo depois que esteve com a vida por um fio e porque não brilham as águas limosas que despencaram sobre o seu corpo e, quando ele pensa que ainda paira no ar um voo suspenso, descobre também que não é maior do que sempre se imaginou.

Lino pensa, enquanto se levanta para abrir a porta depois de espreitar-me pela janela, vendo-me chegar para dois dedos de prosa, "Teresa é uma carta fora do baralho, depois da sua tentativa de homicídio", adivinhando discretamente o que se passava na minha cabeça quando me viu atravessar a rua na direção de sua casa.

Abre-me a porta com o que restou das suas mãos, deita-se ao comprido no sofá e sente o cheiro da terra pisada nas minhas sandálias de franciscano. Em seguida, espicha-me o olhar como a perguntar-me: o que o traz aqui tão cedo, caro amigo? Alcanço o conteúdo do seu olhar, reflito que a morte ainda tem luz e fujo daquele punhal atilado, procurando uma cadeira para sentar-me perto dele, sem tirar os olhos daquele moço que quase perdeu a vida duas vezes. 

– Ela queria ver-me sangrar e não ver-me morto, mas agora eu sei que não há outro mundo para pensar depois... – disse-me isto quando fui apanhá-lo no hospital e trazê-lo para casa por conta da velha amizade que me prendia ao seu avô. Sempre fomos desde a adolescência velhos amigos. 

Apetece-lhe agora a liberdade que esteve quase perdida percebendo o quanto ele demorou para aprender o que era respeito e pudor. Seu pai nunca o ajudaria nessa tarefa ingrata porque também não a aprendera. Sempre fora um algoz das mulheres, um libertino, andando pelas encruzilhadas da vida. Mas, desde cedo, Lino Filho gostava de repetir que tinha aquilo roxo. Não só dizia, como procurava mostrá-lo, e o fazia de modo espontâneo, natural, em qualquer reunião de família. Bastaria um aceno do seu avô para ensarilhar as armas e sair mostrando-as aos convivas o que tinha entre as pernas por dentro das calças, segurando-os pelo lado de fora.

– Olhem, aqui, olhem, eu tenho aquilo roxo... – dizia na alegria de menino, que não sabe o que diz, repetindo os gestos como um macaco.

E a volúpia com que o fazia era sempre igual, achando tudo muito engraçado. O seu avô que inventara essa história era o primeiro a gargalhar com aquele exibicionismo. 

Assim ia escorrendo sua vida de menino, sem saber que aquilo roxo era uma fonte de prazer até conhecer Teresa, amarrando-se a essa árvore como se amarra um cavalo na estrebaria para não fugir. Ele tinha aquilo roxo, mas era também um quadrúpede que não conhecera a pia batismal. Na sua testa não se lia delicadeza, lia-se grosseria. Ela escorria por todos os seus poros.

– Ela foi minha alegria e perdição – disse-me, sem rodeios. – Ainda sinto aquele frio antigo, agarrando-me às ondas.  

E contou-me na primeira vez que fui fazer-lhe companhia para superar o trauma e a dor física das mãos, do corpo e da alma em frangalhos que conheceu Teresa ainda na adolescência, paixão à primeira vista, arrebatadora e tempestuosa e, ao mesmo tempo, uma fonte de luz oculta que começava na boca e se purificava até os cabelos. Generosa mas explosiva. Aquela paixão não se completava com trocas de carinho, se alimentava também de palavras ásperas, duras, agressivas, quando não rompiam as pedras do caminho com agressões físicas. Como ele, que tinha aquilo roxo, mesmo depois de adulto não se cansava de dizê-lo. Vivia afrontando-a em qualquer circunstância porque se achava superior. Agora chora às escondidas para sufocar a dor que angustia o seu coração.

– Sempre fomos duas nuvens carregadas – dizia com um brilho nos olhos. Não importava o lugar em que estivéssemos, pois se estávamos na cama, nos dissolvíamos, nos devorávamos, nos sugávamos... E dançando com os corpos colados nos beijávamos infinitamente, penetrando um no outro como duas ilhas de prazer que se entregam às águas que banham suas margens. 

E completava:

– Depois é que apareciam as sementes da discórdia na cama despenteada com as insinuações de parte a parte. 

Ela já conhecia essa história do pinto roxo quando o conheceu, sobretudo nas conquistas amorosas, o que a deixava furiosa, vingativa e ciumenta. Mesmo sabendo que ele era mulherengo como o velho Lino, ela aceitou o pedido de casamento acreditando que a bênção da igreja amansaria a fera inquieta. 

– Sabia que ela disparou o gatilho três vezes contra mim? – disse-me de chofre, mal acabara de sentar-me.  Me lembro do desespero do meu sócio enquanto eu me protegia atrás de uma pilastra, dizendo-lhe que ela não queria me matar.  Conhecia-lhe muito bem, ela só queria assustar-me. E conseguira porque eu estava assustadíssimo com aquele nevoeiro.

Hoje ele sente remorsos de ter pisado a sombra de uma rosa ou de uma margarida, dizendo para si mesmo que talvez não tivesse acumulado tanto constrangimento àquela mulher e não sentisse essa lágrima nos olhos, lembrando-se da dor de sua mãe ao vê-lo recolhido a uma cela.

Diz-me baixinho no abismo da solidão e no alongamento ao sol da manhã, que sente na pele e nas pedras irreais o que fizera da sua vida:

– Passava da dez da noite quando minha mãe chegou com um colchonete para que eu não dormisse na cama de pedra, só porque me neguei, de pura pirraça, a pagar a pensão alimentícia. E Teresa, numa frieza que dava bolor, do lado de fora, acompanhava os dois oficiais de Justiça me tirando, juntamente com dois policiais, do escritório em que trabalhava, para provar que eu não era um monstro, desenhando números. Passei uma noite na cela – diz-me  quase soluçando no desespero fundo de explicar a si mesmo.

Nunca se repeliram ainda que doesse a pele quando se juntavam. Por mais que se esforçasse não se compreendiam e numa dessas desavenças, ela disse que o deixaria sem "aquilo roxo" do qual tanto se orgulhava. Se ela não poderia desfrutar do poço, nenhuma outra mulher beberia dessa água.

Fez-me um aceno com gesto amplos para que eu me aproximasse, enxugando as lágrimas que já não enferrujam pistolas, para contar-me o que ela fez para deixar as minhas mãos e o meu corpo nesse estado deplorável. E com voz embargada, disse-me:

– Depois de ter abandonado a casa pela enésima vez atrás de uma garota mais jovem, eu voltava com o rabo entre as pernas. Dessa vez a própria garota me trouxe de volta, pois estava com uma hérnia de disco que tolhia todos os meus movimentos, precisava ficar em repouso sobre uma cama. Percebendo o meu estado, a garota, esperta, me levou de volta, dizendo-me que era a minha mulher que tinha de tomar conta de mim. Quando eu ficasse bom, que viesse, que ela gostava muito do roxinho e não queria ficar sem ele. Mas, antes, que eu ficasse bom... 

Curioso, com situação tão esdrúxula, sem entender o fulcro dessa relação tempestuosa que desaguava sempre na cama, pergunto-lhe se ela o acolheu porque era uma mulher generosa, apaixonada ou foi por piedade. Ou os filhos falavam por ela... 

Ele sorri bonachão e me responde com a autoestima lá em cima e muita imaginação, ainda que, dentro de si, houvesse um silêncio perseguindo-o:  

– Me acolheu sem pedir-me nada em troca. Recebeu-me no topo da ladeira onde a garota me deixou sentado numa cadeira, depois de ligar para Teresa, dizendo-lhe que seu homem estava no pé da ladeira precisando de socorro, que viesse buscá-lo. Levou-me para casa carregando-me nas costas. Acreditava que dessa vez eu tomaria jeito. 

Retomo a palavra para dizer-lhe que tal não aconteceu porque ela o surpreendeu com uma auxiliar de contabilidade que trabalhava com ele em casa. Passou pelo escritório que ele instalou no primeiro andar e viu que ele alisava as pernas da moça. Para ter certeza do que via na sua própria casa, contornou o escritório duas vezes,  com tal discrição que eles não perceberam o movimento da dona da casa, já nos azeites. O sangue ferveu-lhe. Entrou de supetão, puxou-a pelos cabelos e a pôs para fora aos safanões, depois de ter acertado um dos safanões no rosto dele, deixando-o, por ironia, com o olho roxo. 

Pergunto-lhe então se perdeu a visão com este safanão no rosto. Viaja no tempo arrebatando um rebanho de astros no seu devaneio e me diz: 

– Ela me acertou em cheio, foi a primeira vez que vi estrelas brilharem mais perto de mim. Imaginei que assim puderia entendê-las melhor, mas, ao descobrir que aquele soco tinha descolado a minha retina, era tarde. A outra visão foi o glaucoma que a levou. 

Deixo-o respirar um pouco. Vejo que os seus olhos suplicam nuvens, que despe a sua vida porque já não lhe basta o silêncio em que mergulhou e agora voga nas ondas.  Pelo menos ainda não quis encher de bofetões o silêncio. Aproveito, então, e lhe digo que, além de aquilo roxo, ele era inquieto e sem pudor. 

Finge que não me ouve e continua a sua história:

– Nunca percebi que ela não me dava migalhas, se estava sendo devorado pelas pedras, a culpa era minha. Depois que pôs a auxiliar para fora, passou pelo escritório e disse-me "sua batata vai assar agora". E desceu para a cozinha. Continuei o trabalho, alheio ao que se passava lá embaixo, duas horas depois, ela assobiou chamando-me. Disse-lhe "já vou". E desci. Ao pé da escada, ela me esperava para o banho de ácido. Me acordei na dispersão cinzenta de um quarto de hospital, as imagens baças e os gestos a me fugirem das mãos. 

Apanho a minha bengala e digo-lhe que está quase na hora de almoçar, que voltarei outro dia. Colecionador de histórias, sei que trago o bolso cheio delas, sinto vontade de gritar o quanto ele foi estúpido, mas os meus olhos já se distraem com o voo de uma borboleta no jardim de sua casa. Sigo em frente.


(José Carlos Sant Anna)



16 comentários:

  1. Tá zuando, que maluquice... Mas ficção é para isso, soltar a imaginação mesmo.

    =)

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  2. É a história de alguém que pagou por suas escolhas mas esta é a vida e escolhas sempre geram perdas, seja de pouco, seja de muito... e por mais esdrúxulas que sejam as histórias, ao observador cabe seguir em frente e viver a sua própria.
    Meu amigo, um primor da sua genialidade e, por isso mesmo, meio incompreensível para meu humilde entendimento mas, ainda assim, muito belo.
    Tenha uma quinta-feira de prazeres e alegrias.

    Beijos


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  3. José Carlos, que conto excelente, tu és um
    escritor de primeira grandeza mesmo!...
    O texto aborda o machismo, o drama psicológico,
    a violência doméstica masculina e feminina com
    requintes de crueldade.
    O sentir poético e senso de humor com uma narrativa
    envolvente e surpreendente nos cenários, cenas (a tua
    marca literária...) tão bem construídas.
    Bravo!
    Afetuoso abraço.

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  4. A história (estória) roxa da borboleta, de flor em flor, construiu-se, constrói-se desde o casulo.
    Com ironia, humor negro(?), parágrafo a parágrafo, o escritor trabalha laboriosamente as bases e os ácidos para chegar a uma solução acidamente tresloucada. A coisa vai e volta, roxa, e volta e meia, como quase sempre, acaba assim: depenada. No real também, não só na ficção.
    Excelente conto, amigo José Carlos.

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  5. Excelente conto, José Carlos!
    Quantas histórias de amor são assim destrutivas... pelos ciúmes... por aquele pensamento recorrente... de que, se não és para mim, não serás para mais ninguém... mas pela história, Teresa, até teria sido, paciente vezes de mais, perdoando consecutivas traições...
    Só que um belo dia... haverá sempre uma gota que faz transbordar o copo...
    Por cá, algumas histórias semelhantes, já vieram a público nos meios de comunicação... casos em que ele, ou ela... terão ficado irremediavelmente desfigurados... e num ou noutro caso, terão provocado a sua morte...
    No entanto ataques de ácido, ainda se continuam a praticar em muitos países, onde a mulher por tradição já esconde o rosto, por força das imposições culturais dos mesmos...
    Na Sony World Photography Awards, um dos premiados em fotografia, apresentou algumas imagens, de pessoas vitimas de ataques de ácido... imagens absolutamente impressionantes!...
    Adorei o texto, José Carlos... e bem real... pois casos idênticos sucedem-se com mais frequência do que se poderia imaginar...
    Um grande abraço!
    Bom fim de semana!
    Ana

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  6. meu caro, se minha opinião é permitida, seguiste em frente engendrando nova história (com borboleta ou sem borboleta) e fizeste muito bem - "entre marido e mulher não metas colher" diz-se por aqui e "aquilo roxo" acabará fazer o milagre e, se entretanto mudar de cor, o que é plausível face ao uso, a Teresa sempre poderá fazer um pitéu, que com lascívia partilhará numa roda de amigas, à hora do chá...

    o que será a redenção e a paz almejada do Lino, a habitar a casota do cachorro e a tratar das "sempre-vivas"...

    excelente. gozo enorme a leitura

    abração

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  7. Olá, José Carlos.
    Lino foi estúpido sim, mas também vítima de uma criação igualmente estúpida. E Teresa? Vítima ou vilã? Todos têm o livre-arbítrio de escolher o caminho que desejam seguir, então...
    Um conto genial José Carlos! Não só porque nos faz refletir sobre a questão moral da situação, como, também, pela primorosa e bem humorada, apesar de trágica, narrativa.
    Parabéns grande escritor! Que a borboletinha te guie por bons caminhos.
    Um abraço.

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  8. Uma história muito bem contada que me prendeu desde o início até ao fim. As brigas de casal sempre deram boas histórias...
    Beijo.

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  9. olá José Carlos!
    Seguir em frente, sempre!
    A vida é feita de escolhas e vamos aprender até ao final dos nossos dias.
    Beijos

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  10. Vim desejar um fim de semana repleto de alegrias.
    É bom passar por aqui.
    Beijos

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  11. Hoje estou falando especialmente para meus amigos da blogosfera.
    Dê um pulinho lá quando e se puder ;)
    Uma linda terça para vc...
    Beijos

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  12. Passei para ler as novidades.
    Bom regresso.

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  13. Passando para agradecer os teu belos
    comentários (vindo do teu olhar poético)
    e a tua atenção carinhosa, meu Amigo!...
    Abraço de paz na tua bela alma.

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  14. Ufa! Que conto mais louco! Uma história de arrepiar, dado que se mistura à realidade que conheço de um caso semelhante e que deixou profundas marcas não apenas físicas, mas também psíquicas, que levaram o pobre homem a cometer o suicídio, depois de ter o rosto, braços e mãos queimados pela água fervente jogada pela mulher que cumpre pena até hoje, sendo que os filhos estão sendo criados pelos avós. Uma tragédia que destruiu uma família e marcou a todos que conheciam o casal.
    E assim como esta história real e o teu conto, meu amigo, sabemos que existem muitas relações doentias que terminam em tragédia.
    A tua história tão bem narrada mostra o potencial do escritor a permear o poeta que ao final nos brinda com esta pérola de imagem:
    "mas os meus olhos já se distraem com o voo de uma borboleta no jardim de sua casa".
    É isto aí, meu querido, seguir em frente buscando na natureza o voo que nos liberta das mazelas dos humanos.
    Uma narrativa que surpreende, talvez pela similaridade com o real, e nos cativa e prende nas teias dessa tua verve de excepcional "contador de histórias".
    Fica um sorriso, fica uma estrela, e muito do meu carinho e admiração,
    Leninha

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  15. José Carlos, li o seu conto com a atenção necessária para que me sentisse como seu partícipe; quanto ao seu desfecho, há apenas um rápida menção, no primeiro parágrafo, sobre ácido; o conto deixa o leitor bem próximo de Lino Filho, que o acompanha no seu cotidiano, vendo a história se desenrolar com naturalidade. E isso se deve à boa técnica empregada pelo contista. Sem dúvida, uma ótima história. Parabéns, meu amigo.
    Um abraço.

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  16. Aaaah o "roxo"!....:-)
    Para além do teu estilo narrativo inconfundível, que tanto me agrada, a tua riqueza de pormenores deixa-me fascinada. De facto, um garoto que não conheceu o respeito nem o sentido de pudor, mas pelo contrário, aprendeu o exibicionismo incentivado pelo pai e pelo avô(Oh, a tradição que vem de longe...), teria de dar uma importância desmesurada ao que tem abaixo da cintura, e é óbvio que isso lhe traria problemas futuramente.
    Muito haveria também a dizer sobre a mulher, mas o comentário ficaria bem longo, e neste caso Ele é a personagem principal.
    A grande questão da educação como algo de imprescindível para uma convivência saudável entre as pessoas.
    Excelente!
    xx

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