segunda-feira, 27 de junho de 2016

Linhas Cruzadas



– Vai, me abraça, me aperta, me prende em suas pernas...
Enquanto ela sussurra nos seus ouvidos estes versos da MPB, ele pensa "que safadinha, não sei mesmo o que ela quer... mas tenho certeza do que estou prestes a perder, se eu não agir rápido entre as apoteoses das faíscas deste sonho, que ainda curto em sinuosa reta, eu danço...”
Depois, com a voz trêmula, ela lhe diz, sem esconder as lágrimas nos olhos, que não voltaria mais àquele quarto. Aquela seria a última vez que se encontravam nas tardes mornas do verão, assim, às escondidas, pois, como nasce uma planta, estava selado esse destino, dissolvendo-se pelos dedos, misturado ao suor e cabelos dos dois amantes. 
Afinal, eles sempre souberam que aquela relação não tinha passado nem futuro, era só um presente que se acabava a cada vez que repunham a roupa, fechavam a porta do quarto do hotel e saíam como bons moços para cair no abismo da rotina como acontecia aos musgos.
Se acontecia alguma coisa depois, era um ou outro telefonema na maioria das vezes para marcar um novo encontro em que, fervorosa, ela diria na procura constante da lógica de um sonho, atropelando as palavras, que precisavam se encontrar... que ela tinha uma surpresa... ele ia adorar... que ela não sabia o porquê, mas estava feito uma lagartixa, subindo pelas paredes... que esta semana, pensando nele, já tinha se masturbado duas vezes... que a escola lhe roubava todo o tempo que dispunha para ficar com ele... que ela não sabia porque fazia a pós, uma vez que o que precisava mesmo era ganhar algum dinheiro... que ele não ligava pra ela... E perguntava-lhe, seguidas vezes, e você? E você? Pensou em mim?
Ele ficava na linha ouvindo a sua respiração, em muito parecida com a dela, ofegante, do outro lado, como se estivesse à borda de um poço medindo a luz do seu interior.
Ela vestia a roupa cabisbaixa, cobrindo primeiro os seios, acariciando-os antes de cobri-los com o sutiã, como se ainda fossem as mãos dele, bolinando-o; depois põe a blusa e começa a fechar os botões sem pressa. Pega a saia sacudindo-lhe a poeira, pois ela ficara no chão; estira-a sobre a cama desamassando-a com as mãos, empina a bunda para mostrar-lhe o que ele estava perdendo ao deixá-la ir embora, em seguida, veste-a, sem pôr a calcinha, que ficara enrolada numa cadeira como se fosse um canudo; apanha a bolsa, os livros e os cadernos que trouxera nas mãos, e sai sem dizer uma palavra. Era definitiva a separação, é o que ela parece querer dizer. Apenas a dor, desenhada no gesto que cobria a pele do frio que sentia, ficara ali entalada.
Com impulso, ele avança sobre calcinha e, desenrola-a lentamente; depois esfrega no seu nariz e aspira aquele odor excitante que ficara ali grudado, para sempre, guardando-a como a um troféu de caça. E, em seguida, debruçado na janela, fica a olhá-la, debulhando a casca entre os dedos, a atravessar a rua em direção ao ponto de ônibus. Com o olhar perdido, aguarda até vê-la fazer um sinal para um taxi, enquanto ele aquece as mãos como se ainda tivesse aquele fruto no meio delas.
Ele balançava a cabeça do outro lado da linha, sem que ela percebesse o movimento que fazia. Abria a gaveta da sua mesa de trabalho, olhava o retrato dela escondida entre os seus papéis, rascunhava a palavra “muito” várias vezes numa folha de papel, sabia que o dia em que ele levasse essa questão para o seu analista fundiria a cabeça dele. Que seriam dezenas de sessões para decodificar a palavra ‘muito’ rasurada n vezes em pedaços de papel, quando não vinha acompanhada da palavra Maria. E ficava mudo em seguida.
E ela perguntando se tinha acontecido alguma coisa, porque ele estava tão calado, se não queria mais vê-la, o que ela tinha feito de errado... Se ele sabia que ela já estava  depilada porque não queria que a visse peluda... Se isso não o deixava excitado... que não aguentava mais aquela casa, lavando pratos o dia inteiro... E ameaçava chorar, em seguida dizia “não, ele não vai ter o prazer de me ver chorar”..., baixinho, mas ele a ouvia do outro lado e, quando ela perguntava se ele tinha ouvido alguma coisa, ele lhe dizia que não... 
Na cabeça, ele ruminava um monte de perguntas desfocadas, nuas, enquanto o canal Brasil exibia Luz e Trevas, o bandido da luz vermelha. Seus olhos não piscavam olhando a telinha em que Ney Matogrosso, de calça clara, sem camisa, barba por fazer, atrás das grades, questionava tanto a sua vida, comparando-a a um pêndulo, dizendo que não sabia o que queria, e oscilava de um lado para o outro, como ele o fazia agora por motivos diferentes.
A vida é assim, um turbilhão de desafios que um domingo à noite deságua quando a perspectiva da segunda-feira vem à tona e ele, naquele instante, fingindo que acompanhava aquela história já apagada da memória de quase todos que conheceram o seu lado trágico, olha para trás e percebe que fora mais um domingo a escorrer chocho por entre os dedos, e que ele nada fizera para engrandecê-lo, nada de útil fizera, tocando a sua carne real, além de ter tão somente zapeado pelos hortifrutigranjeiros do mercado, tal como o fizera ainda há pouco com a TV – até se deparar com Ney Matogrosso na pele de ator –, escolhendo frutas e legumes para a semana vindoura. Era o que fazia de melhor atualmente, deixando as sombras vestidas de sol ao largo.
Ficava horas olhando as frutas. Para ele, entrar no mercado e sair pelos seus corredores, olhar atento em cada rótulo, examinar cada produto como se fosse um fiscal da vigilância sanitária, mas sem mover uma palha para denunciar qualquer anormalidade encontrada, era uma descoberta nova. Quase uma nova paixão queimando as suas entranhas. 
Seguia arrastando o chinelinho, esmaecido de tanto sol que recebia na varanda do seu apartamento. Chinelo que ele não não se dispunha a trocá-lo, embora já tivesse um novinho em folha. Recebera dela no penúltimo encontro, e seguia, cheio do amor puro, que não se ignora, apalpando tudo que lhe despertasse uma contemplação vaga nas prateleiras e gôndolas do mercado.
Daquela tarde distante o silêncio é o que resta no vale-tudo das chamas do escritor barroco, redundante, prolixo, como ela o rotulava, para provocá-lo. Os dias se movem. Que culpa se tem pela peregrinação dos dias anunciando auroras? Pela sua corrida sem freios? Pela sua dança milenar? Não há luz que não torne a morte inquieta. 

(José Carlos Sant Anna) 




13 comentários:

  1. Meu caro José Carlos, o seu “Linhas cruzadas” é, no meu entender, um excelente conto, contando a história de duas pessoas que se encontram espaçadamente, que não tem nada de incomum, mas no seu conto saiem dessaa faixa “comum” para se tornar especial, porque duas vidas vistas isoladamente da massa nada tem de comum. Parabéns pelo conto.
    Um abraço.

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  2. Que lindo!
    Tão apartados e tão ligados... e, ao que parece, assim serão eternamente.
    Vc sempre criando sonhos, amigo.

    Tenha uma ótima noite e uma deliciosa quarta-feira.

    Beijos

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  3. E é mesmo assim , quantas vezes cultivamos por décadas um amor gentil com linhas cruzadas... aquela tal felicidade sem motivo. Abstrações.
    E nem nos damos conta que estamos entrando numa rua sem volta.
    Talvez quem sabe um pouco de masoquismo? e esse telefone que nao toca... rs
    Adorei JC muito muito bom te ler te saber te ouvir nesse telefonema explicito. Obrigada.
    deixo abraços.

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  4. excelente, José Carlos.

    vc conta e (re)conta fabulosamente bem e não necessita que se que seja este seu amigo a dizê-lo.

    retomo porem o tema final para salientar o que me parece vc pretender sugerir - não há culpa, apenas castigo! sem
    culpa...

    abraço

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  5. Há amores que acabam se se saber bem por quê...
    Excelente conto, meu amigo. Com uma narrativa com fôlego para o romance.
    José Carlos, um bom restinho de semana.
    Abraço.

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  6. Oi José Carlos.
    A vida é mesmo um turbilhão de desafios.
    Vejo nos seus contos as vozes de homens e mulheres.
    Somos escravos das horas, dos rótulos,das nossas escolhas, das nossas próprias expectativas.
    Resumo o cuidado com as palavras como respeito e admiração ao seu trabalho.
    Melhor que um grande, é um forte abraço.






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  7. Oi José Carlos,

    Um conto com a tua assinatura de excelência, as cenas (tua marca)
    que nos conduz aos detalhes que aprofunda a narrativa já
    tão excelente.
    Evidencio o final com as perguntas existenciais a devolver
    ao leitor como roteiro de bons questionamentos.

    Tu sabes que eu aprecio deveras este teu espaço
    de arte literária.

    Maravilhoso o vídeo, grata pela oportunidade de conhecer!...

    Abraço de paz, Poeta.

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  8. Olá José Carlos.
    Sempre existirá um domingo para nos recordar que mais uma semana de muito trabalho se aproxima.
    Beijos

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  9. "Não há luz que não torne a morte inquieta." Uma frase fantástica a terminar este seu conto, bem narrado, a prender a minha atenção não só pelo desenrolar da história, mas também pela qualidade estética que empregou. Parabéns, amigo. A musica também fez o ambiente...
    Beijos.

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  10. Meu querido, gosto de contos, e gosto de contos bem contados, estruturados numa linha que entrelaça as angústias do ser humano, suas mazelas, suas conquistas, decepções e prazeres... Há nestes encontros fortuitos um mistério que só se desvenda longe do ser amado, quando a ausência possibilita uma avaliação isenta dos sentimentos e das emoções que são processadas quando juntos e enlevados nos ditames da paixão. Ela, talvez mais envolvida, cobra nos telefonemas aqueles mesmos sentimentos que nela ficaram explícitos. Ele, também envolvido emocionalmente, mas conseguindo sobreviver sem a sua presença e quando distantes consegue tocar a vida, talvez pensando que aquele fim anunciado por ela esteja próximo, e o seu distanciamento da situação seja uma forma de poder suportar “futuramente” a separação.
    Ao falar do gosto do personagem pelo filme protagonizado pelo ator Ney Matogrosso é como se tecesse um paralelo entre as duas vidas... Não no sentido de serem equivalentes na vivência, mas algo identificado como solidão, um fragmento de dor a passear na alma sem que uma causa determinada pudesse ser detectada... Apenas uma inadequação existencial. E aí o personagem do conto dá a idéia de parear com o personagem do filme, quando as angústias e as indefinições se fazem análogas.
    “Ficava horas olhando as frutas”, como se elas contivessem fragmentos de sua vivência, do seu passado, observando, analisando, e sabendo que qualquer anormalidade ali detectada não o faria tomar nenhuma providência... “entrar no mercado e sair pelos seus corredores” era como uma “nova paixão queimando as suas entranhas”, e parecia que a ele bastava esta sensação. Ao caminhar arrastando o chinelinho desbotado que fora presente dela era como se ela o acompanhasse naquela “contemplação vaga nas prateleiras e gôndolas do mercado”, pois calçar os novos chinelos que também era um presente dado por ela, poderia afastar a sua lembrança, pois só restava o silêncio daquela tarde distante... E os dias continuam a se mover, e não cabe a ninguém a culpa “pela peregrinação dos dias anunciando auroras” porque na verdade “não há luz que não torne a morte inquieta”, porque são estas linhas cruzadas que evidenciam o melhor e o pior do ser humano...
    Meu querido José Carlos, já deves ter notado que tenho o “péssimo” hábito de parafrasear os escritos dos amigos que me dão a honra de visitá-los. Esta culpa eu atribuo a eles mesmos, já que passei a admirá-los e segui-los. E então eu te pergunto: Que culpa tenho eu de gostar tanto do que escreves que até me atrevo a analisar/inserir/esmiuçar aquilo que despertou em mim uma prazer tão grande de ler que não me contive e quis “comentar” de uma forma meio abelhuda... Que culpa tenho? (risos). E aqui os risos amenizam a seriedade da indagação...
    O vídeo traz a interpretação magnífica da Tatyana Ryzhkova numa canção do Francisco Tárrega que deixou um legado de belas músicas, como no anterior em que tu nos ofertas também um doce momento.
    Existem ocasiões como esta, em que visito um amigo, que me trazem um enorme prazer ao ler o que foi escrito... Assim como no teu espaço!
    Fica meu carinho embalando um feixe de sorrisos que espero possam enfeitar a tua noite de mimosas estrelas.
    Até a próxima,
    Lena

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  11. bem narrado com pormenores muito interessantes que nos leva a reflectir...
    gostei
    boa semana.
    beijo
    :)

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  12. Um mergulho corajoso nas águas escuras das relações humanas.
    Gostei muito, José Carlos.

    Beijo.

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  13. Um zaping pela vida, da qual resultam linhas cruzadas... que tantas marcas sempre deixam... e a que não se consegue ser tão indiferente quanto se gostaria...
    Mesmo afastadas pelo curso da vida... as pessoas sempre permanecem unidas, pelas recordações que deixam nos outros...
    Uma fantástica narrativa, repleta de detalhes marcantes, sobre cada um dos intervenientes... e sobre becos sem saída, no que toca a relacionamentos...
    Gostei imenso, José Carlos!
    Abraço! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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