terça-feira, 26 de julho de 2016

Não sei onde as cinzas azuis




Em vão, tento
e sou levado por uma fome antiga,
movediça, que me devora,
a abrir o alçapão da febre
gritando sem boca à gente sem pão
e como se eu vivesse só comigo
escrevo à moda de Tão Preto 
pensando, olhos ao chão, 
na poesia de Adília Lopes.
Depois de uma voraz mordida
num croissant de queijo
como se fossem as tuas carnes tenras, 
Margarida,
olho para a tua minissaia,
   – que o vento me trouxe –,
econômica em matéria de pano, é óbvio,
   – já que eu sei do resto –,
e, sem rasurar a paisagem,
devolvo o croissant disfarçadamente 
à cesta de pães 
e pisco os olhos para Maria que,
ao sol a cantar, 
me escreve um epigrama. 


(José Carlos Sant Anna)

13 comentários:

  1. Acho que a margarida (a flor) parece uma minissaia.

    =)

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  2. disfarças muito bem, Poeta.
    mas saíste do poema com um nó do estômago.

    como eu fico depois daquela "minissaia económica de pouco pano" - sabe-se lá se não terá custado o resto das pernas de Margarida.

    fraternal abraço, José Carlos.

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  3. Caro José Carlos, o seu ótimo poema, lido em voz baixa, como li, adquire um realce especial ao som da música de Bach, embora dela não necessitasse. Parabéns, amigo.
    Grande abraço.

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  4. Que o epigrama seja engenhoso como o seu poema com aquela 'voraz mordida num croissant de queijo'_deu-me fome. rs
    Sempre muito bom seus poemas JC
    abraço grande

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  5. Fabuloso poema, meu amigo, do melhor que já li pelos blogues (e nunca faz por menos...).
    Parabéns pelo talento poético que as suas palavras revelam.
    José Carlos, tem um bom fim de semana.
    Abraço.

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  6. Outra pérola, sutil apesar da voracidade, requintado apesar da minissaia revelando as pernas de Margarida, assim são seus poemas, uma riqueza que enriquece quem lê.
    Adorando nosso contato, passo para desejar um fim de semana repleto de alegrias.

    Deixo beijos

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  7. Cores e flores
    Sons e sabores
    Poesia é para poetas
    E, palavras, só para escritores.

    Um abraço José Carlos
    Até mais ler...

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  8. Muito bom, José Carlos, e lido ao som de Bach valoriza ainda mais!
    Como os poetas 'transpiram', erram os que pensam ser só 'inspiração'...
    bjs!

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  9. Excelente poema, amigo! Eu fiquei curiosa com o epigrama da Maria...
    Bach é sempre tão bom de escutar...
    Boa semana.
    Beijos.

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  10. um poema muito original...onde a fome ganha outra dimensão, e se a saia da Margarida é curta assim será também o epigrama da Maria...
    boa semana.
    :)

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  11. Todas as mini-saias são económicas... e ainda assim... todas revelam abundância... :-D
    Também eu fico curiosa, em relação ao epigrama da Maria...
    Adoro os seus poemas, José Carlos... têm sabores, cheiros e cores, e sempre um mar de emoções, realmente...
    Um grande abraço!
    Ana

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  12. Bach enquadra muito bem estas belas palavras...

    Abraço e bom fim de semana

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  13. Caro José Carlos,

    O título é tão belo (tu sabes aprecio um título...) e
    me leva a imaginar como um caminho com uma pista com
    cinzas (marcas) azuis (infinito...)...
    O poema tão enigmático como o infinito, a desenhar
    sentires, desejos nesta tua voz poética de desnudar
    as palavras em sua própria nudez natural sedutora e
    neste caminhar das palavras com a imagética, a tua
    poética nos coloca no sentir interrogativo
    tão cativante e único!...
    nossa, a música é de um bom gosto sempre!

    Quero te dizer que valorizo e é para mim,
    indispensável os teus comentários tão ricos,
    belos e profundos na contribuição do meu
    aprendizado com o ato de escrever e te aguardo
    no teu tempo, imagino e compreendo uma agenda
    administrar horários e por isso nos passos
    da nossa disponibilidade a esta partilha entre
    blogs, pois aprecio com a minha leitura atenciosa
    aqui e registrar o meu sentir sobre a tua literatura.

    Grata pela partilha aqui e a tua partilha lá no
    meu espaço.
    Abraço afetuoso!

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