segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ternura breve






Mal disfarçava, na sua altivez,
o remorso nas asas fechadas.

E, como se fossem dedos iguais,
a solidão se tornara visível
nos olhos úmidos.

Agora, com as trevas iluminadas,
ao apalpar o vento nos ciprestes,
ao lutar sozinho nas ruas desertas,

faminto de estrelas e de sonhos,
o morcego desiludido esquece 
o telefone da lua.

E os seus olhos desvelam
névoas, como estrelas apagadas,

Como também se recusam 
olhar de novo os céus depois 
de uma noite sem sangue.

Pesaroso, chafurda nas lágrimas 
do mundo que deixam 
no seu coração vagabundo 

o avesso da sombra e dos sobrados
na crispação de uma doce melancolia.
  
(José Carlos Sant Anna)


15 comentários:

  1. Quanta solidão! Caiu em mim...
    Mas levo a beleza dos versos e da música.
    Que sua noite seja de luz e a quarta, de paz.

    Beijos de {Λїta}_ST




    ResponderExcluir
  2. Um poema é um música que me tocou forte no coração e me deixou com um gosto agridoce na boca.

    Obrigada por este momento de profunda reflexão.

    Um beijinho

    ResponderExcluir
  3. Começar pelo vídeo, encantador (Coração Vagabundo),
    salve, salve a Bossa Nova e o nosso genial "maluquinho"
    João Gilberto, pai da Bossa.
    Em qualquer outro País a Bossa Nova seria um estilo
    musical igual ao Blues, Jazz, Rock na permanência
    viva do seu som. Aqui temos o Forró é primo do Blues,
    todos dois ritmos eletrizantes.
    Agora, o poema muito belo, que nos abraça com a
    "doce melancolia" a carregar no "coração vagabundo",
    este mundo às vezes pesa, poeta!
    Mas, a altivez reanima a alma para não se curvar,
    a vida com a "cabeça erguida" (dizia sempre minha mãe).
    Aprecio sempre a tua poética!
    Abraço, José Carlos.

    ResponderExcluir
  4. Passando para desejar que a sexta lhe renove as esperanças para um fim de semana esplêndido!

    Beijos de {Λїta}_ST


    ResponderExcluir
  5. meu caro amigo

    vc é um poeta talentoso e surpreendente - na sua poesia tanto pode perpassar um sopro de subtil ironia, como um sobressalto breve de melancolia. e é também um grande contador de histórias

    frequentar este blog é garantia de nunca sair defraudado.
    mas hoje "invejo" estes dois versos, tão verdadeiros me parecem: "mal disfarçava, na sua altivez/
    o remorso nas asas fechadas"

    forte abraço

    ResponderExcluir
  6. Poeta,
    No Céu cabem estrelas, luas, sois...
    Cabemos todos nós.

    Caso contrário...
    Há sempre uma luz no fim do túnel.

    Forte abraço poeta.



    ResponderExcluir
  7. Ah!
    Prefiro ficar sempre por último; na fila do túnel.
    Outro forte abraço.

    ResponderExcluir
  8. Belo poema, muito bem acompanhado por um estupendo músico que já ouvi ao vivo em Lisboa.

    Bom domingo

    ResponderExcluir
  9. Meu querido amigo, hj vim escondida, me esgueirando embaixo de sua janela, para deixar um bilhete.
    Sua amizade, suas leituras de mim me encorajaram a te trazer um convite que, esteja à vontade para não aceitar, mas caso queira e/ou tenha tempo, disponibilidade e saco para conhecer melhor (do que já conhece rs) tudo que há em vita, podemos nos comunicar de outra forma... email, whatsapp, facebook, a forma que vc achar melhor, caso ache. Será um prazer e honra para mim. Fique à vontade para não aceitar tb, posso entender perfeitamente qualquer recusa e continuaremos sendo amigos através do blog.
    Deixo beijos e que sua semana seja muito feliz

    ResponderExcluir
  10. Olá, amigo José Carlos,
    Em nós, leitores que amam poesia, sempre há algo para destacar; aquele verso que nos toca mais de perto:

    "Agora, com as trevas iluminadas,
    ao apalpar o vento nos ciprestes,
    ao lutar sozinho nas ruas desertas,".

    Bravo, José Carlos!
    bjs

    ResponderExcluir
  11. Por incrível que pareça há "morcegos" assim.
    Belíssimo poema. De uma elegância suprema o poeta desenha verso a verso quadros de rara beleza, sem remendos ou tropeções.
    Parabéns, amigo José Carlos.

    ResponderExcluir
  12. A melancolia nos seus versos acolhe e acalma_ apesar do'avesso das sombras e dos sobrados'
    Gosto disso! porque pela manhã abre o sol...
    beijo

    ResponderExcluir
  13. Inquietante... como é a solidão... misturada de tristeza e melancolia... e contudo... tantos morcegos, na forma de gente, tem este mundo... famintos de estrelas e sonhos...
    Um poema que nos induz a reflectir... e a acender algumas estrelas...
    Abraço!
    Ana

    ResponderExcluir