terça-feira, 12 de julho de 2016

Um clara chama sobre as águas



Julgava perdida a morte
que dançava sobre seus cabelos,
cinza última,
um sopro de perfume da adolescência,
e sem que soubesse da maçã
o gosto

Adormeceu sem ouvir o respirar,
o rumor das bocas nas palavras,
avesso da passagem do ar,
nudez matricial,
águas que não se cansavam do cântaro
iluminado

Esperava,  a voz perdida,
a iminência do vento que respirava,
corpo vaporoso, última morada,
um inseto, o vaivém da folha
e um amor que se dissesse leve,
sem rastro

Finou-se com as águas afogando,
soltas, fosforescentes,
sob a luz da pele nos ossos,
que as hastes do efêmero trouxeram
sugando o seio desnudo do estio
perdido.


(José Carlos Sant Anna)


16 comentários:

  1. Me emocionou e quase me fez chorar. Um dia seremos crianças novamente ... assim espero terminar.

    Lindo, lindo, lindo!

    Beijo.

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  2. pleno de elegância e sabedoria tão belo poema.

    permita, porém, o poeta, que lhe lembre a possibilidade de alguém poder evocar a célebre frase de Bertrand Russel: "o relato sobre a minha morte é um manifesto exagero"

    abraço.

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  3. José,

    Poema triste, mas transmite muita calma, tranquilidade. É uma tristeza que já se cansou de estar triste, desbotou e quase virou felicidade.

    abraço
    Marcos

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  4. Emocionante, mesmo para o meu parco entendimento.
    Vc sempre provoca viagens, meu amigo.
    Tive saudades desse cantinho onde venho porque gosto e me faz bem.
    Desejo a vc um dia de alegrias e deixo um beijo

    {Λїta}_ST



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  5. Um viagem que termina de forma doce e digna.
    Emocionei-me ao ler este seu belo poema amigo José.

    Um beijinho

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  6. Belíssimo e tocante poema, José Carlos!

    É um poema para silenciar as palavras e
    ficar somente na contemplação do eco poético
    que se processa dentro de nós, teus leitores,
    neste privilégio da tua partilha.
    Um grande Poema que eu adorei, viu?

    Abraço.

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  7. Enquanto jovens e adultos, julgamo-nos imortais.
    A dada altura, uns mais tarde que outros, ficamos à espera da morte, que é mais que certa.
    Excelente poema, meu amigo. Para ser lido e relido com toda a atenção.
    José Carlos, tem um bom resto de semana.
    Abraço.

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  8. Poema a nos causar uma certa nostalgia, a nos recordar a inevitabilidade da morte... Nós que agora ainda nos julgamos imortais, que a vemos de forma tão distante, tão remota, ainda a deixar que “um sopro de perfume da adolescência” nos traga novamente o gosto da maçã que estamos sempre a provar... Ainda adormecemos ouvindo a própria respiração e de quem mais nos estiver a acompanhar nesta caminhada onde as águas não se cansam do “cântaro iluminado” enquanto esperamos que a “iminência do vento” nos traga um amor que seja “leve, sem rastro”, e por nos julgarmos ainda imortais nem chegamos a pensar que um dia... Sim, um dia, hoje ainda tão longe de nossos pretensos ideais, estaremos a nos afogar nas águas “soltas, fosforescentes, sob a luz da pele nos ossos, que as hastes do efêmero” irão trazer “sugando o seio desnudo do estio perdido”.
    Meu querido amigo, como sempre, eu aqui, a me intrometer nos teus escritos... A postagem de hoje, e digo isto ancorada numa realidade doída, me trouxe realmente um quê de tristeza, de nostalgia, sentimento de perda, vazio da alma... E todas estas mazelas que vez em quando ficam a rastejar entre nossos passos, impedindo até que um livre caminhar se faça. Por vezes sentimo-nos presos em amarras que inutilmente tentamos desatar, enredados numa armadilha que não conseguimos evitar por estarmos tão alheados e consumidos nas dores, saudades e lembranças de tempos idos que por um momento, um lapso que o tempo esqueceu de preencher, ficamos a nos julgar senhores do próprio destinoe querendo, como deuses, evitar o declínio...
    Ah, meu querido poeta, como consegues fazer com que teus versos nos inundem de emoções e sentimentos que por vezes tentamos esconder? Que poder é este que tu tens de fazer com que desnudemos a alma com tanto desembaraço... Será que é desta forma que podemos chegar ao âmago da questão da qual estávamos a fugir?
    Ah, meu poeta, se soubesses as respostas para estas complicadas indagações existenciais, na certa estarias do outro lado do divã... E não aqui, a nos mostrar a beleza, profundidade e significância do teu olhar para a vida através de tão envolventes e admiráveis poemas.
    Meu querido amigo, desta vez eu viajei de verdade nos teus versos... Perdoa-me por isto? (risos).
    Que os sorrisos e as estrelas que estou a deixar possam dizer do meu carinho por ti e do apreço por este tão precioso espaço.
    Lena

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  9. O estio pode se perder mas a inspiração, nunca!
    Lindo José Carlos!
    Beijos

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  10. Cinza?
    Cinzas...
    50 tons
    perdidos no arco
    dos sonhos coloridos.

    No sopro do poeta, hã sempre um fio colorido de vida.
    Um abraço



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  11. Passando para desejar um fim de semana bem ao jeito que vc merece: intenso, alegre e cheio de prazeres.
    Beijos

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  12. a morte é irreversível mas é uma coisa que me custa muito falar, mas este poema além de falar na morte, um tema forte, tem uma certa leveza que até gostei de ler.
    bom fim de semana.
    beijinho
    :)

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  13. Um poema fantástico, meu amigo!
    "Finou-se com as águas afogando", tão náufrago, como se fosse um órfão a procurar um destino ébrio de luz...

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  14. É um privilégio ler coisas assim, impregnadas de um sentimento espesso que nos faz vibrar por dentro. Um epílogo tremendo.

    "Finou-se com as águas afogando,
    soltas, fosforescentes,
    sob a luz da pele nos ossos,
    que as hastes do efêmero trouxeram
    sugando o seio desnudo do estio
    perdido."

    Abraço

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  15. O Poeta é um exímio encenador de ambientes e acção. Vai aumentando gradualmente a ilusão e a tensão até à resolução na última estrofe.

    Abraço.

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  16. Uma passagem... para um outro plano... uma outra viagem... magnificamente descrita... de uma forma bonita e tranquila...
    Afinal... também a morte, faz parte da vida...
    Mais um poema admirável, José Carlos! Adorei!
    Um grande abraço!
    Ana

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