sábado, 3 de setembro de 2016

Chico na janela espiando a vida

Brincadeiras infantis - foto Marcos Santos - Imagens USP - SP

Alumbramento. No amarelo e preto em exposição no pedaço de madeira ovalado da goiabeira, as listras horizontais do time de futebol de seu pai  "Meu amarelo e preto, meu time do peito, meu velho Ypiranga" , Chico zune o pião no ar e o sustém na palma da mão. Sentindo-se vivo novamente, ri como se imitasse a alegria das árvores e do vento, enquanto o pião gira sobre si mesmo e dorme entre as suas falanges, acrobaticamente. Com os olhos bem abertos, Chico, parado a pensar, ouve em seguida os murmúrios do brinquedo rodopiando pelo braço e antebraço, recusando-se, enquanto o bicho perde a força, a se fixar na realidade secundária da criação daquele objeto que circunavega as pupilas dos seus olhos. Afinal, quem criou o pião? Aquele, pelas cores, um presente do seu pai. O que eu sei é que Chico Bobina, como um experiente caixeiro-viajante, "um beduíno, com ouvido de mercador", desembarca do porão do seu navio, enfeita de mistério aquele pião e sai rompendo a solidão das bandeiras dos navios-piratas. Parece disposto a cumprir o seu destino acendendo uma lua no seu peito ao descobrir os meninos, "com olhar de lança", brincando no chão da praça, que não é o frevo de Armandinho e Moraes Moreira, diante da sua janela. Debruça-se sobre um espelho, afastando os cansaços e as estrelas que o espionam lá do alto e pede coragem para adormecer, pondo de lado as melopeias da fonte das memórias, que dançam em fila indiana por bosques de espuma. A areia e uma nuvem pequenina fecham os seus olhos, fazendo-o sentir a vertigem do inviolável com o pião ainda girando na dicção imaginada de Jorge Luis Borges, com as asas pesadas, que o leva pelos labirintos onde a música, saída das tocas e becos, camufla, com a natural displicência juvenil, os impulsos vitais. E segue indômito através de uma máquina sonâmbula sem que uma trovoada apague dos seus lábios a tristeza de não poder cantar, o que era também um enternecimento, há muito apagado das suas lembranças. Um dia a sua voz, longa, como um bambu, se acrescentou à já existente inenarrável toada do pião pelas avenidas esburacadas da memória dos mocambos da Ribeira. Agora já não arranca os cabelos porque, ao abandonar o seu casulo, todos o escutam...

(José Carlos Sant Anna)

12 comentários:


  1. Gostei deste seu desenrolar de memórias e afectos.

    Um beijinho, José

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  2. Remete a lembranças de infância, da forma mais lírica que possa ter uma memória.
    Desejo a vc uma semana de luz, paz, amor e muitos prazeres.

    Beijos



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  3. Um texto com o maravilhoso da infância. Esteticamente uma escrita belíssima. Encantei-me a lê-lo.
    Uma boa semana.
    Um abraço.

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  4. luminosa escrita a tua, José Carlos
    na voragem do rodopiar do pião matricial nos jogamos toda a vida.

    forte abraço, meu caro amigo


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  5. Um rodopio de memórias... numa magnífica linguagem descritiva... que tão bem nos dá a conhecer, os sentires de Chico Bobina...
    Sempre de uma riqueza de conteúdo notável, José Carlos!...
    Um texto para ler e reler... saboreando os mínimos detalhes...
    Um grande abraço! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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  6. Joguei ao pião em criança, mas não era tão habilidoso com o "bicho" como o Chico...
    Mais um texto fabuloso, numa narrativa só ao alcance de quem já é escritor firmado.
    José Carlos, tem um bom resto de semana.
    Abraço.

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  7. Mais do que belo e inscrito na sua excelência com
    a literatura, é tocante, como as palavras rodopiam
    a vida, a poética e os olhos do escritor e do leitor
    pelos labirintos (como fica bem o Borges aqui...)
    da alma nossa na viagem do tempo, a tocar a memória,
    na infância que brinca com o tempo e no
    tempo que parece infinito!...

    Votos de um domingo feliz, José Carlos!
    Afetuoso abraço.

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  8. memórias de infância magistralmente escrito...

    um beijo

    :)

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  9. O Borges era invisual e viu. Não sei se pião. Eu vi, ouvi, joguei. E fiquei preso ao zunir hipnotizante deste pião que o Chico trouxe a terreiro. Quem não jogou pião não sabe o que perdeu. Só jogando se entende o efeito de puxar assim o cordão às palavras como o José Carlos faz. Ele joga e bem.
    Parabéns.

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  10. Não se faz mais infância como nos tempos de nossa infância... Está faltando esses sonhos, brincadeiras de ingênuas de criança, que quando crescem, fazem uma pela prosa!
    Beijos, José Carlos.

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