domingo, 19 de novembro de 2017

Lúdico II



Escrevo a palavra "não" e, imediatamente, me lembro que, alisando os bancos escolares, aprendi que não se começa a escrever um texto com a partícula "não". E todos nós sabemos que uma vez aprendida a lição, ela estará sempre solícita, guardada no silêncio dos escaninhos da memória e, quando dela se precisa, abre-se a gaveta e de lá se extrai o que interessa... Daí por que não comecei esta crônica assim... "Não muito longe daqui...". Mas agora, para situar um pato fora da curva, eu posso fazê-lo! Não muito longe daqui – é uma mentirinha, sem asas para voar, o que acabo de lhes dizer, pois o pato está muito mais longe daqui do que você imagina, mas achei que com este arranjo se tornariam mais críveis as minhas palavras – um pato atravessou uma ponte estreita desceu a margem e se embrenhou, feliz, no lago nas redondezas da minha casa. Ali, absorto, eu via suas penas coloridas brilhando à luz do sol enquanto suas patinhas, submersas, se mexiam fazendo a água girar em círculos à sua volta. Vou para o alpendre da casa e fico na minha rede de nordestino convicto admirando alegria do pato e, ao mesmo tempo, com um olhar movediço, acompanho um bando de andorinhas levantando voo de uma árvore próxima, cruzando a lagoa, para depois de um rasante alegórico sobre a minha cabeça sumir no horizonte. E, pela mesma ponte, logo atrás, atravessava uma moça, atenta, aos passos, por enquanto, enigmáticos, do pato na manhã ensolarada naquele recanto das minhas manhãs ensolaradas. Não escolho as palavras, por isso tropeço, mas esses tropeços serão compreendidos mais adiante. Enigmáticos para a moça, é o que creio! Porque ela pensava assim, eu não sei...  porque, como se via,  o pato andava solto atrás do vento, serelepe, com as patas nas costas, para capturar a liberdade nas águas da lagoa... Era o que parecia quando cantava essa canção sem letra: "Quá... Quá... Quá... Quá!...". Agora se ouvia esse refrão em vários tons na água e o click da moça flagrando as nadadeiras do pato. Sem o saber, o pato deu o que falar depois deste passeio porque ele foi parar nas procelas da fama, depois que o portão se fechou. Mas, desde o primeiro instante, eu compreendi as razões para que o portão se fechasse. E não vou mentir que suspirei ao ver que, pouco tempo depois, o pato estava de volta sem guardar nenhuma distância para mim, dançando alegremente como fizera antes no lago ou para minha imaginação. Parece que o pato quer se libertar dos grilhões do tempo. É um ser em libertação nas águas do lago. Há um sol invisível dentro dele, que só eu vejo. E um cheiro de folhas verdes em volta do lago que me anestesia. De repente aquele lago ficou maior que os outros do mundo que eu conhecia e era ele que levava silenciosamente os devaneios da minha lavoura. Como seria bonito se eu pudesse ver aquele pato de óculos escuros, sob o sol inclemente, nadando sobre aquelas águas antes tranquilas. Passei a mão pela minha fronte nua e me perguntei se aquilo que escorria era um chuvisco, só podia ser, ou meus nervos estavam à flor da pele, e eu não sabia. Não consigo entender porque a história do pato me deixou tão inquieto, na outra margem do lago ao ponto de não saber onde deixei a minha venerável bengala, que me dava amparo, embora eu precise mais de vento e seiva. Para ser mais exato, agora somos dois desamparados: eu, porque perdi a minha bengala, e o pato, porque já não pode voltar ao lago. Como não tinha pensado nisso. Tudo se move. Porque a porta do lago não tem chave é que o pato vai e volta, entra e sai, para a alegria dos olhos sensíveis, que não perde a volta triunfal do pato no lago. Ele voltou. E, no fundo do lago, o pato parece uma criança chafurdando na água do seu banho. Ninguém se dá conta do que se passa, apenas vê o pato que, "na sua vidinha besta", de nadador de águas escuras ou transparentes, nada oculta, no meio da água, indiferente a qualquer nostalgia, enquanto os olhos da fotógrafa, fixos, bem no fundo, seguem o rumo das patas sob as águas, ditando o ritmo, a cadência dos círculos quebrando o silêncio dessa hora. Desconfio que agora esse pato estará sempre diante de mim como uma chama branda que a alma emana ou como uma voz interior que ecoa quando menos a gente espera. 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 11 de novembro de 2017

Lúdico



Por onde andei?
Perdi o pato,
perdeu a moça!

Perderam-se também as palavras,
e o poema ficou entalado
na garganta.

Aí veio a moça e disse:
“Não faz mal
esse pato passou, virá outro”

Talvez a moça tenha razão!

Um pato que passa é como o amor
depois que o primeiro passa,
virão outros. É só esperar...

"Mas cada perda
tem o seu significado na vida",
diz para os seus botões!

E assim ele sobrevive ao luto
e a espera que outro pato passe!

José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bricolagem II



a esponja não apaga:
o filão de brancura
o fardo dos olhos,
a dor animal

sem a pomba de volta
a esponja não apaga:

a hora diluviana
o órfão maltrapilho
a mata de musgos
o peso do fogo

onde tudo é carência,
não se apagam os vários acontecimentos
perdidos nas minhas retinas
onde nada morre

signos amorfos, 
anti-mofo de um minuto atrás,
renegando este testemunho

nada escapa
agora
aos dedos vorazes,

e o lápis traz o imaginário
tecido por fios de raio laser,
cópia blasé de uma sintaxe enfurecida
que um gramático em férias
engendrou no cafè au printemps. 

Talvez nem isso,

mas,
quando o meu ego
em piração fenomenal
do vazio da noite
no bazar do meu inconsciente,
descobriu
um empedernido ator chinês
investindo ações em enredos
para uma escola de samba
dos arredores de paris
tudo mudou

ou o mundo desabava no solar do unhão
em pânico,

que é como eu me sentiria
ao escrever
as pequenas histórias dos heróis,
que não seriam senão clichês do bas-fond 
de enredos medíocres,
se a tpm de alzirinha, prá lá de esquisita,
não se embarafustasse
pelos meus sentidos nos happy hours,
quando não há outro lugar
aonde ir
depois de um carrilhão de nuvens.

à sombra da fina flor,
escuro desenho,
o meu desejo soletrava
as rasuras da voz de adriana calcanhoto
pelas avenidas e pelos tiranos becos
de feitio romântico da velha salvador. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O colecionador

                                                                      
                                        Para Ingrid Azevedo
A chuva veio com o amanhecer na minha cidade de verão. Chuva forte, aguaceiro pipocando no telhado da casa, o que me fez permanecer na cama por mais um tempo. Depois, como ela não veio mesmo para ficar, foi-se devagarinho amainando. Só ficou a garoa. Chuva miúda, como se diz por aqui, porque garoa é coisa de paulista. Ontem choveu também. Agora, porém, está um dia morno, o calor voltando com força de levantar defunto. Não sei por que lhe digo estas coisas, ah, eu já sei, é porque estou com um guarda-chuva para o dia de hoje, mesmo sabendo que não choverá, é o que li nas folhas, pela internet. É um guarda-chuva de uma moça elegante; ela mo emprestou no bairro dos Bairris, um bairro antigo no centro da cidade, e foi embora antes que eu voltasse para devolver-lhe aquela preciosidade, vinda de Paris, como, sem rodeios, o confessou, rindo. É, todavia, um guarda-chuva pequeno, mal cobria minha cabeça, por isso molhei as pernas, de cima abaixo. Ainda bem que eu estava de bermuda, depois foi só passar papel toalha, para enxugá-las. Não, eu sei, menina, que se chama de sombrinha, exatamente porque cobre pouco o corpo. Também não sei se lhe disse que fui para o Bairris na hora do jantar e carregava três sacolas. Em cada sacola eu carregava três pares de sapato. Quando ela me emprestou o guarda-chuva, pensei que, ao voltar, eu lhe daria um par de sapatos de presente, seria uma forma de agradecer-lhe o empréstimo daquele objeto que não estava me sendo muito útil por ser pequeno para o meu tamanho, que só protegia minha cabeça e os ombros, mas ela desapareceu. Fiquei pensando que ela poderia ter ido chamar um soldado ou procurar um carro da polícia, para denunciar-me pelo roubo do seu guarda-chuva. Herdei essa presunção de minha mãe de ficar pensando coisas, mas tinha certeza de que ela não faria isto comigo, minha conversa com ela foi tão amena, razoável, me fiz acreditar com a história de ter deixado um pacote no carro e precisava ir pegá-lo, e a chuva não me deixava fazê-lo. Você acha que eu seria capaz de desaparecer com o guarda-chuva da moça elegante? Sabia, agora estou falando com você da borda da minha cama, mas preocupado, ô molesta, com a moça que pode ter tomado muita chuva por minha causa, embora eu não tivesse desaparecido. Nunca faria isto. Foi ela que desapareceu, de repente. Levantei da borda da cama e estou caminhando pelo carpete com os pés descalços e pensando na moça. Seria tão bom se ela me telefonasse, não sei se ela aceitaria o meu pedido de desculpas, mas seria um bom pretexto. Como minhas ideias estão desarrumadas porque é a primeira vez que me acontece uma coisa destas, fui eu abrir a porta do armário achando que ela poderia estar escondida lá dentro, mas, ao abrir a porta do armário, tomei um susto porque as roupas despencaram em cima de mim, parecia um tsunami em pequenas proporções. Essa falta de vontade de resolver este problema, fez-me lembrar que não é primeira vez que carrego um guarda-chuva que não é meu. Acho que sou um cleptomaníaco de guarda-chuvas. Vou olhar a minha coleção, ah, que bela surpresa, há dezenas deles, na parte de cima do armário, que batizamos de maleiro, puxa, tudo tem um nome, a moça também tem um nome, mas não me lembrei de perguntar-lhe, de pedir-lhe o telefone. Olho um por um.  Este é um deles, de Campos do Jordão, sim, do Jordão, é assim que se chama. De lá tem mais de um, são dois ou três, não sei explicar o porquê de tantos. Do Jordão, homenagem a Emerenciano Jordão, o dono das terras antes que se tornasse a estação de águas que é hoje; este, da Casa da Música, na cidade do Porto, este de Munique, já sei está achando que é pura bazófia, não é?. Pois então você que ache... Esquece...  Agora é tarde, mas sinto falta da moça por alguma razão obscura. Espere um pouco, não, espere, não freie o meu sonho, agora, minha divagação. Vou à janela porque ouço um barulho nas telhas. É a chuva, está fininha ainda, mas ela está voltando com garra. Na primavera é assim, sempre chove. Talvez a chuva traga a moça de volta. Espero que o vizinho de porta, de frente, não veja a moça entrar na minha casa ou pense que estou ficando maluco por estar abrindo a porta para uma moça de galochas, invisível, na minha cidade de verão, entrar. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bricolagem



tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.
epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens

o caralho
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã
e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário
ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, com um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

conspurcando o retrato da sociedade da época
se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?
o que seria da maquete
de frutas agônicas,  

adornando um salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia
Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra. 


(José Carlos Sant Anna)




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Definição



o poema
é cabeça torta de menino
que ainda não aprendeu
a enfiar o botão na casa


(José Carlos Sant Anna)



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

euclidiano



Euclides tinha razão
o ponto não tem tamanho
e zero é a sua dimensão. 

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre uma casca



Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim
distendida como se fosse um par de asas. 

José Carlos Sant Anna



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Água doce no outono


No quarto o coro das máscaras o jogo de xadrez e a chave da tarde no meu bolso Ela apenas de shortinho jeans blusa de malha e os faróis acesos Cena de cinema com uma lua em quarto crescente No acaso das coisas me fiz pássaro E nos seus braços súbitas janelas se abrem sem que eu revele a ligeireza das minhas asas E mãos e boca E a palavra ascende Sei este é o caminho A proa que desliza fugindo do sequestro iminente Quando a procurei minha Isolda cor de romã você me disse Você é a minhoca que faltava no meu anzol é o pão com sabor de arrefecido verão mas não vale o til da minha maçã Com o corpo mordendo disse-lhe que estava germinando a água do meu corpo e que eu borbulharia antes de morrer morrer morrer Você riu porque não sabia que os brutos também sonham geografias e os muros estremecem à sombra de um mito grego. Aqueles faróis são o bosque mais secreto revelado E por que sem nenhuma roupa não A transparência da malha não é uma conjugação de vogais porque me ardo em consoantes Tocar a luz mortal na sombra do muro escuro nas suas entranhas nas suas raízes mais fundas é desvario Ter o seu corpo duplicado através do espelho em que me ardo enquanto ainda sou um cálido tronco de água é devaneio Que me dirás você pergunta Pelo olhar as palavras falam É da sua luz São os seus faróis Parecem flor de centeio Como se não houvessem as palavras iluminadas na maciez do seu corpo soletro seu nome na canção da sua pele de pelúcia macia Estas mãos que ainda buscam o bafo da terra a qualquer momento raptam a sua nudez sonhada antes que eu possa começar tudo de novo Longínqua perscruto a música do mar ávido de ilustrações para esta tarde que azula atrás do morro.

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sem alegorias



A CHUVA NÃO DEU TRÉGUA durante toda a madrugada daquela segunda-feira, medonha, e ainda corria solta, pela manhã, como se fosse uma tempestade tropical, deixando as ruas da cidade inteiramente alagadas, quando Maria pulou da cama, de um jato, olhar fixo no despertador, desnorteada. Ao vê-lo marcando oito horas da manhã, se sabia atrasada e que haveria, como das outras vezes, refrega na casa da patroa. 
A empregada, que acordava todos os dias antes que sol se mostrasse pelos vãos das telhas de sua casa, tinha perdido o horário. Às pressas, vestiu a roupa, ajeitou um lenço nos cabelos para esconder o quanto estavam amarfanhados, correu ao banheiro e saiu sem tomar o desjejum. Pão com manteira e uma caneca com leite. 
Ela não sabe como conseguiu entrar no ônibus, de tão apinhado que estava, havia poucos circulando na manhã de tempestade, para não chegar tão atrasada no trabalho, pois conhecia a patroa. E muito bem.
Entrou na casa dela, completamente encharcada. Roupa de cima e de baixo. E a patroa, alheia ao mundo lá fora, olhando o próprio seu umbigo, perguntou-lhe porque estava chegando tão atrasada.
Sem titubeios, ela disse com um brilho nos olhos:
– É patroa, enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis com o seu marido, eu enfrentava esse dilúvio... 


(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Exercício para flauta e oboé




Só comigo
acontecem essas coisas:
contar meus segredos
ao relógio de parede.

Pode não ser o fim do mundo,
mas é no mínimo inusitado.

É o que me diz
o terapeuta

no momento em que a tarde
esplende do lado de fora 

e os antigos amigos 
sem subterfúgios transitam 
como um barco
pelas avenidas da minha memória

às vezes, agitados, 
outras,
pousando nos bares como aves lerdas
para fugirem do tédio

Tudo porque não têm 
um relógio de parede 
fatigado 

ruflando suas asas
para a vastidão das coisas finitas

coisas que nos aguardam nas esquinas
como as rosas de maio 
ou as linhas da vida esculpidas

nas palmas das mãos
sem que nos digam o que somos... 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Dedicatória





Este é o meu penhor
pelo teu olhar de frevo lírico
nos repuxos desenhados no ar
das tuas mãos e dos teus pés
tão leves
mas que deixam um sinal forte
da tua presença
nas dobras dos dias. 

(José Carlos Sant Anna). 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A ótica de Carlos





Um espadachim. Era como ele estava se sentindo depois da breve escaramuça na antessala da academia de ginástica com um oponente. "Pode isso, Arnaldo?". Como o mundo é o que corre lá fora, Carlos, para não ficar só, abandonou a esteira em que queimava uma gordurinha, e pernas, para que eu as quero?
Este era o caminho para entender as razões do que estava àquela altura acontecendo consigo mesmo. Ou como um sim inesperado que a vida parecia oferecer-lhe, caminhava se interrogando, intrigado, por que, depois que deixou a ótica no final da tarde do último sábado, não parou de pensar na consultora que o atendera? Que bela morena! Morenaço! E como ela não revelara, nem um pouco, uma alma pequena, achou que valeria a pena o derrame de neurônios que se perdia no rio da sua libido. Tudo estava em ordem em sua vida até aquele momento, mas, de repente, achou que faltava ela no seu caminho.
Logo depois que deixou a loja, Carlos, sereno, seguiu para o Porto da Barra para montar guarda. Lá, tomando um chope aguado, cheirando a maresia, e com o cocô de cachorro impregnado nas calçadas exalando pelas portas a dentro dos bares, imaginou que talvez ele não soubesse que o centro do mundo é um ponto escuro, que não se tange assim como não se quer nada ou com poemas que se digam inconfessáveis. Ou mesmo não soubesse ainda que o segredo da liberdade é saber esquecer antes que ela se torne um amor cruel, tangida por um condutor de bondes.
Sôfrego, sem que as sombras o iludissem, ficou murmurando depois algo contra si mesmo. E logo, enviesadamente, por saber que o mundo não é mundo, mergulhou num silêncio atonal recolhendo este segredo que não sabia quando desfiaria e para quem o desfiaria, e que, se possível, ainda desfiaria este rosário naquela noite cujos primeiros acordes já se fazia ouvir com o pôr-do-sol.
Saiu da loja de braços dados com uma novela e a tranquilidade de sua alma acreditando que tinha feito o melhor ao trocar também a armação dos óculos. E começou ali mesmo a reconstituir o passo a passo da sua conversa com a consultora de um pouco menos de duas horas, mas, ao que parece, ele tinha deixado escrito em sua pele seja bem-vinda. E dizia para si mesmo "Venha, mas venha leve para que eu não acabe os meus dias em silêncio, porque a primeira impressão não é a que fica. Isto é um engodo. Venha, sem pressa e com vontade de sonhar, passear pelas ruas de mim mesmo, sem gatos a espreitá-la. Venha que, quando a festa estiver no ápice, eu reparto as cordas da minha lira com você". 
Lembrou-se que, ao assomar à porta, ela se levantou da cadeira e se dirigiu à entrada da loja encurtando a distância que a separava dele e, sem afastar o olhar um milímetro, ela lhe estendeu as mãos, perguntando-lhe:
– Posso ajudá-lo? 
– Queria falar com Cristina?
– É aquela ali. Ela está ocupada no momento – disse-lhe apontando para uma moça de cabelos compridos, que mostrava na vitrine algumas armações para um cliente que entrara na loja um pouco antes de Carlos.
– E o Procópio?
– É o gerente da loja. É aquele senhor, na outra extremidade, atendendo aquelas duas moças – disse-lhe, mostrando um senhor parrudinho de cabelos grisalhos, de mais ou menos 50 anos, que abriu um sorriso carregado de simpatia da sua mesa de trabalho, quando percebeu que Carlos estava ali para falar com ele.
– Venha, sente-se aqui – disse-lhe a consultora, puxando-o pelo braço com um jeito sedutor. – Vamos conversar enquanto esperamos Procópio fechar o contrato com as duas moças – acrescentou.
– Posso adiantar-lhe o que me traz aqui, se você quiser! Como é mesmo o seu nome?
– Ana Flávia! Mas pode me chamar de Ana!
– Com tanta simpatia da sua parte, acho que não preciso esperar por Procópio – disse-lhe piscando um olho e com o outro fixava a sombra bem delineada no seu rosto.
Ela fez de conta que não entendeu o seu gesto, mas o recolheu com um sorriso ambíguo.
– Como o senhor vem recomendado, podemos ir conversando, sim, mesmo sabendo que a palavra final será dada pelo Procópio. Ele fará o que não poderei fazê-lo!
– Tenho cá minhas dúvidas  disse-lhe tocando levemente sua mão.
Ele meteu a mão no bolso apanhando a receita dos óculos, colocando-a sobre a mesa de trabalho de Ana Flávia. Ela a tomou em suas mãos para conferir a quanto ia o astigmatismo de Carlos, que se preocupava em observar os detalhes do seu rosto, da sua pele. Até que ela se levantou para apanhar as armações, então, ele pode acompanhar o movimento ritmado das suas ancas. Suspirou duas vezes e passou a mão no rosto para limpar o suor que deixava nele um brilho excessivo.
O estilo pode muitas vezes ser um fake na vida de cada um. E, por favor, nada de truques porque a vida não aceita rasuras no seu percurso infindável, é o que ele diz a si mesmo antes de voltar a olhar a fração de mar que se descortinava na solidão da sua mesa e, em seguida, chamou o garçom e pediu mais um chope.
Depois que ele se afastou, Carlos se lembrou rapidamente do garçom do Café com Letras, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, quando ele pegou a sua tulipa ainda cheia de chope e fingiu que estava levando-a de volta para a cozinha.  Ao perceber a sua reação, disse-lhe com um sorriso largo de domador:
– Me acompanhe. Já consegui uma mesa lá dentro. Vai começar a sessão de jazz. E o senhor só vai me agradecer esta gentileza porque são músicos de uma elegância que as notas parecem em êxtase. – E sorriu.
Carlos não se dá por vencido e volta a se perguntar por que não parou de pensar na consultora. Ouve os acordes iniciais do concerto e os confunde com a noite de jazz do Café com Letras e outro baile interminável mais distante no tempo. E como se a consultora estivesse perto diz-lhe que queria lhe mostrar sua outra face, a mais sisuda, e apagar a paródica revelada no sábado à tarde. 
Às dez da noite, Carlos, depois de cinco canecas de chope, era um espantalho de homem, subiu para o restaurante porque ela não apareceu para jantar como ficara tacitamente combinado. Adeus, pressurosos ventos das sonhadas manhãs ensolaradas.
Pouco sabemos dos rios que nos afogam. Ainda hoje Carlos não deixa de pensar na consultora depois do encontro na loja na tarde daquele sábado. Foi um sobrinho que pegou seus óculos novos.  

(José Carlos Sant Anna) 









domingo, 23 de julho de 2017

Beatriz - Parte três



Estava certo de que ouvira o lado mais ocidental de Nelson Rodrigues dizer que, uma vez escolhido um caminho, nunca deveríamos estorvá-lo sem olhar para as estrelas, sob pena de... Não, não importa. Portanto, ali estaria sossegado e com o coração leve, percutindo de vez em quando o pé no tronco que o sustentava. Levíssimo. E como um profeta ou um Camões redivivo recitou do seu altar o que parecia um poema:
– Se é que somos feitos de impossíveis sins, não me consinta o amor tanta alegria, pois vejo que a noite promete destruir os véus da incerteza, pois percebo que são forças maiores que arrastaram este homem que já foi de carne osso até aqui. – E riu muito. 
Enquanto da minha varanda, metade de mim era silêncio, a outra metade era pura expectativa. Sim, eu estava também bem curioso e tinha abandonado o livro que apanhara ao acaso na prateleira da estante. E me acomodei como se estivesse numa privilegiada poltrona para acompanhar o desenlace da história. Porque estava claro que havia no ar uma rusga amorosa entre as duas moças, só ainda não tínhamos descoberto qual o real motivo da desavença. Das imprecações de uma contra a outra. O fato é que elas subiam olimpicamente a ladeira, discutindo. É verdade que se ouvia apenas a voz de Beatriz. Mas elas discutiam entre si, disso já não se tinha dúvidas. Brigavam e ponto final. Mas cada pessoa tem o seu modo de brigar. Como a vida não tem roteiros, era a outra que se lastimava em voz alta, e Beatriz, como uma cândida pomba, buscava a conciliação entre um impropério e outro. Havia ainda uma réstia de pomba nela. Ou um noturno anjo branco?. Ela se revelava velando aquele amor, embora tivesse pisado em falso. 
E, lá do alto, prosseguia o Nelson Rodrigues querendo ensinar de modo inflexível, para mim, o "óbvio ululante": 
– Como eu sei que a vida não é um lago, assim, eu ia passando, bem distraído, como quem não queria nada, quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu pensei "aí tem angu". 
E acrescentou com sua aura esplendorosa:
– Ou debaixo desse angu tem carne. 
E com um ar irônico arrematava, mas sem passar a régua:
– Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?   
De repente, outras janelas, com rufos de timbales, se abriram. Foi um zum-zum-zum que se espalhou pelo paliteiro do Caminho das Árvores. Acho que o Nelson pensou que estivesse num Maracanã miniaturizado com a vida fremindo no cu da madrugada. E ele parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava a histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse, mostrando-lhe discretamente as janelas se abrindo, e os sussurros, por enquanto, ainda pequenos. 
Por que a outra gritava tanto se Beatriz estava ao seu lado? A vida é mesmo um encanto, não se pode dizer o contrário. Tanto barulho e os pássaros, retardatários, voltando fagueiros a se acomodar nos seus galhos, indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho animal refestelado na frondosa árvore.  
Quase não se ouvia a voz da outra pomba. Apenas Isabel arrulhava. Por isso, o que a pomba dizia era apenas imaginado pelas circunstâncias ou por uma lógica perversa dos que estavam acomodados nos camarotes das suas janelas e varandas.
Pelas circunstâncias era mais ou menos isto que se imaginava. O diálogo possível, porém imaginado:
– Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis.
Ou, então, com um pouco mais de imaginação:
 Vem, amor, é em ti, amada, que meus sonhos repousam. "... embaixo dos caracóis dos seus cabelos..."
Ou provocadora, fazia uma careta, dizendo:
– “Ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo...” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”,
Ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum
– “Olha pro céu, meu amor..."
Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos Big Brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, parecia que ficaria sozinha. Ficaria sem as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação. Não tinha escolha? É o que se perguntava quando havia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra.
Esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama”, era o que agora se ouvia nitidamente, porque repetia aos gritos para Beatriz.
Foi assim que ficamos conhecendo a outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu o conluio amoroso. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no rala e rola. E eram todas as amigas, senão como explicar a chama dessa vela que a outra segurava? 
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas ao armistício, à reconciliação, a vítima irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, sua desocupada? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e se ouviu o taxista dirigir-se às moças perguntando-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz não respondeu. Abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo que a calou de vez.
Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando, olhou para cima e disse numa voz plácida para que todos ouvissem: 
 É isso... A vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 16 de julho de 2017

Beatriz - Parte dois



Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe/perto, aqui, na praça, em frente aonde construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito.
Se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência de tempo, não mais o da falta, de outros tempos, mas o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos da rua que, para a sua alegria, não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal nas mãos, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia.
Da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício do que ele mais gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os seus sentidos, na expectativa do advir e uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. E, na leve espessura do galho, estava intocável. E também invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre o xadrez das teclas, catando milho, durante várias décadas, mas agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele, batendo as mãos contra o peito, descontraidamente, gostava de se proclamar para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora, pelo que se ouvia da altercação com a outra moça, ela batesse um bolão. Era um Pelé (ou uma Pelé) de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, com aqueles que se derramavam na roda dos bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. 
Estou certo de que, a distância, parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. E parecia dizer-me ainda "é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou", e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
Se você meu caro leitor, ainda "quer viver, para ver, vai ter que esperar por outro dia", pois, como disse Cassiano Ricardo, "foi para isto que se inventou o adiamento". Portanto, essa história continua. É só esperar o próximo capítulo.

(José Carlos Sant’Anna)