segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Dedicatória





Este é o meu penhor
pelo teu olhar de frevo lírico
nos repuxos desenhados no ar
das tuas mãos e dos teus pés
tão leves
mas que deixam um sinal forte
da tua presença
nas dobras dos dias. 

(José Carlos Sant Anna). 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A ótica de Carlos





Um espadachim. Era como ele estava se sentindo depois da breve escaramuça na antessala da academia de ginástica com um oponente. "Pode isso, Arnaldo?". Como o mundo é o que corre lá fora, Carlos, para não ficar só, abandonou a esteira em que queimava uma gordurinha, e pernas, para que eu as quero?
Este era o caminho para entender as razões do que estava àquela altura acontecendo consigo mesmo. Ou como um sim inesperado que a vida parecia oferecer-lhe, caminhava se interrogando, intrigado, por que, depois que deixou a ótica no final da tarde do último sábado, não parou de pensar na consultora que o atendera? Que bela morena! Morenaço! E como ela não revelara, nem um pouco, uma alma pequena, achou que valeria a pena o derrame de neurônios que se perdia no rio da sua libido. Tudo estava em ordem em sua vida até aquele momento, mas, de repente, achou que faltava ela no seu caminho.
Logo depois que deixou a loja, Carlos, sereno, seguiu para o Porto da Barra para montar guarda. Lá, tomando um chope aguado, cheirando a maresia, e com o cocô de cachorro impregnado nas calçadas exalando pelas portas a dentro dos bares, imaginou que talvez ele não soubesse que o centro do mundo é um ponto escuro, que não se tange assim como não se quer nada ou com poemas que se digam inconfessáveis. Ou mesmo não soubesse ainda que o segredo da liberdade é saber esquecer antes que ela se torne um amor cruel, tangida por um condutor de bondes.
Sôfrego, sem que as sombras o iludissem, ficou murmurando depois algo contra si mesmo. E logo, enviesadamente, por saber que o mundo não é mundo, mergulhou num silêncio atonal recolhendo este segredo que não sabia quando desfiaria e para quem o desfiaria, e que, se possível, ainda desfiaria este rosário naquela noite cujos primeiros acordes já se fazia ouvir com o pôr-do-sol.
Saiu da loja de braços dados com uma novela e a tranquilidade de sua alma acreditando que tinha feito o melhor ao trocar também a armação dos óculos. E começou ali mesmo a reconstituir o passo a passo da sua conversa com a consultora de um pouco menos de duas horas, mas, ao que parece, ele tinha deixado escrito em sua pele seja bem-vinda. E dizia para si mesmo "Venha, mas venha leve para que eu não acabe os meus dias em silêncio, porque a primeira impressão não é a que fica. Isto é um engodo. Venha, sem pressa e com vontade de sonhar, passear pelas ruas de mim mesmo, sem gatos a espreitá-la. Venha que, quando a festa estiver no ápice, eu reparto as cordas da minha lira com você". 
Lembrou-se que, ao assomar à porta, ela se levantou da cadeira e se dirigiu à entrada da loja encurtando a distância que a separava dele e, sem afastar o olhar um milímetro, ela lhe estendeu as mãos, perguntando-lhe:
– Posso ajudá-lo? 
– Queria falar com Cristina?
– É aquela ali. Ela está ocupada no momento – disse-lhe apontando para uma moça de cabelos compridos, que mostrava na vitrine algumas armações para um cliente que entrara na loja um pouco antes de Carlos.
– E o Procópio?
– É o gerente da loja. É aquele senhor, na outra extremidade, atendendo aquelas duas moças – disse-lhe, mostrando um senhor parrudinho de cabelos grisalhos, de mais ou menos 50 anos, que abriu um sorriso carregado de simpatia da sua mesa de trabalho, quando percebeu que Carlos estava ali para falar com ele.
– Venha, sente-se aqui – disse-lhe a consultora, puxando-o pelo braço com um jeito sedutor. – Vamos conversar enquanto esperamos Procópio fechar o contrato com as duas moças – acrescentou.
– Posso adiantar-lhe o que me traz aqui, se você quiser! Como é mesmo o seu nome?
– Ana Flávia! Mas pode me chamar de Ana!
– Com tanta simpatia da sua parte, acho que não preciso esperar por Procópio – disse-lhe piscando um olho e com o outro fixava a sombra bem delineada no seu rosto.
Ela fez de conta que não entendeu o seu gesto, mas o recolheu com um sorriso ambíguo.
– Como o senhor vem recomendado, podemos ir conversando, sim, mesmo sabendo que a palavra final será dada pelo Procópio. Ele fará o que não poderei fazê-lo!
– Tenho cá minhas dúvidas  disse-lhe tocando levemente sua mão.
Ele meteu a mão no bolso apanhando a receita dos óculos, colocando-a sobre a mesa de trabalho de Ana Flávia. Ela a tomou em suas mãos para conferir a quanto ia o astigmatismo de Carlos, que se preocupava em observar os detalhes do seu rosto, da sua pele. Até que ela se levantou para apanhar as armações, então, ele pode acompanhar o movimento ritmado das suas ancas. Suspirou duas vezes e passou a mão no rosto para limpar o suor que deixava nele um brilho excessivo.
O estilo pode muitas vezes ser um fake na vida de cada um. E, por favor, nada de truques porque a vida não aceita rasuras no seu percurso infindável, é o que ele diz a si mesmo antes de voltar a olhar a fração de mar que se descortinava na solidão da sua mesa e, em seguida, chamou o garçom e pediu mais um chope.
Depois que ele se afastou, Carlos se lembrou rapidamente do garçom do Café com Letras, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, quando ele pegou a sua tulipa ainda cheia de chope e fingiu que estava levando-a de volta para a cozinha.  Ao perceber a sua reação, disse-lhe com um sorriso largo de domador:
– Me acompanhe. Já consegui uma mesa lá dentro. Vai começar a sessão de jazz. E o senhor só vai me agradecer esta gentileza porque são músicos de uma elegância que as notas parecem em êxtase. – E sorriu.
Carlos não se dá por vencido e volta a se perguntar por que não parou de pensar na consultora. Ouve os acordes iniciais do concerto e os confunde com a noite de jazz do Café com Letras e outro baile interminável mais distante no tempo. E como se a consultora estivesse perto diz-lhe que queria lhe mostrar sua outra face, a mais sisuda, e apagar a paródica revelada no sábado à tarde. 
Às dez da noite, Carlos, depois de cinco canecas de chope, era um espantalho de homem, subiu para o restaurante porque ela não apareceu para jantar como ficara tacitamente combinado. Adeus, pressurosos ventos das sonhadas manhãs ensolaradas.
Pouco sabemos dos rios que nos afogam. Ainda hoje Carlos não deixa de pensar na consultora depois do encontro na loja na tarde daquele sábado. Foi um sobrinho que pegou seus óculos novos.  

(José Carlos Sant Anna) 









domingo, 23 de julho de 2017

Beatriz - Parte três



Estava certo de que ouvira o lado mais ocidental de Nelson Rodrigues dizer que, uma vez escolhido um caminho, nunca deveríamos estorvá-lo sem olhar para as estrelas, sob pena de... Não, não importa. Portanto, ali estaria sossegado e com o coração leve, percutindo de vez em quando o pé no tronco que o sustentava. Levíssimo. E como um profeta ou um Camões redivivo recitou do seu altar o que parecia um poema:
– Se é que somos feitos de impossíveis sins, não me consinta o amor tanta alegria, pois vejo que a noite promete destruir os véus da incerteza, pois percebo que são forças maiores que arrastaram este homem que já foi de carne osso até aqui. – E riu muito. 
Enquanto da minha varanda, metade de mim era silêncio, a outra metade era pura expectativa. Sim, eu estava também bem curioso e tinha abandonado o livro que apanhara ao acaso na prateleira da estante. E me acomodei como se estivesse numa privilegiada poltrona para acompanhar o desenlace da história. Porque estava claro que havia no ar uma rusga amorosa entre as duas moças, só ainda não tínhamos descoberto qual o real motivo da desavença. Das imprecações de uma contra a outra. O fato é que elas subiam olimpicamente a ladeira, discutindo. É verdade que se ouvia apenas a voz de Beatriz. Mas elas discutiam entre si, disso já não se tinha dúvidas. Brigavam e ponto final. Mas cada pessoa tem o seu modo de brigar. Como a vida não tem roteiros, era a outra que se lastimava em voz alta, e Beatriz, como uma cândida pomba, buscava a conciliação entre um impropério e outro. Havia ainda uma réstia de pomba nela. Ou um noturno anjo branco?. Ela se revelava velando aquele amor, embora tivesse pisado em falso. 
E, lá do alto, prosseguia o Nelson Rodrigues querendo ensinar de modo inflexível, para mim, o "óbvio ululante": 
– Como eu sei que a vida não é um lago, assim, eu ia passando, bem distraído, como quem não queria nada, quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu pensei "aí tem angu". 
E acrescentou com sua aura esplendorosa:
– Ou debaixo desse angu tem carne. 
E com um ar irônico arrematava, mas sem passar a régua:
– Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?   
De repente, outras janelas, com rufos de timbales, se abriram. Foi um zum-zum-zum que se espalhou pelo paliteiro do Caminho das Árvores. Acho que o Nelson pensou que estivesse num Maracanã miniaturizado com a vida fremindo no cu da madrugada. E ele parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava a histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse, mostrando-lhe discretamente as janelas se abrindo, e os sussurros, por enquanto, ainda pequenos. 
Por que a outra gritava tanto se Beatriz estava ao seu lado? A vida é mesmo um encanto, não se pode dizer o contrário. Tanto barulho e os pássaros, retardatários, voltando fagueiros a se acomodar nos seus galhos, indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho animal refestelado na frondosa árvore.  
Quase não se ouvia a voz da outra pomba. Apenas Isabel arrulhava. Por isso, o que a pomba dizia era apenas imaginado pelas circunstâncias ou por uma lógica perversa dos que estavam acomodados nos camarotes das suas janelas e varandas.
Pelas circunstâncias era mais ou menos isto que se imaginava. O diálogo possível, porém imaginado:
– Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis.
Ou, então, com um pouco mais de imaginação:
 Vem, amor, é em ti, amada, que meus sonhos repousam. "... embaixo dos caracóis dos seus cabelos..."
Ou provocadora, fazia uma careta, dizendo:
– “Ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo...” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”,
Ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum
– “Olha pro céu, meu amor..."
Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos Big Brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, parecia que ficaria sozinha. Ficaria sem as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação. Não tinha escolha? É o que se perguntava quando havia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra.
Esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama”, era o que agora se ouvia nitidamente, porque repetia aos gritos para Beatriz.
Foi assim que ficamos conhecendo a outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu o conluio amoroso. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no rala e rola. E eram todas as amigas, senão como explicar a chama dessa vela que a outra segurava? 
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas ao armistício, à reconciliação, a vítima irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, sua desocupada? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e se ouviu o taxista dirigir-se às moças perguntando-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz não respondeu. Abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo que a calou de vez.
Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando, olhou para cima e disse numa voz plácida para que todos ouvissem: 
 É isso... A vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 16 de julho de 2017

Beatriz - Parte dois



Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe/perto, aqui, na praça, em frente aonde construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito.
Se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência de tempo, não mais o da falta, de outros tempos, mas o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos da rua que, para a sua alegria, não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal nas mãos, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia.
Da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício do que ele mais gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os seus sentidos, na expectativa do advir e uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. E, na leve espessura do galho, estava intocável. E também invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre o xadrez das teclas, catando milho, durante várias décadas, mas agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele, batendo as mãos contra o peito, descontraidamente, gostava de se proclamar para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora, pelo que se ouvia da altercação com a outra moça, ela batesse um bolão. Era um Pelé (ou uma Pelé) de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, com aqueles que se derramavam na roda dos bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. 
Estou certo de que, a distância, parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. E parecia dizer-me ainda "é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou", e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
Se você meu caro leitor, ainda "quer viver, para ver, vai ter que esperar por outro dia", pois, como disse Cassiano Ricardo, "foi para isto que se inventou o adiamento". Portanto, essa história continua. É só esperar o próximo capítulo.

(José Carlos Sant’Anna)




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beatriz - Parte um



ESFREGO OS OLHOS PARA ACOSTUMAR-ME à escuridão do quarto fechado pelo blackout e cortinas de algodão; alongo o corpo como se eu fosse um atleta e aguardo um pouco, sem esfriar o sangue, para levantar-me. É o tempo que eu preciso para que os meus olhos se acostumem à escuridão e os meus músculos, nas águas que ignoram o céu aberto, obedeçam ao meu cérebro. Faço isso sem remorso algum ou, então, porque não me resta outra alternativa, pois, naquele momento, eu sou ali um corpo submetido às minhas necessidades fisiológicas. Agora, por favor, – porque sei o quanto o leitor é curioso –, não me pergunte o que faço a essa hora da madrugada na varanda do meu apartamento porque eu não saberia dar-lhe uma resposta convincente. Ou não desejaria fazê-lo. Se isto não lhe basta, meu caro leitor, digo-lhe apenas que tenho os pés no chão. Ah! Me rendo diante da sua insistência! Eis tudo. Não me sufoque! O que posso dizer-lhe é que me levanto voluntariamente, como um corpo que nunca faltou à palavra dada. Parte de mim. Simplesmente um corpo. Não, é melhor que o diga compulsoriamente. Por força da idade mais avançada. Faço isso habitualmente para desobstruir a bexiga, depois, já mais leve, não quis voltar à cela como um condenado, ou talvez levado por alguma premonição, desaguei, tão certo quanto a morte, na varanda, com a mão em concha, no ouvido, como quem escuta. Embora não estivesse resolvido inteiramente o meu sono, ainda havia um naco dele perdido, decido, então, aguardar, embalado por algum sentimento, a manhã, leve, pousar na minha varanda. Primeiro, fixo o olhar nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas alinhadas e adormecidas como se estivessem numa clave de sol, mas não as encontro. Estavam inteiramente desnudos os fios. Logo, imagino-as em outra pauta, mais longínqua, e penso, olhando para o céu, "quanto mundo abissal nos confins do infinito se esconde dos nossos olhares", tendo como testemunha esta lua cúmplice, sôfrega, brilhante, que recolhe tudo que foi de ontem, enquanto outras pequenas luas iluminam a praça que circunda o prédio onde eu moro. Não tenho dúvidas, diante daquela visitação pública, em acreditar que, em cada um de nós, mora um sobrevivente, também não tenho dúvidas de que por mais que a ciência quebre os vidros da janela, ela ainda tem um longo caminho pela frente. E assim conciliado com os céus e o olhar fixo no solo áspero da praça, começo a ouvir vozes distantes subindo a ladeira íngreme que as leva à praça. São duas vozes femininas que se alternam em pequenos intervalos. Uma, mais áspera; e a outra, mais modulada, mais conciliadora. Esfrego os olhos novamente para ter a certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, pois, diga-se de passagem, sou capaz de apostar que há um sujeito encarapitado numa árvore da praça. Fixo o olhar e cravo na mosca: “Pô, meu, aquele é o Nelson! O Nelson Rodrigues, 'cuspido e escarrado'". O mesmo que disse que "cego em futebol é o que só vê a bola". Não acredito. O velho Nelson, com ar bonachão, traja uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista que, sob os ossos da palavra, impunha respeito. Mas lá está ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando primeiro a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz", depois me assaltou uma dúvida: o que mais ele faria ali? Posso brincar com os meus leitores, pedindo que eles escrevam cartas para a redação dizendo-me o que ele acha que Nelson Rodrigues estaria fazendo ali, além de comodamente exibir o seu coração com as cores do seu velho FLU. Ah! Não esqueçam – isto pode ajudar e muito – que ele carregava em suas entranhas a alma do repórter. O excelente repórter que sempre foi. Também não esqueçam da coluna, publicada às segundas-feiras, no jornal O Globo, cujo mote era o personagem que emergia como herói na rodada do final de semana. "Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer.../... Não esqueça..." Aí, já é o admirável Paulinho da Viola, de Sinal Fechado, e tantas canções e sambas inesquecíveis, como são inesquecíveis as crônicas do Nelson. Mas eu volto para contar-lhe o resto dessa história...

(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Lavoura



essa teia de raízes dos velhos troncos
atravessa 
minha voz meu corpo minha nudez
e, em alguma folha nova, vagarosa, 
esculpe brisa imóvel, pulsação serena, 
antes que tudo sutilmente volte ao pó, 
memória exata da casa aberta, 
quando se encantam no suave pingar 
das horas os meus ouvidos de poeta. 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 20 de junho de 2017

Intercursos

Foto: arquivo pessoal

I.

pelo avesso
o verso veleja veredas

a rota e o chão
das palavras enfunam
os panos de fundo dos dilemas,

a boca do mar
engolfa a fome do poema
e as gaivotas abocanham
no voo este teorema

II

o poema é uma chuva
                                   movediça
que se escreve
para quem não se diz

enunciado
desdobra-se claro-escuro
decompondo
o silêncio da ponta da língua... 

III

do lado de dentro
do fado
o verbo exilado
desafia o olho mágico
na jurisdição
             do seu espaço. 


Só faz sentido:
acordo em sustenido
    dizendo-lhe no ouvido
          dezenas de bemóis.


(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sob as águas buliçosas do sonho



I
O assoalho estremece. Outrora, pedras azuis, clareiras vermelhas e animais noturnos nas nuvens. Não estremecia sob os meus pés. Murmúrios da minha boca de chuva em suas membranas. Subitamente macias. Nada se perde. E tudo se oferece debaixo dessa bruma. No tronco mais silencioso da casa, ela me disse alguma coisa antes que eu tragasse o primeiro cálice de vinho. Àquela altura, pois, já me embriagava sob a tua pele. Acho que foi o teu nome. Mas não! Mas não! Sim, o segredo do teu nome de batismo. Longa viagem. Imprevisíveis acentos.

II
Como se fosse uma fábula sobre coisa nenhuma. Lugar de insônia, iluminando a noite. Mas não me perguntem de onde vem o bulício de vozes. Nada parecido. Algo nebuloso, algo como se as palavras tivessem cor e cabelos, quando à mesa se cogita qualquer coisa, como se no esplendor suave houvesse uma saudade da nascente, ou qualquer outro pacto. E, então, todos se perguntam por que exala um forte cheiro de maçã pela casa, enquanto uma lua redonda entra pela janela deixando que todos vejam os momentos íntimos do casal. A terra molhada. A boca na maçã, tomates intocados. Densidade. Leveza. Em torno das palavras o rumor porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão.  

III
O assoalho estremece outra vez. Agora sem esconder sua memória milenar, enquanto flutuam, resvalam, resplandecem dispersos os passos dos alheios coadjuvantes que caminham pela casa. E quanta elegância discreta nos seus charmosos aventais. Ágil, o gato pula a janela. Tudo que do amor se diga: a água que me falta, o olhar cúmplice. Esta que me visita, este que a deseja, e a nudez do silêncio, e a nudez do corpo, e nos cálices o rumor da água, e do vinho, e o fogo de que são feitos os homens. E o desejo de inventá-la alimentando essa chama clara. E que não cessa de levitar. 

IV
A música sobe redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara porque as veias do tempo, sedentárias, latejam O corpo é içado para o alto, adoraria apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu pensamento sem que eu o saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar. Essa esperança convicta e a certeza do amanhecer. As constelações verbais solapando as pedras obsequiosas. De que somos feitos agora?

V
A pensar. Os neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios entrançados nos fios loiros dos cabelos do ventre da menina. Gotejam dos meus dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo de partilhar com ela os movimentos da dança. 

VI
Vai alta a música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que estremece. Suave ondulação. Minuciosa. Música em lâminas finas rasgando o assoalho, complicando este mistério tão frágil.

VII
Há qualquer coisa de etéreo no sorriso da menina despertando a madrugada por dentro da pele. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no corpo esguio e sedutor por onde entra a minha pena. Cada vez mais sensíveis, mãos e olhar se repetem. E resplandecem. Sopro transparente, a água ainda me falta neste labirinto. Uma voz prolonga a melodia e a doçura de não haver outra sombra por dentro do fulgor.

VIII
O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem nada que me impeça o voo, é uma imagem recôndita dessa presença que rumoreja como o grito de um náufrago. Ela tem uma aragem nos pés sob as sandálias que voam para o chão desnudo. Vou gozando o instante com a boca ressequida, enchendo-me do sonho com a luz que me interroga.

IX
É uma coisa tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço, aguardando a trovoada que desaba inundando o seu corpo. O melhor de mim. A tentação ainda latente. Me afagas e, também, derrete meu chumbo para alcançar a ponte de estrelas...  

X.
Soberba água, fogo consumido. 

(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Canção

Foto arquivo pessoal

Se os teus lábios úmidos
aceitassem o meu outono

que me açula e se ergue
entre musgos e lamparinas

eu dançaria um tango
com o teu corpo desejado

aberto qual rosa fascinada
em límpida harmonia

sem ninguém para nos dizer
como o sol se amainaria

haurindo o chão da vida
com volúpia e alegria! 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 9 de maio de 2017

No bolso



Trago o bolso cheio dos sonhos
que não ficaram pelo caminho,
do sol velado na outra margem 
do mar atrás das coisas eternas,

e do vento da tarde sacudindo 
as árvores, e das noites de luar,
e das palavras de mãos dadas
com a poesia reinventando

o leite derramado na sintaxe
cifrada das mensagens nas
garrafas, perdidas nos mares

de outrora, e na invenção 
de mapas e enredos para ilhas
que recomponho lentamente. 

               (José Carlos Sant Anna)



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Lembrança do Brasil*

Crônica de Arnaldo Saraiva, escrita em 1987.


* Remexendo nos meus alfarrábios, encontrei o texto abaixo escrito por Arnaldo Saraiva (1939), intelectual português, contista, cronista, que sempre manteve estreitos laços com a intelectualidade brasileira, sobretudo da área das letras, e publicado em 1987, na Revista Brasileira de Língua e Literatura, ano IX, número 15, p. 72-74, mantida pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura em convênio com a Secretaria Municipal de Cultura de Niterói - RJ.

A pergunta que fica: O que mudou no país ao longo desses 30 anos? "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"?

De acordo com um grande humorista brasileiro “é preciso um escritor bem mais medíocre” do que ele “para descrever com precisão a atual situação do país”. Para um cronista carioca, que não esqueceu as discretas maneiras mineiras em que se formou, a hora brasileira “é fosca, medíocre”. Mas um fundista de São Paulo pode dispensar as ironias e as atenuações: “Esta é uma fase extremamente sombria nos fastos republicanos: um período de descrédito generalizado, que assume o aspecto de uma longa noite escura, o firmamento carregado de presságios".
Descrédito (político) generalizado, sim. Tem-se a impressão que nenhum cidadão confia mais nos políticos que escolheu ou lhe couberam em sorte – prefeitos, governadores, deputados, senadores, ministros, presidentes –, salvo quando eles são amigos ou parentes. Tem-se mesmo a impressão que nenhum político confia em nenhum político, nem no correligionário, a não ser pela solidariedade que sempre pede a corrupção.
Falsa impressão? Talvez. Mas que pensar quando se sabe que uma só família do Nordeste deu dez senadores e deputados atuais? Que um ministro em exercício foi da ARENA, do PDS, do PP, outra vez do PDS, esteve no PMDB e inscreveu-se no PFL? Que em menos de quatro anos os funcionários do Estado da Paraíba passaram de 33 mil a 101 mil, dos quais 28 mil entrados quando se aproximavam as eleições? Que os partidos, a começar pelo principal, que simultaneamente sustenta e ataca o Governo, são quase todos ficções ideológicas, criações artificiais cuja doutrina ou teoria pode oscilar ao sabor das mais despudoradas conveniências?
Faltam elites políticas, impossibilitadas pela longa ditadura militar – dizem alguns. Falta é vergonha – dizem outros. Se não, como explicar que todos os graves problemas com que se tem debatido o país pareçam adiados ou até agravados e que, a propósito da Constituição, do tempo de um mandato, ou de nada, nas câmaras e nas instâncias partidárias se multipliquem e eternizem os jogos, os casuísmos, as hipóteses acadêmicas?
Enquanto isso, fazem-se alguns progressos técnicos mas vai aumentando o crime e o roubo, vão subindo os impostos (disfarçadamente, se possível), não se controla a inflação, não se combate a corrupção e as “mordomias”, admite-se ou estimula-se a ilegalidade, favorece-se o êxodo para o estrangeiro. Portugal incluído, que para isso serve a comunidade luso-brasileira. O proibido jogo do bicho toda a gente o joga às claras: em casas de câmbio ou na rua o dólar tem uma cotação bem mais alta do que nos bancos; o jeitinho e o expediente triunfam sobre todas as regras; as autoridades transformam-se em bandidos, e bandidos em autoridades.
E enquanto isso um trabalhador pode ganhar menos de 2 mil cruzados por mês (o salário mínimo), quando um deputado, que tem um “subsídio fixo” (o salário) de cerca de 13 mil, pode acabar por ganhar mais de 350 mil, graças a um sem-número de artifícios e de jetons”: ajudas de custo, subsídios de viagem, de habitação, de presença, de correio, etc., etc.. Lá como cá.
Perdido o crédito nos seus dirigentes ou nas suas elites, cuja regra geral de comportamento parece ser a do “salve-se quem puder” ou – se se trata de gente da classe média – a do “enriqueça rapidamente e sem grande esforço”, a maioria da população brasileira vira-se como é natural para os seus clubes ou ídolos de futebol, para os seus videntes e para os seus místicos, como D. Neila Alkmin, que vê como ninguém reservas minerais no subsolo brasileiro, como Pai Zezinho de Ossãe, que prevê desastres ou vitórias, e como a Mãe Stella de Oxóssi, que nada quer com a sincretismo religioso. E mesmo que frequente bordéis ou motéis, é certo e seguro que o brasileiro não dispensa os terreiros ou as igrejas.
À entrada de uma destas, que por acaso está no centro do Rio de Janeiro, descobri uma mesa com papelinhos onde se lia, impressa, a “oração das treze almas” (Peço-vos que atendei a meus pedidos...” “...cortai as forças dos meus inimigos, minhas treze almas, benditas, sabidas e entendidas)” e, por cima dela, este luminoso apelo aos “Neuróticos anônimos”: “Se você sofre de depressão, angústia, medo, ansiedade, insônia, solidão e outras emoções tortuosas, procure nossa ajuda, gratuita”.
Dias antes, ao passar diante da delegacia da Polícia do Catete, eu ouvira uma mulher acompanhada de uma menina de uns oito anos, pedir aos “policiais” que se juntavam à porta para irem prender o seu marido. E como nenhum se mexia, jurou que pediria o apoio de “Escadinha”, o célebre traficante e “herói” de favela. E prometeu: ainda havia de aparecer na delegacia com o marido acorrentado, e com “duas bolinhas dependuradas no pescoço”.
O “Escadinha” estava preso. Para o libertarem cerca de 30 homens tinham invadido uma estação elétrica e cortado a luz durante alguns minutos – sem sucesso. (Mais tarde, menos sucesso teriam ainda os que pretenderam libertá-lo com a ajuda de um helicóptero). Por esses dias, o Estado de São Paulo dava a “Cidade Maravilhosa” como “pior do que a Chicago dos anos 20”. Mas o Jornal do Brasil ia mais longe: “O Brasil inteiro está vivendo hoje o clima de Chicago nos anos 30”.
Uma noite, eu viajava num autocarro superlotado. Ao passar pelo Aterro do Flamengo, uma jovem desatou aos gritos. Imaginei um assalto, mais plausível no silêncio que de repente envolveu os enlatados. Ninguém se mexeu, ninguém perguntou nada. Só a jovem e um companheiro correram, imparáveis, para a porta. Vi-os saltar e  dirigir-se para uma cabina da Polícia; e a Polícia apareceria na paragem seguinte.
Lembrei-me então de outra viagem de autocarro, feita dias antes desde o Morumbi até ao centro de São Paulo. Era o regresso de um frustrante “joguinho horrível” (disse o Jornal da Tarde, e foi verdade) entre o Palmeiras e o São Paulo, terminado com um empate a zero, quem sabe se combinado. Durante mais de uma hora, só se ouviram no “ônibus” palavrões e insultos, dirigidos pelas janelas a quantos a pé ou de carro passassem por perto. Nunca me fora dado viajar num autocarro tão freudiano.
Bem mais empolgante do que o “derby” paulista foi o “Fla-Flu” do Maracanã, em que Zico luziu. Mas lá do alto das arquibancadas o jogo não me interessou mais do que as torcidas, que mutuamente se denegriam ou depreciavam, e às equipas, à base de sonoros palavrões ou de “slogans” obscenos, que nem com as estrelinhas do Jornal do Brasil convirá reproduzir. A certa altura Marquinhos, que já havia marcado um golo, agrediu um adversário. Isso lhe valeu o cartão vermelho – e o aplauso da sua torcida.
“O Brasil é uma sociedade interessante”, defende Roberto DaMatta. Quem o duvida? Nele a violência e o crime convivem com o riso e a gentileza, tal como a miséria extrema está às portas da abundância. Um dia descia eu do belo “hotel” de Santa Tereza em que amigos me hospedavam quando uma jovem senhora parou o carro para me dar uma boleia, como se o morro fosse uma aldeia, e o desconhecido um companheiro de infância. E numa noite do Recife passei de um fascinante espetáculo popular de danças nordestinas para um pretensioso e dispendioso “show” num salão recém-inaugurado, com mulatas de “oba, oba” menos bonitas do que as que se viam pelas ruas, e com apresentadores “cafonas” a condizer com cenários “Kitsch”.
Cada vez que chego ao Brasil sou surpreendido com novas imagens e metáforas que se tornaram correntes. Há anos, os media falavam em políticos biônicos (não eleitos). Desta vez falavam muito em gatilho salarial, a disparar segundo certas regras, e em marajás, funcionários que fizeram fortunas à custa de alguns discretos roubos ou rombos nos cofres do Estado. Mas também gostavam de falar no besteirol geral; e alguns referiam-se com muita ternura às camisinhas, que os brasileiros usam lá onde os portugueses usam mais correntemente "preservativos". (Aliás a nossa "camisola" é quase sempre a "camiseta" deles, e a "camisola" deles é quase sempre a nossa "camisa de dormir").
Suponho que Antônio Houaiss não esquecerá estas acepções no dicionário de 300 mil palavras que está a preparar com uma equipe de 12 pessoas e um computador. E suponho que nem a este passará despercebido o fio dental, embora talvez não se atreva a reproduzir a sua imagem – que é a de um finíssimo biquíni, muito usado em Ipanema e Leblon.
Perguntou-me Antônio Houaiss se ainda se falava em Portugal no acordo ortográfico que se impõe com urgência, e que não há muito mobilizava exércitos nacionais. Que ideia – respondi. Em Portugal o que às vezes se faz de importante é não deixar fazer, ou então adiar, sobretudo o inadiável.
Graças à Televisão (privada) todos os adultos do Brasil viam muitos anúncios e telenovelas; e toda as crianças do Brasil imitavam a chamada ex-namorada do Pelé – viam e ouviam a Xuxa, dançavam como a Xuxa. Até ao dia em que ficaram a chuchar, no dedo.
E uma bela manhã Celso Cunha – agora acadêmico, eleito em luta com "um homem do presidente" – informou-me da morte algo inesperada da relativamente jovem escritora, a quem por sinal eu mandara na véspera um ramo de flores. Tinha encontro marcado com o pai dela para daí a pouco; mas, perante a notícia, só me competia esquecê-lo. Outro encontro, não programado, e breve, teríamos de tarde, antes do enterro, quando ele interrompeu o seu silêncio para me falar da alegria que a filha sentira ao receber as minhas flores, e da emoção com que ainda despetalara duas, pouco antes de adormecer para sempre. E seriam essas também as últimas palavras que ouviria desse homem genial com quem noutros tempos conversava no seu escritório por noites longas, inesquecíveis, inclusive sobre a filha única, que ele tanto amava, e que então vivia em Buenos Aires.
A filha chamava-se Maria Julieta. E o pai chamava-se Carlos Drummond de Andrade. Morreria doze dias depois.





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Customização para a música de Ernesto Nazareth



             ouvindo Ernesto Nazareth
por meio de braços, pernas, corpo
como um longo jardim semeado
ou em longas queimaduras no palco,
carnes árduas nos pés, cansaço,
ou no coração bem cuidado,
sem ninguém para dizer-me
quanta substância ali dançava,
corpo-a-corpo,
sem uma sombra que os separasse
nos mil passos transbordados,
deixando os dançarinos afagados 
com as mãos que se juntavam
nos enleios, desvelos vários,
nos aplausos invioláveis.

(José Carlos Sant Anna)