terça-feira, 9 de maio de 2017

No bolso



Trago o bolso cheio dos sonhos
que não ficaram pelo caminho,
do sol velado na outra margem 
do mar atrás das coisas eternas,

e do vento da tarde sacudindo 
as árvores, e das noites de luar,
e das palavras de mãos dadas
com a poesia reinventando

o leite derramado na sintaxe
cifrada das mensagens nas
garrafas, perdidas nos mares

de outrora, e na invenção 
de mapas e enredos para ilhas
que recomponho lentamente. 

               (José Carlos Sant Anna)



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Lembrança do Brasil*

Crônica de Arnaldo Saraiva, escrita em 1987.


* Remexendo nos meus alfarrábios, encontrei o texto abaixo escrito por Arnaldo Saraiva (1939), intelectual português, contista, cronista, que sempre manteve estreitos laços com a intelectualidade brasileira, sobretudo da área das letras, e publicado em 1987, na Revista Brasileira de Língua e Literatura, ano IX, número 15, p. 72-74, mantida pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura em convênio com a Secretaria Municipal de Cultura de Niterói - RJ.

A pergunta que fica: O que mudou no país ao longo desses 30 anos? "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"?

De acordo com um grande humorista brasileiro “é preciso um escritor bem mais medíocre” do que ele “para descrever com precisão a atual situação do país”. Para um cronista carioca, que não esqueceu as discretas maneiras mineiras em que se formou, a hora brasileira “é fosca, medíocre”. Mas um fundista de São Paulo pode dispensar as ironias e as atenuações: “Esta é uma fase extremamente sombria nos fastos republicanos: um período de descrédito generalizado, que assume o aspecto de uma longa noite escura, o firmamento carregado de presságios".
Descrédito (político) generalizado, sim. Tem-se a impressão que nenhum cidadão confia mais nos políticos que escolheu ou lhe couberam em sorte – prefeitos, governadores, deputados, senadores, ministros, presidentes –, salvo quando eles são amigos ou parentes. Tem-se mesmo a impressão que nenhum político confia em nenhum político, nem no correligionário, a não ser pela solidariedade que sempre pede a corrupção.
Falsa impressão? Talvez. Mas que pensar quando se sabe que uma só família do Nordeste deu dez senadores e deputados atuais? Que um ministro em exercício foi da ARENA, do PDS, do PP, outra vez do PDS, esteve no PMDB e inscreveu-se no PFL? Que em menos de quatro anos os funcionários do Estado da Paraíba passaram de 33 mil a 101 mil, dos quais 28 mil entrados quando se aproximavam as eleições? Que os partidos, a começar pelo principal, que simultaneamente sustenta e ataca o Governo, são quase todos ficções ideológicas, criações artificiais cuja doutrina ou teoria pode oscilar ao sabor das mais despudoradas conveniências?
Faltam elites políticas, impossibilitadas pela longa ditadura militar – dizem alguns. Falta é vergonha – dizem outros. Se não, como explicar que todos os graves problemas com que se tem debatido o país pareçam adiados ou até agravados e que, a propósito da Constituição, do tempo de um mandato, ou de nada, nas câmaras e nas instâncias partidárias se multipliquem e eternizem os jogos, os casuísmos, as hipóteses acadêmicas?
Enquanto isso, fazem-se alguns progressos técnicos mas vai aumentando o crime e o roubo, vão subindo os impostos (disfarçadamente, se possível), não se controla a inflação, não se combate a corrupção e as “mordomias”, admite-se ou estimula-se a ilegalidade, favorece-se o êxodo para o estrangeiro. Portugal incluído, que para isso serve a comunidade luso-brasileira. O proibido jogo do bicho toda a gente o joga às claras: em casas de câmbio ou na rua o dólar tem uma cotação bem mais alta do que nos bancos; o jeitinho e o expediente triunfam sobre todas as regras; as autoridades transformam-se em bandidos, e bandidos em autoridades.
E enquanto isso um trabalhador pode ganhar menos de 2 mil cruzados por mês (o salário mínimo), quando um deputado, que tem um “subsídio fixo” (o salário) de cerca de 13 mil, pode acabar por ganhar mais de 350 mil, graças a um sem-número de artifícios e de jetons”: ajudas de custo, subsídios de viagem, de habitação, de presença, de correio, etc., etc.. Lá como cá.
Perdido o crédito nos seus dirigentes ou nas suas elites, cuja regra geral de comportamento parece ser a do “salve-se quem puder” ou – se se trata de gente da classe média – a do “enriqueça rapidamente e sem grande esforço”, a maioria da população brasileira vira-se como é natural para os seus clubes ou ídolos de futebol, para os seus videntes e para os seus místicos, como D. Neila Alkmin, que vê como ninguém reservas minerais no subsolo brasileiro, como Pai Zezinho de Ossãe, que prevê desastres ou vitórias, e como a Mãe Stella de Oxóssi, que nada quer com a sincretismo religioso. E mesmo que frequente bordéis ou motéis, é certo e seguro que o brasileiro não dispensa os terreiros ou as igrejas.
À entrada de uma destas, que por acaso está no centro do Rio de Janeiro, descobri uma mesa com papelinhos onde se lia, impressa, a “oração das treze almas” (Peço-vos que atendei a meus pedidos...” “...cortai as forças dos meus inimigos, minhas treze almas, benditas, sabidas e entendidas)” e, por cima dela, este luminoso apelo aos “Neuróticos anônimos”: “Se você sofre de depressão, angústia, medo, ansiedade, insônia, solidão e outras emoções tortuosas, procure nossa ajuda, gratuita”.
Dias antes, ao passar diante da delegacia da Polícia do Catete, eu ouvira uma mulher acompanhada de uma menina de uns oito anos, pedir aos “policiais” que se juntavam à porta para irem prender o seu marido. E como nenhum se mexia, jurou que pediria o apoio de “Escadinha”, o célebre traficante e “herói” de favela. E prometeu: ainda havia de aparecer na delegacia com o marido acorrentado, e com “duas bolinhas dependuradas no pescoço”.
O “Escadinha” estava preso. Para o libertarem cerca de 30 homens tinham invadido uma estação elétrica e cortado a luz durante alguns minutos – sem sucesso. (Mais tarde, menos sucesso teriam ainda os que pretenderam libertá-lo com a ajuda de um helicóptero). Por esses dias, o Estado de São Paulo dava a “Cidade Maravilhosa” como “pior do que a Chicago dos anos 20”. Mas o Jornal do Brasil ia mais longe: “O Brasil inteiro está vivendo hoje o clima de Chicago nos anos 30”.
Uma noite, eu viajava num autocarro superlotado. Ao passar pelo Aterro do Flamengo, uma jovem desatou aos gritos. Imaginei um assalto, mais plausível no silêncio que de repente envolveu os enlatados. Ninguém se mexeu, ninguém perguntou nada. Só a jovem e um companheiro correram, imparáveis, para a porta. Vi-os saltar e  dirigir-se para uma cabina da Polícia; e a Polícia apareceria na paragem seguinte.
Lembrei-me então de outra viagem de autocarro, feita dias antes desde o Morumbi até ao centro de São Paulo. Era o regresso de um frustrante “joguinho horrível” (disse o Jornal da Tarde, e foi verdade) entre o Palmeiras e o São Paulo, terminado com um empate a zero, quem sabe se combinado. Durante mais de uma hora, só se ouviram no “ônibus” palavrões e insultos, dirigidos pelas janelas a quantos a pé ou de carro passassem por perto. Nunca me fora dado viajar num autocarro tão freudiano.
Bem mais empolgante do que o “derby” paulista foi o “Fla-Flu” do Maracanã, em que Zico luziu. Mas lá do alto das arquibancadas o jogo não me interessou mais do que as torcidas, que mutuamente se denegriam ou depreciavam, e às equipas, à base de sonoros palavrões ou de “slogans” obscenos, que nem com as estrelinhas do Jornal do Brasil convirá reproduzir. A certa altura Marquinhos, que já havia marcado um golo, agrediu um adversário. Isso lhe valeu o cartão vermelho – e o aplauso da sua torcida.
“O Brasil é uma sociedade interessante”, defende Roberto DaMatta. Quem o duvida? Nele a violência e o crime convivem com o riso e a gentileza, tal como a miséria extrema está às portas da abundância. Um dia descia eu do belo “hotel” de Santa Tereza em que amigos me hospedavam quando uma jovem senhora parou o carro para me dar uma boleia, como se o morro fosse uma aldeia, e o desconhecido um companheiro de infância. E numa noite do Recife passei de um fascinante espetáculo popular de danças nordestinas para um pretensioso e dispendioso “show” num salão recém-inaugurado, com mulatas de “oba, oba” menos bonitas do que as que se viam pelas ruas, e com apresentadores “cafonas” a condizer com cenários “Kitsch”.
Cada vez que chego ao Brasil sou surpreendido com novas imagens e metáforas que se tornaram correntes. Há anos, os media falavam em políticos biônicos (não eleitos). Desta vez falavam muito em gatilho salarial, a disparar segundo certas regras, e em marajás, funcionários que fizeram fortunas à custa de alguns discretos roubos ou rombos nos cofres do Estado. Mas também gostavam de falar no besteirol geral; e alguns referiam-se com muita ternura às camisinhas, que os brasileiros usam lá onde os portugueses usam mais correntemente "preservativos". (Aliás a nossa "camisola" é quase sempre a "camiseta" deles, e a "camisola" deles é quase sempre a nossa "camisa de dormir").
Suponho que Antônio Houaiss não esquecerá estas acepções no dicionário de 300 mil palavras que está a preparar com uma equipe de 12 pessoas e um computador. E suponho que nem a este passará despercebido o fio dental, embora talvez não se atreva a reproduzir a sua imagem – que é a de um finíssimo biquíni, muito usado em Ipanema e Leblon.
Perguntou-me Antônio Houaiss se ainda se falava em Portugal no acordo ortográfico que se impõe com urgência, e que não há muito mobilizava exércitos nacionais. Que ideia – respondi. Em Portugal o que às vezes se faz de importante é não deixar fazer, ou então adiar, sobretudo o inadiável.
Graças à Televisão (privada) todos os adultos do Brasil viam muitos anúncios e telenovelas; e toda as crianças do Brasil imitavam a chamada ex-namorada do Pelé – viam e ouviam a Xuxa, dançavam como a Xuxa. Até ao dia em que ficaram a chuchar, no dedo.
E uma bela manhã Celso Cunha – agora acadêmico, eleito em luta com "um homem do presidente" – informou-me da morte algo inesperada da relativamente jovem escritora, a quem por sinal eu mandara na véspera um ramo de flores. Tinha encontro marcado com o pai dela para daí a pouco; mas, perante a notícia, só me competia esquecê-lo. Outro encontro, não programado, e breve, teríamos de tarde, antes do enterro, quando ele interrompeu o seu silêncio para me falar da alegria que a filha sentira ao receber as minhas flores, e da emoção com que ainda despetalara duas, pouco antes de adormecer para sempre. E seriam essas também as últimas palavras que ouviria desse homem genial com quem noutros tempos conversava no seu escritório por noites longas, inesquecíveis, inclusive sobre a filha única, que ele tanto amava, e que então vivia em Buenos Aires.
A filha chamava-se Maria Julieta. E o pai chamava-se Carlos Drummond de Andrade. Morreria doze dias depois.





segunda-feira, 17 de abril de 2017

Customização para a música de Ernesto Nazareth



             ouvindo Ernesto Nazareth
por meio de braços, pernas, corpo
como um longo jardim semeado
ou em longas queimaduras no palco,
carnes árduas nos pés, cansaço,
ou no coração bem cuidado,
sem ninguém para dizer-me
quanta substância ali dançava,
corpo-a-corpo,
sem uma sombra que os separasse
nos mil passos transbordados,
deixando os dançarinos afagados 
com as mãos que se juntavam
nos enleios, desvelos vários,
nos aplausos invioláveis.

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Penumbra III


A MENINA ACOMPANHOU COM O OLHAR o motorista ajeitar as duas malas no bagageiro do carro, depois abriu a porta do banco traseiro e se acomodou com a frasqueira à tiracolo, esperando que as zonas mais vivas do acaso – porque, apesar da pouca idade, e como era pouca, ela já sabia que a vida era assim mesmo, quando menos se esperava, sorrateira, ela surpreendia –, não se manifestassem num lampejo qualquer e, à medida que o carro ia deslizando em velocidade moderada, pelo asfalto, se descortinavam as sinuosas curvas da rótula do Abacaxi onde o motorista faria o contorno em direção à Paralela. Ainda que sinuosas, ele não perdia pelo retrovisor os trejeitos da menina, pois suas curvas, ah, essas, ele já as tinha fixado quando a apanhara na rodoviária.
Então, rápidas cortinas da memória foram se abrindo de par em par à medida que o carro avançava pela avenida deserta de vegetação. Eram tantos os passos vislumbrados pela memória, margeando a estação rodoviária, que ela se sentia perdida com a cabeça em redemoinho. Mesmo assim, a menina ia aproveitando para encher os pulmões de ar, ainda que muito poluído, e hauria o chão da vida que pairava sob um sol rasante do meio da manhã.
Nesse meio tempo, ardendo em grandes piras, lépida, ela descobriu que o seu corpo estava avivado com aquela luz que se espalhava como uma música pela cidade. Seu corpo era água transformada, um rio em convulsão à espera de um tempo ardente para a seiva inesgotável do calor dos seus verdes anos. Tinha recobrado o brilho dos olhos. Tentação, e tentada, urgia fazer do amor um uso imediato, já que trazia os lábios túmidos do incólume amor tão bem resguardado.
Assim, depois de uma noite nevoenta e quase interminável e do casal de mendigos cheio de asas, no fulcro do amor, concentrados, outras pareciam ser as palavras agora dentro de si, fazendo-a sentir-se à beira de um feliz anoitecer.
Percebia-se uma menina mais confiante. E, sem tirar os olhos do fausto da janela do carro em que tudo era novidade numa cidade grande, semeava na imaginação a rumorosa festa com a leve carícia do vento no seu rosto e se deslocando inesperadamente à zona dos quadris. Havia no seu corpo uma promessa de muito calor para o quarto do hotel e parecia ler-se nos seus olhos o desejo de abrir para Pablo, devagarinho, os segredos que restavam guardados.
Então, dirigindo-se ao motorista com as roupas de ternura que não tinham sido gastas com a viagem e sem lembrar-se das mágoas que a espera quase conspurcara o encontro, perguntou-lhe:
– Me diga uma coisa, cara, Pablo mandou você me levar para que hotel? É longe da igreja do Bonfim? Ele lhe fez alguma recomendação? Ele só vai me encontrar à noite, não é mesmo?
Sem tirar as mãos do volante, o motorista olhou gulosamente para aquela fugidia estrela, sem saber que aquela moça, ainda que bem jovem, só se interessava por homens mais velhos, e que Pablo não fora o primeiro, e disse-lhe sem patinar nas palavras:
– A igreja do Bonfim está do outro lado da cidade e fica na cidade baixa. 
Respirou fundo e acrescentou com os olhos grandes, de fome: 
–  O hotel que Seo Pablo mandou deixar a senhora é do lado oposto – sentindo que, por sua vez, os olhos dela já construíam um muro com temíveis farpas, e pareciam dizer-lhe, sem meias palavras, que guardasse a devida distância.
Confuso, mastigando uma bala de hortelã, ele suava no banco da frente do carro com o caos que se instalara na sua cabeça, era fogo em forja desde que a apanhara na rodoviária, sentindo de repente rasgos de fome, açulando a miragem das fendas que se abriam na avenida por onde os seus dedos rasgavam a voragem das amoras, comprimidas na embalagem adormecida no porta-luvas do carro, como se contornasse o púbis da menina em pulsão desmedida.
Já bebia o vinho dos amantes, quando a menina sem atropelar as letras do seu longo alfabeto de vigorosas nuvens, disse-lhe em voz alta de novelo que aprendia a viajar.
– Primeiro, à igreja do Bonfim. Mas vou logo dizendo que não quero subir a ladeira de carro. Vou subir a pé com a força das minhas pernas e depois a escadaria, pedra a pedra, porque quero o gosto do lume da subida até chegar ao mais recôndito da igreja. Depois, quero mesmo é chegar de alma lavada no hotel – deixando escapar o sorriso do antegozo do encontro com Pablo, o seu homem.
O motorista recobrou a força do seu corpo dissolvido e, por saber onde ele ardia, sabia que podia esperar em sua cristalina veia a hora do lobo. Suavemente, então, aplaudiu-a com palavras amenas de um dulcíssimo sol ou de um peixe brincando na água com os restos de comida porque o amor não é fala, mas também não é falo. E deixou que suas lapas de fogo se apagassem mansamente, seguindo em direção à Cidade Baixa para alcançar o cume da Igreja do Bonfim como ela pedia. 


(José Carlos Sant Anna)








terça-feira, 21 de março de 2017

O coveiro alisa a broxa de caiar paredes e aguarda

Cavou um buraco fundo em busca de uma flor branca. Dissimuladamente. Assim não é possível, assim não tenho vez, alivia meu fardo, meu cansaço, meu chapa, molambeiro das chaves, disse, suando bicas, quase aos gritos sob o cobertor e uma febre alta. Então, mais dissimuladamente, cascalho sob o barro, escondido, pensou quanto não renderia a flor e quão profunda é essa gente que cava o topo de um buraco para corrigir a falha de um olho, drenando partículas rotas, sem que o céu, orlado de nuvens, pudesse esperar para vê-las, estendendo-se pelo infinito entre um copo de água e uma vela acesa de um baralho cigano, há muito recheado de pó de mico entranhado nas cartas. Em seguida, mastigando rosquinhas de polvilho com pamonha, girou a cabeça para contar detalhes da intimidade maior com a dor, e o tronco, abatido mas altivo, rua de mão única entre as catacumbas, manto de cal, adernou sobre as mãos pálidas, sem que desabasse, inapelavelmente, de corpo inteiro pela superfície terrosa da sua sentença. Desde que o mundo é mundo essa gente vive à sombra, entre o clarão do bosque da saudade esperando que chegue a sua vez e um bando de gentios, numa adoração que não é de anjo, mas de coveiro. Mas tudo o que Zé das Marmitas queria era entrar no céu imantado em água de colônia e montado numa égua banzeira, como seu pai ensinara a montá-la no beco da Zilda sem usar chicote para desempacá-la! Tardava, o coveiro sabia, mas ele viria! Disso ele tinha certeza.


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Penumbra II

                Tomas Nicolleta - imagem capturada na internet

GUARDANDO UM CRISTAL NAS ENTRANHAS, um coração inquieto e sem querer voltar atrás na trajetória delineada antes de embarcar para a cidade grande, a menina imagina ouvir a sinfonia de Berlioz, esmagando suas dúvidas, depois da longa tensão da viagem, quando, tremidas, outras pedras se acomodaram no tabuleiro de xadrez e no destino dos lenços acenados, enquanto o motorista estremunhado levava o ônibus do parque de estacionamento da rodoviária de volta à garagem da empresa. 

Quase doze horas de viagem à espera do garanhão para a bela potranca. Em que prados se perdera? Sem fumaça branca. Mas, sim, um quarto de lua no céu e a monotonia da estrada, esburacada, machucando seu corpo, suado, as lágrimas silenciosas, além do stress dos preparativos para convencer a família de que a decisão tomada seria para inventar um futuro sem tragédia grega pela frente, que a deixaram fragilizada. Ela é um caco de um relógio atento, sabendo que a ponte para o futuro poderia demorar minutos. Ou uma eternidade. 

Pensando o tempo como o lugar donde voam as nuvens, como ela acredita, a menina, agora, ligeiramente revigorada, quase dona de si, estende os braços, alonga os dedos e abandona o olhar na ternura seca protagonizada por um casal de mendigos, bem à sua frente, no saguão da rodoviária. Absorta, ela está a querer adivinhar o que o casal, pombos enfunando a cauda como um pavão, anuncia para o mundo, numa intimidade rara para um espaço público, enfeitada com bandeirinhas e música, sob aquele céu claro.

Parece que somente ela repara no casal de mendigos e na viagem matinal que os dois fazem, ainda mal acordados, porém apoteóticos, levando-a, particularmente, a reduzir a dor do seu medo na aventura em que se embrenhou. Parecem felizes e distantes do burburinho em volta deles pelo jeito brejeiro como se procuram e se entregam. Indiferentes, à frente de todos. 

A menina quer aprender com eles a naturalidade dos gestos, perceber a melodia que emana dos seus corpos sem rasgar suas vestes, quer ser igual e ser diferente ao mesmo tempo, como se lhe fosse possível ser duas em uma nota só. E fica os observando como as mulheres faziam nos romances russos do século passado, enquanto os dois recusam, com aquele ar de deboche que aparentam, queimando o gozo das achas no cio, a olhar para o céu.

Essa ternura, dissolvendo-se em carícias pelo corpo de ambos, trocada sem cerimônia ali a vista de todos e fiscalizada pelos seguranças, é o refúgio da fome e da solidão que consome o amor puro que antes o vulgo ignorava, como se eles estivessem num palácio de ilusões. Contagia o desprendimento deles sem um terapeuta de plantão para uma manhã tão bem concebida. Agora são muitos os olhares nos dois pombos que arrulham no salão de espera da rodoviária.

Na febre da conversa, sempre o amor de rastros, o alimento da febre do corpo, sem extrapolações como se conhecessem o limite imposto pelos seguranças e sociedade. É essa "conversa íntima" que entretém a menina “arrojada”, como a chamou algum tempo depois a feminista que conheceu a sua história em detalhes, na sua espera, a sonhar que já andava lá por fora, num gume de frio inquieto.

De vez em quando ela se levanta do banco de madeira, na manhã ainda estremunhada, e percebe lá no alto, misteriosa, a última estrela recolhendo a luz dos seus olhos ensimesmados, que, em vão, ainda procura reconhecer um sinal nos rostos repetidos nos assentos que circundam aquele espaço, enquanto o sol, já pendurado no telhado da rodoviária, depois de ter-se espalhado pelo horizonte, traz a luz, o calor e um cheiro de vida e caras, novas, para todos os que já foram recebidos por seus familiares e amigos.

O silêncio interior, pescoço esguio, “ah, vontade de esganá-lo e vê-lo evaporar-se por inteiro”, pensa a menina, ao vê-lo perseguindo-a em torno da sua bagagem, travando uma luta desigual entre a de dentro e a de fora, para não deixar que a tristeza comece a dar um sentido diferente à vida que planejou.

Uma borboleta perdida do seu panapanã esvoaça com asas de esperança pelos seus cabelos longos, fazendo-lhe confidências, mas a sua vontade é de fazer voltar a ampulheta. Mas ela sabe que agora é tarde. E diz para si mesmo “ah! Se eu tivesse trazido minha rede de caçar borboletas”! E finge que é uma estátua para que os outros não percebam seu desassossego.

E os dois seguranças, que conhecem bem os mendigos, os vigiam, sem trégua, pois sabem que qualquer descuido com eles a água transborda. Não deixam que abusem da confiança que lhes concedem em silêncio cúmplice. Sabem que eles sobrevivem do pouco que recolhem dos milhares de pessoas que entram e saem dali.

A menina também, do alto da sua complacência, com discrição, os observa contando os dedos infinitamente, enquanto reza para que chova e ela possa contar também as gotas de chuva, o que demandaria mais tempo e atenção, afugentando a ansiedade, que a devora. Já brincava assim na sua pequena cidade, gostava de dançar com o cabo da vassoura, seu Fred Astaire, na chuva, ainda que lhe custasse quase sempre um castigo por chegar com a roupa molhada, colada ao corpo, deixando os bicos dos seios à mostra.

Abolida a noite completamente e com o sol esparramado, ela sabe o que tempo está passando, que o tempo de espera está se esfumando, e tudo que ela deseja é ter um destino que lhe seja igual. Ao desejar um perfume igual ao deles, sabe que inveja, sem querer, os companheiros de viagem. E perdida a última estrela, ela abre bem os olhos, e somente ela sabe o quanto o burburinho a incomoda. Reconhece o silêncio. É o mesmo silêncio que a perseguia com ruídos nos cafés quando eles se escondiam numa mesa nos fundos e o olhar dele, planando, saltava do calor feminino dos seus seios para os olhos líquidos de mar que o fizera estremecer como se ele fosse um colecionador de pérolas.

Ela estende o olhar mais uma vez procurando o que já supõe perdido, desfraldando a bandeira secreta que trazia dentro de si. Ao mesmo tempo, um gato se aproxima e vai se enroscando em seus pés. A mendiga se afasta do seu parceiro e chegando perto da menina lhe pergunta:

– É seu, este gato? – Disse a mendiga com sorriso desenhado de bondade.

– O meu ainda não chegou e não sei se ele virá – responde a menina, revelando, depois de quase quinze horas sem uma palavra, a beleza da voz e a interior. 

– Posso tomar conta dele? 

– Do meu gato? Pode, se ele quiser, ele é meu, mas não sou dona dele. – Agora o sorriso da menina acaricia o corpo da mendiga, de um modo que ela não estava acostumada.

– É desse gato aqui, que estou falando, menina! Você parece no mundo da lua... – Disse-lhe a mendiga, embevecida com a ternura repentina que descobriu no rosto da mulher ainda menina. 

E a mendiga se afasta, acariciando os pelos do gato, que já estava encarapitado no seu ombro, quando ouve o ruído da chamada do telefone da menina e percebe o seu alvoroço para atendê-lo.

(José Carlos Sant Anna)




domingo, 29 de janeiro de 2017

Penumbra



QUANDO ELE APARECEU NAQUELE ERMO DE CIDADE roçando-lhe palavras doces com os lábios colados à ponta da sua orelha e, progressivamente, a língua, a impaciência do sono começou a fustigar a sua vida com uma sede de carícias que não a abandonavam nos seus sonhos. Então, um céu de nuvens verdes cresceu de repente e ela descobriu que poderia sentir o voo dos pássaros em outras árvores. Poderia conhecer outros ventos, outros nevoeiros.
Havia promessas na teia de mistérios da nudez daquele amor que ardia no carvão da sua fogueira. Era pegar ou largar. Ou, então, morrer afogando-se naquela paisagem de trevos, abandonados, vestindo-se de frio, fazia tempo. Paisagem que lhe causava horror. Não sentia o perfume das flores, e a paisagem já não mexia com o seu coração. Ela queria outro destino para a sua vida, queria outros rios. O da sua aldeia já não a satisfazia, embora amasse o de Alberto Caeiro. Sonhava com um rio assim. E tomou a firme decisão de acabar com a sua insônia. Iria encontrar-se, como ele propunha sentado ao pé dela debaixo de estrelas e de luas, como ela era romântica, meu deus, com aquele homem na sua metrópole, na sua cidade grande, como ela sempre imaginou que pudesse acontecer. Tinha guardado o endereço dele dentro do sutiã para não perdê-lo. E o mantinha guardado dentro do peito, em suspiros.
Cantarolava baixinho na inocência daquele céu pardo enquanto arrumava a mala. E não despregava pelo vão da porta os olhos do seu irmão mais velho, sentado no sofá da sala. Tentava adivinhar-lhe miríades de pensamentos que soçobravam em sua cabecinha de adolescente maduro; ele, por sua vez, acompanhava cada movimento que ela fazia, ouvindo o seu mantra, que arranhava as cordas vocais à medida que saltava as notas como uma soprano desalmada, espancando a partitura. Eles se entendiam pelo olhar. Este irmão mais velho sempre fora a fonte do seu caminho. Nunca esqueceria os conselhos, as conversas, as confidências, sob aquela frondosa mangueira nas tardes mornas e nas noites de lua cheia, que enchiam o quintal da casa da família.
Ela, o irmão velho, duas irmãs menores e os pais constituíam o núcleo familiar. Lua e mangueira os adornavam sob o violão do irmão onde as andorinhas sempre podiam entrar sem pedir licença.
Na azáfama de arrumar as malas, quando dizia alguma coisa ou perguntava por alguma peça de roupa, a sua voz denunciava uma sombra breve, de tristeza. Um luto quase imperceptível, que se esbatia, se esvaía porque dentro de si o que havia era a alegria do vento que, no entra e sai pela casa, parecia rir sem motivo, porém tão baixinho quanto à música que ela suspirava.
Segurava as lágrimas olhando cada peça de roupa, fingindo experimentá-la ao exibi-la sobre as suas vestes por cima do corpo, depois dobrava e guardava no fundo da mala. Havia muita coisa para olhar e guardar. Sairia sob o peso das labaredas, mas não voltaria encarquilhada trazendo outro fardo. Só voltaria lá a passeio. Custasse o que custasse. E olhe lá, daquele frio arrancado a fórceps, queria ver-se livre. Por isso, fazia-o sem pressa e, também, porque só embarcaria na madrugada do dia seguinte.
Sabia que era uma viagem para apagar o incêndio que consumia suas entranhas, fechar o abismo que a incomodava tanto. Media cada palavra sem a régua da emoção para conversar com a mãe porque não queria nenhuma complicação para a sua noite sem guia, menos ainda mal-entendidos, as promessas que não se cumpririam, enfim, nunca o disse claramente a sua mãe que não voltaria, mas sabia no seu íntimo que ela desconfiava, ainda que a levasse escondida dentro dos seus olhos. Saíra do seu ventre, ouvira seus primeiros vagidos. Vira-a crescer e aprendera a conhecer seus impulsos, suas fraquezas.
Embora ela fosse muito jovem, ainda não debutara, estava convicta da sua decisão de cortar o cordão umbilical com a família, de andar pelas relvas despenteadas da cidade grande. Dizia para si mesmo que tinha que dar certo, mesmo que aquele homem por quem se sentia apaixonada não tomasse conta dela, ela arrumaria sua vida numa metrópole de qualquer outro modo. Só não venderia o seu corpo por nada desse mundo, não queria dar esse desgosto à sua mãe.
 Depois da comemoração dos seus quinze anos, você vai embora, minha filha! Só faltam duas semanas.  Disse-lhe a mãe com os olhos bem abertos, fixos, porém vagos, abraçando-a fortemente contra o seu peito, porque a pensar no firme desejo de reinventar a vida naquele momento, querendo fazê-la acreditar que ainda era cedo para descobrir os segredos das palavras.
A moça sempre disse que aquela cidade era pequena para ela. Nunca deixou de sonhar, bem sabia. Já se alimentava de palavras emolduradas nas pautas dos seus cadernos escolares, há muito tempo. Levaria bastante alimento que a ajudariam a espairecer suas angústias de mulher, qualquer que fosse a penumbra que a ocultasse.
Enquanto o ônibus avançava pela estrada, ela dormia sem que os sonhos quebrassem a conspiração da noite. Não via a hora de sentir o corpo quente do destino na sua vida. Confiava que o homem viria colhê-la, como a uma flor, ao amanhecer na estação rodoviária.
Agora o motorista pisa com força no pedal dos freios para contornar o viaduto que leva os embarcados na cidade distante à rodoviária. Os minutos que se seguiram foram marcados por muita ansiedade até que o motorista estancou o ônibus no meio-fio, puxou o freio de mão, abriu a porta e postou-se à frente dela, cumprimentando os passageiros à medida que eles desciam carregando as bagagens de mão.
Ela levantou da sua poltrona espreguiçando-se, deu um longo suspiro, acompanhou a fila indiana que se formou no corredor do veículo, espreitou a janela e pensou "apetece-me a aurora para continuar sonhando" e desceu do ônibus com uma sombra no rosto. 
Enquanto aguarda o ajudante do motorista liberar a sua bagagem, apalpa o sutiã para saber se o endereço está bem guardado e, de mãos dadas com as nuvens, ansiosa, sonha intensamente, de olhos bem abertos, esperando, com uma ponta de dúvida, pelo homem que sorveu o mel dos seus grandes lábios. Ninguém sabe quanto tempo será a espera.

                                                              (José Carlos Sant Anna)



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O suor nas margens fluidas


Essa música eletrônica me confunde.
Não sei se são vozes da madrugada
inquieta ou da manhã estrangulada
roendo portas de minhas entranhas,

Ou são os rios da minha pele suada.
Com o suporte da melodia, ensaio
enredo amoroso com uma mulher
de coração metálico, olhos humanos,

à procura da eternidade, a dizer-me
que a sua carne é real. Ao perceber 
a fome, que enrijece meus músculos,
temperados, ágil, ela esconde de mim 

seu sexo de vidro, quando, no relógio 
dos meus olhos, já se liam os gritos 
de um cavalo selvagem rasgando 
o verão da nudez felina da fêmea.

                     (José Carlos Sant Anna) 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Pétala



No fundo dos teus olhos
procuro a melodia das estrelas
abrindo a noite. Parecem sinceros,
teus olhos, um ao lado do outro,
sem saltos, conversa discreta.
Um concerto em lá menor para
flores de rendas a denunciar
os rastros de uma dama furtiva
em que ninguém repara no fruto
ou na delicadeza da viola de bolso 
do seu canto, cansada do dia a dia,
depois que uma chuva, fria, alagou
o desenho das bocas amadas
no último beijo em uníssono.

             (José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sob o peso das horas



No meio do cigarro o mundo desanda:
névoas de um querer desorganizado
impõem-se ao meu furtivo coração

E metáforas pesadas acenam
mórbidas – um mar dentro do corpo –
marés sem porto que borbulham

(Nelas creio porque nada me impede
de acreditar em alguma coisa)

E fragmentam-se. 
São ínfimos os escombros.

Por inútil não mordo a maçã.
E recolho resíduos do improvável
às margens da minha escrita,

Inapelável, indiferente ao risco. 


                                (José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O neon do presídio de Manaus

Familiares de detentos do Presídio de Manaus se aglomeram
 em frente ao Instituto Médico Legal - Foto O Globo



A ânsia, a falta de oxigênio, o sol esquivo 
e o napalm correndo à solta em Manaus.
Dizem que são mais de 60 presuntos.
Relâmpagos súbitos dos berros escondidos
e das bicudas cravadas nos corpos nus.
Foram muitos os que não tiveram tempo 
de pular fora do trem e fugir por alguma tereza.
E agora nada existe além desse Vietnam
roendo as paredes do corpo do secretário
da segurança pública que sucumbe 
pleno de gestos vazios antes de gastar 
o seu latim, oprimido nos seus lençóis 
por ter perdido a hora do tim-tim do réveillon,
e sabendo como é duro ficar frio nessa hora. 

(José Carlos Sant Anna)