quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bricolagem



tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.
epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens

o caralho
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã
e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário
ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, com um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

conspurcando o retrato da sociedade da época
se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?
o que seria da maquete
de frutas agônicas,  

adornando um salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia
Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra. 


(José Carlos Sant Anna)




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Definição



o poema
é cabeça torta de menino
que ainda não aprendeu
a enfiar o botão na casa


(José Carlos Sant Anna)



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

euclidiano



Euclides tinha razão
o ponto não tem tamanho
e zero é a sua dimensão. 

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre uma casca



Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim
distendida como se fosse um par de asas. 

José Carlos Sant Anna



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Água doce no outono


No quarto o coro das máscaras o jogo de xadrez e a chave da tarde no meu bolso Ela apenas de shortinho jeans blusa de malha e os faróis acesos Cena de cinema com uma lua em quarto crescente No acaso das coisas me fiz pássaro E nos seus braços súbitas janelas se abrem sem que eu revele a ligeireza das minhas asas E mãos e boca E a palavra ascende Sei este é o caminho A proa que desliza fugindo do sequestro iminente Quando a procurei minha Isolda cor de romã você me disse Você é a minhoca que faltava no meu anzol é o pão com sabor de arrefecido verão mas não vale o til da minha maçã Com o corpo mordendo disse-lhe que estava germinando a água do meu corpo e que eu borbulharia antes de morrer morrer morrer Você riu porque não sabia que os brutos também sonham geografias e os muros estremecem à sombra de um mito grego. Aqueles faróis são o bosque mais secreto revelado E por que sem nenhuma roupa não A transparência da malha não é uma conjugação de vogais porque me ardo em consoantes Tocar a luz mortal na sombra do muro escuro nas suas entranhas nas suas raízes mais fundas é desvario Ter o seu corpo duplicado através do espelho em que me ardo enquanto ainda sou um cálido tronco de água é devaneio Que me dirás você pergunta Pelo olhar as palavras falam É da sua luz São os seus faróis Parecem flor de centeio Como se não houvessem as palavras iluminadas na maciez do seu corpo soletro seu nome na canção da sua pele de pelúcia macia Estas mãos que ainda buscam o bafo da terra a qualquer momento raptam a sua nudez sonhada antes que eu possa começar tudo de novo Longínqua perscruto a música do mar ávido de ilustrações para esta tarde que azula atrás do morro.

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sem alegorias



A CHUVA NÃO DEU TRÉGUA durante toda a madrugada daquela segunda-feira, medonha, e ainda corria solta, pela manhã, como se fosse uma tempestade tropical, deixando as ruas da cidade inteiramente alagadas, quando Maria pulou da cama, de um jato, olhar fixo no despertador, desnorteada. Ao vê-lo marcando oito horas da manhã, se sabia atrasada e que haveria, como das outras vezes, refrega na casa da patroa. 
A empregada, que acordava todos os dias antes que sol se mostrasse pelos vãos das telhas de sua casa, tinha perdido o horário. Às pressas, vestiu a roupa, ajeitou um lenço nos cabelos para esconder o quanto estavam amarfanhados, correu ao banheiro e saiu sem tomar o desjejum. Pão com manteira e uma caneca com leite. 
Ela não sabe como conseguiu entrar no ônibus, de tão apinhado que estava, havia poucos circulando na manhã de tempestade, para não chegar tão atrasada no trabalho, pois conhecia a patroa. E muito bem.
Entrou na casa dela, completamente encharcada. Roupa de cima e de baixo. E a patroa, alheia ao mundo lá fora, olhando para seu umbigo, perguntou-lhe porque estava chegando tão atrasada.
Sem titubeios, ela disse com um brilho nos olhos:
– É patroa, enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis com o seu marido, eu enfrentava esse dilúvio... 


(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Exercício para flauta e oboé




Só comigo
acontecem essas coisas:
contar meus segredos
ao relógio de parede.

Pode não ser o fim do mundo,
mas é no mínimo inusitado.

É o que me diz
o terapeuta

no momento em que a tarde
esplende do lado de fora 

e os antigos amigos 
sem subterfúgios transitam 
como um barco
pelas avenidas da minha memória

às vezes, agitados, 
outras,
pousando nos bares como aves lerdas
para fugirem do tédio

Tudo porque não têm 
um relógio de parede 
fatigado 

ruflando suas asas
para a vastidão das coisas finitas

coisas que nos aguardam nas esquinas
como as rosas de maio 
ou as linhas da vida esculpidas

nas palmas das mãos
sem que nos digam o que somos... 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Dedicatória





Este é o meu penhor
pelo teu olhar de frevo lírico
nos repuxos desenhados no ar
das tuas mãos e dos teus pés
tão leves
mas que deixam um sinal forte
da tua presença
nas dobras dos dias. 

(José Carlos Sant Anna). 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A ótica de Carlos





Um espadachim. Era como ele estava se sentindo depois da breve escaramuça na antessala da academia de ginástica com um oponente. "Pode isso, Arnaldo?". Como o mundo é o que corre lá fora, Carlos, para não ficar só, abandonou a esteira em que queimava uma gordurinha, e pernas, para que eu as quero?
Este era o caminho para entender as razões do que estava àquela altura acontecendo consigo mesmo. Ou como um sim inesperado que a vida parecia oferecer-lhe, caminhava se interrogando, intrigado, por que, depois que deixou a ótica no final da tarde do último sábado, não parou de pensar na consultora que o atendera? Que bela morena! Morenaço! E como ela não revelara, nem um pouco, uma alma pequena, achou que valeria a pena o derrame de neurônios que se perdia no rio da sua libido. Tudo estava em ordem em sua vida até aquele momento, mas, de repente, achou que faltava ela no seu caminho.
Logo depois que deixou a loja, Carlos, sereno, seguiu para o Porto da Barra para montar guarda. Lá, tomando um chope aguado, cheirando a maresia, e com o cocô de cachorro impregnado nas calçadas exalando pelas portas a dentro dos bares, imaginou que talvez ele não soubesse que o centro do mundo é um ponto escuro, que não se tange assim como não se quer nada ou com poemas que se digam inconfessáveis. Ou mesmo não soubesse ainda que o segredo da liberdade é saber esquecer antes que ela se torne um amor cruel, tangida por um condutor de bondes.
Sôfrego, sem que as sombras o iludissem, ficou murmurando depois algo contra si mesmo. E logo, enviesadamente, por saber que o mundo não é mundo, mergulhou num silêncio atonal recolhendo este segredo que não sabia quando desfiaria e para quem o desfiaria, e que, se possível, ainda desfiaria este rosário naquela noite cujos primeiros acordes já se fazia ouvir com o pôr-do-sol.
Saiu da loja de braços dados com uma novela e a tranquilidade de sua alma acreditando que tinha feito o melhor ao trocar também a armação dos óculos. E começou ali mesmo a reconstituir o passo a passo da sua conversa com a consultora de um pouco menos de duas horas, mas, ao que parece, ele tinha deixado escrito em sua pele seja bem-vinda. E dizia para si mesmo "Venha, mas venha leve para que eu não acabe os meus dias em silêncio, porque a primeira impressão não é a que fica. Isto é um engodo. Venha, sem pressa e com vontade de sonhar, passear pelas ruas de mim mesmo, sem gatos a espreitá-la. Venha que, quando a festa estiver no ápice, eu reparto as cordas da minha lira com você". 
Lembrou-se que, ao assomar à porta, ela se levantou da cadeira e se dirigiu à entrada da loja encurtando a distância que a separava dele e, sem afastar o olhar um milímetro, ela lhe estendeu as mãos, perguntando-lhe:
– Posso ajudá-lo? 
– Queria falar com Cristina?
– É aquela ali. Ela está ocupada no momento – disse-lhe apontando para uma moça de cabelos compridos, que mostrava na vitrine algumas armações para um cliente que entrara na loja um pouco antes de Carlos.
– E o Procópio?
– É o gerente da loja. É aquele senhor, na outra extremidade, atendendo aquelas duas moças – disse-lhe, mostrando um senhor parrudinho de cabelos grisalhos, de mais ou menos 50 anos, que abriu um sorriso carregado de simpatia da sua mesa de trabalho, quando percebeu que Carlos estava ali para falar com ele.
– Venha, sente-se aqui – disse-lhe a consultora, puxando-o pelo braço com um jeito sedutor. – Vamos conversar enquanto esperamos Procópio fechar o contrato com as duas moças – acrescentou.
– Posso adiantar-lhe o que me traz aqui, se você quiser! Como é mesmo o seu nome?
– Ana Flávia! Mas pode me chamar de Ana!
– Com tanta simpatia da sua parte, acho que não preciso esperar por Procópio – disse-lhe piscando um olho e com o outro fixava a sombra bem delineada no seu rosto.
Ela fez de conta que não entendeu o seu gesto, mas o recolheu com um sorriso ambíguo.
– Como o senhor vem recomendado, podemos ir conversando, sim, mesmo sabendo que a palavra final será dada pelo Procópio. Ele fará o que não poderei fazê-lo!
– Tenho cá minhas dúvidas  disse-lhe tocando levemente sua mão.
Ele meteu a mão no bolso apanhando a receita dos óculos, colocando-a sobre a mesa de trabalho de Ana Flávia. Ela a tomou em suas mãos para conferir a quanto ia o astigmatismo de Carlos, que se preocupava em observar os detalhes do seu rosto, da sua pele. Até que ela se levantou para apanhar as armações, então, ele pode acompanhar o movimento ritmado das suas ancas. Suspirou duas vezes e passou a mão no rosto para limpar o suor que deixava nele um brilho excessivo.
O estilo pode muitas vezes ser um fake na vida de cada um. E, por favor, nada de truques porque a vida não aceita rasuras no seu percurso infindável, é o que ele diz a si mesmo antes de voltar a olhar a fração de mar que se descortinava na solidão da sua mesa e, em seguida, chamou o garçom e pediu mais um chope.
Depois que ele se afastou, Carlos se lembrou rapidamente do garçom do Café com Letras, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, quando ele pegou a sua tulipa ainda cheia de chope e fingiu que estava levando-a de volta para a cozinha.  Ao perceber a sua reação, disse-lhe com um sorriso largo de domador:
– Me acompanhe. Já consegui uma mesa lá dentro. Vai começar a sessão de jazz. E o senhor só vai me agradecer esta gentileza porque são músicos de uma elegância que as notas parecem em êxtase. – E sorriu.
Carlos não se dá por vencido e volta a se perguntar por que não parou de pensar na consultora. Ouve os acordes iniciais do concerto e os confunde com a noite de jazz do Café com Letras e outro baile interminável mais distante no tempo. E como se a consultora estivesse perto diz-lhe que queria lhe mostrar sua outra face, a mais sisuda, e apagar a paródica revelada no sábado à tarde. 
Às dez da noite, Carlos, depois de cinco canecas de chope, era um espantalho de homem, subiu para o restaurante porque ela não apareceu para jantar como ficara tacitamente combinado. Adeus, pressurosos ventos das sonhadas manhãs ensolaradas.
Pouco sabemos dos rios que nos afogam. Ainda hoje Carlos não deixa de pensar na consultora depois do encontro na loja na tarde daquele sábado. Foi um sobrinho que pegou seus óculos novos.  

(José Carlos Sant Anna) 









domingo, 23 de julho de 2017

Beatriz - Parte três



Estava certo de que ouvira o lado mais ocidental de Nelson Rodrigues dizer que, uma vez escolhido um caminho, nunca deveríamos estorvá-lo sem olhar para as estrelas, sob pena de... Não, não importa. Portanto, ali estaria sossegado e com o coração leve, percutindo de vez em quando o pé no tronco que o sustentava. Levíssimo. E como um profeta ou um Camões redivivo recitou do seu altar o que parecia um poema:
– Se é que somos feitos de impossíveis sins, não me consinta o amor tanta alegria, pois vejo que a noite promete destruir os véus da incerteza, pois percebo que são forças maiores que arrastaram este homem que já foi de carne osso até aqui. – E riu muito. 
Enquanto da minha varanda, metade de mim era silêncio, a outra metade era pura expectativa. Sim, eu estava também bem curioso e tinha abandonado o livro que apanhara ao acaso na prateleira da estante. E me acomodei como se estivesse numa privilegiada poltrona para acompanhar o desenlace da história. Porque estava claro que havia no ar uma rusga amorosa entre as duas moças, só ainda não tínhamos descoberto qual o real motivo da desavença. Das imprecações de uma contra a outra. O fato é que elas subiam olimpicamente a ladeira, discutindo. É verdade que se ouvia apenas a voz de Beatriz. Mas elas discutiam entre si, disso já não se tinha dúvidas. Brigavam e ponto final. Mas cada pessoa tem o seu modo de brigar. Como a vida não tem roteiros, era a outra que se lastimava em voz alta, e Beatriz, como uma cândida pomba, buscava a conciliação entre um impropério e outro. Havia ainda uma réstia de pomba nela. Ou um noturno anjo branco?. Ela se revelava velando aquele amor, embora tivesse pisado em falso. 
E, lá do alto, prosseguia o Nelson Rodrigues querendo ensinar de modo inflexível, para mim, o "óbvio ululante": 
– Como eu sei que a vida não é um lago, assim, eu ia passando, bem distraído, como quem não queria nada, quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu pensei "aí tem angu". 
E acrescentou com sua aura esplendorosa:
– Ou debaixo desse angu tem carne. 
E com um ar irônico arrematava, mas sem passar a régua:
– Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?   
De repente, outras janelas, com rufos de timbales, se abriram. Foi um zum-zum-zum que se espalhou pelo paliteiro do Caminho das Árvores. Acho que o Nelson pensou que estivesse num Maracanã miniaturizado com a vida fremindo no cu da madrugada. E ele parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava a histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse, mostrando-lhe discretamente as janelas se abrindo, e os sussurros, por enquanto, ainda pequenos. 
Por que a outra gritava tanto se Beatriz estava ao seu lado? A vida é mesmo um encanto, não se pode dizer o contrário. Tanto barulho e os pássaros, retardatários, voltando fagueiros a se acomodar nos seus galhos, indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho animal refestelado na frondosa árvore.  
Quase não se ouvia a voz da outra pomba. Apenas Isabel arrulhava. Por isso, o que a pomba dizia era apenas imaginado pelas circunstâncias ou por uma lógica perversa dos que estavam acomodados nos camarotes das suas janelas e varandas.
Pelas circunstâncias era mais ou menos isto que se imaginava. O diálogo possível, porém imaginado:
– Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis.
Ou, então, com um pouco mais de imaginação:
 Vem, amor, é em ti, amada, que meus sonhos repousam. "... embaixo dos caracóis dos seus cabelos..."
Ou provocadora, fazia uma careta, dizendo:
– “Ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo...” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”,
Ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum
– “Olha pro céu, meu amor..."
Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos Big Brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, parecia que ficaria sozinha. Ficaria sem as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação. Não tinha escolha? É o que se perguntava quando havia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra.
Esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama”, era o que agora se ouvia nitidamente, porque repetia aos gritos para Beatriz.
Foi assim que ficamos conhecendo a outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu o conluio amoroso. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no rala e rola. E eram todas as amigas, senão como explicar a chama dessa vela que a outra segurava? 
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas ao armistício, à reconciliação, a vítima irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, sua desocupada? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e se ouviu o taxista dirigir-se às moças perguntando-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz não respondeu. Abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo que a calou de vez.
Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando, olhou para cima e disse numa voz plácida para que todos ouvissem: 
 É isso... A vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 16 de julho de 2017

Beatriz - Parte dois



Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe/perto, aqui, na praça, em frente aonde construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito.
Se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência de tempo, não mais o da falta, de outros tempos, mas o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos da rua que, para a sua alegria, não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal nas mãos, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia.
Da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício do que ele mais gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os seus sentidos, na expectativa do advir e uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. E, na leve espessura do galho, estava intocável. E também invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre o xadrez das teclas, catando milho, durante várias décadas, mas agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele, batendo as mãos contra o peito, descontraidamente, gostava de se proclamar para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora, pelo que se ouvia da altercação com a outra moça, ela batesse um bolão. Era um Pelé (ou uma Pelé) de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, com aqueles que se derramavam na roda dos bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. 
Estou certo de que, a distância, parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. E parecia dizer-me ainda "é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou", e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
Se você meu caro leitor, ainda "quer viver, para ver, vai ter que esperar por outro dia", pois, como disse Cassiano Ricardo, "foi para isto que se inventou o adiamento". Portanto, essa história continua. É só esperar o próximo capítulo.

(José Carlos Sant’Anna)




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beatriz - Parte um



ESFREGO OS OLHOS PARA ACOSTUMAR-ME à escuridão do quarto fechado pelo blackout e cortinas de algodão; alongo o corpo como se eu fosse um atleta e aguardo um pouco, sem esfriar o sangue, para levantar-me. É o tempo que eu preciso para que os meus olhos se acostumem à escuridão e os meus músculos, nas águas que ignoram o céu aberto, obedeçam ao meu cérebro. Faço isso sem remorso algum ou, então, porque não me resta outra alternativa, pois, naquele momento, eu sou ali um corpo submetido às minhas necessidades fisiológicas. Agora, por favor, – porque sei o quanto o leitor é curioso –, não me pergunte o que faço a essa hora da madrugada na varanda do meu apartamento porque eu não saberia dar-lhe uma resposta convincente. Ou não desejaria fazê-lo. Se isto não lhe basta, meu caro leitor, digo-lhe apenas que tenho os pés no chão. Ah! Me rendo diante da sua insistência! Eis tudo. Não me sufoque! O que posso dizer-lhe é que me levanto voluntariamente, como um corpo que nunca faltou à palavra dada. Parte de mim. Simplesmente um corpo. Não, é melhor que o diga compulsoriamente. Por força da idade mais avançada. Faço isso habitualmente para desobstruir a bexiga, depois, já mais leve, não quis voltar à cela como um condenado, ou talvez levado por alguma premonição, desaguei, tão certo quanto a morte, na varanda, com a mão em concha, no ouvido, como quem escuta. Embora não estivesse resolvido inteiramente o meu sono, ainda havia um naco dele perdido, decido, então, aguardar, embalado por algum sentimento, a manhã, leve, pousar na minha varanda. Primeiro, fixo o olhar nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas alinhadas e adormecidas como se estivessem numa clave de sol, mas não as encontro. Estavam inteiramente desnudos os fios. Logo, imagino-as em outra pauta, mais longínqua, e penso, olhando para o céu, "quanto mundo abissal nos confins do infinito se esconde dos nossos olhares", tendo como testemunha esta lua cúmplice, sôfrega, brilhante, que recolhe tudo que foi de ontem, enquanto outras pequenas luas iluminam a praça que circunda o prédio onde eu moro. Não tenho dúvidas, diante daquela visitação pública, em acreditar que, em cada um de nós, mora um sobrevivente, também não tenho dúvidas de que por mais que a ciência quebre os vidros da janela, ela ainda tem um longo caminho pela frente. E assim conciliado com os céus e o olhar fixo no solo áspero da praça, começo a ouvir vozes distantes subindo a ladeira íngreme que as leva à praça. São duas vozes femininas que se alternam em pequenos intervalos. Uma, mais áspera; e a outra, mais modulada, mais conciliadora. Esfrego os olhos novamente para ter a certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, pois, diga-se de passagem, sou capaz de apostar que há um sujeito encarapitado numa árvore da praça. Fixo o olhar e cravo na mosca: “Pô, meu, aquele é o Nelson! O Nelson Rodrigues, 'cuspido e escarrado'". O mesmo que disse que "cego em futebol é o que só vê a bola". Não acredito. O velho Nelson, com ar bonachão, traja uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista que, sob os ossos da palavra, impunha respeito. Mas lá está ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando primeiro a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz", depois me assaltou uma dúvida: o que mais ele faria ali? Posso brincar com os meus leitores, pedindo que eles escrevam cartas para a redação dizendo-me o que ele acha que Nelson Rodrigues estaria fazendo ali, além de comodamente exibir o seu coração com as cores do seu velho FLU. Ah! Não esqueçam – isto pode ajudar e muito – que ele carregava em suas entranhas a alma do repórter. O excelente repórter que sempre foi. Também não esqueçam da coluna, publicada às segundas-feiras, no jornal O Globo, cujo mote era o personagem que emergia como herói na rodada do final de semana. "Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer.../... Não esqueça..." Aí, já é o admirável Paulinho da Viola, de Sinal Fechado, e tantas canções e sambas inesquecíveis, como são inesquecíveis as crônicas do Nelson. Mas eu volto para contar-lhe o resto dessa história...

(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Lavoura



essa teia de raízes dos velhos troncos
atravessa 
minha voz meu corpo minha nudez
e, em alguma folha nova, vagarosa, 
esculpe brisa imóvel, pulsação serena, 
antes que tudo sutilmente volte ao pó, 
memória exata da casa aberta, 
quando se encantam no suave pingar 
das horas os meus ouvidos de poeta. 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 20 de junho de 2017

Intercursos

Foto: arquivo pessoal

I.

pelo avesso
o verso veleja veredas

a rota e o chão
das palavras enfunam
os panos de fundo dos dilemas,

a boca do mar
engolfa a fome do poema
e as gaivotas abocanham
no voo este teorema

II

o poema é uma chuva
                                   movediça
que se escreve
para quem não se diz

enunciado
desdobra-se claro-escuro
decompondo
o silêncio da ponta da língua... 

III

do lado de dentro
do fado
o verbo exilado
desafia o olho mágico
na jurisdição
             do seu espaço. 


Só faz sentido:
acordo em sustenido
    dizendo-lhe no ouvido
          dezenas de bemóis.


(José Carlos Sant Anna)


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sob as águas buliçosas do sonho



I
O assoalho estremece. Outrora, pedras azuis, clareiras vermelhas e animais noturnos nas nuvens. Não estremecia sob os meus pés. Murmúrios da minha boca de chuva em suas membranas. Subitamente macias. Nada se perde. E tudo se oferece debaixo dessa bruma. No tronco mais silencioso da casa, ela me disse alguma coisa antes que eu tragasse o primeiro cálice de vinho. Àquela altura, pois, já me embriagava sob a tua pele. Acho que foi o teu nome. Mas não! Mas não! Sim, o segredo do teu nome de batismo. Longa viagem. Imprevisíveis acentos.

II
Como se fosse uma fábula sobre coisa nenhuma. Lugar de insônia, iluminando a noite. Mas não me perguntem de onde vem o bulício de vozes. Nada parecido. Algo nebuloso, algo como se as palavras tivessem cor e cabelos, quando à mesa se cogita qualquer coisa, como se no esplendor suave houvesse uma saudade da nascente, ou qualquer outro pacto. E, então, todos se perguntam por que exala um forte cheiro de maçã pela casa, enquanto uma lua redonda entra pela janela deixando que todos vejam os momentos íntimos do casal. A terra molhada. A boca na maçã, tomates intocados. Densidade. Leveza. Em torno das palavras o rumor porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão.  

III
O assoalho estremece outra vez. Agora sem esconder sua memória milenar, enquanto flutuam, resvalam, resplandecem dispersos os passos dos alheios coadjuvantes que caminham pela casa. E quanta elegância discreta nos seus charmosos aventais. Ágil, o gato pula a janela. Tudo que do amor se diga: a água que me falta, o olhar cúmplice. Esta que me visita, este que a deseja, e a nudez do silêncio, e a nudez do corpo, e nos cálices o rumor da água, e do vinho, e o fogo de que são feitos os homens. E o desejo de inventá-la alimentando essa chama clara. E que não cessa de levitar. 

IV
A música sobe redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara porque as veias do tempo, sedentárias, latejam O corpo é içado para o alto, adoraria apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu pensamento sem que eu o saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar. Essa esperança convicta e a certeza do amanhecer. As constelações verbais solapando as pedras obsequiosas. De que somos feitos agora?

V
A pensar. Os neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios entrançados nos fios loiros dos cabelos do ventre da menina. Gotejam dos meus dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo de partilhar com ela os movimentos da dança. 

VI
Vai alta a música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que estremece. Suave ondulação. Minuciosa. Música em lâminas finas rasgando o assoalho, complicando este mistério tão frágil.

VII
Há qualquer coisa de etéreo no sorriso da menina despertando a madrugada por dentro da pele. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no corpo esguio e sedutor por onde entra a minha pena. Cada vez mais sensíveis, mãos e olhar se repetem. E resplandecem. Sopro transparente, a água ainda me falta neste labirinto. Uma voz prolonga a melodia e a doçura de não haver outra sombra por dentro do fulgor.

VIII
O encanto do corpo alçado pelas pernas, sem nada que me impeça o voo, é uma imagem recôndita dessa presença que rumoreja como o grito de um náufrago. Ela tem uma aragem nos pés sob as sandálias que voam para o chão desnudo. Vou gozando o instante com a boca ressequida, enchendo-me do sonho com a luz que me interroga.

IX
É uma coisa tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço, aguardando a trovoada que desaba inundando o seu corpo. O melhor de mim. A tentação ainda latente. Me afagas e, também, derrete meu chumbo para alcançar a ponte de estrelas...  

X.
Soberba água, fogo consumido. 

(José Carlos Sant Anna)