segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Penumbra II

                Tomas Nicolleta - imagem capturada na internet

GUARDANDO UM CRISTAL NAS ENTRANHAS, um coração inquieto e sem querer voltar atrás na trajetória delineada antes de embarcar para a cidade grande, a menina imagina ouvir a sinfonia de Berlioz, esmagando suas dúvidas, depois da longa tensão da viagem, quando, tremidas, outras pedras se acomodaram no tabuleiro de xadrez e no destino dos lenços acenados, enquanto o motorista estremunhado levava o ônibus do parque de estacionamento da rodoviária de volta à garagem da empresa. 

Quase doze horas de viagem à espera do garanhão para a bela potranca. Em que prados se perdera? Sem fumaça branca. Mas, sim, um quarto de lua no céu e a monotonia da estrada, esburacada, machucando seu corpo, suado, as lágrimas silenciosas, além do stress dos preparativos para convencer a família de que a decisão tomada seria para inventar um futuro sem tragédia grega pela frente, que a deixaram fragilizada. Ela é um caco de um relógio atento, sabendo que a ponte para o futuro poderia demorar minutos. Ou uma eternidade. 

Pensando o tempo como o lugar donde voam as nuvens, como ela acredita, a menina, agora, ligeiramente revigorada, quase dona de si, estende os braços, alonga os dedos e abandona o olhar na ternura seca protagonizada por um casal de mendigos, bem à sua frente, no saguão da rodoviária. Absorta, ela está a querer adivinhar o que o casal, pombos enfunando a cauda como um pavão, anuncia para o mundo, numa intimidade rara para um espaço público, enfeitada com bandeirinhas e música, sob aquele céu claro.

Parece que somente ela repara no casal de mendigos e na viagem matinal que os dois fazem, ainda mal acordados, porém apoteóticos, levando-a, particularmente, a reduzir a dor do seu medo na aventura em que se embrenhou. Parecem felizes e distantes do burburinho em volta deles pelo jeito brejeiro como se procuram e se entregam. Indiferentes, à frente de todos. 

A menina quer aprender com eles a naturalidade dos gestos, perceber a melodia que emana dos seus corpos sem rasgar suas vestes, quer ser igual e ser diferente ao mesmo tempo, como se lhe fosse possível ser duas em uma nota só. E fica os observando como as mulheres faziam nos romances russos do século passado, enquanto os dois recusam, com aquele ar de deboche que aparentam, queimando o gozo das achas no cio, a olhar para o céu.

Essa ternura, dissolvendo-se em carícias pelo corpo de ambos, trocada sem cerimônia ali a vista de todos e fiscalizada pelos seguranças, é o refúgio da fome e da solidão que consome o amor puro que antes o vulgo ignorava, como se eles estivessem num palácio de ilusões. Contagia o desprendimento deles sem um terapeuta de plantão para uma manhã tão bem concebida. Agora são muitos os olhares nos dois pombos que arrulham no salão de espera da rodoviária.

Na febre da conversa, sempre o amor de rastros, o alimento da febre do corpo, sem extrapolações como se conhecessem o limite imposto pelos seguranças e sociedade. É essa "conversa íntima" que entretém a menina “arrojada”, como a chamou algum tempo depois a feminista que conheceu a sua história em detalhes, na sua espera, a sonhar que já andava lá por fora, num gume de frio inquieto.

De vez em quando ela se levanta do banco de madeira, na manhã ainda estremunhada, e percebe lá no alto, misteriosa, a última estrela recolhendo a luz dos seus olhos ensimesmados, que, em vão, ainda procura reconhecer um sinal nos rostos repetidos nos assentos que circundam aquele espaço, enquanto o sol, já pendurado no telhado da rodoviária, depois de ter-se espalhado pelo horizonte, traz a luz, o calor e um cheiro de vida e caras, novas, para todos os que já foram recebidos por seus familiares e amigos.

O silêncio interior, pescoço esguio, “ah, vontade de esganá-lo e vê-lo evaporar-se por inteiro”, pensa a menina, ao vê-lo perseguindo-a em torno da sua bagagem, travando uma luta desigual entre a de dentro e a de fora, para não deixar que a tristeza comece a dar um sentido diferente à vida que planejou.

Uma borboleta perdida do seu panapanã esvoaça com asas de esperança pelos seus cabelos longos, fazendo-lhe confidências, mas a sua vontade é de fazer voltar a ampulheta. Mas ela sabe que agora é tarde. E diz para si mesmo “ah! Se eu tivesse trazido minha rede de caçar borboletas”! E finge que é uma estátua para que os outros não percebam seu desassossego.

E os dois seguranças, que conhecem bem os mendigos, os vigiam, sem trégua, pois sabem que qualquer descuido com eles a água transborda. Não deixam que abusem da confiança que lhes concedem em silêncio cúmplice. Sabem que eles sobrevivem do pouco que recolhem dos milhares de pessoas que entram e saem dali.

A menina também, do alto da sua complacência, com discrição, os observa contando os dedos infinitamente, enquanto reza para que chova e ela possa contar também as gotas de chuva, o que demandaria mais tempo e atenção, afugentando a ansiedade, que a devora. Já brincava assim na sua pequena cidade, gostava de dançar com o cabo da vassoura, seu Fred Astaire, na chuva, ainda que lhe custasse quase sempre um castigo por chegar com a roupa molhada, colada ao corpo, deixando os bicos dos seios à mostra.

Abolida a noite completamente e com o sol esparramado, ela sabe o que tempo está passando, que o tempo de espera está se esfumando, e tudo que ela deseja é ter um destino que lhe seja igual. Ao desejar um perfume igual ao deles, sabe que inveja, sem querer, os companheiros de viagem. E perdida a última estrela, ela abre bem os olhos, e somente ela sabe o quanto o burburinho a incomoda. Reconhece o silêncio. É o mesmo silêncio que a perseguia com ruídos nos cafés quando eles se escondiam numa mesa nos fundos e o olhar dele, planando, saltava do calor feminino dos seus seios para os olhos líquidos de mar que o fizera estremecer como se ele fosse um colecionador de pérolas.

Ela estende o olhar mais uma vez procurando o que já supõe perdido, desfraldando a bandeira secreta que trazia dentro de si. Ao mesmo tempo, um gato se aproxima e vai se enroscando em seus pés. A mendiga se afasta do seu parceiro e chegando perto da menina lhe pergunta:

– É seu, este gato? – Disse a mendiga com sorriso desenhado de bondade.

– O meu ainda não chegou e não sei se ele virá – responde a menina, revelando, depois de quase quinze horas sem uma palavra, a beleza da voz e a interior. 

– Posso tomar conta dele? 

– Do meu gato? Pode, se ele quiser, ele é meu, mas não sou dona dele. – Agora o sorriso da menina acaricia o corpo da mendiga, de um modo que ela não estava acostumada.

– É desse gato aqui, que estou falando, menina! Você parece no mundo da lua... – Disse-lhe a mendiga, embevecida com a ternura repentina que descobriu no rosto da mulher ainda menina. 

E a mendiga se afasta, acariciando os pelos do gato, que já estava encarapitado no seu ombro, quando ouve o ruído da chamada do telefone da menina e percebe o seu alvoroço para atendê-lo.

(José Carlos Sant Anna)




8 comentários:

  1. Amigo José Carlos, com toda a sinceridade, digo a ti que o que escreves é um poema em prosa tamanha beleza das frases que mesmo que soltas, seriam versos concretos. Mas a menina fecha um enredo bonito. O casal de mendigos nos ensina a viver na pobreza e no amor, como ensinou Cristo. Maravilhoso texto. Parabéns! Com meu abraço fraterno. Laerte.

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  2. Um texto que dá gosto ler. A prática literária não é só um jogo de palavras, mas sim um trabalho sobre a linguagem. E com este texto, meu amigo, você mostra isso mesmo. Esta prosa poética tem uma história por dentro que nos leva atrás das palavras... Excelente!
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  3. tão amados, amantes, amáveis...


    [contém 1 beijo]

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  4. admirável tua escrita
    e teu talento na transfiguração da linguagem
    e na construção dos personagens.

    forte abraço, meu caro amigo

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  5. Gostei de ler, percorrer o caminho
    original do teu texto.
    Acompanho atenta esta viagem literária.

    Aguardo mais, José Carlos!...
    Beijo.

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  6. Muito bonito, José Carlos! Um mundo à parte. Uma perfeita prosa poética. Fui descendo num fôlego, pobre mendiga, querida mendiga! No fim a gente pega carinho por ela.
    Beijo, meu amigo!

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  7. Vim espreitar e dou com a menina, mais seus enganos, esperando, sem se saber bem o quê. O certo é que quem espera sabe que quer, nem sempre o quê. Mas não conta o tempo. Quem conta desespera. Antes disso tocou o telefone sabe quem leu. É o que aconteceu?
    É ter fé num novo capítulo...
    Bela prosa poética, ou bela poesia em prosa? Tanto faz. Interessa é que venham mais histórias assim.
    Parabéns, amigo José Carlos.

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  8. Os personagens dos seus textos, José Carlos... encerram mesmo um mundo de emoções dentro deles... e que nos é revelado de uma forma brilhante...
    A vida é mesmo uma fuga para a frente... numa qualquer paragem de autocarro... esperando que a viagem valha a pena... até ao próximo acontecimento...
    Maravilhoso este seu texto!...
    Abraço!
    Ana

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