terça-feira, 21 de março de 2017

O coveiro alisa a broxa de caiar paredes e aguarda

Cavou um buraco fundo em busca de uma flor branca. Dissimuladamente. Assim não é possível, assim não tenho vez, alivia meu fardo, meu cansaço, meu chapa, molambeiro das chaves, disse, suando bicas, quase aos gritos sob o cobertor e uma febre alta. Então, mais dissimuladamente, cascalho sob o barro, escondido, pensou quanto não renderia a flor e quão profunda é essa gente que cava o topo de um buraco para corrigir a falha de um olho, drenando partículas rotas, sem que o céu, orlado de nuvens, pudesse esperar para vê-las, estendendo-se pelo infinito entre um copo de água e uma vela acesa de um baralho cigano, há muito recheado de pó de mico entranhado nas cartas. Em seguida, mastigando rosquinhas de polvilho com pamonha, girou a cabeça para contar detalhes da intimidade maior com a dor, e o tronco, abatido mas altivo, rua de mão única entre as catacumbas, manto de cal, adernou sobre as mãos pálidas, sem que desabasse, inapelavelmente, de corpo inteiro pela superfície terrosa da sua sentença. Desde que o mundo é mundo essa gente vive à sombra, entre o clarão do bosque da saudade esperando que chegue a sua vez e um bando de gentios, numa adoração que não é de anjo, mas de coveiro. Mas tudo o que Zé das Marmitas queria era entrar no céu imantado em água de colônia e montado numa égua banzeira, como seu pai ensinara a montá-la no beco da Zilda sem usar chicote para desempacá-la! Tardava, o coveiro sabia, mas ele viria! Disso ele tinha certeza.


(José Carlos Sant Anna)

8 comentários:

  1. o fim é tão (im)previsível....


    [contém 1 beijo]

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  2. rss, você é muito criativo, José Carlos! Mas me fixei (e não sei por que) nas rosquinhas de polvilho com pamonhas!
    Coveiro é sempre estranho...por que será?
    Gostei!
    Beijo, meu amigo!

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  3. São os oníricos contos
    Contados com a liberdade
    Irrestrita, que invade
    O real, e aumenta pontos

    Na beleza, como aprontos
    Equestres, por vaidade.
    No teu conto, eu debalde
    Vejo lógica em descontos

    Entre a febre e o coveiro
    Que cava a cova primeiro
    Desenterrando uma rosa

    Branca, e talvez com o cheiro
    Da terra. E ao travesseiro
    Acorda e da razão goza.

    Grande abraço. Obrigado pela visita, Sant Anna, ao meu espaço e às palavras de apoio, elogio e amizade. Fraternalmente. Laerte.

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  4. Há certezas que são icontornáveis..., por muito que custem, por muito que doam, por muito que as queiramos ignorar.
    Interessante a lucidez com que se desenrola a trama, apesar de filha de um delírio. Não febril, mas poético, diria eu.
    A imaginação , a criatividade, a arte de manusear as palavras estão bem presentes numa escrita que nos prende até à ultima palavra.
    Obrigada pela visita ao meu espaço.
    Abraço e bom fim de semana.

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  5. Este é um texto de uma imensa criatividade. Sensibiliza-me, até a forma estética como o texto se desenrola...
    Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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  6. Um texto que se lê a descobrir o desfecho da ebre alta,o motivo de se pretender uma flor branca, dissimuladamente... rs
    Boa leitura JCarlos , como sempre enigmático.
    Penso que voltei aos blog's, espero nao desertar ,de novo.
    meu abraço e carinho

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  7. ... e é vê-lo garboso "montado na sua égua banzeira", em entrada triunfal no Céu, e Manuel Bandeira com as barbas e as chaves de S. Pedro:

    - "licença, meu amo?"

    e Manuel Bandeira, bonachão:

    "entre, Zé. vc não precisa pedir licença"
    ..........

    Admirável tua escrita, caro José Carlos
    são apaixonantes teus personagens.

    grato, meu amigo´
    pela tua generosa presença no meu relógio

    caloroso abraço

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