quarta-feira, 5 de abril de 2017

Penumbra III


A MENINA ACOMPANHOU COM O OLHAR o motorista ajeitar as duas malas no bagageiro do carro, depois abriu a porta do banco traseiro e se acomodou com a frasqueira à tiracolo, esperando que as zonas mais vivas do acaso – porque, apesar da pouca idade, e como era pouca, ela já sabia que a vida era assim mesmo, quando menos se esperava, sorrateira, ela surpreendia –, não se manifestassem num lampejo qualquer e, à medida que o carro ia deslizando em velocidade moderada, pelo asfalto, se descortinavam as sinuosas curvas da rótula do Abacaxi onde o motorista faria o contorno em direção à Paralela. Ainda que sinuosas, ele não perdia pelo retrovisor os trejeitos da menina, pois suas curvas, ah, essas, ele já as tinha fixado quando a apanhara na rodoviária.
Então, rápidas cortinas da memória foram se abrindo de par em par à medida que o carro avançava pela avenida deserta de vegetação. Eram tantos os passos vislumbrados pela memória, margeando a estação rodoviária, que ela se sentia perdida com a cabeça em redemoinho. Mesmo assim, a menina ia aproveitando para encher os pulmões de ar, ainda que muito poluído, e hauria o chão da vida que pairava sob um sol rasante do meio da manhã.
Nesse meio tempo, ardendo em grandes piras, lépida, ela descobriu que o seu corpo estava avivado com aquela luz que se espalhava como uma música pela cidade. Seu corpo era água transformada, um rio em convulsão à espera de um tempo ardente para a seiva inesgotável do calor dos seus verdes anos. Tinha recobrado o brilho dos olhos. Tentação, e tentada, urgia fazer do amor um uso imediato, já que trazia os lábios túmidos do incólume amor tão bem resguardado.
Assim, depois de uma noite nevoenta e quase interminável e do casal de mendigos cheio de asas, no fulcro do amor, concentrados, outras pareciam ser as palavras agora dentro de si, fazendo-a sentir-se à beira de um feliz anoitecer.
Percebia-se uma menina mais confiante. E, sem tirar os olhos do fausto da janela do carro em que tudo era novidade numa cidade grande, semeava na imaginação a rumorosa festa com a leve carícia do vento no seu rosto e se deslocando inesperadamente à zona dos quadris. Havia no seu corpo uma promessa de muito calor para o quarto do hotel e parecia ler-se nos seus olhos o desejo de abrir para Pablo, devagarinho, os segredos que restavam guardados.
Então, dirigindo-se ao motorista com as roupas de ternura que não tinham sido gastas com a viagem e sem lembrar-se das mágoas que a espera quase conspurcara o encontro, perguntou-lhe:
– Me diga uma coisa, cara, Pablo mandou você me levar para que hotel? É longe da igreja do Bonfim? Ele lhe fez alguma recomendação? Ele só vai me encontrar à noite, não é mesmo?
Sem tirar as mãos do volante, o motorista olhou gulosamente para aquela fugidia estrela, sem saber que aquela moça, ainda que bem jovem, só se interessava por homens mais velhos, e que Pablo não fora o primeiro, e disse-lhe sem patinar nas palavras:
– A igreja do Bonfim está do outro lado da cidade e fica na cidade baixa. 
Respirou fundo e acrescentou com os olhos grandes, de fome: 
–  O hotel que Seo Pablo mandou deixar a senhora é do lado oposto – sentindo que, por sua vez, os olhos dela já construíam um muro com temíveis farpas, e pareciam dizer-lhe, sem meias palavras, que guardasse a devida distância.
Confuso, mastigando uma bala de hortelã, ele suava no banco da frente do carro com o caos que se instalara na sua cabeça, era fogo em forja desde que a apanhara na rodoviária, sentindo de repente rasgos de fome, açulando a miragem das fendas que se abriam na avenida por onde os seus dedos rasgavam a voragem das amoras, comprimidas na embalagem adormecida no porta-luvas do carro, como se contornasse o púbis da menina em pulsão desmedida.
Já bebia o vinho dos amantes, quando a menina sem atropelar as letras do seu longo alfabeto de vigorosas nuvens, disse-lhe em voz alta de novelo que aprendia a viajar.
– Primeiro, à igreja do Bonfim. Mas vou logo dizendo que não quero subir a ladeira de carro. Vou subir a pé com a força das minhas pernas e depois a escadaria, pedra a pedra, porque quero o gosto do lume da subida até chegar ao mais recôndito da igreja. Depois, quero mesmo é chegar de alma lavada no hotel – deixando escapar o sorriso do antegozo do encontro com Pablo, o seu homem.
O motorista recobrou a força do seu corpo dissolvido e, por saber onde ele ardia, sabia que podia esperar em sua cristalina veia a hora do lobo. Suavemente, então, aplaudiu-a com palavras amenas de um dulcíssimo sol ou de um peixe brincando na água com os restos de comida porque o amor não é fala, mas também não é falo. E deixou que suas lapas de fogo se apagassem mansamente, seguindo em direção à Cidade Baixa para alcançar o cume da Igreja do Bonfim como ela pedia. 


(José Carlos Sant Anna)








8 comentários:

  1. Pois é José Carlos, o consista saber despertar a curiosidade do leitor, prendendo-o com a implícita promessa de que logo ali, mais adiante no texto, um fato fará arrepiar-se; então o leitor submete-se e segue na leitura do conto, como ocorreu comigo, enquanto lia "Penumbra III", pois não se poderia deixar de saber se os encantos da menina viriam abalar a vida do motorista, o que não chegou a acontecer. Um ótimo conto. Parabéns.
    Um grande abraço.

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  2. Leio o que escreve com uma imensa admiração pelo seu modo de narrar.
    De repente era eu a menina que ia ali naquele carro, inocente e perversa ao mesmo tempo e com o corpo propício a todas as tempestades...
    Excelente, meu Amigo!
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  3. excelente este jogo de subtis perversidades (de escrita, claro) que de outras deixemos que o coitado (e guloso) motorista se enrede no súbito desejo de penitência da lépida menina.

    que dizer de tua escrita, caro José Carlos?
    brilhante. sempre.

    caloroso abraço

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  4. Acompanhando na leitura, esta viagem literária Penumbra,
    posso te dizer, que é uma narrativa envolvente a
    surpreender o leitor...
    Focando nas personagens ricamente construídas com
    o teu estilo, tua marca literária de percorrer as
    palavras recheadas de imagens (já mencionei aqui,
    no início quando comecei a ler teu blog...), na
    dimensão da arte do cinema. Talvez, seja impressão
    minha, por adorar a arte do cinema neste contar
    uma história...
    Grata pela tua visita e comentários atenciosos
    no meu blog, José Carlos!
    Beijo.

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  5. Excelente conto que nos leva a crer num caminho, mas lá pelas tantas surpreende. Poesia nessa narrativa não falta, né meu amigo!? Quem tem alma de poeta dá leveza em tudo. Gostei muito, José Carlos.
    Beijo e uma linda Páscoa pra você e sua família!

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  6. Uma narrativa por demais envolvente, numa escrita sábia , elegante, com metáforas muito bem construídas, onde não falta musicalidade e poesia.
    Surpreendente a sua criatividade!
    Abraço e boa Páscoa...

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  7. Um texto extremamente envolvente e descritivo... que nos permite praticamente visualizar a acção... em tempo real... à velocidade da sua leitura...
    Visualizamos o cenário... e o âmago das personagens... de uma forma tão leve, quanto profunda... num delicioso contraste!...
    Mais um trabalho notável, José Carlos! Parabéns!
    Um grande abraço
    Ana

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  8. Conta-me que está menina de penumbra em penumbra vai endoideceu do com quem vai.
    Não cai, porém, pois muito bem ataviada pelo narrador de serviço que capricha na rede que a sustém.
    Magnífico trecho, caro amigo.

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