A MENINA ACOMPANHOU COM O OLHAR o motorista ajeitar as duas malas no bagageiro do carro, depois
abriu a porta do banco traseiro e se acomodou com a frasqueira à tiracolo,
esperando que as zonas mais vivas do acaso – porque, apesar da pouca idade, e como era pouca, ela já sabia que
a vida era assim mesmo, quando menos se esperava, sorrateira, ela surpreendia –, não
se manifestassem num lampejo qualquer e, à medida que o carro ia deslizando em velocidade moderada, pelo asfalto, se
descortinavam as sinuosas curvas da rótula do Abacaxi onde o motorista faria o contorno em direção à
Paralela. Ainda que sinuosas, ele não perdia pelo retrovisor os trejeitos da menina, pois suas curvas, ah, essas, ele já as tinha fixado quando a apanhara na rodoviária.
Então, rápidas cortinas da
memória foram se abrindo de par em par à medida que o carro avançava pela avenida deserta de vegetação. Eram tantos os passos vislumbrados pela memória, margeando a estação rodoviária, que ela se sentia perdida com a cabeça em redemoinho. Mesmo assim, a menina ia aproveitando para encher os pulmões de ar, ainda que muito poluído, e
hauria o chão da vida que pairava sob um sol rasante do meio da manhã.
Nesse meio tempo, ardendo
em grandes piras, lépida, ela descobriu que o seu corpo estava avivado com aquela luz
que se espalhava como uma música pela cidade. Seu corpo era água
transformada, um rio em convulsão à espera de um tempo ardente para a seiva
inesgotável do calor dos seus verdes anos. Tinha recobrado o brilho dos olhos. Tentação, e tentada, urgia fazer do amor um uso imediato, já que trazia os lábios túmidos do incólume amor tão bem resguardado.
Assim, depois de uma noite nevoenta e quase interminável e do casal de mendigos cheio de asas, no fulcro do amor, concentrados, outras pareciam ser as palavras agora dentro de si, fazendo-a sentir-se à beira de um feliz anoitecer.
Percebia-se uma menina mais
confiante. E, sem tirar os olhos do fausto da janela do carro em que tudo era novidade numa cidade grande, semeava
na imaginação a rumorosa festa com a leve carícia do vento no seu rosto e se
deslocando inesperadamente à zona dos quadris. Havia no seu corpo uma promessa de muito calor para o quarto do
hotel e parecia ler-se nos seus olhos o desejo de abrir para Pablo, devagarinho, os segredos que restavam guardados.
Então, dirigindo-se ao
motorista com as roupas de ternura que não tinham sido gastas com a viagem e
sem lembrar-se das mágoas que a espera quase conspurcara o encontro,
perguntou-lhe:
– Me diga uma coisa, cara, Pablo mandou você me
levar para que hotel? É longe da igreja do Bonfim? Ele lhe fez alguma
recomendação? Ele só vai me encontrar à noite, não é mesmo?
Sem tirar as mãos do
volante, o motorista olhou gulosamente para aquela fugidia estrela, sem saber
que aquela moça, ainda que bem jovem, só se interessava por homens mais velhos,
e que Pablo não fora o primeiro, e disse-lhe sem patinar nas palavras:
– A igreja do Bonfim está
do outro lado da cidade e fica na cidade baixa.
Respirou fundo e
acrescentou com os olhos grandes, de fome:
– O hotel que Seo
Pablo mandou deixar a senhora é do lado oposto – sentindo que, por sua vez, os olhos dela já
construíam um muro com temíveis farpas, e pareciam dizer-lhe, sem meias
palavras, que guardasse a devida distância.
Confuso, mastigando uma bala de
hortelã, ele suava no banco da frente do carro com o caos que se instalara na
sua cabeça, era fogo em forja desde que a apanhara na rodoviária, sentindo de
repente rasgos de fome, açulando a miragem das fendas que se abriam na avenida
por onde os seus dedos rasgavam a voragem das amoras, comprimidas na embalagem
adormecida no porta-luvas do carro, como se contornasse o púbis da menina em
pulsão desmedida.
Já bebia o vinho dos
amantes, quando a menina sem atropelar as letras do seu longo alfabeto de
vigorosas nuvens, disse-lhe em voz alta de novelo que aprendia a viajar.
– Primeiro, à igreja do
Bonfim. Mas vou logo dizendo que não quero subir a ladeira de carro. Vou subir
a pé com a força das minhas pernas e depois a escadaria, pedra a pedra, porque
quero o gosto do lume da subida até chegar ao mais recôndito da igreja. Depois, quero mesmo é chegar de alma lavada no hotel – deixando escapar o sorriso do antegozo do encontro com Pablo, o seu homem.
O motorista recobrou a
força do seu corpo dissolvido e, por saber onde ele ardia, sabia que podia esperar em sua cristalina veia a hora do lobo. Suavemente, então, aplaudiu-a com
palavras amenas de um dulcíssimo sol ou de um peixe brincando na água com os restos de comida porque o amor não é
fala, mas também não é falo. E deixou que suas lapas de fogo se apagassem mansamente,
seguindo em direção à Cidade Baixa para alcançar o cume da Igreja do
Bonfim como ela pedia.
(José Carlos Sant Anna)
Pois é José Carlos, o consista saber despertar a curiosidade do leitor, prendendo-o com a implícita promessa de que logo ali, mais adiante no texto, um fato fará arrepiar-se; então o leitor submete-se e segue na leitura do conto, como ocorreu comigo, enquanto lia "Penumbra III", pois não se poderia deixar de saber se os encantos da menina viriam abalar a vida do motorista, o que não chegou a acontecer. Um ótimo conto. Parabéns.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Leio o que escreve com uma imensa admiração pelo seu modo de narrar.
ResponderExcluirDe repente era eu a menina que ia ali naquele carro, inocente e perversa ao mesmo tempo e com o corpo propício a todas as tempestades...
Excelente, meu Amigo!
Uma boa semana.
Um beijo.
excelente este jogo de subtis perversidades (de escrita, claro) que de outras deixemos que o coitado (e guloso) motorista se enrede no súbito desejo de penitência da lépida menina.
ResponderExcluirque dizer de tua escrita, caro José Carlos?
brilhante. sempre.
caloroso abraço
Acompanhando na leitura, esta viagem literária Penumbra,
ResponderExcluirposso te dizer, que é uma narrativa envolvente a
surpreender o leitor...
Focando nas personagens ricamente construídas com
o teu estilo, tua marca literária de percorrer as
palavras recheadas de imagens (já mencionei aqui,
no início quando comecei a ler teu blog...), na
dimensão da arte do cinema. Talvez, seja impressão
minha, por adorar a arte do cinema neste contar
uma história...
Grata pela tua visita e comentários atenciosos
no meu blog, José Carlos!
Beijo.
Excelente conto que nos leva a crer num caminho, mas lá pelas tantas surpreende. Poesia nessa narrativa não falta, né meu amigo!? Quem tem alma de poeta dá leveza em tudo. Gostei muito, José Carlos.
ResponderExcluirBeijo e uma linda Páscoa pra você e sua família!
Uma narrativa por demais envolvente, numa escrita sábia , elegante, com metáforas muito bem construídas, onde não falta musicalidade e poesia.
ResponderExcluirSurpreendente a sua criatividade!
Abraço e boa Páscoa...
Um texto extremamente envolvente e descritivo... que nos permite praticamente visualizar a acção... em tempo real... à velocidade da sua leitura...
ResponderExcluirVisualizamos o cenário... e o âmago das personagens... de uma forma tão leve, quanto profunda... num delicioso contraste!...
Mais um trabalho notável, José Carlos! Parabéns!
Um grande abraço
Ana
Conta-me que está menina de penumbra em penumbra vai endoideceu do com quem vai.
ResponderExcluirNão cai, porém, pois muito bem ataviada pelo narrador de serviço que capricha na rede que a sustém.
Magnífico trecho, caro amigo.