terça-feira, 20 de junho de 2017

Intercursos

Foto: arquivo pessoal

I.

pelo avesso
o verso veleja veredas

a rota e o chão
das palavras enfunam
os panos de fundo dos dilemas,

a boca do mar
engolfa a fome do poema
e as gaivotas abocanham
no voo este teorema

II

o poema é uma chuva
                                   movediça
que se escreve
para quem não se diz

enunciado
desdobra-se claro-escuro
decompondo
o silêncio da ponta da língua... 

III

do lado de dentro
do fado
o verbo exilado
desafia o olho mágico
na jurisdição
             do seu espaço. 


Só faz sentido:
acordo em sustenido
    dizendo-lhe no ouvido
          dezenas de bemóis.


(José Carlos Sant Anna)


5 comentários:

  1. Que mente criativa!!! Muito bonito, José Carlos!É para ler e reler, e cada vez se descobre novos acordes (estudei piano, rss).
    Olha só...

    Só faz sentido:
    acordo em sustenido
    dizendo-lhe no ouvido
    dezenas de bemóis.

    bjs, meu amigo, ótima semana!

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  2. O poema a velejar veredas. A ser chuva movediça. A exilar o verbo. Palavras que demorei a ler e me deixaram um raro desejo de alcançar toda a musicalidade dos seus versos.
    Um beijo.

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  3. Gostei dos "três andamentos" do seu excelente poema.
    E os bemóis são um grande final...
    Bom fim de semana, caro José Carlos.
    Abraço.

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  4. um poema em acordes
    e a chuva a germinar metáforas
    e no final
    dezenas de bemóis

    muita criatividade para um só poema

    beijinho
    :)

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  5. No teu trato, em três actos, não vejo tráfico comercial, vejo a avidez dos sons que se libertam dos teus versos únicos de palavras.

    Abraço.

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