I
O assoalho
estremece. Outrora, pedras azuis, clareiras vermelhas e
animais noturnos nas nuvens. Não estremecia sob os meus pés. Murmúrios da minha
boca de chuva em suas membranas. Subitamente macias. Nada se perde. E tudo se
oferece debaixo dessa bruma. No tronco mais silencioso da casa, ela me disse
alguma coisa antes que eu tragasse o primeiro cálice de vinho. Àquela altura,
pois, já me embriagava sob a tua pele. Acho que foi o teu nome. Mas
não! Mas não! Sim, o segredo do teu nome de batismo. Longa
viagem. Imprevisíveis acentos.
II
Como se fosse
uma fábula sobre coisa nenhuma. Lugar de insônia, iluminando a noite. Mas não
me perguntem de onde vem o bulício de vozes. Nada parecido. Algo nebuloso,
algo como se as palavras tivessem cor e cabelos, quando à mesa se cogita
qualquer coisa, como se no esplendor suave houvesse uma saudade da nascente, ou
qualquer outro pacto. E, então, todos se perguntam por que exala um forte cheiro de
maçã pela casa, enquanto uma lua redonda entra pela janela deixando que todos
vejam os momentos íntimos do casal. A terra molhada. A boca na maçã, tomates intocados. Densidade. Leveza. Em torno das palavras o rumor porque não há
sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão.
III
O assoalho
estremece outra vez. Agora sem esconder sua memória milenar, enquanto flutuam, resvalam, resplandecem
dispersos os passos dos alheios coadjuvantes que caminham pela casa. E quanta
elegância discreta nos seus charmosos aventais. Ágil, o gato pula a janela.
Tudo que do amor se diga: a água que me falta, o olhar cúmplice. Esta que me
visita, este que a deseja, e a nudez do silêncio, e a nudez do corpo, e nos
cálices o rumor da água, e do vinho, e o fogo de que são feitos os homens. E o
desejo de inventá-la alimentando essa chama clara. E que não cessa de levitar.
IV
A música sobe
redonda se enroscando no corpo da menina traçando uma linha sinuosa no
assoalho, o que não me permite descrevê-la do modo que planejara porque as
veias do tempo, sedentárias, latejam O corpo é içado para o alto, adoraria
apalpar a sua pele como faço com o pelo do gato, ela se enrosca incisiva no meu
pensamento sem que eu o saiba, paralisado pela abstração, como este meu vagar.
Essa esperança convicta e a certeza do amanhecer. As constelações verbais solapando as pedras obsequiosas. De que somos feitos agora?
V
A pensar. Os
neurônios se mexem pelos caminhos das avencas que transbordam a casa. Arquejo
como se os movimentos sinuosos também fossem meus, tanta é a luz que invade os
aposentos da casa que parece querer dividir, muito zelosa, os devaneios
entrançados nos fios loiros dos cabelos do ventre da menina. Gotejam dos meus
dedos indecisos fios de um novelo que injeta certa aflição, inflada pelo desejo
de partilhar com ela os movimentos da dança.
VI
Vai alta a
música e um timbre flamenco abafa o silêncio interior; o vento arrebata os
últimos acordes como se fosse um frenético chicote ritmando a lascívia do corpo
cigano que rodopia mal se sustendo no salto dos sapatos sobre o assoalho que
estremece. Suave ondulação. Minuciosa. Música em lâminas finas rasgando o assoalho, complicando este mistério tão frágil.
VII
Há qualquer
coisa de etéreo no sorriso da menina despertando a madrugada por dentro da
pele. Os lábios de maracujá, a língua acesa e uma página aberta no corpo
esguio e sedutor por onde entra a minha pena. Cada vez mais sensíveis, mãos e
olhar se repetem. E resplandecem. Sopro transparente, a água ainda me falta
neste labirinto. Uma voz prolonga a melodia e a doçura de não haver outra
sombra por dentro do fulgor.
VIII
O encanto do
corpo alçado pelas pernas, sem nada que me impeça o voo, é uma imagem recôndita
dessa presença que rumoreja como o grito de um náufrago. Ela tem uma aragem nos
pés sob as sandálias que voam para o chão desnudo. Vou gozando o instante com a
boca ressequida, enchendo-me do sonho com a luz que me interroga.
IX
É uma coisa
tátil, uma turbina aquecida, uma torre de catedral acessível ao meu abraço,
aguardando a trovoada que desaba inundando o seu corpo. O melhor de mim. A
tentação ainda latente. Me afagas e, também, derrete meu chumbo para alcançar a ponte de
estrelas...
X.
Soberba água,
fogo consumido.
(José Carlos Sant Anna)

José Carlos, lendo teu belo e interessante conto, cito um trecho, segundo Hermann Hesse que diz:
ResponderExcluirPoder ver as coisas de uma maneira encantada, sem entretanto sermos loucos - eis o ideal. Atingi-lo não é fácil. Mas em compensação, temos nisso poucos concorrentes!
Beijo, meu amigo!Uma ótima semana nesse nosso turbilhão de pesadelos chamado Brasil!
Amigo José Carlos não preciso dizer que gostei do seu conto, escrito com esmero, criatividade e um tanto avançado, não apenas na forma, mas também no conteúdo, o qual revela um pouco (ou muito) do poeta no contista. Parabéns.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Não se perde uma palavra do que escreve, meu Amigo. Dá tanto gosto lê-lo. "Em torno das palavras o rumor porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão" Belíssimo texto!
ResponderExcluirUma boa semana.
Um abraço.
Li devagar, para sorver toda a beleza da escrita neste texto/poema ou prosa poética, e tão rico em detalhes em estrofes em palavras cuidadas.
ResponderExcluirGostei muito e sei que voltarei aqui para reler.
Beijinhos
:)
Olá José Carlos!
ResponderExcluirQue escrita linda, poética, sensual e irresistível!
Agua e fogo, um aquece e o outro esfria para chegarem à temperatura ideal. Depois os corpos se misturam, se fundem e nada se perde.
Beijos!
Para além de poético, o seu conto é de um nível literário muito alto.
ResponderExcluirExcelente, a sua escrita é brutal, no melhor sentido da palavra.
Voe ler de novo...
Bom fim de semana, caro amigo José Carlos.
Abraço.
e lá estou eu a reler...cada vez mais aprendo como se escreve bem,
ResponderExcluircito:
"porque não há sonhos sem o capricho do horizonte ou a fatalidade da paixão."
como isto faz tanto sentido ...
beijinhos
:)