domingo, 23 de julho de 2017

Beatriz - Parte três



Estava certo de que ouvira o lado mais ocidental de Nelson Rodrigues dizer que, uma vez escolhido um caminho, nunca deveríamos estorvá-lo sem olhar para as estrelas, sob pena de... Não, não importa. Portanto, ali estaria sossegado e com o coração leve, percutindo de vez em quando o pé no tronco que o sustentava. Levíssimo. E como um profeta ou um Camões redivivo recitou do seu altar o que parecia um poema:
– Se é que somos feitos de impossíveis sins, não me consinta o amor tanta alegria, pois vejo que a noite promete destruir os véus da incerteza, pois percebo que são forças maiores que arrastaram este homem que já foi de carne osso até aqui. – E riu muito. 
Enquanto da minha varanda, metade de mim era silêncio, a outra metade era pura expectativa. Sim, eu estava também bem curioso e tinha abandonado o livro que apanhara ao acaso na prateleira da estante. E me acomodei como se estivesse numa privilegiada poltrona para acompanhar o desenlace da história. Porque estava claro que havia no ar uma rusga amorosa entre as duas moças, só ainda não tínhamos descoberto qual o real motivo da desavença. Das imprecações de uma contra a outra. O fato é que elas subiam olimpicamente a ladeira, discutindo. É verdade que se ouvia apenas a voz de Beatriz. Mas elas discutiam entre si, disso já não se tinha dúvidas. Brigavam e ponto final. Mas cada pessoa tem o seu modo de brigar. Como a vida não tem roteiros, era a outra que se lastimava em voz alta, e Beatriz, como uma cândida pomba, buscava a conciliação entre um impropério e outro. Havia ainda uma réstia de pomba nela. Ou um noturno anjo branco?. Ela se revelava velando aquele amor, embora tivesse pisado em falso. 
E, lá do alto, prosseguia o Nelson Rodrigues querendo ensinar de modo inflexível, para mim, o "óbvio ululante": 
– Como eu sei que a vida não é um lago, assim, eu ia passando, bem distraído, como quem não queria nada, quando vi aquela moça lacrimosa, aí eu pensei "aí tem angu". 
E acrescentou com sua aura esplendorosa:
– Ou debaixo desse angu tem carne. 
E com um ar irônico arrematava, mas sem passar a régua:
– Como eu poderia perder esse drama ao raiar de um novo dia?   
De repente, outras janelas, com rufos de timbales, se abriram. Foi um zum-zum-zum que se espalhou pelo paliteiro do Caminho das Árvores. Acho que o Nelson pensou que estivesse num Maracanã miniaturizado com a vida fremindo no cu da madrugada. E ele parecia ter orgasmos com o drama que se representava na praça e com os rostos estremunhados que buscavam o melhor ângulo para acompanhar as duas moças: uma, que não poupava a histeria, e a outra, que tudo fazia para que a primeira se acalmasse, mostrando-lhe discretamente as janelas se abrindo, e os sussurros, por enquanto, ainda pequenos. 
Por que a outra gritava tanto se Beatriz estava ao seu lado? A vida é mesmo um encanto, não se pode dizer o contrário. Tanto barulho e os pássaros, retardatários, voltando fagueiros a se acomodar nos seus galhos, indiferentes àquelas rugas esquisitas, esperando que a vida seguisse o seu curso e, também, com aquele estranho animal refestelado na frondosa árvore.  
Quase não se ouvia a voz da outra pomba. Apenas Isabel arrulhava. Por isso, o que a pomba dizia era apenas imaginado pelas circunstâncias ou por uma lógica perversa dos que estavam acomodados nos camarotes das suas janelas e varandas.
Pelas circunstâncias era mais ou menos isto que se imaginava. O diálogo possível, porém imaginado:
– Vamos resolver isso em casa, baixinha, debaixo dos lençóis.
Ou, então, com um pouco mais de imaginação:
 Vem, amor, é em ti, amada, que meus sonhos repousam. "... embaixo dos caracóis dos seus cabelos..."
Ou provocadora, fazia uma careta, dizendo:
– “Ainda tenho muito cafuné para te fazer, minha menina, só você que não está vendo...” ou “que deixasse de ser boba”, “que não estragasse tudo daquela forma”, que “não pagasse aquele mico”, que “depois do banho estaria limpa, asseada”,
Ou ainda se lembrando da festa junina quando se conheceram e adotaram uma cama em comum
– “Olha pro céu, meu amor..."
Enquanto isto, dezenas de curiosos nas janelas por detrás das cortinas se portavam como autênticos Big Brothers.
Nada adiantava. A histérica estancava os gritos e, em seguida, eles estouravam numa volúpia ainda maior. Parecia irremediável a situação de Beatriz, parecia que ficaria sozinha. Ficaria sem as duas. Não havia mais possibilidade para conciliação. Não tinha escolha? É o que se perguntava quando havia um silêncio entre o choro e os impropérios da outra.
Esta será sempre a outra, a filial, ainda que se visse como a matriz, porque ninguém ouviu Beatriz chamar-lhe pelo nome uma única vez. Assim...
É que a moça histérica já tinha subido à rua principal que levava à praça aos gritos e aos soluços, pois não se conformava que “a sua parceira tivesse enfiado outra na sua cama”, era o que agora se ouvia nitidamente, porque repetia aos gritos para Beatriz.
Foi assim que ficamos conhecendo a outra moça e que, depois de oito anos de exclusividade, a outra, não sabemos como, em plena madrugada, descobriu o conluio amoroso. Não se tem certeza, mas, parece, que a "outra" flagrou as duas no rala e rola. E eram todas as amigas, senão como explicar a chama dessa vela que a outra segurava? 
Quando tudo parecia chegar ao fim sem que conhecêssemos a versão de Beatriz e, a distância, elas pareciam dispostas ao armistício, à reconciliação, a vítima irrompia em novos gritos e lágrimas, então, um gaiato, encoberto pelas cortinas da sua janela, gritou:
– Você não tem relógio, não, sua desocupada? Por que não vai embora e deixa a gente dormir?
Quando outro gaiato assobiou e já ensaiava nova frase de efeito, um táxi encostou junto ao meio-fio da praça, e se ouviu o taxista dirigir-se às moças perguntando-lhes com uma voz grave:
– Vocês pediram um táxi à central?
Beatriz não respondeu. Abriu a porta do táxi e, sem que a outra esperasse, puxou-a para si, segurando-a pelos quadris, e enfiou-lhe a língua num beijo que a calou de vez.
Nelson Rodrigues, percebendo que não tinha mais nada a fazer ali, desceu cuidadosamente da árvore, pois não poderia voltar machucado para o andar superior, onde deveria estar descansando, olhou para cima e disse numa voz plácida para que todos ouvissem: 
 É isso... A vida como ela é, cara!"...

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 16 de julho de 2017

Beatriz - Parte dois



Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe/perto, aqui, na praça, em frente aonde construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito.
Se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência de tempo, não mais o da falta, de outros tempos, mas o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos da rua que, para a sua alegria, não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal nas mãos, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia.
Da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício do que ele mais gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os seus sentidos, na expectativa do advir e uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. E, na leve espessura do galho, estava intocável. E também invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre o xadrez das teclas, catando milho, durante várias décadas, mas agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele, batendo as mãos contra o peito, descontraidamente, gostava de se proclamar para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora, pelo que se ouvia da altercação com a outra moça, ela batesse um bolão. Era um Pelé (ou uma Pelé) de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, com aqueles que se derramavam na roda dos bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. 
Estou certo de que, a distância, parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. E parecia dizer-me ainda "é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou", e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.
Se você meu caro leitor, ainda "quer viver, para ver, vai ter que esperar por outro dia", pois, como disse Cassiano Ricardo, "foi para isto que se inventou o adiamento". Portanto, essa história continua. É só esperar o próximo capítulo.

(José Carlos Sant’Anna)




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Beatriz - Parte um



ESFREGO OS OLHOS PARA ACOSTUMAR-ME à escuridão do quarto fechado pelo blackout e cortinas de algodão; alongo o corpo como se eu fosse um atleta e aguardo um pouco, sem esfriar o sangue, para levantar-me. É o tempo que eu preciso para que os meus olhos se acostumem à escuridão e os meus músculos, nas águas que ignoram o céu aberto, obedeçam ao meu cérebro. Faço isso sem remorso algum ou, então, porque não me resta outra alternativa, pois, naquele momento, eu sou ali um corpo submetido às minhas necessidades fisiológicas. Agora, por favor, – porque sei o quanto o leitor é curioso –, não me pergunte o que faço a essa hora da madrugada na varanda do meu apartamento porque eu não saberia dar-lhe uma resposta convincente. Ou não desejaria fazê-lo. Se isto não lhe basta, meu caro leitor, digo-lhe apenas que tenho os pés no chão. Ah! Me rendo diante da sua insistência! Eis tudo. Não me sufoque! O que posso dizer-lhe é que me levanto voluntariamente, como um corpo que nunca faltou à palavra dada. Parte de mim. Simplesmente um corpo. Não, é melhor que o diga compulsoriamente. Por força da idade mais avançada. Faço isso habitualmente para desobstruir a bexiga, depois, já mais leve, não quis voltar à cela como um condenado, ou talvez levado por alguma premonição, desaguei, tão certo quanto a morte, na varanda, com a mão em concha, no ouvido, como quem escuta. Embora não estivesse resolvido inteiramente o meu sono, ainda havia um naco dele perdido, decido, então, aguardar, embalado por algum sentimento, a manhã, leve, pousar na minha varanda. Primeiro, fixo o olhar nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas alinhadas e adormecidas como se estivessem numa clave de sol, mas não as encontro. Estavam inteiramente desnudos os fios. Logo, imagino-as em outra pauta, mais longínqua, e penso, olhando para o céu, "quanto mundo abissal nos confins do infinito se esconde dos nossos olhares", tendo como testemunha esta lua cúmplice, sôfrega, brilhante, que recolhe tudo que foi de ontem, enquanto outras pequenas luas iluminam a praça que circunda o prédio onde eu moro. Não tenho dúvidas, diante daquela visitação pública, em acreditar que, em cada um de nós, mora um sobrevivente, também não tenho dúvidas de que por mais que a ciência quebre os vidros da janela, ela ainda tem um longo caminho pela frente. E assim conciliado com os céus e o olhar fixo no solo áspero da praça, começo a ouvir vozes distantes subindo a ladeira íngreme que as leva à praça. São duas vozes femininas que se alternam em pequenos intervalos. Uma, mais áspera; e a outra, mais modulada, mais conciliadora. Esfrego os olhos novamente para ter a certeza de sabê-los abertos. Bem abertos, pois, diga-se de passagem, sou capaz de apostar que há um sujeito encarapitado numa árvore da praça. Fixo o olhar e cravo na mosca: “Pô, meu, aquele é o Nelson! O Nelson Rodrigues, 'cuspido e escarrado'". O mesmo que disse que "cego em futebol é o que só vê a bola". Não acredito. O velho Nelson, com ar bonachão, traja uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de jornalista que, sob os ossos da palavra, impunha respeito. Mas lá está ele, sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando primeiro a sua paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um fanático torcedor do "pó de arroz", depois me assaltou uma dúvida: o que mais ele faria ali? Posso brincar com os meus leitores, pedindo que eles escrevam cartas para a redação dizendo-me o que ele acha que Nelson Rodrigues estaria fazendo ali, além de comodamente exibir o seu coração com as cores do seu velho FLU. Ah! Não esqueçam – isto pode ajudar e muito – que ele carregava em suas entranhas a alma do repórter. O excelente repórter que sempre foi. Também não esqueçam da coluna, publicada às segundas-feiras, no jornal O Globo, cujo mote era o personagem que emergia como herói na rodada do final de semana. "Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer.../... Não esqueça..." Aí, já é o admirável Paulinho da Viola, de Sinal Fechado, e tantas canções e sambas inesquecíveis, como são inesquecíveis as crônicas do Nelson. Mas eu volto para contar-lhe o resto dessa história...

(José Carlos Sant Anna)