terça-feira, 29 de agosto de 2017

Exercício para flauta e oboé




Só comigo
acontecem essas coisas:
contar meus segredos
ao relógio de parede.

Pode não ser o fim do mundo,
mas é no mínimo inusitado.

É o que me diz
o terapeuta

no momento em que a tarde
esplende do lado de fora 

e os antigos amigos 
sem subterfúgios transitam 
como um barco
pelas avenidas da minha memória

às vezes, agitados, 
outras,
pousando nos bares como aves lerdas
para fugirem do tédio

Tudo porque não têm 
um relógio de parede 
fatigado 

ruflando suas asas
para a vastidão das coisas finitas

coisas que nos aguardam nas esquinas
como as rosas de maio 
ou as linhas da vida esculpidas

nas palmas das mãos
sem que nos digam o que somos... 

(José Carlos Sant Anna)


13 comentários:

  1. Lindo! Mas desculpe meu amigo, tive de rir, é inusitado, sim! Ri porque na medida que leio vou imaginando a cena, porém, a gente só conta nossos segredos para quem temos confiança e carinho. Também converso com umas coisinhas que gosto, mas ainda não lembrei de contar segredos. Gostei muito desse teu poema e de todos que li aqui, pelas tuas ideias, construções, ritmo e melodia.
    beijo, amigo,uma ótima semana!

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  2. Esqueci... o vídeo conheço, acho lindíssimo esse casal Miguel Zotto e Daiana Guspero numa bela milonga! Os passos, o ritmo é fantástico. Parabéns pela escolha.
    bj

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  3. Falar com o que nos rodeia.Soltar ao vento a intensidade dos pensamentos. Deixar que os amigos se passeiem pela lembrança. Intuir os contrastes do que queremos ser e somos. Com todas as fragilidades. Com todas as coragens. É aqui, neste poema, que o Poeta desenha as memórias no sobressalto com que se escreve...
    Muito bom, meu Amigo. E gostei imenso do vídeo.

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  4. às vezes faz bem
    falarmos com o vento
    e relembrar o tempo
    com amigos e o momento

    às vezes faz bem ter memórias bem vivas
    em nossa mente

    beijinhos

    :)

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  5. Fiquei intrigada com o título, mas acho que são sinais do
    caminho da originalidade, arte e melodia a nos surpreender,
    como o tango escolhido que é fascinante e original em
    percurso de dança-coreografia, o poema surpreendente
    no caminho das palavras, transportando sentires em
    dança-coreografia, de um diálogo existencial, que nos
    toma pelos braços dos ponteiros do relógio da vida e
    esculpi a poesia e nestas linhas das mãos
    inscreve em ti, o poeta.
    Com a poesia, as palavras criam asas a ficarem
    infinitas em voo!...
    Adorei, Jose Carlos.
    Beijo.

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  6. Muito bom o poema. Gostei também do vídeo. Eles dançam muito.
    Desejo que o mês de setembro seja de muitas bênçãos em sua vida.
    Abraços!
    Um ótimo fim de semana!

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  7. Olá, José Carlos!
    Contar os segredos a um relogio de parede é bem melhor do que contar a algumas pessoas porque elas podem contar os nossos segredos a outras. O relógio, desde que bem cuidado é um fiel amigo e nunca vai andar por aí espalhando tudo o que sabe rsrs
    Bom final de semana.
    Beijos

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  8. ¡Hola Carlos!!!

    Creo que no eres tú sólo el que tiene ese reloj de pared... Pues si es muy servicial y mejor amigo para alguna ocasión.

    Si quieres que nadie deba saber algo que tú lleves bien guardado y no quieres que se airee, cuéntaselo a tu corazón, te consolará y no dirá nada a nadie.

    Me han gustado mucho tus versos con ese pizco de buen humor e ironía.
    Estuve ausente un tiempo y ya estoy de vuelta, me da alegría visitar la buena gente.

    Un abrazo y mi gratitud, por tu buen hacer.
    Se muy -muy feliz.

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  9. Por vezes só mesmo com o relógio podemos contar.

    Bom fim-de-semana, amigo!

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  10. Re-ler e agradecer suas visitas e seus comentários que me deixam muito feliz.
    obrigada!
    :)

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  11. Ora viva, caro José Carlos.
    Essa da confissão ao relógio (próprio) não lembra ao diabo. Há vício de forma creio e receio que a terapia não surta o efeito desejado pois o acumular das horas sai viciado. Embora o poeta diga verdades a si próprio no confronto com o seu próprio tempo.
    Abraço.

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  12. Caro José Carlos

    o teu relógio de parede deve ser bem especial, desses a funcionar pilhas, sempre sem quebra de energia

    eu bem tento com meu velho relógio de pêndulo (velho com mais de duzentos anos), mas não liga nada ao que lhe digo...

    e ainda por cima, amua de vez em quando!
    vc dá-se conta da sua sorte?

    o poema é excelente e vc diz sempre coisa séria, mesmo sorrindo.

    forte abraço. meu amigo

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  13. Falar com o relógio... como escape para a solidão...
    De facto... para tanta e tanta gente... só ele nunca falha... estando sempre lá...
    Um belo poema, que ameniza a tristeza da solidão, com um toque de humor...
    Abraço
    Ana

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