quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sobre uma casca



Descabido no orvalho, penso diferente
do que sonho porque o inefável me acena
palavras que me fazem tão leve, por acaso
mais leve do que claro, sem que firam o ser
ou o corpo que contraio. Logo, não me aferro
ao sonho, ao amor da existência que me
fere a pele, que aguça a minha sede, aflige
o meu sono e me abandona às margens
dessa vida em que me diluo sem saber
se o que estava em mim me subjugava
ao nada ou é o excesso que se move como
um rio ou é uma febre que só a si mesma
se compara, movendo-se dentro de mim
distendida como se fosse um par de asas. 

José Carlos Sant Anna



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Água doce no outono


No quarto o coro das máscaras o jogo de xadrez e a chave da tarde no meu bolso Ela apenas de shortinho jeans blusa de malha e os faróis acesos Cena de cinema com uma lua em quarto crescente No acaso das coisas me fiz pássaro E nos seus braços súbitas janelas se abrem sem que eu revele a ligeireza das minhas asas E mãos e boca E a palavra ascende Sei este é o caminho A proa que desliza fugindo do sequestro iminente Quando a procurei minha Isolda cor de romã você me disse Você é a minhoca que faltava no meu anzol é o pão com sabor de arrefecido verão mas não vale o til da minha maçã Com o corpo mordendo disse-lhe que estava germinando a água do meu corpo e que eu borbulharia antes de morrer morrer morrer Você riu porque não sabia que os brutos também sonham geografias e os muros estremecem à sombra de um mito grego. Aqueles faróis são o bosque mais secreto revelado E por que sem nenhuma roupa não A transparência da malha não é uma conjugação de vogais porque me ardo em consoantes Tocar a luz mortal na sombra do muro escuro nas suas entranhas nas suas raízes mais fundas é desvario Ter o seu corpo duplicado através do espelho em que me ardo enquanto ainda sou um cálido tronco de água é devaneio Que me dirás você pergunta Pelo olhar as palavras falam É da sua luz São os seus faróis Parecem flor de centeio Como se não houvessem as palavras iluminadas na maciez do seu corpo soletro seu nome na canção da sua pele de pelúcia macia Estas mãos que ainda buscam o bafo da terra a qualquer momento raptam a sua nudez sonhada antes que eu possa começar tudo de novo Longínqua perscruto a música do mar ávido de ilustrações para esta tarde que azula atrás do morro.

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sem alegorias



A CHUVA NÃO DEU TRÉGUA durante toda a madrugada daquela segunda-feira, medonha, e ainda corria solta, pela manhã, como se fosse uma tempestade tropical, deixando as ruas da cidade inteiramente alagadas, quando Maria pulou da cama, de um jato, olhar fixo no despertador, desnorteada. Ao vê-lo marcando oito horas da manhã, se sabia atrasada e que haveria, como das outras vezes, refrega na casa da patroa. 
A empregada, que acordava todos os dias antes que sol se mostrasse pelos vãos das telhas de sua casa, tinha perdido o horário. Às pressas, vestiu a roupa, ajeitou um lenço nos cabelos para esconder o quanto estavam amarfanhados, correu ao banheiro e saiu sem tomar o desjejum. Pão com manteira e uma caneca com leite. 
Ela não sabe como conseguiu entrar no ônibus, de tão apinhado que estava, havia poucos circulando na manhã de tempestade, para não chegar tão atrasada no trabalho, pois conhecia a patroa. E muito bem.
Entrou na casa dela, completamente encharcada. Roupa de cima e de baixo. E a patroa, alheia ao mundo lá fora, olhando o próprio seu umbigo, perguntou-lhe porque estava chegando tão atrasada.
Sem titubeios, ela disse com um brilho nos olhos:
– É patroa, enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis com o seu marido, eu enfrentava esse dilúvio... 


(José Carlos Sant Anna)