quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sem alegorias



A CHUVA NÃO DEU TRÉGUA durante toda a madrugada daquela segunda-feira, medonha, e ainda corria solta, pela manhã, como se fosse uma tempestade tropical, deixando as ruas da cidade inteiramente alagadas, quando Maria pulou da cama, de um jato, olhar fixo no despertador, desnorteada. Ao vê-lo marcando oito horas da manhã, se sabia atrasada e que haveria, como das outras vezes, refrega na casa da patroa. 
A empregada, que acordava todos os dias antes que sol se mostrasse pelos vãos das telhas de sua casa, tinha perdido o horário. Às pressas, vestiu a roupa, ajeitou um lenço nos cabelos para esconder o quanto estavam amarfanhados, correu ao banheiro e saiu sem tomar o desjejum. Pão com manteira e uma caneca com leite. 
Ela não sabe como conseguiu entrar no ônibus, de tão apinhado que estava, havia poucos circulando na manhã de tempestade, para não chegar tão atrasada no trabalho, pois conhecia a patroa. E muito bem.
Entrou na casa dela, completamente encharcada. Roupa de cima e de baixo. E a patroa, alheia ao mundo lá fora, olhando o próprio seu umbigo, perguntou-lhe porque estava chegando tão atrasada.
Sem titubeios, ela disse com um brilho nos olhos:
– É patroa, enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis com o seu marido, eu enfrentava esse dilúvio... 


(José Carlos Sant Anna)




8 comentários:

  1. Muito boa resposta. A realidade nos subjuga.

    Beijos

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  2. Causa-me uma indignação diante destas realidades: a da
    insensibilidade egocêntrica e a realidade dura do trabalhador
    e sobre realidade, esta da nossa pátria, totalmente
    insuportável... E encanta-me a tua sensibilidade humana
    expressada na tua excelente narrativa, nos detalhes
    que cristalizam imagens, gestos e mundos
    de realidades, meu amigo!
    Grata por esta leitura aqui e acompanhada da música de
    qualidade, que combina com o nível alto de
    qualidade da tua literatura.
    Beijos, amigo.

    Ps: Grata pelos teus comentários, com o teu olhar
    atento e generoso com o meu exercício de
    escrever, esta partilha sempre engrandece
    este exercício do ato libertário e
    criativo da escrita...

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  3. Acho que sempre que aqui venho aprendo algo.
    Gosto da maneira enriquecedora e os detalhes que dá às palavras e consegue prender minha leitura.
    Mas, confesso que saí daqui com um grande sorriso nos lábios, e imaginando a cara da patroa.
    Bom fim de semana.
    beijinhos
    :)

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  4. Vida de pobre é assim mesmo, José Carlos.
    Enquanto uns dormem sossegados, outros lutam feito leões para ter o que comer.
    Bom final de semana.
    Beijos

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  5. É bem isso que acontece, José Carlos, as patroas raramente se dão conta ou nem querem saber o quanto é difícil as empregadas chegarem no emprego, sempre nas piores horas. Não há muita solidariedade nesse tipo de coisa. É triste, sim! Fora as dondocas que esperam o café na cama...Música triste para embalar o conto. Mas linda.
    Beijo, amigo!

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  6. Uma realidade que só é conhecida por quem passa por ela e é tão alheia a outros olhares que desconhecem os contrastes da vida...
    Magnífico texto, meu Amigo.
    Um abraço.

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  7. Texto muito bom José Carlos. Realidade vivida por muitos... Patroa danadinha em????
    Continuação de boa semana!
    Beijos!

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  8. A dureza da vida... nunca custa, nem é compreendida, por quem não passa por ela...
    Um belíssimo trabalho, que nos dá conta, disso mesmo, de uma forma tão intimista... que todos acompanhamos a Maria, no seu percurso, em aflição... desde casa ao trabalho...
    Só hoje consegui passar por aqui, com mais tempo... pois alguns problemas de saúde de uma pessoa de família, têm tomado muito do meu tempo, nos últimos meses... mas tudo se resolvendo já aos pouquinhos, felizmente!... Embora continue com o meu tempo na Net, ainda um pouco condicionado!...
    Um grande abraço!
    Ana

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