Para Ingrid Azevedo
A chuva veio com o amanhecer na minha cidade de verão. Chuva forte, aguaceiro pipocando no telhado da casa, o que me fez permanecer na cama por mais um tempo. Depois, como ela não veio mesmo para ficar, foi-se devagarinho amainando. Só ficou a garoa. Chuva miúda, como se diz por aqui, porque garoa é coisa de paulista. Ontem choveu também. Agora, porém, está um dia morno, o calor voltando com força de levantar defunto. Não sei por que lhe digo estas
coisas, ah, eu já sei, é porque estou com um guarda-chuva para o dia de hoje,
mesmo sabendo que não choverá, é o que li nas folhas, pela internet. É um guarda-chuva de uma moça elegante; ela mo emprestou no bairro dos Bairris, um bairro antigo no centro da cidade, e foi embora antes que eu voltasse para devolver-lhe aquela preciosidade, vinda de Paris, como, sem rodeios, o confessou, rindo. É, todavia, um guarda-chuva pequeno, mal cobria minha cabeça, por isso molhei as pernas, de cima abaixo. Ainda bem que eu estava de bermuda, depois foi só passar papel toalha, para enxugá-las. Não, eu sei, menina, que se chama de sombrinha,
exatamente porque cobre pouco o corpo. Também não sei se lhe disse que fui para o
Bairris na hora do jantar e carregava três sacolas. Em cada sacola eu carregava
três pares de sapato. Quando ela me emprestou o guarda-chuva, pensei que, ao
voltar, eu lhe daria um par de sapatos de presente, seria uma forma de
agradecer-lhe o empréstimo daquele objeto que não estava me sendo muito útil
por ser pequeno para o meu tamanho, que só protegia minha cabeça e os ombros, mas ela desapareceu. Fiquei pensando que ela
poderia ter ido chamar um soldado ou procurar um carro da polícia, para denunciar-me pelo roubo do seu guarda-chuva. Herdei
essa presunção de minha mãe de ficar pensando coisas, mas tinha certeza de que
ela não faria isto comigo, minha conversa com ela foi tão amena, razoável, me
fiz acreditar com a história de ter deixado um pacote no carro e precisava ir pegá-lo, e a chuva não me deixava fazê-lo. Você acha que eu seria capaz de desaparecer com o guarda-chuva
da moça elegante? Sabia, agora estou falando com você da borda da minha cama, mas preocupado, ô molesta, com a moça que pode ter tomado muita chuva por minha causa, embora eu não tivesse
desaparecido. Nunca faria isto. Foi ela que desapareceu, de repente. Levantei da borda da cama e estou caminhando
pelo carpete com os pés descalços e pensando na moça. Seria tão bom se ela me
telefonasse, não sei se ela aceitaria o meu pedido de desculpas, mas seria um
bom pretexto. Como minhas ideias estão desarrumadas porque é a primeira vez que
me acontece uma coisa destas, fui eu abrir a porta do armário achando que ela poderia estar escondida lá dentro, mas, ao abrir a porta do armário, tomei um susto
porque as roupas despencaram em cima de mim, parecia um tsunami em pequenas
proporções. Essa falta de vontade de resolver este problema, fez-me lembrar que
não é primeira vez que carrego um guarda-chuva que não é meu. Acho que sou um cleptomaníaco
de guarda-chuvas. Vou olhar a minha coleção, ah, que bela surpresa, há dezenas deles, na
parte de cima do armário, que batizamos de maleiro, puxa, tudo tem um nome, a moça
também tem um nome, mas não me lembrei de perguntar-lhe, de pedir-lhe o
telefone. Olho um por um. Este é um deles, de Campos do Jordão, sim, do Jordão, é assim que se chama. De lá tem mais de um, são dois ou três, não sei explicar o porquê de tantos. Do Jordão, homenagem a Emerenciano Jordão, o dono das terras antes que se tornasse a estação de águas que é hoje; este, da Casa da Música, na cidade do Porto, este de Munique, já sei está achando que é pura bazófia, não é?. Pois então você que ache... Esquece... Agora é tarde, mas sinto falta da moça por alguma razão obscura.
Espere um pouco, não, espere, não freie o meu sonho, agora, minha divagação. Vou à janela porque ouço um
barulho nas telhas. É a chuva, está fininha ainda, mas ela está voltando com garra. Na primavera é assim, sempre chove. Talvez a chuva traga a moça de volta. Espero que o vizinho de porta, de frente, não veja a moça entrar na minha casa ou pense que estou ficando maluco por estar abrindo a porta para uma moça de galochas, invisível, na minha cidade de verão, entrar.
(José Carlos Sant Anna)
(José Carlos Sant Anna)
Boa tarde José Carlos!
ResponderExcluirQue texto gostoso de ler, uma construção fantástica. Aqui tem dezenas de guardas-chuvas, ou melhor sombrinhas. Acho que sou uma cleptomaníaca de sombrinhas kkkk.
Espero que a chuva por ai volte, e a moça também, rsrs.
Aqui o calor esta de matar, hoje pela manhã deu uma chuva fina, e passageira. E o calor continua...
Boa semana!
Bjs!
rss, muito bom! E você foi feliz no final, fechou o texto de modo a deixar solta a imaginação dos leitores.
ResponderExcluirQuanto às sombrinhas... todas as que emprestei desapareceram! Jamais voltaram, e o pior é que as amigas e parentes, para as quais emprestei, também desapareceram, talvez deram mais valor à sombrinha!! É a sina de quem empresta. Devem ser encantadas, percebo, esses aparadores de chuvas. Mesmo quando não aparam nada!
beijo, amigo!
Mas por falar em chuva... esse vídeo é aquele que nunca cansamos de ver, é sempre maravilhoso, atemporal.
Excluirbjs
Bem que eu queria usar também guarda-chuva, mas não há meio de a chuva voltar por cá. E tanta falta ela faz aqui em Portugal.
ResponderExcluirTexto gostoso de se ler.
Bjs
Delícia de texto. E no final fica ali uma pontinha a me soltar a imaginação.
ResponderExcluirEu não sei não, mas, talvez que a chuva volte e a moça(invisível) também, ou então, a sombrinha fique a fazer companhia às outras já existentes no esconderijo que você tem, ou no sotão da sua imaginação.
Gostei muito!
Beijinhos
:)
Assisti o vídeo e um sorriso nasceu em mim, nestes
ResponderExcluirmomentos pesados do nosso País e uma rotina atarefada,
momento assim, com a magia do cinema é precioso!...
Que texto fantástico, meu amigo!!
As sombrinhas servem como acessório feminino, nós
mulheres somamos a praticidade com a elegância, a nossa
objetividade é bem na amplitude de tantos detalhes, um
ponto importante é a cor e sempre com um toque original
da exclusividade...rss
Muito bem, cleptomaníaco de guarda-chuva?!...rss
Eu opino que esta "maluquez" é tipo o que apelidamos
aqui, "maluco beleza", a quem sabe viver bem
com senso de humor, sem que o peso da vida o faça
ser chato.
Tu és um escritor a desenhar caminhos criativos e
únicos.
Adorei!!
Uma semana feliz para ti, amigo!
Beijos, José Carlos.
Olá, José Carlos!
ResponderExcluirEscrita Desajeitada mudou de endereço e eu vim aqui lhe avisar.
Com que então cleptomaniaco por chapeus? E eu achando que no Brasil esse objeto era meramente decorativo rsrs.
Um pequenino é bom porque cabe na bolsa e não ocupa muito espaço mas na pratica não cobre nada.
Beijos
meu caro amigo,
ResponderExcluiruma chuva miudinha por vezes é uma bênção
sobretudo depois de uma grande seca, como acontece por aqui.
essa sombrinha (vinda, melhor, ida de Paris) não vai ficar sem ser usada. estou certo disso! seria uma frustração e um desperdício
és um verdadeiro mágico da escrita e vais "encontrar" um final feliz.
coisinha bonita é para ser usada, concordarás!
abraço, caro José Carlos
Um texto cheio de humor, meu Amigo. Coleccionador de guarda-chuvas?
ResponderExcluirFicou com a sombrinha com pretexto de voltar a ver a moça, confesse... Ela voltará...
Uma boa semana.
Um beijo.
Boa tarde!! Primeiramente gostaria de agradecer pela visita, já digo que gostei do seu espaço aqui e do texto, que foi muito bom de se ler, que contém humor e a simplicidade do cotidiano.
ResponderExcluirSinta-se a vontade para voltar, vou gostar muito da sua visita, também virei mais vezes!
Tenha uma excelente semana!
Um coleccionador... um guardador de chuvas... e de histórias... sim... porque cada um dos guarda chuvas, teve direito a uma história... real, ou imaginada...
ResponderExcluirNão sei se a moça invisível voltará... mas uma nova história... e um outro guarda chuva, num próximo aguaceiro... surgirão, para este guardador de histórias...
Mais um texto brilhante, José Carlos, que é uma verdadeira delícia, ler do princípio ao fim... e entrarmos no espírito do personagem... como sempre... até ao osso!... :-D
Beijinho! Bom domingo!
Ana