domingo, 19 de novembro de 2017

Lúdico II



Escrevo a palavra "não" e, imediatamente, me lembro que, alisando os bancos escolares, aprendi que não se começa a escrever um texto com a partícula "não". E todos nós sabemos que uma vez aprendida a lição, ela estará sempre solícita, guardada no silêncio dos escaninhos da memória e, quando dela se precisa, abre-se a gaveta e de lá se extrai o que interessa... Daí por que não comecei esta crônica assim... "Não muito longe daqui...". Agora, para situar um pato fora da curva, eu posso fazê-lo! Não muito longe daqui – é uma mentirinha, sem asas para voar, o que acabo de lhes dizer, pois o pato está muito mais longe daqui do que você imagina, mas achei que com este arranjo se tornariam mais críveis as minhas palavras – um pato atravessou uma ponte estreita desceu a margem e se embrenhou, feliz, no lago nas redondezas da minha casa. Ali, absorto, eu via suas penas coloridas brilhando à luz do sol enquanto suas patinhas, submersas, se mexiam fazendo a água girar em círculos à sua volta. Vou para o alpendre da casa e fico na minha rede de nordestino convicto admirando alegria do pato e, ao mesmo tempo, com um olhar movediço, acompanho um bando de andorinhas levantando voo de uma árvore próxima, cruzando a lagoa, para depois de um rasante alegórico sobre a minha cabeça sumir no horizonte. E, pela mesma ponte, logo atrás, atravessava uma moça, atenta, aos passos, por enquanto, enigmáticos, do pato na manhã ensolarada naquele recanto das minhas manhãs ensolaradas. Não escolho as palavras, por isso tropeço, mas esses tropeços serão compreendidos mais adiante. Enigmáticos para a moça, é o que creio! Porque ela pensava assim, eu não sei...  porque, como se via,  o pato andava solto atrás do vento, serelepe, com as patas nas costas, para capturar a liberdade nas águas da lagoa... Era o que parecia quando cantava essa canção sem letra: "Quá... Quá... Quá... Quá!...". Agora se ouvia esse refrão em vários tons na água e o click da moça flagrando as nadadeiras do pato. Sem o saber, o pato deu o que falar depois deste passeio porque ele foi parar nas procelas da fama, depois que o portão se fechou. Mas, desde o primeiro instante, eu compreendi as razões para que o portão se fechasse. E não vou mentir que suspirei ao ver que, pouco tempo depois, o pato estava de volta sem guardar nenhuma distância para mim, dançando alegremente como fizera antes no lago ou para minha imaginação. Parece que o pato quer se libertar dos grilhões do tempo. É um ser em libertação nas águas do lago. Há um sol invisível dentro dele, que só eu vejo. E um cheiro de folhas verdes em volta do lago que me anestesia. De repente aquele lago ficou maior que os outros do mundo que eu conhecia e era ele que levava silenciosamente os devaneios da minha lavoura. Como seria bonito se eu pudesse ver aquele pato de óculos escuros, sob o sol inclemente, nadando sobre aquelas águas antes tranquilas. Passei a mão pela minha fronte nua e me perguntei se aquilo que escorria era um chuvisco, só podia ser, ou meus nervos estavam à flor da pele, e eu não sabia. Não consigo entender porque a história do pato me deixou tão inquieto, na outra margem do lago ao ponto de não saber onde deixei a minha venerável bengala, que me dava amparo, embora eu precise mais de vento e seiva. Para ser mais exato, agora somos dois desamparados: eu, porque perdi a minha bengala, e o pato, porque já não pode voltar ao lago. Como não tinha pensado nisso. Tudo se move. Porque a porta do lago não tem chave é que o pato vai e volta, entra e sai, para a alegria dos olhos sensíveis, que não perde a volta triunfal do pato no lago. Ele voltou. E, no fundo do lago, o pato parece uma criança chafurdando na água do seu banho. Ninguém se dá conta do que se passa, apenas vê o pato que, "na sua vidinha besta", de nadador de águas escuras ou transparentes, nada oculta, no meio da água, indiferente a qualquer nostalgia, enquanto os olhos da fotógrafa, fixos, bem no fundo, seguem o rumo das patas sob as águas, ditando o ritmo, a cadência dos círculos quebrando o silêncio dessa hora. Desconfio que agora esse pato estará sempre diante de mim como uma chama branda que a alma emana ou como uma voz interior que ecoa quando menos a gente espera. 

(José Carlos Sant Anna)

9 comentários:

  1. Amei essa historinha JCarlos e imagina você que tambem tenho muitos desses 'patos no lago',mas que pena nao tenho imaginação ou tenho e não as faço funcionar 'quá quá quá rs
    Chego a conclusão que essa criatividade não é para quem quer e sim para os 'grandes'Gosto de te ler,também assim como se brinca, ludicamente.
    abraço

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  2. A imaginação. Os velhos esquemas a escorregarem na mente como um torvelinho de sentimentos inquietos. Um texto cheio de sentido se percebermos que o seu "olhar movediço" segue as andorinhas e faz do pato a sua voz interior...
    Gostei muito.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  3. JCarlos
    se o primeiro lúdico me surpreendeu, este ainda me surpreendeu mais.
    uma torrente de palavras que saíram das tuas mãos, uma imaginação prodigiosa que não é para todos.
    já ontem me deliciei com o texto, mas hoje vim novamente reler para melhor usufruir toda a sua beleza, imaginação e originalidade.
    obrigada pelo suporte da foto.
    boa semana.
    beijinhos
    :)

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  4. Sorte a tua, caro José Carlos, vc tem lago, tem pato (caprichoso, está visto) e uma moça de "passos enigmáticos" (por enquanto)...

    é certo que vc perdeu a bengala, mas estou certo que vai conseguir melhor arrimo.

    forte abraço, meu amigo

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  5. José Carlos concordo com você. O que aprendemos na escola, que seja importante, ficará para sempre (ou quase) na nossa memória. Também é verdade que o que não conseguimos aprender, por este ou por aquele motivo, ficará lá no fundo da memória como contrapeso pela nossa incompetência. Da escola guardo essas duas coisas. Um exemplo positivo: no antigo ginásio o professor de português disse aos alunos que o melhor escritor brasileiro é o Machado de Assis, após ler um trecho "Quincas Borba". Aquilo sempre me incomodava, não conseguia esquecer de Machado. Um dia me decidi a enfrentar a sua obra, começando por "A mão e a luva" até terminar os seus romances, depois seus contos, suas crônicas e sua poesia. Essa tarefa me custou dois longos anos de Machado de Assis. Mas foi a grande escola, maior do que jamais poderia imaginar.
    Desculpe-me, caro José Carlos, mas a tua excelente crônica foi a responsável pelo extenso comentário.
    Um grande abraço.
    Pedro

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  6. A tua bela narrativa poética sempre nos conduz ao
    contato de um universo que desnuda, rasga e quebra
    o sentido do caminho comum das palavras, levando-as
    ao espaço quase caótico e por isso mesmo, fértil
    na evocativa do espaço interior do leitor, que se apropria e
    delas fica impregnado. Para mim, este é um dos caminhos
    mais valoroso das palavras na sua função
    de arte, Caro José Carlos.
    Ficou tão bem acompanhado com a arte fotográfica
    da Piedade Sol!

    Beijos.

    Ps:A minha disponibilidade continua escassa, uma
    ausência constante nas partilhas dos escritos dos
    amigos, porém, mesmo assim, o gosto e admiração
    do voo da partilha é o mesmo.

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  7. E como aprendemos direitinho as coisas, hein, José Carlos? A gente escreve, gosta de escrever, temos coisas e ideias para desenvolver graças aquelas nossas aulas do bom português que lembras lá em cima, onde a gramática era forte e as aulas de redação eram adoráveis! Éramos exigidos! O ensino era coisa séria.
    Agora nós temos o direito de ficar olhando os patos darem suas voltinhas desde que nosso texto diga coisa com coisa! E diz!
    Adorei essa história do pato...
    Beijo, meu amigo!

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  8. Comecei no III e se há sequência ou consequência na série, ignoro.
    O que eu sei é que há muito pato, digamos assim, como gente (eu me confesso). Ao abrir do portão entra por saber o caminho.
    Vou continuar a ler este II.
    Afinal a comum bengala, para dar charme falta faz a quem? Nem ao narrador nem ao pato. Aliás, a gente se põe a nadar, descompõe. Se decompõe um em dois ou três.
    Excelente, amigo JC.

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  9. Não se começa um texto com "não"? Não se começa uma frase com um verbo? Não se começa a escrever uma resposta pela causa?... Bah! E a liberdade do autor onde fica? Gostava que alguém me ensinasse sobre isso. Patos há tantos!

    Gostei muito da sua história!

    Beijos, amigo!

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