TALVEZ A NOITE NÃO SE APAGUE, mas os olhos das
estrelas hão de se apagar para a intimidade que se anuncia na boca cúmplice de maçã que
ela traz e na luz lancinante que emerge do seu corpo. É assim que começa o
outono, à beira deste amor nascente. E ela chega com um cheiro indescritível do
seu reino sem fronteiras ou de um ameno verão. Inesperadamente. Cálida
flor.
Uno mas extasiado porque sabe que está perto do juízo final nas teias da fantasia da carne e no cume dos seus dentes, Tão Preto, cuja espera se contrai na intensidade dos
afetos e de murmúrios afáveis, e também com o coração inundado e saindo pela boca, imagina
ejaculações líricas no suor que escorre do seu corpo e na sua vontade de
amá-la, juntando suas águas às dela. E antes que o mundo às margens percebesse aquele
perfume, que se espraiava como uma eterna fulguração, entre o dia e a noite, dança e
vida dos seus corpos, Tão Preto sente, sorrateira, a música dos músculos. Ascensão perfeita,
pensa. Mas tudo parecia indizível. Mas se toda história tem um fim, o melhor é
começar do começo antes de fazer a cama parecer pequena para membros, ventre,
ancas e seios da rapariga, despertando a curiosidade do leitor. Embora não
queira baixar as armas, ele procura acalmar-se para recebê-la porque sabe que é
somente no amor que não se faz cavaleiro sem espada. É a musa da sua escrita
que diz que vem. Mas não será um encontro poético como se não houvesse fumaça
do fogo que se alastrava navegando palmo a palmo entre buganvílias. Tão Preto
ouve seus passos no seu quarto. Vira-se na sua direção e diz-lhe "chegou
mais cedo que eu esperava". Fecha os olhos e a vê com os cabelos molhados
como na foto antiga, na imóvel espessura do seu biquíni. O seu hálito invade o
ambiente. Percebe os seus olhos famintos. Que música é esta que se desprende do
seu corpo? Também gosta do jeito que ela fecha as cortinas de cetim. Sem
nenhuma palavra. E da fúria contida de desejo no seu rosto. O seu cheiro
contrasta com o ar morno do dia. Gosta do verso do seu andar no salto do sapato
meneando as ancas, da caligrafia apressada dos seus gestos, do animal que tem
fome e que se revela pouco a pouco. O quarto está inundado com a sua presença.
E do equilíbrio musical da respiração no seu pescoço. Dos suores mais densos.
Gosta da estampa do seu vestido, da sua transparência, dos joelhos à mostra,
dos pulsos avermelhados. O seu olhar queima a sua pele. Ela sabe, por isso não
tem pressa. As molas da cama estalam ruidosamente quando ele se vira. O vento
parece brincar por uma fresta da janela aberta, trazendo uma mistura de frio e
êxtase. Sente o corpo frágil, e um arrepio. Ela se aproxima abrindo os botões
da blusa... Espera um puxão para que os corpos se toquem... A ponto de
explodir, coração acelerado, garganta seca, o calor de um corpo ao outro, a
língua atrevida avança, deixa que a febre o consuma e se bebem mutuamente... no
esplendor da luz dos seus corpos e da entrega, ela diz: "Promessa cumprida, sou tua".
(José Carlos Sant Anna)
(José Carlos Sant Anna)
"Gosta do verso do seu andar no salto do sapato meneando as ancas, da caligrafia apressada dos seus gestos..."
ResponderExcluire perante isto que dizer? que Eva, no Paraíso, não usava saltos?
és um exímio burilador de sensações, pela escrita, caro José Carlos.
forte abraço
Meu amigo, passando para deixar a você os votos de Boas Festas, e uma continuação de teus ótimos contos e poemas estilosos - "a lá José Carlos" - para 2018. Que esse ano seja mais camarada para os brasileiros.
ResponderExcluirTambém agradecer a reciprocidade entre nossos blogs e de teus comentários personalizados rs. Tudo muito legal.
Até mais!
Beijo.
Tive que ouvir primeiro a música. Só depois li este seu magnífico texto. E as palavras deste conto confinam com o esplendor da música. Fico deslumbrada quando escreve textos assim...
ResponderExcluirDesejo-lhe um bom Natal e um ano novo repleto de motivos de esperança e muito amor.
Um beijo.
Com sempre,um texto onde a fantasia brinca num ritmo inebriante.
ResponderExcluirÉ Natal JCarlos e passo para desejar um Natal como gosta do jeito que queira.E deixar um abraço forte.
Feliz Natal !
Assim "TALVEZ A NOITE NÃO SE APAGUE"!
ResponderExcluirVotos de um Santo e Feliz Natal e óptimo Ano Novo!
Bjos
Como tu escreves bem, as palavras na
ResponderExcluirdança de uma narrativa original, a conduzir
numa magia o conto numa sensualidade
desnudada e ao mesmo tempo, tão
vestida de poesia deslumbrante.
Maravilhoso este teu estilo literário,
José Carlos! ...
Deixo meus votos de boas festas para
ti e família e agradeço a nossa partilha
de amizade entre nossos blogs.
Aguardar um 2018 melhorzinho para nós
brasileiros, tá bem difícil neste nosso
País.
Ficamos com a poesia para transcender
o cinza da realidade. 2018 repleto de sonhos
e realizações, meu amigo!
Beijos.
Meu amigo quanto tempo. Mas amigos não esquecemos. Apenas na correria que o mundo nós impõem nós falta tempo para visitar nossos amigos virtuais. Me afastei esse ano muito da blogosfera. Mas foi por uma boa causa. Enfim um texto divino. Vim lhe desejar um maravilhoso Natal e feliz 2o18. Abraços.
ResponderExcluirOlá, José Carlos!
ResponderExcluirQuem promete tem de cumprir!
Te desejo um Feliz Natal cheio de saúde, paz e amor.
Beijos
JCarlos
ResponderExcluirescrita ímpar que se lê e se aprende e relê e é sempre sensações novas e expectantes.
não é para todos, mas apenas para quem tem o dom da escrita e da inspiração.
aproveito e deixo meus votos de um
Abençoado e Feliz Natal junto com os seus familiares
e um 2018 repleto de concretizações de todos os sonhos!
beijinhos
:)