terça-feira, 18 de dezembro de 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Se queimando



O dia amanheceu ensolarado como há muito não se via na velha cidade, caótica, de clima instável, como um dia disse D. Léa, de forma bem natural na porta da loja de charutos finos, importados da Bahia, que ela fazia questão de realçar como uma verdadeira conhecedora dos produtos.
Fumava seu charuto com a marra de quem, na sua idade, merecia aquele filão de prazer. Sem perder a fidalguia, a elegância. E sempre gabando-se de fazê-lo bem. A modéstia não era o seu prato favorito. E, para não fugir à regra, enquanto puxava a fumaça sem pressa, aproveitava para desandar sem trégua os políticos, indistintamente. Aquela senhora não tinha papas na língua, conhecia a cidade e os políticos como poucos conseguiriam fazê-lo, por isso ela falava com rara desenvoltura de ambos, pouco se importando com os interlocutores à sua volta.
Por outro lado, se via pelo brilho do sol àquela hora da manhã que seria um dia propício para alcançar a rua e rolar de bicicleta até as pernas não se aguentarem sobre as duas rodas. E como as duas coisas em qualquer lugar do mundo combinam, ainda que tudo se passe numa calçada estreita, sempre coberta pela sombra de espigões ou mesmo pelo corpo de um morador de rua, como este que se sobrepõe à minha frente e, ainda de quebra, é guardião de duas cadelas, Duquesa e Princesa. Coisas de cidade grande!
São animais que não se afastam do seu protetor um só instante e, ao mesmo tempo, demarcam, orelhas roxas, fitinha rosa enrolada no pescoço, despojadas em um lençol encardido, o território deles na buliçosa avenida da cidade grande. E, assim, na quietude da soberania que exercitam na via movimentada da cidade, os três pulsam na calçada, quente e ainda nua, àquela hora.
— Sou seu agora, diz Mathilde com um riso maroto ao olhar a cabeça do dragão na entrada da casa, pendurado na parede e exibindo certa perplexidade com a sacristia improvisada.
O dragão parecia ter levantado a sobrancelha para entender o que estava se passando na sala de estar da casa, do que se aproveitou Mathilde para dizer-lhe com um ar sedutor:
— Vamos sair, meu dragão!
— Sair pra onde? — Ele perguntou.
Aquele dia radioso era um bom pretexto para Mathilde exercer o seu direito de ir e vir, de fazer ou deixar de fazer o que quisesse no domingo que, vestido de azul claro e sem pedir licença, já se banqueteava na cozinha.
—  Bolas — ela disse para o dragão — estou cansada de ficar nesta casa, de esperar não sei o quê... Você não vai fazer nada por mim? Desça daí porra! Vamos sair!
Mentia. Era só uma retórica despudorada. Pensou em um drinque, mas era muito cedo para bebericar alguma coisa. Depois, o que ela queria mesmo era sair do isolamento em que vivia por livre e espontânea vontade, o marido há muito lhe dera a desejada carta de alforria. Bem que poderia escolher uma rua inteira nas adjacências da sua casa para caminhar na certeza de que não seria importunada por ninguém. Ou, quem sabe?...
Ou, quem sabe, repetiu para os seus botões, apanhar um ônibus e fugir da solidão. Andar pelas ruas da cidade na companhia do motorista e de uns poucos passageiros, solitários como ela, deixando que a mobilidade a levasse para longe dos seus caprichos e anseios.
O ônibus, o motorista, os passageiros poderiam ser a gambiarra que lhe estava faltando no fundo do poço. Isto já seria um grande consolo para o seu martírio, amém!
Mathilde sempre acordava cedo. Portanto, as ruas, abandonadas, desertas àquela hora, com os motoristas, imaginava, mais cuidadosos, eram um convite à aventura, à deambulação terápica, enquanto Joaquim, seu marido, dormia arrotando por baixo e por cima, ainda com a cara cheia da bebedeira do dia anterior. Não se levantaria tão cedo, sabia disso. Ela mandaria às favas a missa como sempre tivera vontade de fazê-lo. Mas tudo isto era apenas uma fuga silenciosa porque sua intuição dizia que o casal, que animara sua vida nas últimas semanas, não perderia o domingo ensolarado. Havia duas semanas que os dois não davam o ar de sua graça no paraíso ao lado.
Nos últimos tempos, Mathilde passara os dias a rastejar-se pelo chão da casa como um tatu a procurar o buraco perdido até que um dia ouviu um zumzumzum no apartamento vizinho e gozou literalmente e, depois, como há muito tempo não o fazia, com a sensação de liberdade, ao se deixar levar pela azáfama do casal entre as quatro paredes vizinhas.
Uma vez por semana o casal enfiava a chave na porta do apartamento contíguo. E sempre que isto acontecia, era o anúncio de que a libido correria à solta no quarto vizinho e quem quisesse veria as marcas pelos corpos, antes que o casal voltasse ao cotidiano de suas vidas.
Quando acontecia no domingo pela manhã, a missa ficava adiada. E fazia quase duas semanas que o casal tinha estado no paraíso. Imaginava que seria a hora do casal voltar. Assim, abandonando a retórica, arrastou-se pela casa sem vontade de sair a esperar pelo rebuliço nas paredes vizinhas. Logo se viu a estender os braços e os olhos para as extravagâncias que começavam a rolar atrás da porta vizinha com a promessa de que levariam o dia inteiro.
Afluentes de um mesmo rio chegavam sob a luz do sol numa contrarrevolução dos costumes. Estava na cara, nas mãos, no corpo inteiro que eles já vinham se esfregando dentro do ônibus, imaginava Mathilde, bisbilhotando pelo buraco que ela abrira na sua parede para não perder nada dentro do quarto vizinho. Fechava-o depois de cada visita do casal com uma cortiça preparada para não deixar vestígios dos dois lados.
Sua pasmaceira tinha acabado. Ela estava posta à prova a cada gemido, sem poder pegar carona no trem doce da alegria, que abria o céu ao meio. Mais tarde veria se encontraria um farol para orientá-la na obscuridade da sua vida, que ficara dispersa feito a brisa, mas ela não queria ser feliz de outro jeito agora. Aquele era o buraco da sua alegria, da sua felicidade, por enquanto.
Depressa, Mathilde passou pela cozinha apagou todas as bocas do fogão e, antes de voltar ao quarto, abriu a torneira da pia sobre a louça amontoada na cuba para evitar as moscas. Ali era um dos palcos do seu infortúnio, mas ainda não perdera o tesão, embora a incomodasse ver o Joaquim deitado em sua cama vendo a vida passar. A missa não passava de um pretexto para afastar-se. O que ela não queria mesmo era ver a vida diluir-se, abrindo as caixas em que guardara o passado a repetir os versos da canção "É doce morrer no mar". 
Chegou ao quarto a tempo de vê-los ainda nas preliminares. Ela já tinha tirado a roupa toda. Sem tirar os olhos dela, ele tirou os sapatos, as meias, a camisa, as calças. Depois se meteu na cama ao lado dela...
— Escuta — ela disse — vai transar de cueca?
— Claro que não! 
Ele puxou a cueca e beijou-a. Ao sentir a boca da mulher na sua, correu a mão pela perna dela acima e depois começou a desenhar com a língua letreiros indolores nas partes íntimas da sua companheira, enquanto Mathilde se queimava, sem querer gritar, do outro lado da parede, enfiando a mão por dentro da calcinha...
O marido acordou ainda bêbado e deu de cara com a mulher nua, olhar perdido em estrelas que brilhavam tão somente em suas pupilas, toda lambuzada de geleia de morango no chão do quarto e, antes que, estranhando a cena, ele perguntasse alguma coisa, ela se levantou de um salto, sorriu e se afastou em direção ao banheiro. 
(José Carlos Sant Anna)

sábado, 10 de novembro de 2018

Desamparados





Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma incidental canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras. 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 27 de outubro de 2018

Minhas ostras





Vira e mexe as ostras desfilam pela calçada da praia do Bogari, calçando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo baú. São meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo não pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha direção e, solícito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas formações rochosas, próximas à costa, tornando-se muitas vezes cúmplices de algumas histórias. E ficamos, então, eu e elas, sob um céu estrelado, à beira de outro instante. No meu íntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. É do útero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que mortiça, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Pedaços de saudades da ponta do mar, da península de ontem, cirandas de histórias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilhaçam o ar, abrem o armário e vão aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da memória. Aproveito a lassidão que nos acolhe e vou também abrindo os olhos, as mãos, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que já não preciso correr contra o relógio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma canção praieira do Caymmi para a noite que avança madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. Não consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer...

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Pela janela aberta


Se um peixe entrar em sua casa sem bater, não estranhe ou fique nervosa, é porque, pé ante pé, ele resvalou o corpo para fora da tarde e porque claramente cansou do lago artificial em que vivia enclausurado. Há sinais e testemunhos do licor evaporado do seu hálito quando ele passou pelo átrio da igreja, e o andar era um bálsamo para aquele espírito inquieto. Antes, ao passar pela porta, exclamou "que lugar maravilhoso", e sorveu um pouco de paz com os belos vitrais que se realçavam em ambas as laterais da igreja. Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquietações metafísicas que sacudiam a sua cabeça na deambulação vespertina. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Apollinaire





Vasta voragem.
E a questão estava posta. 
Sem voo alpino. Sem querelas. 
Sem repuxo. Sem batismo.
E o animal passou a se chamar Apollinaire.
Simplesmente.
Todos pareciam satisfeitos. 
Até que alguém sugeriu Outono.
De amor e sonhos se faz um nome, disse,
atravessado por uma luz diamantina.
E tudo ia acontecendo rapidamente 
com arranjos selvagens
no quintal do remanso da casa velha.
Se disse sim às orações, terços,
água benta e mãos aos céus,
pois logo se descobriu que o animal
revelava uma generosidade admirável.
Era possível dele se dizer
que tinha a boca de acertar a vida
toda pela frente, a cada minuto.
Boca de um animal raro. De pedra e sopro. 
Sem esquizofrenia.
Apanhei-o na primeira esquina, 
antes da casa velha.
E no fundo das coisas, nos caligramas da vida
o animal se deita como uma concha abissal. 
Tem nas falanges dos dedos cores berrantes
e permanece longe o quanto lhe parece seguro.
E quando alguém o cumprimenta,
responde com toda a energia do corpo
porque sempre acreditou em tudo.
Este animal se parece com o meu irmão.
Ele é também um animal raro
na escassez de se imaginar. 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Sob a chuva









       Talvez chovesse aquela noite. Ele percebe a mudança do tempo quando o céu de brigadeiro começa a acinzentar-se no topo da montanha e nuvens escuras em si mesmas, rápidas, se fecham e declinam no horizonte. Uma folha levada pelo vento anuncia a iminência da chuva. Já eram, portanto, claros os sinais vindos do alto. E não havia mais nada a fazer. Era esperar que o céu plúmbeo se dissolvesse. Abrindo os olhos, logo pensou na intimidade da chuva. E na figura do desejo e na nudez perseguida, que, ao perceber tais sinais, inundava a moça, que gostava do cheiro de terra molhada. Era algo que, outra vez, começaria daqui a pouco... A paixão pela chuva que a moça de cabelos curtos curtia e que ele, vivo, nunca desdenhou, por isso anda com ela à tiracolo. Como eu dizia, abrindo o corpo aos pedaços, ela parecia ouvir um canto amado quando as nuvens se formavam no céu e, logo depois, a chuva desabava, pois a moça, indômita, largava tudo, enfeitiçada pela água fresca jorrando abundante sobre seu corpo. Era uma festa. O seu olhar brilhava, como nunca antes brilhou, com a água lavando seu corpo. Era sempre assim. Mal o céu escurecia, no cio, o bicho pegava. Era pura química. Ela não esperava, corria para pôr um vestido transparente. Era o seu fetiche. O melhor dela era o corpo quase desnudo, como se tivesse firmado um pacto com as nuvens quando se liquefaziam e desciam céu abaixo. Retraía-se. Esperava. Era só o começo. Não importava a hora, respira, respira, respira fundo, cabeça no sonho, estava pronta para mais um deleite imprevisto da carne. A moça que, nas noites vazias de sono, sempre o acompanhava nas incursões noturnas pela cidade, com modos discretos e pulsação serena, não parecia a mesma que acolhia a chuva no seu corpo com orgasmos seguidos. Lia-se no seu corpo esses gozos. E ele sempre clamava aos céus que, por favor, não chovesse quando eles estivessem juntos em programas noturnos, porque ele nunca sabia do que ela seria capaz, se desabasse um aguaceiro homérico como já acontecido tantas vezes, com a cena repetida, como se fosse uma farsa. E enquanto ela, eufórica, rodopiava no meio da rua, ele, no incessante retorno, que era a sua vida, pensava, enquanto a chuva caía, como ele deixara de ser escriturário na empresa exportadora de sisal e na alergia, que deixara Seo Paulino, o melhor chefe que conhecera até então — quase o velho o adotara, quando ele teve infantilmente o dinheiro da empresa roubado na saída do banco em movimentada rua do centro da cidade, e ela, música lenta, indecifrável, rodopiando sob o signo da chuva , preocupado, ao vê-lo espirrar sem parar uma manhã inteira. Ininterruptamente. Não sabe como ainda respira, depois que o seu nariz se transformou num lança-espirros na manhã do distante sábado, sombra doída da memória. Também nunca mais voltou ao depósito da empresa onde ficam armazenados os fardos de sisal para acompanhar o embarque para o porto, na Cidade Baixa. Foi experiência única. E não demorou para se transferir para outro escritório, pois, àquela altura, já tinha adquirido “o medo de Suzana”, sabendo que ela nunca deixaria de rodopiar enquanto desabasse um aguaceiro. E como pensar era a nova doença que ardia nos seus calcanhares, cedo ele descobriu que já não queria aquele recreio, porque não queria ser tragado pela manhã insubsistente em que tinha o estômago vazio e a febre não baixava. A pneumonia já o pegara de jeito e não queria dar um vexame no meio da rua, por isso sugeriu apanhar um táxi. Depois disse, não, vamos a pé mesmo ou você não quer mais caminhar por essa calçada estreita? Primeiro, sem saber de qual lado soprava o vento, ela fez um sinal que não com o biquinho, indicando que não queria ressuscitar as perdas e os ganhos desse caminho, que flutua no ar. Depois permaneceram parados por alguns instantes, olhando um para o outro, enquanto os carros deslizavam céleres pelo corredor exclusivo de ônibus. Não se tratava de fuga como parecia à primeira vista, imaginou então que a transgressão era necessária para que os motoristas, abolidos os relógios e as biografias, não morressem com a energia à flor da pele depois do engarrafamento que abalou o suor da harmonia do casal na iminência dura de seguir a calçada estreita ou apanhar um táxi. Mas não era a hora de pensar em família quando sentiu o primeiro arrepio do capricho da moça, família era bom sem hora marcada... Também já não queria sentar no colo da mãe, tampouco o incomodava ter carregado nos ombros "o medo de Suzana" porque este medo o faria pensar um pouco mais. E ainda tinha muito que fazê-lo entre os ruídos do vento e da chuva...

(José Carlos Sant Anna)



sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Por um instante





                                          Para Taís Luso,


a gralha, 
empapada e quente,
entre espasmos de luz,
escorre por entre os dedos
sem se saber 
o fim do seu caminho

a gralha,
por onde quer que ande,
junco que se eriça
chaga que se abre no texto
olho no olho
a deixar o escritor cioso
aturdido. 

(José Carlos Sant Anna)




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O novo número da revista Seara Nova já está circulando


A edição Nº 1743, Verão 2018, traz um artigo meu sobre o Gabinete Português de Leitura de Salvador - BA - Brasil. 


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Quase triste




Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: "O que é que houve, Madalena?" "O que é  meu não se divide". É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Lavourando no jantar




O jantar reunia a pequena família. O cheiro do pescado vindo da cozinha já se espalhava pela sala de jantar deixando o avô ansioso que, sem se dar conta, tilintava ruidosamente os talheres no prato quando, de repente, todos levantaram a cabeça se voltando para o neto de quatro anos que, cheio de graça, tirou este coelho da cartola:
 – Mãe, quando vai ser o concerto da Neojibá com Vovô do Prato? 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 27 de julho de 2018

As reticências...



A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas.
A empregada entrou na casa tiritando de frio, e a patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe porque estava atrasada. 
Sem titubear, ela respondeu:
– Porque enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis, eu enfrentava esse dilúvio... 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 17 de julho de 2018

O último verão




No rio do abraço,
sem querer, nem pensar,
espetei noites tristes
depois de singrar a maré umbilical
de antigos itinerários.

De fecundar serenos ao ouvir
a música da alquimia das mãos,
lavrando
o chão árido na rigidez da espera.

E bem longe da pradaria
ou de outros tempos das páginas em branco
o rumo do poema sempre foi outro.

Como o aroma do café da manhã.
E do pão. 
Repetido diariamente.
E tantas outras pequenas coisas...

Agora cada um segue o seu rumo.

E mastigo
do resto do que não se desfez
a sonoridade de algumas palavras,
e as peles submersas,
e as antigas melodias,
e as lembranças dos concílios amorosos
de nossas mãos.

E até mesmo a extrema-unção
do gozo roubado da felicidade.

E ainda a roupa leve e branca
do último suspiro dos corpos fustigados
entre as paredes descascadas
se cala em nosso leito

Nada mais sobrou das onomatopeias
das águas represadas do último verão. 

(José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Beatriz - Parte quatro



"Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe e perto, aqui, na praça, de nome poético, caminho das árvores, onde provisoriamente eu construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito".
Digo-lhe eu: se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência, não mais o da falta de outros tempos, e sim o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos de rua que não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal na mão, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia e cravá-la em letra de forma.
E da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício que mais ele gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os sentidos, para uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. Na leve espessura do galho, intocável. E invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre as teclas, catando milho, durante várias décadas, e agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de se autodenominar descontraidamente para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora pelo que se ouvia da altercação com a outra moça ela batia um bolão. Era uma Pelé de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, aqueles que os cortejava na roda de bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. Parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. Parecia dizer-me é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.

(José Carlos SantAnna)




terça-feira, 26 de junho de 2018

Chet Baker




Bárbara nunca soube delimitar a fronteira para saber o grau de instabilidade emocional de Tão Preto, mas o importante é que ela o aceitava com os surtos e as febres, olhando-o sempre de modo indiferente nas pequenas ou grandes loucuras que ele fazia, quando a crise se instalava. Os medicamentos atenuavam as oscilações de humor, mas nem sempre o uso era contínuo como recomendado. E assim, com altos e baixos, ele ia levando a vida de caniço e samburá, como dizia a música, sem querer saber se a maré estava cheia.
Ela sempre se surpreendia pensando nessas coisas enquanto tomava uma xícara de café na ampla cozinha de sua casa, achando que não era assim tão preocupante o que ele aprontava, depois relaxava porque ela também tinha suas idiossincrasias, e não eram poucas. E, então, deixava que a natureza a seu bel-prazer cumprisse o delicado papel que lhe cabia na seara de cada dia.
Tão Preto desceu do ônibus na tarde quente do verão soteropolitano, lembrando-se de que ainda não visitou as notas musicais esta semana e não sabe se ainda vai fazê-lo porque chovia canivetes na sua horta.
Mas o que Tão gostaria mesmo era que chovesse sonhos de valsa, afogando-o, assim ele se lembraria do quanto eles fazem falta — os chocolates musicais —, nos seus bolsos, mesmo sabendo que esses impolutos doces derretem rapidamente com o calor do seu corpo, mas sabe também o quanto aquecem uma vez digeridos.
Bem que poderia ser um chocolate mais refinado, mas sonhava sempre porque ele era um otimista, e como gostava de ser um otimista, por isso se viu logo dizendo para si mesmo que o sonho de valsa bastava. Não importa o tipo de chocolate que estivesse mastigando, mas não poderia esquecer de forma nenhuma que essa iguaria remonta às civilizações pré-colombianas, e todos trazem o gosto das amêndoas fermentadas e das torradas de cacau, de sabor inigualável, variedades de formas, alto valor nutritivo e energético, sem falar das propriedades antioxidantes que guardam em cada barrinha. Pra que querer mais do que isto!?
Tão Preto sabe que é cedo para mudar de ideia porque da última vez que procurou seu psiquiatra — embora ele soubesse, fazia muito tempo, que ele não passava de um vigarista —, dessa vez Josias, o psiquiatra, lhe pareceu muito sensato na conversa. Didático na prescrição que fizera, recomendou que Tão visitasse as notas musicais regularmente.
— Faça-o uma vez por semana! Depois vá aumentando a dose.
— Hum! Uma vez por semana, doutor?
— O melhor seria fazê-lo pelo menos três vezes por semana, como se fosse uma terapia e, como tal, o ideal seria repeti-la duas ou três vezes por semana — ressalvou Josias.
— Doutor, o senhor acha mesmo que isso vai me ajudar? E se vai ajudar até quando isso acontece?
— Sim, sim, vai melhorar, Tão! Você vai ver! Faça como se fossem exercícios físicos, seguindo a minha prescrição.
Tão Preto ficou o observando, enquanto fazia piruetas com o lápis sobre a mesa como se fosse uma lança, que o atingiria mortalmente, se usada como tal.
Percebendo o jogo de Tão Preto, Josias afastou a cadeira da mesa para distanciar-se dele e bateu a mão sobre o tampo da mesa, olhando-o fixamente e disse:
— Mens sano in corpore sano — duas ou três vezes por semana.
Tão Preto mantém a receita, sem rasuras, guardada em uma pasta de elástico, na cor verde — faz questão de dizer-me — porque se for imprescindível aviá-la outras vezes, o balconista da drogaria, por certo, não criará nenhum obstáculo, vendo-a conservada.
— Protegida desta maneira, a receita não ficará com cara de papel amarelado, nem amarrotado — sentencia para mim.
Pronto. Aviada, o que ele faz agora é seguir a recomendação médica, sem falhas, ainda que Tão soubesse que vigarice é o que não faltava ao seu psiquiatra.
Ocorre, porém, que esta semana a porca torceu o rabo lá na casa de Tão Preto. É por isso que ainda não visitou as notas musicais esta semana. De surpresa, aterrissou assim do nada Chet Baker na sua porta.
Entrou sem tocar a campainha. Com intimidade, mas sem o trompete. Trazia um pack com doze latas de cerveja.  Olhou-o com a tranquilidade de um músico e disse-lhe:
— É só pra começar.
E ainda basbaque perguntou Tão Preto a Chet Baker:
— O que o traz você aqui, Chet, à minha choupana assim de surpresa? Chegou quando?
Fingindo não ouvir a pergunta que Tão fazia, Chet Baker como se estivesse na mesa de sinuca disparou:
— Esse negócio de visitar as notas musicais a qualquer hora é uma roubada, cara! Saia dessa! Vim salvar sua pele, não quero vê-lo escalpelado como um homem branco por um índio pele-vermelha!
Falava como se tivesse ouvido a conversa entre o psiquiatra e o paciente no consultório.
A qualquer hora, dizia Chet Baker, com sangue nos olhos, o que se deve visitar é uma bela mulher como aquela loira que está passando ali agora, do outro lado da rua, puxando-o, sem largar o copo, para a janela.
Ela, com um minivestido azul, purpúreo, faixas amarelas e pretas na cabeça, gingando como se tivesse um bambolê na cintura, "arregaçava" pela calçada oposta à da sua casa. 
Arregaçar é uma expressão típica que Tuca usava e abusava, nas reuniões que fazia na beira da piscina de sua mansão, com uma música imprestável, que incomodava ouvidos sensíveis, e muitas periguetes, em duplo sentido.
Mas não quero perder o foco, deixem-me falar tão somente de Chet Baker que adora um improviso. Foi assim que ele chegou, como ele gosta de fazê-lo no seu trompete. Depois falo do Tuca, gente boa quando fica calado.
Quando a mulher de Tão Preto deu de cara com Chet Baker na sala, perna cruzada, com jeito de que não sairia tão cedo dali, ele já tinha emborcado três cervejas e mostrava muita animação.
Ela fechou a cara porque sabia que aquele lero-lero não tinha hora para acabar e os dois acabariam esticando o dia e logo o trocariam pela noite. Ela entrou no quarto e não saiu mais. E quando ele disse que ia ali — fazendo o sinal com o beiço, para mostrar que iria perto — com Chet Baker, ela reapareceu na sala com a mala pronta para despachá-lo para onde ele quisesse ir, mas se era para sair que o fosse em definitivo.
E para não ter dúvidas disse-lhe com o jeitão de bárbara porque sempre fora Bárbara, a deusa dos raios, ventos e tempestades, a Iansã — também a protetora contra raios, tempestades e trovões:
— Não precisa voltar   disse-lhe sem meias palavras.
E empurrou a mala de rodinhas em sua direção, dando-lhe em seguida as costas.
Nunca saberemos se Bárbara sentiu falta de Tão, mas ele voltou uma semana depois todo estropiado, com cara de santo. E muito cabreiro. Ela o recebeu sem uma palavra. Trazia nas mãos uma faca e um cesto com centenas de quiabos. Devota de Santa Bárbara, cumpria obrigação todos os anos. E era véspera do dia dela. Seria também o da redenção de Tão Preto, depois que ela lhe entregou aquela encomenda: a faca e o cesto. Mãos à obra, era o que tinha a fazer. O caruru tinha que estar pronto para ser servido antes das quatro da tarde do dia seguinte, consagrado a Santa Bárbara. 

(José Carlos Sant Anna)






segunda-feira, 11 de junho de 2018

Um bom bocado




morri um bom bocado hoje à tarde
comido pelos teus olhos
antes mesmo de voar para as câmeras
agarrado
ao teu livro como se fosse um literato
um bom bocado
a tua boca também me comeu
e morri mais um bom bocado
hoje à tarde
ainda bem que não foi completamente
que a morte pediu passagem
vagarosamente em minha direção
mas vivo ainda o enxame de palavras
como se me abrisses a boca
tão perto da tua, mas não o suficiente
para tocarmos nossos lábios,
antes que o sorvete derretesse.
Você entende o que eu digo? 

(José Carlos Sant Anna)