quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Névoa e alegria



A filha entrou com uma sacola na mão e o filho pequeno puxado pela outra. Como sempre, ela estava atrasada para outras obrigações de sua vida adulta e urgia sentar-se para o café da manhã tomado sempre às pressas na casa dos pais. E precisava correr e não atrasar-se ainda mais para o trabalho que a chamava. 
Tranquilo, agasalhado dos pés à cabeça, o avô, sentado na cadeira de balanço, bebeu, sem muita pressa, aquele rumor matutino, enquanto a filha, impaciente, se desvencilhava da sacola no quarto que fora o dela, ainda solteira, porque o menino ficara bem no meio da sala como uma visita de luz, a mesma que vem todos os dias, sem pedir nada em troca, pura presença, inocência branca. 
Na sala, o peralta se apoia na cadeira para levantar-se, se equilibra e ensaia um passo em direção ao avô. Parece dizer que o melhor dele naquele momento está nos pés de pato, no passo apressado para chegar  ao seu destino, sem medo de cair.
Um vento cheio de fantasia sopra os cabelos brancos do avô no sonho das pedras, no ardor dos enigmas da vida. Coisa de homem maduro, vivido, que volve seu olhar lentamente para o menino e o tempo, procurando em suas águas o grão de que foi feito. O grão de que ambos são feitos. Procurando-se no vazio dos sonhos perdidos e no peso dos anos para encontrar-se fluvial na barriga da mãe, reverenciando-a com os pés, enquanto o neto já deu três passos em sua direção.
De lá de dentro do quarto, da beira da cama, ouve-se o zum-zum-zum de águas mornas que rolam entre a filha e a avó.
São efêmeros os zum-zum-zum porque a Santos Titara, berço do seu pai e rua bem longínqua, cresce na sua memória, quando arrasta a barriga pelo chão de barro porque não consegue andar, embora já tenha idade para fazê-lo. Muito mais tarde é que saberia que as lombrigas tinham tomado conta da sua barriga, por isso, sem forças, sem energia, não andava. A pobreza tinha nome e sobrenome e ele ainda não sabia. O barro o alimentara muitas vezes por vício e fome, ouvindo a voz de dona Laura, nunca esquecida, ralhando com ele.
E o netinho, feliz no abandono provisório, graça e suavidade, nas pernas, salientes mas equilibradas, se aproxima lentamente, braços abertos, flutuando na ponta dos pés, tirando o avô da clausura, espiral branca de sua vida inviolável sob os espectros dos enormes caranguejos, garras abertas e afiadas, ainda enlameados dos manguezais adjacentes que o faziam derramar-se em copioso choro onde o medo não se inscrevia com palavras, mas com lágrimas.
Ainda hoje o "vai pegar", "vai pegar", que não conhecia a preguiça como uma infestação de lombrigas, deixando a barriga grande e os cambitos de fora, ecoa pelos túneis dos seus tímpanos, como se ainda tivesse o frescor dos primeiros anos de vida.
E cintilando o sorriso, o neto avulta nos seus braços, suavemente, ar no ar, tirando-o do devaneio imóvel em que se perdia. 

José Carlos Sant anna


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Tardes com Anões (evocação)



Você já pensou passar uma Tarde com Anões? É rara esta oportunidade. Aconteceu comigo. E pode acontecer com você também, basta que você o queira. Os anões estão juntos, porém espalhados pelas livrarias da cidade. São anões de livrarias, urbanos, de algum modo periféricos, sem que isso os ofenda. 
Eu os conheci por meio de Mayrant Gallo. Um deles, por coincidência. Após a apresentação, eles saltaram para minha mochila e fizeram ruidosa festa pelo caminho. O que me interessou, confesso, a partir da apresentação, era o universo que se descortinava à minha frente, sem que eu pudesse controlar o meu entusiasmo. E o deles. Tudo pelo gozo antecipado, ao se manifestarem, quando Dênisson Padilha fez, em voz alta, a leitura de Interpretação dos Sonhos, de Eliezer César, ao compulsar o livro à frente de todos. Deixou Freud inquieto, por ter de repensar àquela altura suas teorias. E a mim também, pelo desejo lacaniano de cortejar a cada um deles na sua inteireza e pequenez.
Para quem ainda está tateando nesta linguagem cifrada, aviso que estou falando do livro TARDES Com anões – 7 minicontistas, editora Vento Leste, organizado por Gal Meirelles.
São anões, é verdade, mas tão somente na extensão de cada texto, pois o que há de densidade em cada uma delas é suficiente para torná-los gigantes. Digo-lhes com a consciência tranquila porque passei o resto da tarde com os anões sem perdê-los de vista. Mas sem pressa, pois a sugestão implícita não é a de que deveríamos passar Tardes com anões, fazendo festa com eles?
Assim, segui a cronologia dos textos. Quase me afogo nas cortantes ironias em Para dizer que te amo (I) e (II), de Carlos Barbosa. E levei em conta a observação da ex-aluna ao dizer-me que em A Análise "a ironia e o tratamento tragicômico são de absurdo sucesso". Endosso tais observações.  E sem acordar Freud, voltei à Interpretação dos Sonhos, afinal tinha ouvido uma leitura dramática. E fiquei pensando na coleção de vinil que enche o quarto de hóspede lá do meu apartamento ao ler Discos Voadores, ambos de Eliezer César.
Recentemente me deliciei com a prosa poética de Igor Rossoni, em Exercício para Clarineta. Agora, ao ler a breve narrativa Asseio, fiquei a pensar na empregada que se dependurou também no peitoril do 8º andar, quase no mesmo instante em que eu fazia a leitura -  haja angústia - para limpar os vidros da janela do apartamento e o tempo que levei esperando para dizer-lhe que não precisava mais limpá-los, pelo menos do modo como o fazia. Ficava com uma tarefa a menos, mas não escondeu o olhar contrafeito. Apaguei o olhar e joguei fora a cara feia, não tinha serventia aquele rancor.  
Dramas mais doces. E bendito seja o toque feminino, Lidiane. Ainda que a toada mantenha a mesma tonalidade, a voz é mais doce. Quase naufrago junto com o noivo em Naufrágio; e em Menina e o Pássaro, há um acento poético no drama ali exposto, que apanha o leitor segurando a garganta. Mas Lidi sabe manejar os cordéis. E nada se altera no ritmo das outras narrativas.
Singulares os textos de Mayrant Gallo. Aquela Primavera é um primor de narrativa que me reconduziu à adolescência perdida quando o li pela primeira vez no Verbo 21. E a Borboleta, que pousou na cabeça do marinheiro, me fez lembrar a outra achada no cinema no anedotário popular. Será que alguém se lembra dela?
 Também Rafael Rodrigues, em De uma vez, me trouxe a doce recordação da barba cultivada por quase três dezenas de anos. No dia em que a tirei, minha filha olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “você não é mais o meu pai”. Também Os versos que dei sorrindo são evocativos de outras memórias.
Fiquei inquieto com A fome de um homem e O início, de Thiago Lins. E, por enquanto, “Não volto a escutar mais ninguém” como ele escreve em Vilela. Mastigo cada uma das narrativas de TARDES com anões, como recomendava o filólogo Antonio Houaiss, ruminando-as.
Só um pequeno detalhe no arremate que não me satisfez. É que “Nunca esteve ausente ao prelo” a Branca de Neve, como ali consignado nas páginas finais, pois não só esteve presente como brindou os leitores com uma apresentação impecável, com todas as letras, não é mesmo Gal?

          (José Carlos Sant Anna)

Publicado no Jornal A Tarde, Caderno 2, p. 5, de 5/11/2011.