quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

UTOPIAS II




Se eu soubesse quase a desistir
o que o olho da agulha vê,
furtivo,
entre o tecido e a linha,
ao se dar à luz a forma do vento 

Se eu soubesse quase a enxergar
o momento em que a íris 
respira pelos beirais do manto 

e depois, também, ao longo do dia  
como se a primeira vez fosse, 
até em braile eu lhes contaria... 

Ah, se eu soubesse.... Se eu soubesse...

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

UTOPIAS I



I

É inútil fingir      se acaso
as amêndoas nas minhas mãos fossem
sílabas catadas no chão do teu corpo
não estaria eu agora
limpando 
meus óculos com a bainha da camisa.

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval

Candido Portinari - Década de 40 - Arlequins


Onde ele se vê da solidão
as lâminas de barbear esquecidas
não fazem nenhuma falta

e tudo o que não é 
nos pés aliviados, no insondável poço,
e no ar que se esvai

a praguejar contra as tintas momescas
empapadas de suor acrilírico

e a encenar uma farsa voluptuosa
não o deixando esperar com mãos imbecis
um furtivo ataque de nervos

ou um ruído de água no regador
para sair desse flagelo labiríntico

porque se nega ouvir o inominável grito:
"já é Carnaval cidade, acorda pra ver!"

(José Carlos Sant Anna)