sexta-feira, 16 de março de 2018

Pour Marielle Franco




Onde agora
o ar salitroso das manhãs no morro
e as veredas abertas para o sonho?

Onde agora
os olhos arregalados para o mundo
e o rosto ambíguo do desespero?

Onde agora
a invenção de novos caminhos
e os desconhecidos horizontes?

Onde agora
o marcador de livros e a espátula,
e o porta-lápis e um recorte de jornal?

Onde agora
a escovinha de unhas e o porta-perfumes,
e as sombras e o estojo de maquiagem?

Onde agora
a magia do desconhecido,  e os redemoinhos, 
e os rastros da lua que se desfizeram 
na curva da estrada?...

Só, tão só,  um ramo de saudades... 

E um vento frio 
que sopra os últimos fios
de esperança do povo brasileiro. 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Utopias IV




Subterrânea,
na poeira da infância
a onda renasce

nas águas do meu corpo
com cheiro de bombom de menta
sem que eu saiba o que fazer...

E, no entanto, impetuosas e lisas,
as palavras se levantam.

E uma voz 
que me fala de pequenos desvelos,
e um vento que desnuda cada coisa
como se fosse a última
descem pela raiz do meu sangue.

E nada mais me surpreende
no ar limpo da manhã
que alveja
este dia em que uma borboleta,
mais além, esvoaça

em espirais azuis a dizer palavras
que me enternecem ao ouvi-las.

(José Carlos Sant Anna)





sexta-feira, 2 de março de 2018

UTOPIAS III


                                    Para Piedade Araújo Sol

Pergaminhos de silêncio
de uma pedra tocada
por minhas mãos
resgatam o exílio das palavras
sem resquício de dor.

E, ao tatear as paredes 
da antiga reclusão,

não se pode saber
quanto este testemunho 
no mais fundo da medula da terra
estilhaça sob os meus dedos.

Pedaços de tijolos palmilhados, 
em liça se rasgam
na falta de um destinatário,

e o olho drena palavras 
renegadas 
de onde escapa a minha voz.

(José Carlos Sant Anna)