sexta-feira, 27 de julho de 2018

As reticências...



A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas.
A empregada entrou na casa tiritando de frio, e a patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe porque estava atrasada. 
Sem titubear, ela respondeu:
– Porque enquanto a senhora se remexia embaixo dos lençóis, eu enfrentava esse dilúvio... 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 17 de julho de 2018

O último verão




No rio do abraço,
sem querer, nem pensar,
espetei noites tristes
depois de singrar a maré umbilical
de antigos itinerários.

De fecundar serenos ao ouvir
a música da alquimia das mãos,
lavrando
o chão árido na rigidez da espera.

E bem longe da pradaria
ou de outros tempos das páginas em branco
o rumo do poema sempre foi outro.

Como o aroma do café da manhã.
E do pão. 
Repetido diariamente.
E tantas outras pequenas coisas...

Agora cada um segue o seu rumo.

E mastigo
do resto do que não se desfez
a sonoridade de algumas palavras,
e as peles submersas,
e as antigas melodias,
e as lembranças dos concílios amorosos
de nossas mãos.

E até mesmo a extrema-unção
do gozo roubado da felicidade.

E ainda a roupa leve e branca
do último suspiro dos corpos fustigados
entre as paredes descascadas
se cala em nosso leito

Nada mais sobrou das onomatopeias
das águas represadas do último verão. 

(José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 5 de julho de 2018

Beatriz - Parte quatro



"Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe e perto, aqui, na praça, de nome poético, caminho das árvores, onde provisoriamente eu construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito".
Digo-lhe eu: se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência, não mais o da falta de outros tempos, e sim o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos de rua que não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal na mão, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia e cravá-la em letra de forma.
E da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício que mais ele gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os sentidos, para uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. Na leve espessura do galho, intocável. E invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre as teclas, catando milho, durante várias décadas, e agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de se autodenominar descontraidamente para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora pelo que se ouvia da altercação com a outra moça ela batia um bolão. Era uma Pelé de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, aqueles que os cortejava na roda de bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. Parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. Parecia dizer-me é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.

(José Carlos SantAnna)