quinta-feira, 5 de julho de 2018

Beatriz - Parte quatro



"Voltei.
Sei que nada se perde, mas ainda há muito para se saber diante deste longe e perto, aqui, na praça, de nome poético, caminho das árvores, onde provisoriamente eu construí minha casa, como um joão-de-barro, de mãos dadas com a concavidade da sombra de uma árvore antes do amanhecer do dia para começar a faina do eito".
Digo-lhe eu: se em outros tempos Nelson Rodrigues já fora um despojado da vida, agora, então, ele se mostra muito mais radical porque o seu tempo é o da ausência, não mais o da falta de outros tempos, e sim o do excesso e, como uma brisa, agora com muito mais disponibilidade para saborear os ossos do seu ofício de repórter, o que ele sempre foi e como gostava de sê-lo, assistindo, sem queixa, os espetáculos de rua que não cansam de se repetir. Estava com uma pétala de punhal na mão, ansioso para sair da pasmaceira em que vivia e cravá-la em letra de forma.
E da minha varanda, eu não tinha dúvidas de que a posição dele no tronco da arvore, além de poder vislumbrar o vasto céu, de controlar a entrada e saída das aves nas árvores e o rumor suave da respiração de cada uma delas, a sua posição, ainda que de cócoras, era mais que perfeita, democrática. Se poderia dizer privilegiada para o exercício que mais ele gostava de fazer: o da observação. Logo entrariam em cena todos os sentidos, para uma solidariedade amorosa. Expectante, aguardava. Como um degredado. Na leve espessura do galho, intocável. E invisível para alguns, pois nem todos têm a mesma mediunidade.
O velho repórter ainda sabia das coisas. E como as vozes femininas estavam cada vez mais próximas, como se estivesse diante de um soldado, sacramentei que ele estava ali para saborear aquelas presenças. 
Trajava-se de moderno, antenado e, ainda por cima, de laptop. Grande novidade para quem se habituara a escrever numa Remington, com dois dedos sobre as teclas, catando milho, durante várias décadas, e agora o fazia no laptop com uma desenvoltura fora do comum para quem era dos tempos de antanho como ele gostava de se autodenominar descontraidamente para os basbaques dos seus focas.
Bem equilibrado no tronco da árvore, acocorado, como já o disse, ele já começava a escrever as primeiras linhas de mais um episódio de A vida como ela é ou seria uma crônica para a sua coluna das segundas, depois da rodada do final de semana, cujo título era Meu personagem da semana?
O leitor pode respirar nostálgico, mas não creio que o será pelo futebol de Beatriz que mataremos saudades da pena de Nelson, embora pelo que se ouvia da altercação com a outra moça ela batia um bolão. Era uma Pelé de saia entre quatro paredes.
Pelo brilho do olhar de Nelson, ele estava certo de que o alimento não está, só, em cada um, por isso levaria uma página inesquecível para o outro lado onde passava agora os seus dias, quase sempre distraindo, com as suas histórias, aqueles que os cortejava na roda de bajuladores, quando ele me descobriu na varanda tomando aquela lufada de ar. Parecia me dizer "A gente nunca tem certeza de nada na vida, basta olhar a história dessa moça". Mas eu diria que ele olhou para cima para ver o que estava acontecendo e, em ato contínuo, fez um aceno discreto para mim. Me senti lisonjeado com o gesto. Parecia, enquanto lutava por aquela madrugada, ter-me reconhecido. Parecia dizer-me é assim que nascem as minhas crônicas, não perco nada dessa vida que me dê uma boa história, mesmo estando no lugar onde estou, e riu a bandeiras despregadas, como se fazia no seu tempo.

(José Carlos SantAnna)




13 comentários:

  1. Bom dia.
    Parabéns pelo excelente texto. Adorei :))

    Bjos
    Votos de uma óptima Sexta - Feira.

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  2. Meu Amigo José Carlos, o prazer de ler os seus textos não é proporcional à minha capacidade de os comentar, mas deixe-me dizer-lhe que o considero um oficiante da palavra, com elaboração segura, criativa e inspiradora…
    Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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  3. OI JOSÉ CARLOS!
    MUITO BOM TEU TEXTO.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  4. Belo texto, o homem merece tudo. Falas do grande Nelson Rodrigues!! Era excepcional! Fez um furor com suas crônicas polêmicas, mesclando tragédia e humor, causou grande revolução nos vários jornais que vendiam como água. Olhe o que o homem fazia! Foi uma época que a literatura ainda tinha lá suas censuras de outras formas, mas depois que trouxe aqueles escândalos, e todos justamente como eram. Nua e cruamente. E a vida é assim, nada quase rosa, muito dos 50 tons cinzentos, o qual ele desnudava como ninguém. Sempre disse que Nelsom Rodrigues abriu as comportas nos jornais com suas crônicas comentadíssimas, e também em suas peças teatrais.
    Você escreveu com seu estilo conhecido, homenageou, e deslumbrado como todos nós! Eu sou uma deslumbrada pelos seus textos picantes, nus de Nelson Rodrigues. Tenho o livro "A vida como ela é com as suas 100 crônicas - pela Agir. Nossa... Tem uma hora que a gente diz...'cruzes'!
    Parabéns, querido amigo, uma feliz semana com novas inspirações.
    beijo. Esse comentário deve ter ficado grande demais, desculpe!! rss

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    1. Taís,

      Poderia responder reescrevendo os versos de Lupicínio Rodrigues. "Pode entrar que a casa é nossa". Ainda mais para falar do Nelson Rodrigues. E para falar do Nelson é preciso que haja espaço, que a casa seja grande. Depois sua contribuição é sempre valiosa.
      Fique com o meu carinho,

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    2. rss,eu sabia, peguei Nelson Rodrigues nas 'entrelinhas'... e agora você fala do gaúcho Lupcínio Rodrigues que adoro. O bar em que ele cantava fica aqui perto e sua cadeira está num outro restaurante, no alto da parede, como se estivesse cantando 'Esses Moços', Vingança, Nervos de Aço!
      Meu pecado é que você fala uma palavra e é aquela que resolvo comentar. Viu como já peguei o Lupi? Mas não esqueço da criação do belo texto, fique certo!
      Beijo, amigo, novas inspirações, estou à espera.

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  5. Uma admirável narrativa... que nos faz mergulhar, no âmago dos personagens... e no cenário, na qual ela se desenrola... como se sempre lá tivéssemos estado... começamos a ler... e... estamos lá... seguindo tudo!... E a par de tudo!...
    Sempre fascinante, a sua escrita, José Carlos!
    Beijinho! Bom final de domingo, e uma óptima semana!
    Ana

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  6. Esqueci de dizer... Fantástica escolha musical, com uma voz, que muito aprecio!
    Beijinho
    Ana

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  7. Numa praça descobrimos sempre um encanto particular. E nesta, meu amigo José Carlos, vale a pena entrar e respirar todo os momentos, "como quem luta pela madrugada". O cenários é vibrante. E a melodia também.
    Deixo-te um abraço de admiração.

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  8. As histórias que a alma arquiteta, e lhe nascem nos dedos são oásis para os nossos olhos. Parabéns poeta. Um abraço Carlos.

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  9. É preciso saber bem observar para poder contar como foi.
    E nós lendo, é como se estivesses no local.

    Abraços, amigo José Carlos.

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  10. Meu caro amigo José Carlos, falar de Nelson Rodrigues para mim é tocar num dos nomes mais importantes escritores do nosso jornalismo da crônica esportiva, dos contos curtos e da dramaturgia diretos com toda a dura realidade como ocorreu no livro de contos 'A vida como ela é'. Nelson Rodrigues sempre foi uma leitura obrigatória e presente para mim. Às vezes esquecemos desse ou daquele escritor brasileiro, eu já me dei conta que esqueci muitos deles, embora importantes, que por um ou outro motivo acabei por fazer uma releitura de suas obras. Com Nelson Rodrigues isso não aconteceu, reler o que ele escreveu, como releio, é como se fizesse uma primeira leitura, Parabéns por excelente texto, José Carlos.
    Um bom fim de semana
    Grande abraço
    Pedro

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