terça-feira, 17 de julho de 2018

O último verão




No rio do abraço,
sem querer, nem pensar,
espetei noites tristes
depois de singrar a maré umbilical
de antigos itinerários.

De fecundar serenos ao ouvir
a música da alquimia das mãos,
lavrando
o chão árido na rigidez da espera.

E bem longe da pradaria
ou de outros tempos das páginas em branco
o rumo do poema sempre foi outro.

Como o aroma do café da manhã.
E do pão. 
Repetido diariamente.
E tantas outras pequenas coisas...

Agora cada um segue o seu rumo.

E mastigo
do resto do que não se desfez
a sonoridade de algumas palavras,
e as peles submersas,
e as antigas melodias,
e as lembranças dos concílios amorosos
de nossas mãos.

E até mesmo a extrema-unção
do gozo roubado da felicidade.

E ainda a roupa leve e branca
do último suspiro dos corpos fustigados
entre as paredes descascadas
se cala em nosso leito

Nada mais sobrou das onomatopeias
das águas represadas do último verão. 

(José Carlos Sant Anna)


9 comentários:

  1. Bom dia. Poema muito bonito. Realmente o Verão este ano ou já foi embora, ou, ainda há-de vir:)) Adorei.

    Hoje:-Das cartas que eu nunca te enviei.

    Bjos
    Votos de uma óptima Quarta-Feira.

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  2. O rumo das palavras em pretéritos itinerários. Um poema, muito belo, que me recorda as coisas simples e complexas do que amamos. Apesar de tudo. Apesar de nada. Pressente-se um último verão excessivo como as paixões, onde se equivalem os dias e as noites…
    Um beijo, meu Amigo.

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  3. Não gosto de separações, mesmo que se trate de um romance de verão,
    porém, a excelência e beleza do poema diluem a sensação de comiseração.
    Gostei muito, Carlos.
    Abraço
    ~~~

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  4. Parabéns também pela opção musical.

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  5. Muito bonito, embora eu sinta a tristeza do poema. Mas na tristeza há beleza, pelo menos em poema!

    Como o aroma do café da manhã.
    E do pão.
    Repetido diariamente.
    E tantas outras pequenas coisas...

    Agora cada um segue o seu rumo.


    E fico a pensar como tudo passa e termina, ou de uma maneira ou de outra. O que sempre foi belo, talvez um dia não seja mais. E um ponto final, apenas. Isso é a vida? Dizem que é.

    Um bom domingo, meu amigo.
    Beijo.

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  6. E nos nossos olhos ficaram caminhos de esquecimento. Parece que tudo morreu, até as águas do último verão. Não canso de ler este poema, que me tocou a alma. Tão belo poeta. Um abraco Carlos.

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  7. Olá José


    Muito lindo teu poema.

    Beijos
    Ani

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  8. memórias que discorrem na escrita limpida do autor
    e tudo ficou
    senão nada haveria para recordar...

    muito belo!

    beijinhos

    :)

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  9. Um poema maravilhoso, que nos vem recordar... que as nossas memórias mais profundas... se prendem, com a deliciosa preciosidade, que é poder ter apreciado e vivido, a simplicidade e autenticidade, de momentos muito especiais...
    Adorei cada palavra, José Carlos! Belíssima inspiração!
    Beijinhos
    Ana

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