sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Por um instante





                                          Para Taís Luso,


a gralha, 
empapada e quente,
entre espasmos de luz,
escorre por entre os dedos
sem se saber 
o fim do seu caminho

a gralha,
por onde quer que ande,
junco que se eriça
chaga que se abre no texto
olho no olho
a deixar o escritor cioso
aturdido. 

(José Carlos Sant Anna)




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O novo número da revista Seara Nova já está circulando


A edição Nº 1743, Verão 2018, traz um artigo meu sobre o Gabinete Português de Leitura de Salvador - BA - Brasil. 


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Quase triste




Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: "O que é que houve, Madalena?" "O que é  meu não se divide". É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Lavourando no jantar




O jantar reunia a pequena família. O cheiro do pescado vindo da cozinha já se espalhava pela sala de jantar deixando o avô ansioso que, sem se dar conta, tilintava ruidosamente os talheres no prato quando, de repente, todos levantaram a cabeça se voltando para o neto de quatro anos que, cheio de graça, tirou este coelho da cartola:
 – Mãe, quando vai ser o concerto da Neojibá com Vovô do Prato? 

(José Carlos Sant Anna)