terça-feira, 25 de setembro de 2018

Apollinaire





Vasta voragem.
E a questão estava posta. 
Sem voo alpino. Sem querelas. 
Sem repuxo. Sem batismo.
E o animal passou a se chamar Apollinaire.
Simplesmente.
Todos pareciam satisfeitos. 
Até que alguém sugeriu Outono.
De amor e sonhos se faz um nome, disse,
atravessado por uma luz diamantina.
E tudo ia acontecendo rapidamente 
com arranjos selvagens
no quintal do remanso da casa velha.
Se disse sim às orações, terços,
água benta e mãos aos céus,
pois logo se descobriu que o animal
revelava uma generosidade admirável.
Era possível dele se dizer
que tinha a boca de acertar a vida
toda pela frente, a cada minuto.
Boca de um animal raro. De pedra e sopro. 
Sem esquizofrenia.
Apanhei-o na primeira esquina, 
antes da casa velha.
E no fundo das coisas, nos caligramas da vida
o animal se deita como uma concha abissal. 
Tem nas falanges dos dedos cores berrantes
e permanece longe o quanto lhe parece seguro.
E quando alguém o cumprimenta,
responde com toda a energia do corpo
porque sempre acreditou em tudo.
Este animal se parece com o meu irmão.
Ele é também um animal raro
na escassez de se imaginar. 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Sob a chuva









       Talvez chovesse aquela noite. Ele percebe a mudança do tempo quando o céu de brigadeiro começa a acinzentar-se no topo da montanha e nuvens escuras em si mesmas, rápidas, se fecham e declinam no horizonte. Uma folha levada pelo vento anuncia a iminência da chuva. Já eram, portanto, claros os sinais vindos do alto. E não havia mais nada a fazer. Era esperar que o céu plúmbeo se dissolvesse. Abrindo os olhos, logo pensou na intimidade da chuva. E na figura do desejo e na nudez perseguida, que, ao perceber tais sinais, inundava a moça, que gostava do cheiro de terra molhada. Era algo que, outra vez, começaria daqui a pouco... A paixão pela chuva que a moça de cabelos curtos curtia e que ele, vivo, nunca desdenhou, por isso anda com ela à tiracolo. Como eu dizia, abrindo o corpo aos pedaços, ela parecia ouvir um canto amado quando as nuvens se formavam no céu e, logo depois, a chuva desabava, pois a moça, indômita, largava tudo, enfeitiçada pela água fresca jorrando abundante sobre seu corpo. Era uma festa. O seu olhar brilhava, como nunca antes brilhou, com a água lavando seu corpo. Era sempre assim. Mal o céu escurecia, no cio, o bicho pegava. Era pura química. Ela não esperava, corria para pôr um vestido transparente. Era o seu fetiche. O melhor dela era o corpo quase desnudo, como se tivesse firmado um pacto com as nuvens quando se liquefaziam e desciam céu abaixo. Retraía-se. Esperava. Era só o começo. Não importava a hora, respira, respira, respira fundo, cabeça no sonho, estava pronta para mais um deleite imprevisto da carne. A moça que, nas noites vazias de sono, sempre o acompanhava nas incursões noturnas pela cidade, com modos discretos e pulsação serena, não parecia a mesma que acolhia a chuva no seu corpo com orgasmos seguidos. Lia-se no seu corpo esses gozos. E ele sempre clamava aos céus que, por favor, não chovesse quando eles estivessem juntos em programas noturnos, porque ele nunca sabia do que ela seria capaz, se desabasse um aguaceiro homérico como já acontecido tantas vezes, com a cena repetida, como se fosse uma farsa. E enquanto ela, eufórica, rodopiava no meio da rua, ele, no incessante retorno, que era a sua vida, pensava, enquanto a chuva caía, como ele deixara de ser escriturário na empresa exportadora de sisal e na alergia, que deixara Seo Paulino, o melhor chefe que conhecera até então — quase o velho o adotara, quando ele teve infantilmente o dinheiro da empresa roubado na saída do banco em movimentada rua do centro da cidade, e ela, música lenta, indecifrável, rodopiando sob o signo da chuva , preocupado, ao vê-lo espirrar sem parar uma manhã inteira. Ininterruptamente. Não sabe como ainda respira, depois que o seu nariz se transformou num lança-espirros na manhã do distante sábado, sombra doída da memória. Também nunca mais voltou ao depósito da empresa onde ficam armazenados os fardos de sisal para acompanhar o embarque para o porto, na Cidade Baixa. Foi experiência única. E não demorou para se transferir para outro escritório, pois, àquela altura, já tinha adquirido “o medo de Suzana”, sabendo que ela nunca deixaria de rodopiar enquanto desabasse um aguaceiro. E como pensar era a nova doença que ardia nos seus calcanhares, cedo ele descobriu que já não queria aquele recreio, porque não queria ser tragado pela manhã insubsistente em que tinha o estômago vazio e a febre não baixava. A pneumonia já o pegara de jeito e não queria dar um vexame no meio da rua, por isso sugeriu apanhar um táxi. Depois disse, não, vamos a pé mesmo ou você não quer mais caminhar por essa calçada estreita? Primeiro, sem saber de qual lado soprava o vento, ela fez um sinal que não com o biquinho, indicando que não queria ressuscitar as perdas e os ganhos desse caminho, que flutua no ar. Depois permaneceram parados por alguns instantes, olhando um para o outro, enquanto os carros deslizavam céleres pelo corredor exclusivo de ônibus. Não se tratava de fuga como parecia à primeira vista, imaginou então que a transgressão era necessária para que os motoristas, abolidos os relógios e as biografias, não morressem com a energia à flor da pele depois do engarrafamento que abalou o suor da harmonia do casal na iminência dura de seguir a calçada estreita ou apanhar um táxi. Mas não era a hora de pensar em família quando sentiu o primeiro arrepio do capricho da moça, família era bom sem hora marcada... Também já não queria sentar no colo da mãe, tampouco o incomodava ter carregado nos ombros "o medo de Suzana" porque este medo o faria pensar um pouco mais. E ainda tinha muito que fazê-lo entre os ruídos do vento e da chuva...

(José Carlos Sant Anna)