terça-feira, 18 de dezembro de 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Se queimando



O dia amanheceu ensolarado como há muito não se via na velha cidade, caótica, de clima instável, como um dia disse D. Léa, de forma bem natural na porta da loja de charutos finos, importados da Bahia, que ela fazia questão de realçar como uma verdadeira conhecedora dos produtos.
Fumava seu charuto com a marra de quem, na sua idade, merecia aquele filão de prazer. Sem perder a fidalguia, a elegância. E sempre gabando-se de fazê-lo bem. A modéstia não era o seu prato favorito. E, para não fugir à regra, enquanto puxava a fumaça sem pressa, aproveitava para desandar sem trégua os políticos, indistintamente. Aquela senhora não tinha papas na língua, conhecia a cidade e os políticos como poucos conseguiriam fazê-lo, por isso ela falava com rara desenvoltura de ambos, pouco se importando com os interlocutores à sua volta.
Por outro lado, se via pelo brilho do sol àquela hora da manhã que seria um dia propício para alcançar a rua e rolar de bicicleta até as pernas não se aguentarem sobre as duas rodas. E como as duas coisas em qualquer lugar do mundo combinam, ainda que tudo se passe numa calçada estreita, sempre coberta pela sombra de espigões ou mesmo pelo corpo de um morador de rua, como este que se sobrepõe à minha frente e, ainda de quebra, é guardião de duas cadelas, Duquesa e Princesa. Coisas de cidade grande!
São animais que não se afastam do seu protetor um só instante e, ao mesmo tempo, demarcam, orelhas roxas, fitinha rosa enrolada no pescoço, despojadas em um lençol encardido, o território deles na buliçosa avenida da cidade grande. E, assim, na quietude da soberania que exercitam na via movimentada da cidade, os três pulsam na calçada, quente e ainda nua, àquela hora.
— Sou seu agora, diz Mathilde com um riso maroto ao olhar a cabeça do dragão na entrada da casa, pendurado na parede e exibindo certa perplexidade com a sacristia improvisada.
O dragão parecia ter levantado a sobrancelha para entender o que estava se passando na sala de estar da casa, do que se aproveitou Mathilde para dizer-lhe com um ar sedutor:
— Vamos sair, meu dragão!
— Sair pra onde? — Ele perguntou.
Aquele dia radioso era um bom pretexto para Mathilde exercer o seu direito de ir e vir, de fazer ou deixar de fazer o que quisesse no domingo que, vestido de azul claro e sem pedir licença, já se banqueteava na cozinha.
—  Bolas — ela disse para o dragão — estou cansada de ficar nesta casa, de esperar não sei o quê... Você não vai fazer nada por mim? Desça daí porra! Vamos sair!
Mentia. Era só uma retórica despudorada. Pensou em um drinque, mas era muito cedo para bebericar alguma coisa. Depois, o que ela queria mesmo era sair do isolamento em que vivia por livre e espontânea vontade, o marido há muito lhe dera a desejada carta de alforria. Bem que poderia escolher uma rua inteira nas adjacências da sua casa para caminhar na certeza de que não seria importunada por ninguém. Ou, quem sabe?...
Ou, quem sabe, repetiu para os seus botões, apanhar um ônibus e fugir da solidão. Andar pelas ruas da cidade na companhia do motorista e de uns poucos passageiros, solitários como ela, deixando que a mobilidade a levasse para longe dos seus caprichos e anseios.
O ônibus, o motorista, os passageiros poderiam ser a gambiarra que lhe estava faltando no fundo do poço. Isto já seria um grande consolo para o seu martírio, amém!
Mathilde sempre acordava cedo. Portanto, as ruas, abandonadas, desertas àquela hora, com os motoristas, imaginava, mais cuidadosos, eram um convite à aventura, à deambulação terápica, enquanto Joaquim, seu marido, dormia arrotando por baixo e por cima, ainda com a cara cheia da bebedeira do dia anterior. Não se levantaria tão cedo, sabia disso. Ela mandaria às favas a missa como sempre tivera vontade de fazê-lo. Mas tudo isto era apenas uma fuga silenciosa porque sua intuição dizia que o casal, que animara sua vida nas últimas semanas, não perderia o domingo ensolarado. Havia duas semanas que os dois não davam o ar de sua graça no paraíso ao lado.
Nos últimos tempos, Mathilde passara os dias a rastejar-se pelo chão da casa como um tatu a procurar o buraco perdido até que um dia ouviu um zumzumzum no apartamento vizinho e gozou literalmente e, depois, como há muito tempo não o fazia, com a sensação de liberdade, ao se deixar levar pela azáfama do casal entre as quatro paredes vizinhas.
Uma vez por semana o casal enfiava a chave na porta do apartamento contíguo. E sempre que isto acontecia, era o anúncio de que a libido correria à solta no quarto vizinho e quem quisesse veria as marcas pelos corpos, antes que o casal voltasse ao cotidiano de suas vidas.
Quando acontecia no domingo pela manhã, a missa ficava adiada. E fazia quase duas semanas que o casal tinha estado no paraíso. Imaginava que seria a hora do casal voltar. Assim, abandonando a retórica, arrastou-se pela casa sem vontade de sair a esperar pelo rebuliço nas paredes vizinhas. Logo se viu a estender os braços e os olhos para as extravagâncias que começavam a rolar atrás da porta vizinha com a promessa de que levariam o dia inteiro.
Afluentes de um mesmo rio chegavam sob a luz do sol numa contrarrevolução dos costumes. Estava na cara, nas mãos, no corpo inteiro que eles já vinham se esfregando dentro do ônibus, imaginava Mathilde, bisbilhotando pelo buraco que ela abrira na sua parede para não perder nada dentro do quarto vizinho. Fechava-o depois de cada visita do casal com uma cortiça preparada para não deixar vestígios dos dois lados.
Sua pasmaceira tinha acabado. Ela estava posta à prova a cada gemido, sem poder pegar carona no trem doce da alegria, que abria o céu ao meio. Mais tarde veria se encontraria um farol para orientá-la na obscuridade da sua vida, que ficara dispersa feito a brisa, mas ela não queria ser feliz de outro jeito agora. Aquele era o buraco da sua alegria, da sua felicidade, por enquanto.
Depressa, Mathilde passou pela cozinha apagou todas as bocas do fogão e, antes de voltar ao quarto, abriu a torneira da pia sobre a louça amontoada na cuba para evitar as moscas. Ali era um dos palcos do seu infortúnio, mas ainda não perdera o tesão, embora a incomodasse ver o Joaquim deitado em sua cama vendo a vida passar. A missa não passava de um pretexto para afastar-se. O que ela não queria mesmo era ver a vida diluir-se, abrindo as caixas em que guardara o passado a repetir os versos da canção "É doce morrer no mar". 
Chegou ao quarto a tempo de vê-los ainda nas preliminares. Ela já tinha tirado a roupa toda. Sem tirar os olhos dela, ele tirou os sapatos, as meias, a camisa, as calças. Depois se meteu na cama ao lado dela...
— Escuta — ela disse — vai transar de cueca?
— Claro que não! 
Ele puxou a cueca e beijou-a. Ao sentir a boca da mulher na sua, correu a mão pela perna dela acima e depois começou a desenhar com a língua letreiros indolores nas partes íntimas da sua companheira, enquanto Mathilde se queimava, sem querer gritar, do outro lado da parede, enfiando a mão por dentro da calcinha...
O marido acordou ainda bêbado e deu de cara com a mulher nua, olhar perdido em estrelas que brilhavam tão somente em suas pupilas, toda lambuzada de geleia de morango no chão do quarto e, antes que, estranhando a cena, ele perguntasse alguma coisa, ela se levantou de um salto, sorriu e se afastou em direção ao banheiro. 
(José Carlos Sant Anna)