sábado, 26 de janeiro de 2019

A gosto


Não sei ficar sem tomar um café depois do almoço. Venha. Pegue ali, no armário, as xícaras. E sente-se aqui, ao meu lado, disse-lhe, contemplando-a com curiosidade. Vou contar-lhe uma história. Ela deu de ombros. Era como se me dissesse permissão concedida. Ou seria outra coisa?
       Enquanto bebiam o café, ele começou. Ouça. Poucos minutos se passaram naquela manhã que prometia ser muito afrodisíaca. Mas, antes, deixe-me dizer-lhe que foi preciso dar uma banho de inseticida na antessala da biblioteca para debelar uma nuvem de insetos. Eles não davam sossego sobrevoando a cabeça do casal. Não sabia de onde tinha saído tanto mosquito. E no crivo do primeiro instante, os dois riram muito enquanto mastigavam uma maçã, descascada e repartida em partes iguais. Afinal, tudo não passa de uma mera coincidência, é o que ela lhe diz no diálogo imaginado e possível ao ouvir dizer-lhe que o seu corpo parecia um estopim... As chamas já se propagavam na fala clara do desejo pelas suas veias, é o que imaginou.
       — Soletra meu nome, vai — pede-lhe.
       — Car-los. — Com uma uma sensualidade à flor da pele, ela soletra o nome dele.
       E os dois riram muito com o inusitado daquele pedido extemporâneo.
       — Você acha que é falta de imaginação o que estou lhe pedindo? — pergunta-lhe desconcertado.
       — Não, não acho.
       — Não precisa ficar nervosa — brincou Carlos pedindo-lhe desculpas, ao mesmo tempo em que se refazia do seu nervosismo.
       Parecia estar chegando a sua hora, pensou Carlos, enquanto na mídia repercutia a fala do presidente do país em Davos, na Suíça:
       — Tenham certeza de que até o final do meu mandato, nossa equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios — dizia enfaticamente o Presidente da República do Brasil, frente às câmeras televisivas. 
       Riram outra vez como se fosse uma piada o que tinham acabado de ouvir. E não o seria com as trapalhadas do início de governo e o mico de algumas escolhas para o seu ministério?
       — Como será explicada a origem do dinheiro da movimentação milionária na conta do Queiroz, o sortudo motorista do futuro senador da República, antes deputado estadual pelo Rio de Janeiro — sopra no ouvido dele, enquanto Carlos, já excitado, diz:
       — Você está muito bonita!
      — Gostou mesmo do meu look, deste corte de cabelo, — pergunta-lhe escandindo outra vez as duas sílabas do seu nome — Car-los?
     E ficou observando-o, enquanto ele simulava uma certa preocupação.
       — Estou pensando... — disse.
       — Em quê?
       Dissimulou.
       Em seguida, disse:
       — Estou pensando em levá-la para outro lugar, que você vai gostar.
       — Como é que você sabe que eu vou gostar?
       — Estou adivinhando... — Fingindo o domínio da situação, jogou as cartas na mesa — sei porque sei — brincou.
       E riram novamente com a carne em brasa.
       Tomada de surpresa e escalando a fome na garganta, cedeu ao apelo de Carlos. Quando deu por si, estavam de mãos dadas atravessando a rua para pegarem o carro que ficara do outro lado, em frente ao café "A gosto". 

(José Carlos Sant Anna)




quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Lado B

Foto arquivo pessoal

No interior das quatro paredes, que chamo de biblioteca, eu conheço todos os meandros das suas prateleiras, estou familiarizado com cada um dos livros depositados em suas superfícies. Nem por isso deixo de me surpreender ao tirar um ou outro livro para uma sobremesa do espírito. É o que ocorreu agora com Lado B, de Sérgio Augusto. Comprado em 2002, quando saiu a segunda edição, portanto, lido, anotado e guardado. Agora relido no verão de 2019, meu primeiro impulso foi recomendá-lo à filha. Ela não deu muita importância ao que lhe disse. Com um ar blasé, folheou o livro e deixou-o sobre a minha mesa. Digo-lhe, então, caro leitor, do que se trata, caso você se interesse. São crônicas, publicadas nas revistas Bravo!, no dizer do próprio Sérgio Augusto, "séria, chique à beça, mensal e paulista"; Bundas!, "anárquica, escrachada, semanal e carioca". "Ambas foram criadas como alternativas à pasmaceira e ao culto à frivolidade da imprensa brasileira". Ambas são de saudosa memória, digo-lhe eu. Como se vê, não preciso nada mais dizer-lhes, salvo que são textos datados, porém, apesar da distância no tempo, vale apenas remoer suas páginas para que descubramos que, quase vinte depois, pouca coisa, no plano cultural e na imprensa brasileira, mudou neste país. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Emergência





                             Para Gisele Vieira, sobrinha e afilhada

Em estado de emergência, escrevo
sem os biscoitos de polvilho
para dizer-lhe em sal de nuvem
uns tantos versos
depois do desabamento súbito,
em que as plumas
choravam lágrimas invisíveis.

Em estado de emergência, desperto 
num canteiro que flutua, rodeado de iguais,
superando a morte
nas ruas do abandono,
nos estilhaços de quem tudo amou,
na impregnação da sua pele.

E agora longe da linha de tiro
a fiação do meu corpo
dormirá de olhos abertos
nos próximos verões, tão certa quanto o mar,
sem precisar lamber as pedras limosas,
que provoca combustão em meu rosto.

E ainda que em favos de mel 
a morte  nunca foi doce
e sempre deixou o timoneiro
com medo ao ouvir as meditações
de uma mulher apaixonada
no convívio das flores
onde cabe o mundo rolando de bicicleta. 

                                          (José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Se pudéssemos ficar




Querida L.

você sabe o que acontece com as gotas do arco-íris quando ele se desfaz? Não? Então, pergunte aos beirais. Eles podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão à tua frente; sim, ainda vou à igreja da Penha, mas esquece o que se esvai, além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos; guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os seus olhos não vão saber recobrá-la. Saiba, sequioso, as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. Também não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E sem alarde, não se oponha. É só uma lufada o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro. Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os mortos. E, por favor, não desplugue a tomada, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha. Será depois do caldo verde antes mesmo que a luz da lua transpasse seus versos. Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema. São versos que enlevam, alucinam; nos tornam sua escrava, tamanho o seu domínio da língua. Quase lhe digo a propósito, por favor, eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também. No meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, na toilette do avião, sob o calor dos seus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez o meu ofício, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando o meu dedo arrancado aponta estrelas no céu. 


Salvador, 1 de Janeiro de 2019.
(José Carlos Sant Anna)