quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Se pudéssemos ficar




Querida L.

você sabe o que acontece com as gotas do arco-íris quando ele se desfaz? Não? Então, pergunte aos beirais. Eles podem ajudá-la. Mas, por favor, nas curvas deste exílio, não apague a nitidez dos meus dias nas vísceras do tempo, nem tampouco nos olhos do corvo que rasga a escuridão a tua frente; sim, ainda vou à igreja da Penha, mas esquece o que se esvai, além das palavras às quais renunciamos, o que ficou trancado por lá, e a fome em que nos afundamos; guardemos os alentos das primeiras horas deste novo ano, é o que lhe peço, se ainda podes sentir-me, ainda que de passagem, pois, por mais que tente, os seus olhos não vão saber recobrá-la. Saiba, sequioso, as vinhas matam a minha sede. Ainda sou um bom timoneiro arrastando o peso do mundo; não, não encalho no raso, e os patos me consolam quando os observo de algum telhado aberto nas asas do tempo. Também não me pergunte sobre a doçura porque me faz chorar a céu aberto. E não minta, por favor, ao sorrir para mim porque, instintiva, a presunção da minha inocência reagirá a esse filme de roupas usadas e samba de breque. Depois de tudo, por favor, não me faça descrever a lágrima bruta. E sem alarde, não se oponha. É só uma lufada o que lhe digo. Sou o dono circunstancial do meu silêncio, ainda que guardado em caixa de vidro. Esqueça tudo do ano que passou, o retrovisor do uber, o vaivém das cortinas, a música de Wagner, a estação da chuva, o quintal cheio de tanajuras, os bancos das praças em que repassávamos os dias, os farelos da baguete sobre a mesa, o horizonte turvo, as espumas de um velho jazz, tanta coisa, que não vale a pena revirar os mortos. E, por favor, não desplugue a tomada, pois ainda haverá tempo para ler a portuguesinha. Será depois do caldo verde antes mesmo que a luz da lua transpasse seus versos. Por favor, eu sei. É sobre a vida, eu já sei. São dentes à mostra a poesia da moça. As palavras não têm descanso em cada poema. São versos que enlevam, alucinam; nos tornam sua escrava, tamanho o seu domínio da língua. Quase lhe digo a propósito, por favor, eu não quero sair da sombra que sempre me agasalhou, logo não me peça que publique os meus alfarrábios também. No meu ameno sossego, furtivo, prefiro a contração dos seus grandes lábios a dez mil pés de altura, na toilette do avião, sob o calor dos seus suspiros, a qualquer holofote no entrechoque das nuvens. Por favor, não me pergunte outra vez o meu ofício, pois, só por desfaçatez, vou confessar que sou escravo do desejo que sempre vem à tona nas noites insones, quando o meu dedo arrancado aponta estrelas no céu. 


Salvador, 1 de Janeiro de 2019.
(José Carlos Sant Anna)



5 comentários:

  1. Meu querido amigo José Carlos, sensibiliza-me a sua escrita tão bela, tão cuidada, a reinventar o sentido das palavras, potenciando-lhes a expressividade. A singularidade da sua prosa poética encanta-me, torna vulnerável a minha intimidade com as suas palavras. Parabéns!
    Um beijo.

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  2. 1º de janeiro, pisando no Novo Ano com o pé direito, amigo!?
    Muito bom! Reitero, porque ainda estou dentro do prazo de validade, meus votos de um lindo ano, com muita criação literária, com saúde, alegria e paz!
    Beijo, amigo! Aqui, lendo você em 2019.

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  3. Começo por cumprimentá-lo pelo bom gosto musical.
    Já publiquei este vídeo num dos nossos verões... estamos vivendo mais o «Baby, it's cold outside»... É sempre um prazer ouvi-la...
    Já não me lembro o motivo por que aterrei neste espaço e interagir comentando as suas publicações, julgava-o um jovem, entre os vinte e trinta...
    Realmente, a passagem do ano cria uma fantasia mental em que, mesmo que não se deseje, passeamos no passado como se assistíssemos a um filme.
    Quem será a portuguesinha?! Poetisa será.
    Foi um prazer ler o seu texto, Carlos.
    Desejo-lhe um ano 2019 com a paz e tranquilidade que menciona e tudo o que deseja.
    Conhecia as Igrejas da Penha de Guimarães e a do Rio... fui conhecer a de Salvador e fiquei muito admirada por estar ao nível de uma bela praia!
    Um ano com saúde, felicidades para si e família... muito sucesso - sereno - a seu gosto.
    Abraço afetuoso.
    ~~~

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  4. Caro José Carlos,

    ora aqui está uma carta para ler e que merece ser lida !
    o que não é o caso do nosso comum amigo "Manuel Maria", que nada enxerga "nas cores do arco íris" e escreve "Carta Que Nunca Escreverei".

    grato pela tua paciência em lê-lo, desde início!

    que dizer de teu talento literário? que também eu (e sou insuspeito)
    quero muito ler "teus alfarrábios" ...

    forte abraço

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  5. Que texto intenso!
    Deixaste-me sem fôlego, José!

    Contudo, discordo.
    Mereces ser publicado.

    Beijinhos

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