segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Ao pé do ouvido



Como um pássaro voando, voando, que chega subitamente, o tempo não dá mostras de limpar. Ou mesmo como um girassol que floresce no escuro. Nunca pareceu bom, sempre pareceu mau! Só apreensão pelo tanto que poderia ser mau. É o que sempre suscitou. Na mesa ao lado, o dominó, pedras negras e brancas, rudes e delicadas. Quatro homens, serenos em seus cabelos, jogavam-no em silêncio absoluto. Outro lia o jornal com olhos vulcânicos. Nada ali era estranho. Nem mesmo o trio que acabara de chegar. Um moço, outro no meio da vida e uma negra soprando uma flauta, como alguém que come pão, perdida nos vãos escuros do país. Humildes, todos, na roda do mundo, na roda do tempo da espera. Têm medo? Parece que sim. Ainda não me descobri nascido para o medo mas para o encontro. E o país opaco, não se indaga mas se sabe malogrado, também espera a tempestade ou coisa que o valha. 

(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Águas fundas


Ah! se eu pudesse vê-la no veleiro embarcado no primeiro vento gélido, relíquia de Fevereiro, sem fechar os olhos para o alerta a desmoronar meu silêncio na eternidade do instante para que o amor ferido não se acabe, embora nunca a pensasse perdida, porque sempre a esperara, numa florida nudez de sortilégios. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Passadiço


                                    à comunidade de Brumadinho

A meio-pau.
Oscilante a bandeira,
o fundo não se oculta no ar que se dissipa
depois que nossos ossos foram drenados
e o relógio começou a dar suas batidas
ecoando no espaço vazio
as lembranças de uma época que não voltaria mais.
Restamos na mais funda medula da terra
e nos indícios tênues das ramagens em dispersão
e no silêncio que nos persegue a céu aberto
com os corpos a se desintegrarem.
Só posso dizer isso agora depois do rastro na terra.
Estivemos lá, sentimos na carne a hecatombe,
rabiscada pela sombra entre nós, contudo,
foi ela que nos abandonou
mas ainda voltaremos ao convívio das flores? 

(José Carlos Sant Anna)