domingo, 31 de março de 2019

Chá de Gramsci entortou minha cabeça



:)
Que barato!
Estou prá lá de Marrakesch
Quase "doidão". K. me dopou
com um chá de Gramsci por email.

Viciado, dependente e malas prontas
sonho com uma "fortaleza", que "bem fica"
circundada por praças e coretos,
além do horizonte e dos meus sentidos.

K., sem rosto, corpo fechado
livre  solta  etérea
depois de entortar minha cabeça

"viaja" na minha angústia de poeta
para escrever insólitos poemas
como um pão de cada dia. 


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 18 de março de 2019

Alegoria



No cimo, o intruso, numa atitude subversiva, parece dizer-nos “comprei um chapéu novo”. E repete-o como um bordão, olhando para todos os lados, para ter certeza de que todos ouvem o que ele diz. E não precisaria fazê-lo, pois, ainda que não o usasse, estava no alto das pedras, no píncaro da glória, sobre suas perninhas. Arrogante. “Para que um chapéu se dentro da sua cabeça há tão somente penas e avoamentos”, perguntou-lhe a mãe inquieta. Fez ouvido moucos para tamanha incontinência, quase a dizer-lhe que o seu poleiro, mesmo de pedras, é um jogo de fantasias. E assobiou chamando seus pares, entre os quais, irmãos, primos e sobrinhos, para a primeira aparição com o seu Panamá, do Equador  —  diminuto, trazia-no escondido sob as asas , haja vista, intruso que era, sua exposição no cimo, revelando o conteúdo e a matriz de onde provém o deslocamento do poeta. 
(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas




Longe disso. Pedem-me para esquecer o pau de arara, ainda que, como um dos filhos redimidos da tortura, deite-me em chama agarrado ao visco pelo corpo inteiro. Nada. Nada de pipa entre os túmulos esquecidos. Sempre represo a lágrima ardida. E nunca, nunca, diga a essa gente, confessarei, mas admitamos, do modo como vai o pássaro contido em sua recusa, tudo leva às cinzas. E por mais estranho que pareça uma casca não basta se tudo isso apequena o ninho. É como louvar o seu nome no deserto onde arde em meu sangue uma escola de samba. É preciso dizer-lhe ainda nunca será doce a morte dos seus volumosos cabelos no chão desta cidade inumada de mentiras torpes. E pouco importam os castelos orientais, a bandeira branca ou a engrenagem do rolar macio da bicicleta no seu escambo com o vento, eu quero é descer pela via cega deste solo, pátria amada, mãe gentil, ainda que o seu corpo seja um fardo medido! 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 1 de março de 2019

Estilhaços


Nada te obrigará a ler-me, é o que lhe digo, mas não posso, sem remorso, em qualquer parte do mundo, olhar triste, ver os porcos chafurdando no chiqueiro. Qualquer coisa que diga a um deles será tarde. Não me remediaria o silêncio de ontem. Mas ainda hoje me pergunto quantas vezes vi do meu refúgio o abate de um porco? Quantas e quantas vezes! Ainda ouço os gritos de desespero do animal quando a insônia invade minhas madrugadas e, também, ainda vejo a máscara áspera do carrasco. São gritos ouvidos em toda redondeza. E dentro do meu peito. Na garganta a boca seca de sede. E o sangue ainda quente. Sem cartórios, morríamos entre o furor e o porrete do carrasco em plena manhã de cada novo dia. Sem qualquer resíduo lírico, (ninguém lhes dá mais atenção), não posso inventar outra história para aquela dura realidade, embora eu sempre soubesse que a vida não passava de um cálculo aritmético para o bolso do abatedor a cada porco sacrificado (não vi um só absolvido, salvo do abate), chovesse ou fizesse sol na minha infância.

(José Carlos Sant Anna)